De onde recebeu ele tudo isto? (Mc 6,2)

 

Homilia – 08.VII.018.

 

14º. Domingo do Tempo Comum

 

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?” (Mc 6,2).

 

Idéias principais: Natureza humana de Cristo. Natureza divina do Salvador. Importância dos Milagres.

 

 

  • Natureza humana de Cristo.

 

 

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

De onde Jesus recebeu tudo isto: o modo de falar, o conteúdo de Suas falas, o jeito de cativar as pessoas, a caridade para com todos, especialmente os mais fracos e desprotegidos?

Analisemos primeiramente a parte humana de Jesus. E o humano contou muito na Sua santíssima vida terrena. Foi perfeitamente humano, acessível e aberto. Quis ter pais na terra, José e Maria, que foram pessoas muito piedosas, tementes a Deus e caridosas.

Seu pai adotivo, São José, não abandonou Nossa Senhora, mesmo sem entender tudo o que estava acontecendo com a gravidez dela, por ter sido avisado por Deus que o que estava acontecendo era divino. Só quem é verdadeiramente humano pode entender o divino.

Maria Santíssima, assim que soube da gravidez de Sua prima, Santa Isabel, não pensou em ser homenageada porque também estava grávida, e grávida do Redentor, mas pensou em ir correndo ajudá-la. Para ser movida deste modo, por uma caridade divina, só sendo muito humana.

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

A humanidade de Jesus está bem relatada nos Evangelhos. De fato Ele teve fome, dormiu e sofreu física e moralmente.

Humanidade perfeita ou natureza humana completa todos a temos, uma vez que somos formados por corpo e alma. O que aumenta a dignidade da natureza humana é a santidade. E santidade não faltava em Jesus. Ele é o Santo dos Santos.

A Santidade em nós é presente por graça de Deus e, claro, por correspondência nossa.

A primeira escola de Santidade, no nosso caso, é a família.

Têm uma importante missão outras instituições como a Igreja, a Escola e até o Estado para a humanização dos indivíduos e das coletividades, porém se não se aprendem valores e virtudes, se não se aprende a ser verdadeiramente humano no lar, se não se aprendem as lições de casa, pouco podem fazer as demais instituições.

Felizmente ainda temos muitas famílias que ensinam modos humanos às suas crianças. O mesmo se diga de muitas escolas. Há também iniciativas louváveis de muitos países em favor da humanização dos cidadãos.

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

No entanto, infelizmente, muitas vezes estranhamos e até nos escandalizamos pelo relaxamento dos costumes de muitas famílias que não mais se valem da religião para fundamentar e auxiliar os ensinamentos que querem passar aos filhos. Famílias de avós praticantes, na segunda geração já não são reconhecidas como religiosas.

Ouvi, de uma mãe que batizou seus filhos, que não iria matriculá-los na catequese, pois isso seria uma imposição. Mas não deixou de matricular as crianças na escola, no ballet e no futebol. Não seria mais coerente deixar que crescessem para ver se iriam escolher o ballet e o futebol?

Nas escolas hoje se ensina de tudo, até imoralidades. Mas religião, quando se ensina, é algo etéreo, vagando sobre os ares, exotérico, uma espécie de sopa ou de caldo feito de tudo e que não tem gosto de nada, ou seja, todas as crenças e nenhuma religião.

E daqueles que seguem a religião de Cristo, de quem deveríamos esperam palavras de verdade, de formação, de doutrina, tantas vezes ensinam coisas que mais parecem querer curar doenças graves com água e açúcar.

Jesus teve pais tementes a Deus e piedosos praticantes da religião, que formaram o ambiente ideal para o Seu desenvolvimento como Homem neste mundo.

“De onde recebeu ele tudo isto?”

Todas as vezes que nos encontramos com uma criança ou um adolescente educado e até um adulto cortês, imediatamente elogiamos seus pais pela ótima educação que deram àquele filho. Assim aconteceu com Jesus, porque é, de verdade, Filho de Deus.

 

  1. Natureza divina do Salvador.

 

Alguém até poderia objetar dizendo que Jesus não era somente humano, mas também divino e, conseqüentemente, não era bem humano, pois não conhecia em primeira pessoa o pecado. A união entre a Natureza Humana e a Natureza Divina na Pessoa de Jesus Cristo supõe e requer que se trate de uma Verdadeira Natureza Humana e de uma Verdadeira Natureza Divina. Não foram duas naturezas incompletas que formaram uma Pessoa completa. E será que o pecado tornaria mais humano Jesus, Nosso Senhor? E será que é o pecado que nos torna mais humanos ou mais completos?

Hoje em dia, estamos assistindo a uma desumanização do mundo. Vemos e ouvimos das portas e janelas de nossas casas meninas ainda novas pronunciando os mais desconcertantes palavrões, adolescentes fumando e consumindo drogas que nossos pais nem sabiam que existiam, redes de televisão fazendo apologia das maiores barbaridades morais e achamos normal que os casais atuais não queiram casar na Igreja, que não queiram ensinar os filhos a rezar, que a Paróquia seja só um lugar para marcar Missa de Sétimo Dia, que religião seja um assunto a ser pensado apenas diante de um altarzinho dentro de casa.

Diante dum ateu, de pessoas que zombam da religião, de homens que não primam pela honestidade, de mulheres que não vivem a virtude da responsabilidade, de pessoas que praticam e incentivam o aborto, o divórcio, nós bem que poderíamos nos perguntar – sem julgar a pessoa, pois é só Deus quem tem este direito – “de onde recebeu ele (ou ela) tudo isto”?

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

Estamos acostumados a ver Jesus sempre do ponto de vista divino: Deus que resolveu Se fazer Homem. E assim o foi! Não é errado pensar assim. Antes, é corretíssimo. Mas podemos correr o risco de esquecer a Santíssima Humanidade de Cristo e de entender o que a divindade pode fazer com a humanidade.

O Divino Mestre foi possuidor de uma humanidade perfeita, completa e normal. Assim também era a divindade d’Ele. E Deus quis uma família para Seu divino Filho a fim de também nos ensinar que quanto mais humanos formos, mais Deus pode nos elevar até Ele. Assim aconteceu com Jesus. Assim, por analogia, acontece conosco.

Um exemplo: fui por várias vezes e vários anos Capelão de alguns Hospitais e Casas de Saúde. Tive boas e belas experiências com todo tipo de gente, mas sempre me chamaram a atenção a alegria e a esperança dos católicos tementes a Deus. Ateus e até evangélicos expressam no momento da doença uma certa tristeza desproporcionada e uma dificuldade muito grande para sorrir, para levar com bom humor os incômodos da saúde. É a força de Deus se transformando em fortaleza humana a vida difícil dos doentes que têm fé.

Em Cristo, a Sua Natureza Divina, não era somente uma força do alto, uma graça especial, mas fazia parte da Sua Pessoa.

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

Nós não temos natureza divina, não somos como Deus, mas Jesus nos ensinou no Evangelho que devemos ser perfeitos como nosso Pai celeste é perfeito. Logo, precisamos ter cada vez mais categoria em nossa humanidade, pois se não somos de natureza divina, temos nossa dimensão espiritual. O homem não é só físico. É espírito também. E, conseqüentemente, quanto mais humanos formos, mais fácil será de cultivarmos a nossa espiritualidade. É a santidade – dom de Deus – que eleva o homem todo até Deus.

Não podemos ser tão ousados a ponto de pedir a Deus que não sejamos invejosos, se não lutamos para extirpar a inveja de nossa vida.

Não tem cabimento acharmos feio nos outros a falta de justiça, se não deixamos de enganar nossos semelhantes.

Não é compatível com nossa dignidade gostarmos de corrigir os outros, mas nunca aceitamos um conselho ou sugestão.

Deus verdadeiro e Homem verdadeiro. Cada vez que escrevemos a palavra Homem nos referindo a Jesus, o fazemos com letra maiúscula, porque o foi de verdade e em plenitude.

Hoje em dia vemos homens que parecem tudo menos homens, mulheres que se assemelham a tudo menos a mulheres. Como aprimorar o âmbito espiritual quando o humano está tão fragilizado?

A graça supõe a natureza e a aperfeiçoa.

Sejamos humanos de verdade para que a graça divina possa nos moldar sem obstáculos e nos preparar para a eternidade.

 

  1. Importância dos Milagres.

 

Os milagres Deus os faz quando julga oportuno e do modo mais adequado, segundo a Sua onisciência. E eles não são magia tampouco truques de mágica, mas são a suspenção das leis da criação ou até da lógica para um fim justo e para que uma determinada mensagem seja passada.

Não são necessários para a fé, pois o mais “normal” é que creiamos sem milagres, pois crer é aceitar o que não vemos.

Porém, não se pode dizer, com isso, que os milagres não sejam importantes. Têm, sim, uma grande importância. Se assim não o fosse, Nosso Senhor não os teria feito, quando da Sua passagem pela Terra Santa, e nem os continuaria a fazer até hoje.

Devemos ter cuidado com os extremos: achar que milagres não existem ou pensar que tudo seja milagre.

Jesus mesmo disse para acreditarmos nos milagres quando nos ensinou dizendo “pedi e recebereis.

Os milagres descritos no Evangelho foram muito importantes e fizeram parte – além do interesse de Deus pelo bem-estar físico e espiritual dos homens de então – da pedagogia divina, pois revelaram a onipotência de Nosso Senhor, ou seja, um dos atributos de Sua divindade.

Se Cristo revelou a Sua Humanidade ou Natureza Humana no falar, no andar, no Se alimentar, revelou a Sua divindade nos prodígios e sinais que realizou como a cura de cegos, paralíticos, mudos, surdos, na expulsão de demônios e assim por diante.

Os milagres continuam sendo importantes, pois quando os pedimos, manifestamos a nossa fé, e quando os conseguimos, Deus demonstra o Seu poder.

Todavia, a divindade do Altíssimo vai muito além dos milagres. Mas, para nós, os milagres são uma forma da demonstração da Sua Natureza Divina.

Convém frisar que eles não são necessários à nossa fé. Muitas pessoas têm fé e vão crescendo a cada dia nesta virtude sobrenatural, mesmo sem nunca ter obtido um milagre.

Ninguém tem o poder de proibir os milagres de Deus, mas também não podemos colocá-los como condição de nossa fé; assim como não podemos colocar como condição de amizade com alguém, que ele nos preste favores. O amigo preza o outro por amizade e não por interesse. A amizade, o amor são gratuitos e não comprados, pedidos ou emprestados. Assim ocorre com a fé. Devemos crer por amor a Deus e não por interesse.

Uma vez ou outra precisamos pedir favores aos amigos, a uns mais a outros menos. É certo que os favores prestados solidificam os laços de amizade, no entanto não podemos colocar nos favores a razão da nossa admiração, estima e amizade pelas pessoas.

De igual maneira os milagres. De vez em quando temos de pedir favores a Deus. Mas o nosso amor por Ele não pode ser em função da utilidade que tem para a nossa comodidade.

Devemos amar a Deus porque O amamos e pronto e ponto final. Ou, visto de outro ângulo, devemos amar a Deus porque somos devedores do Seu amor gratuito por nós. Ele nos criou e nos sustenta pelo único motivo de que nos ama desinteressadamente e, por conseguinte, não espera nem precisa nada em troca. Nosso amor a Ele é um dever de justiça – e a este dever de justiça chamamos Religião – por nos ter criado, conservado e nos ter dado tantos benefícios.

Deveríamos entender este amor que a Deus dirigimos não como uma troca, e sim como algo gratuito.

Amemos a Deus sem esperar nada em troca.

Se milagres nos acontecerem, amemos a Deus. Se demorarem ou nunca vierem, amemos a Ele de igual forma.

Que a Virgem Santíssima nos ajude a termos uma fé e um amor desinteressados. Nosso único interesse seja servir a Deus.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!