Fala o promotor de Justiça substituto do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica   CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 25 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- A nova evangelização se reduziria a um simples slogan se não existissem sacerdotes, particularmente párocos que estejam à altura das exigências do mundo em que vivem.
Esta convicção, exposta no dia 19 de agosto por Bento XVI na audiência geral, é decisiva também para a paróquia, que continua estando chamada a desempenhar um papel missionário no futuro.
O tema é tratado nesta entrevista pelo promotor de Justiça substituto do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica na Santa Sé, Fr. Nikolaus Schöch, O.F.M., quem está em Lima esta semana para participar da Jornada de Formação permanente para o clero da arquidiocese.
Estes encontros abordarão diversas “Questões de administração paroquial”, na sede do seminário “São Toríbio de Mongrovejo”, em Lima.

–Hoje, qual é o principal serviço que um pároco deve oferecer aos seus fiéis?
–Fr. Nikolaus Schöch: Os sacerdotes que já estão no exercício do seu ministério, parece que hoje sofrem uma excessiva dispersão nas crescentes atividades pastorais e, frente à problemática da sociedade e da cultura contemporâneas, sentem-se impulsionados a questionar seu estilo de vida e as prioridades dos trabalhos pastorais, ao mesmo tempo em que notam, cada vez mais, a necessidade de uma formação permanente.
Com relação a isso, é preciso levar em consideração que a própria paróquia – e às vezes também a diocese ,- ainda tendo autonomia própria, não pode ser uma ilha, especialmente em nosso tempo, no qual abundam os meios de transporte e de comunicação. As paróquias são órgãos vivos do único Corpo de Cristo, da única Igreja, na qual se acolhe e se serve tanto os membros das comunidades locais como todos os que, por qualquer razão, afluem a ela em um momento que pode significar a ação da graça de Deus em uma consciência e em uma vida. Naturalmente, isso não deve transformar-se em motivo de desordem ou de irregularidades com relação às leis canônicas, que também estão ao serviço da pastoral.
Também a função de guiar a comunidade como pastor, tarefa própria do pároco, deriva de sua relação peculiar com Cristo, cabeça e pastor. É uma função que reveste caráter sacramental.
Não é a comunidade que confia esta tarefa ao sacerdote, e sim, por meio do bispo, ela lhe vem do Senhor.

–Que eixos de desenvolvimento devem existir em uma paróquia para que se possa organizar de maneira adequada e atender os fiéis convenientemente?
–Fr. Nikolaus Schöch: A paróquia, com suas celebrações litúrgicas e em seus serviços, deveria levar em consideração a mobilidade das pessoas, a confluência de muitas delas a alguns lugares e a nova assimilação geral de tendências, costumes, modas e horários.
O pároco, ao estabelecer na paróquia os horários das Missas e das confissões, deve considerar quais são os momentos mais adequados para a maior parte dos fiéis, permitindo também aos que têm dificuldades especiais de horário que possam se aproximar facilmente dos sacramentos. É preciso levar em conta não tanto a comodidade do horário para os sacerdotes, e sim as necessidades das pessoas com os horários de trabalho e estudo. Não tem muito sentido oferecer o sacramento da Penitência somente durante o horário comercial; fazendo assim, só viriam os idosos.

–Atualmente, com relação aos párocos, que critérios vale a pena levar em consideração para administrar uma paróquia eficientemente, procurando ao mesmo tempo a salvação das almas?
–Fr. Nikolaus Schöch: Enquanto partícipe da ação diretiva de Cristo Cabeça e pastor sobre seu Corpo, o sacerdote está especificamente capacitado para ser, no campo pastoral, o “homem da comunhão”: “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo” (Novo millenio ineunte, n. 43).
Em uma época em que abundam os conselhos, é preciso recordar a responsabilidade pessoal do pároco na moderação da paróquia. Por outro lado, essa função de governo exige que seja um homem de comunhão, isto é, um homem que una toda a paróquia e não seja – isoladamente – amigo de alguns fiéis ou grupos. Tem de ser um homem que una ricos e pobres, intelectuais e pessoas simples, jovens e idosos, mães de família e solteiras, religiosos e leigos, conservadores e progressistas etc.
Nenhum pároco pode cumprir cabalmente sua missão de forma isolada ou individual, mas somente unindo suas forças às de outros presbíteros, sob a direção daqueles que estão à frente da Igreja. No futuro, será sempre mais importante a colaboração entre: os párocos de várias paróquias; os párocos e seus vigários; o clero diocesano e os membros dos institutos de vida consagrada; os clérigos e os leigos.
É preciso favorecer um especial esforço de compreensão mútua e de ajuda recíproca, inclusive as relações entre os presbíteros de mais idade e os mais jovens: uns e outros são igualmente necessários para a comunidade cristã e são apreciados pelos bispos e pelo Papa.
O Concílio Vaticano II recomenda aos de mais idade que tenham compreensão e simpatia com relação às iniciativas dos jovens; e aos jovens, que respeitem a experiência dos mais velhos e confiem neles; a uns e outros, recomenda que se tratem com afeto sincero, segundo o exemplo que deram tantos sacerdotes de ontem e de hoje; o pároco e os demais sacerdotes, inclusive os religiosos, estão chamados a testificar a comunhão na vida cotidiana.

–Como  os leigos podem contribuir para o desenvolvimento pastoral de uma paróquia?
–Fr. Nikolaus Schöch: O pároco não está obrigado a realizar pessoalmente todas as atividades na paróquia, mas a procurar que se realizem de maneira oportuna, conforme a reta doutrina e a disciplina eclesial, no seio da paróquia, segundo as circunstâncias e sempre sob a própria responsabilidade.
O ideal não é uma paróquia onde o sacerdote faz tudo. O sacerdote deve ajudar os leigos a descobrirem e realizarem sua vocação específica em comunhão com os demais fiéis. O realizador desta comunhão e desta pertença de comunhão do presbítero ao povo de Deus é o Espírito Santo. Dado que Ele impregna e motiva todas as áreas da existência, então também penetra e configura a vocação específica de cada um. Assim se forma e desenvolve a espiritualidade própria de presbíteros, de religiosos e religiosas, de pais de família, de empresários, de catequistas etc. Cada uma das vocações tem uma forma concreta e distintiva de viver a espiritualidade, que confere profundidade e entusiasmo ao exercício de suas tarefas.
O apostolado dos leigos se desenvolve em boa parte das associações e movimentos que atuam em plena sintonia eclesial e em obediência às diretrizes dos pastores. É preciso promover e sustentar as associações de fiéis.
No entanto, deve-se evitar no tecido paroquial qualquer gênero de exclusivismo ou de isolamento por parte de grupos individuais. Porém, não faltam, também desde dentro da paróquia e das associações, perigos como a burocratização, o funcionalismo, o democratismo, a planificação que atende mais a gestão que a pastoral.

–Qual é o principal desafio de um pároco na sociedade contemporânea?
–Fr. Nikolaus Schöch: Falta considerar cada paróquia a partir da perspectiva global da diocese e não ao contrário; e falta levar em consideração em sua justa medida o fiel leigo, o religioso e outros consagrados na vida da Igreja, tanto no interior da própria comunidade cristã como no que diz respeito à sua presença no mundo.
Cresce a consciência de que, além dos problemas da cultura pós-moderna, apresentam-se outros, como o da alta porcentagem de católicos que vivem longe da prática religiosa, o problema da diminuição drástica, por diversas causas, do número daqueles que se declaram católicos etc.; existe, por outro lado, o problema do crescimento extraordinário das chamadas “seitas evangélicas pentecostais” e de outras seitas.
Frente a esta realidade, é urgente acolher com generosidade o convite feito pelo Santo Padre Bento XVI, no Brasil, a uma verdadeira “missão”, dirigida aos que, inclusive tendo sido batizados, por diversas circunstâncias históricas, não foram suficientemente evangelizados por nós.
Nesta tarefa, é preciso aproveitar os meios de comunicação para evitar a expansão de uma cultura que tenta rejeitar Deus e está profundamente marcada pelo secularismo, pelo relativismo, pelo cientificismo, pela indiferença religiosa, pelo agnosticismo e por um laicismo frequentemente militante e antirreligioso.

–A pastoral que se leva a cabo em uma paróquia muitas vezes é ampla e diversa demais, de acordo com a realidade concreta de cada uma, como, por exemplo, a pastoral familiar, da saúde, entre outras. A que aspectos da pastoral é preciso dar prioridade no mundo de hoje, frente ao futuro da Igreja?
–Fr. Nikolaus Schöch: Penso que as sete prioridades que o servo de Deus João Paulo II mencionou na Novo millenio ineunte ainda são atuais: santidade, oração, santíssima Eucaristia dominical, sacramento da Reconciliação, primazia da graça e escuta e anúncio da Palavra.
Segundo o exemplo oferecido pelo santo pároco de Ars e por outros sacerdotes exemplares que exercitaram seu ministério, está no centro da atividade pastoral do pároco a administração dos sacramentos, particularmente da Eucaristia e da Penitência.
Entre as numerosas atividades que uma paróquia desenvolve, nenhuma é tão vital ou formativa para a comunidade como a celebração dominical do dia do Senhor e de sua Eucaristia. Cada paróquia, em definitivo, está fundada sobre uma realidade teológica, porque ela é uma comunidade eucarística.
Por esta razão, o Concílio Vaticano II recomenda: “procurem os párocos que a celebração do sacrifício eucarístico seja o centro e o ponto culminante de toda a vida da comunidade cristã” (Christus Dominus, n. 30). Isso significa que a paróquia é uma comunidade idônea para celebrar a Eucaristia, na qual se encontram a raiz viva da sua edificação e o vínculo sacramental do seu existir em plena comunhão com toda a Igreja.
Uma atenção particular deve ser dada pelos párocos às confissões individuais, no espírito e na forma estabelecidos pela Igreja; também à direção espiritual a quem a solicitar. Não se pode evangelizar a longo prazo sem dar a primazia a Deus e sem vida interior. Poderíamos dizer que a crise moral e social da nossa época, como os problemas apresentados tanto pelas pessoas como pelas famílias, fazem sentir com mais força esta necessidade de ajuda sacerdotal na vida espiritual. É preciso recomendar vivamente aos presbíteros um novo conhecimento e uma nova entrega ao ministério do confessionário e da direção espiritual, também por causa das novas exigências dos leigos, que têm mais desejos de seguir o caminho da perfeição cristã que o Evangelho apresenta.
No contexto do Ano Sacerdotal, recém-iniciado, a atenção às vocações ao sacerdócio e à vida consagrada constitui uma das prioridades pastorais.

–Como ajudar a evitar as nulidades matrimoniais em uma paróquia?
–Fr. Nikolaus Schöch: A experiência aconselha que as investigações e expediente sejam feitas – sempre que possível – com a suficiente antecedência e espaço de tempo, porque, em seu desenvolvimento, podem surgir alguns elementos que requerem uma mais ampla e profunda investigação. Assim se evitarão precipitações de última hora, que originam nervosismo e angústia nos contraentes e em suas famílias e, sobretudo, no próprio pároco, a quem corresponde assistir o casal.
Este tempo necessário (vários meses) é especialmente aconselhável quando os contraentes são de dioceses diferentes, para permitir às respectivas cúrias os trâmites necessários.
Na atenção pastoral, na catequese e na celebração, é preciso refletir as situações especiais, como os matrimônios precipitados, para salvaguardar a boa fama e os realizados para legalizar uma situação. Em contextos de gravidez prévia, deve ficar claro que a legitimação da futura prole não é causa justificável para um casamento que, por outros aspectos, seria desaconselhável.
Estes pontos são de singular importância no exame de contraentes e testemunhas, dada a “mentalidade divorcista” que vai se contagiando nos jovens e a crescente atitude antinatalista. A indissolubilidade e a ordenação da prole devem ficar claramente não excluídas na vontade consensual. Neste aspecto, o pároco tem uma grande tarefa de discernimento e de investigação.
Nem sempre se pode supor a maturidade psicológica dos contraentes. A percepção de um defeito neste sentido deve conduzir a um exame por parte de um especialista.

–Em uma sociedade global, como os sacerdotes podem imitar o Santo Cura de Ars, São João Maria Vianney, em seu ministério sacerdotal?
–Fr. Nikolaus Schöch: Em um mundo em que a visão comum da vida compreende cada vez menos o sagrado, em cujo lugar o “funcional” se converte na única categoria decisiva, a concepção católica do sacerdócio poderia correr o risco de perder sua consideração natural, às vezes inclusive dentro da consciência eclesial.
A paróquia de Ars era uma paróquia de camponeses e muito pequena, com somente 230 fiéis. No entanto, recorda-se que São João Maria Vianney não só ajudava os sacerdotes doentes nas paróquias vizinhas, mas ofereceu seu constante serviço de confessor e de diretor de almas a milhares de fiéis que chegavam em número sempre crescente, de todas as partes da França.
Com frequência, tanto nos ambientes teológicos como também na prática pastoral concreta e de formação do clero, confrontam-se, e às vezes se opõem, duas concepções diferentes do sacerdócio, descritas recentemente pelo Papa Bento XVI:
a) A concepção social-funcional, que define a essência do sacerdócio com o conceito de “serviço”: o serviço à comunidade, na realização de uma função. A concepção de serviço corresponde à primazia da Palavra e do serviço do anúncio.
b) A concepção sacramental-ontológica, que naturalmente não nega o caráter de serviço do sacerdócio, mas “o vê ancorado no ser do ministro e considera que este ser está determinado por um dom concedido pelo Senhor através da mediação da Igreja, cujo nome é sacramento” (Ratzinger, J. Ministério e vida do sacerdote, in: Elementi di Teologia fondamentale. Saggio su fede e ministero. Bréscia: 2005, p. 165).
A concepção sacramental-ontológica está vinculada à primazia da Eucaristia, no binômio “sacerdócio-sacrifício”.

–Que papel a paróquia está chamada a desempenhar no mundo de hoje? Ou já é uma instituição superada na atualidade?
–Fr. Nikolaus Schöch: A paróquia é uma concreta communitas christifidelium, constituída estavelmente no âmbito de uma Igreja particular, cuja pastoral é confiada a um pároco como pastor próprio, sob a autoridade do bispo diocesano. A paróquia, por isso, será sempre atual, terá sempre um futuro. A paróquia não está destinada a desaparecer.
Isso não quer dizer que não haja necessidade de mudanças. Em várias partes da Europa, há paróquias com mais de 2 mil anos de história, com as mesmas fronteiras há séculos.
Em muitas dioceses da África e da América Latina, ainda está pendente dividir paróquias com muitas pessoas, para permitir um serviço pastoral mais próximo dos fiéis.
As paróquias cidadãs são muito povoadas. É impossível que o pároco de uma paróquia de 100 mil habitantes conheça todos os seus fiéis. Será preciso dividi-las em unidades menores e mais acessíveis. Um sacerdote do meu país trabalhou como pároco de uma paróquia rural da Bolívia que é mais extensa que uma diocese na Europa e conta com 50 comunidades. Lá também será preciso prover uma nova configuração dos limites entre as paróquias para facilitar um exercício da pastoral que seja mais próximo dos fiéis.
A paróquia certamente tem futuro. A questão é somente quantas reestruturações serão necessárias em algumas regiões para que ela possa cumprir com suas funções. Graças aos meios de transporte e de comunicação, será muito importante no futuro melhorar a comunicação entre as paróquias.
Em vários países da Europa, estão nascendo as “unidades pastorais” reguladas pelo direito particular diocesano. Estão compostas por várias paróquias e chamadas a constituir juntas uma “comunidade missionária” eficaz, que trabalha em um determinado território, em harmonia com o plano pastoral diocesano. Trata-se, em resumo, de uma forma de colaboração e de coordenação interparoquial (entre 2 ou mais paróquias limítrofes). Não se suprimem as paróquias, mas se organiza uma colaboração mútua.