Homilia do Mons. José Maria – XIV Domingo do Tempo Comum – Ano B

     

 Basta-te a Minha Graça!

O Evangelho (Mc 6,1-6) mostra o ministério de Jesus junto às multidões. Em vez da adesão, obtém a rejeição em sua terra natal. Nazaré era a sua casa, a sua pátria, onde viviam os seus parentes e Ele era bem conhecido. E foi rejeitado! Cheios de incredulidade dizem os nazarenos: “Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria…? E ficaram escandalizados por causa dele” (Mc 6, 3). Um orgulho secreto, baixo, mesquinho, impede-os de admitir que um como eles, criado à vista de todos e de profissão humilde, possa ser um profeta, e nada mais nada menos que o Messias, o Filho de Deus.

Este fato é compreensível, porque a familiaridade a nível humano torna difícil ir além e abrir – se à dimensão divina. Eles têm  dificuldade de acreditar que este Filho de um carpinteiro seja Filho de Deus. O próprio Jesus dá como exemplo a experiência dos profetas de Israel, que precisamente na sua pátria tinham sido objeto de desprezo, e identifica – se com eles. Devido a este fechamento espiritual, Jesus não pôde realizar em Nazaré “milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo – lhes as mãos” ( Mc 6, 5 ). Com efeito, os milagres de Cristo não são uma exibição de poder, mas sinais de amor de Deus, que se realiza onde encontra a fé do homem na reciprocidade. Escreve Orígines: “Do mesmo modo que para os corpos existe uma atração natural da parte de uns para com os outros, como o ferro atrai o ímã… também tal fé exerce uma atração sobre o poder divino” ( Comentário ao Evangelho de Mateus 10, 19 ).

E Jesus não fez ali milagres: não porque Lhe faltasse poder, mas como castigo da incredulidade dos seus concidadãos. Deus quer que o homem use da graça oferecida, de sorte que, ao cooperar com ela, se disponha a receber novas graças. É o que expressa Santo Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti.”

O que aconteceu em Nazaré pode acontecer também hoje na Igreja e com cada um de nós. É a falta de fé, incapaz de lançar uma luz superior sobre as pessoas e os acontecimentos. Foi com esses olhos da fé que S. Paulo encarava o seu ministério apostólico (2 Cor 12, 7-10). Sentia em si a fraqueza, o pecado. Recebeu, porém, de Deus uma resposta: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta”. Ao contar com a ajuda de Deus, tornava-se mais forte e isso fez que Paulo exclamasse: “Eis porque eu me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor a Cristo. Pois, quando eu me sinto fraco, é então que sou forte” (2 Cor 12, 10). Na nossa fraqueza, experimentamos constantemente a necessidade de recorrer a Deus e à fortaleza que nos vem dele. Quantas vezes o Senhor nos terá dito na intimidade do nosso coração: Basta-te a minha graça, tens a minha ajuda para venceres nas provas e dificuldades!

Por outro lado, as próprias dificuldades e fraquezas podem converte-se num bem maior. São Tomás de Aquino explica que Deus pode permitir algumas vezes certos males de ordem moral ou física para obter bens maiores ou mais necessários. O Senhor nunca nos abandonará no meio das provocações. A nossa própria debilidade ajuda-nos a confiar mais, a procurar com maior presteza o refúgio divino, a pedir mais forças, a ser mais humildes: “Senhor, não te fies de mim! Eu, sim, é que me fio de Ti. E ao vislumbrarmos na nossa alma o amor, a compaixão, a ternura com que Cristo Jesus nos olha – porque Ele não nos abandona -, compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras de Apóstolo: “… a força se manifesta na fraqueza! (2 Cor 12, 9); com fé no Senhor, apesar das nossas misérias, seremos fiéis ao nosso Pai – Deus, e o poder divino brilhará, sustentando-nos no meio da nossa fraqueza” (São Josemaria Escriva, Amigos de Deus, nº 194).

Basta-te a minha graça. São palavras que o Senhor dirige hoje a cada um de nós para que nos enchamos de fortaleza ante as provas que tenhamos pela frente.

Quando a tentação, os contratempos ou o cansaço se tornarem maiores, o demônio tratará de insinuar-nos a desconfiança, o desânimo, o descaminho. Por isso, devemos hoje aprender a lição que São Paulo nos dá: nessas situações, Cristo está especialmente presente com a sua ajuda; basta que recorramos a Ele.
Mas, ao mesmo tempo, o Senhor pede que estejamos prevenidos contra a tentação e que lancemos mão dos meios ao nosso alcance para vencê-la: a oração e a mortificação voluntária; a fuga das ocasiões de pecado, pois “aquele que ama o perigo nele perecerá! (Eclo 3, 27); exercer com dedicação o trabalho, pelo cumprimento exemplar dos deveres profissionais; horror a todo o pecado, por pequeno que possa parecer; e, sobretudo, o esforço por crescer no amor a Cristo e a Nossa Senhora.

Podemos tirar muito proveito das provas, tribulações e tentações, pois nelas demonstramos ao Senhor que precisamos dEle e o amamos.

Quanto maior for a resistência do ambiente ou das nossas próprias fraquezas, mais ajudas e graças Deus nos dará. Pois, assim a tentação nos conduzirá à oração, à união com Deus e com Cristo: não será uma perda, mais um lucro; “sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Quanto maior for a resistência do ambiente ou das nossas próprias fraquezas, mais ajudas e graças Deus nos dará. E a nossa Mãe do Céu estará sempre muito perto de nós nesses momentos de maior necessidade: não deixemos de recorrer à sua proteção maternal.

Aprendamos de Maria, nossa Mãe na fé, a reconhecer na humanidade de Cristo a perfeita Revelação de Deus.

 

Mons. José Maria Pereira