EPíSTOLA (Rm 13,11-14ª)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Como primeiro domino do Advento a liturgia no oferee uma série de avisos do aóstolo Paulo paa os fiéis que esperavam a Parousia, o segundo Advtigilância e preparfação. o do Senhoe. É tempo de vigilância e preparação, pois quem não está disposto a receber Jesus nascido como Salvador e Senhor de paz, recebê-lo-á como severo juiz e árbitro final de condenação.

O KAIROS: E isto, sabendo o tempo propício, pois que a hora de nós já do sono despertar (é) agora; pois está mais próxima a nossa salvação que quando acreditamos (11). Et hoc scientes tempus quia hora est iam nos de somno surgere nunc enim propior est nostra salus quam cum credidimus.Paulo está dando uma série de avisos centrados na prática da caridade da qual diz que é a plenitude da Lei. Daí o início deste versículo: E ISTO, como para acrescentar alguma coisa ao dito anteriormente, ou seja que, antes de mais nada, devem os fiéis guardar os mandatos que exige a caridade com o próximo: Pois isto: não adulterarás, não matarás, não robarás, não cobiçarás (13, 9); e agora a estes mandatos, base do amor ao próximo, deve acrescentar também um aviso importante, devido ao tempo ou época em que os fiéis se encontram, e que Paulo declara sendo KAIROS [<2540>=tempus] que podemos traduzir como uma medida, especialmente do tempo, de onde temos uma determinada época, em que existe uma crisis ou uma oportunidade, como um tempo que é o favorável ou conveniente, que temos traduzido por propício. Por isso, diz Paulo, que é hora de despertar do sono em sentido de estar vigilantes. O tempo é breve e a salvação está próxima. Mas de que tempo ou de que pessoas trata Paulo? Pode ser o tempo e vida de cada um, breve como é e do qual depende a salvação individual; mas parece que Paulo se refere a Parousia e o tempo é este em que a noite está já terminando e o dia está próximo (Ver 12). Este é o tempo em que se espera a segunda vinda de Cristo e a salvação ou saúde é a mesma que Paulo descreve desde o início da carta (1, 16). De uma parte, pertencemos ao  mundo da luz e devemos agir em consequência (v 12). Por outra parte, estamos ainda entre trevas, esperando o pleno dia em que a luz dissipe as mesmas. A salvação está mais próxima, dirá Paulo, do que estava quando inicialmente recebemos a fé. Os romanos receberam a fé pouco tempo após a morte de Cristo,  talvez após Pentecostes (ano 33) e sabemos que Pedro esteve em Roma nos primeiros anos de Claudio (41 a 44) e Paulo agora escreve perto do ano 58, com uma diferença de 14 anos no mínimo. A Parousia, para Paulo, tinha consequências e estava rodeada de circunstâncias bem diferentes do que agora nós pensamos sobre a mesma. Para nós, é um triunfo em que esperamos só os bens celestiais, dentro da renovação total do mundo e ressurreiçao dos corpos. Para Paulo, a Parousia está concentrada em Cristo: seu triunfo é o triunfo da fé, que agora espera o reconhecimento de que não estavam com uma esperança vã como quem vive de uma ilusão. A salvação individual é a nota dominante de nossa concepção da parousia; o triunfo da Igreja, pobre e humilde, em Cristo, era a mensagem que a primitiva fé necessitava como esperança de dias melhores. Dai que a Parousia era a idéia principal da evangelização, como um futuro próximo, desejável para manter a esperança num mundo de ilusão e expectativa, que se confiava estar próximo.

REVESTIDOS DA LUZ: A noite avançou, pois o dia tem se aproximado: despojemo-nos pois das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz (12). Nox praecessit dies autem adpropiavit abiciamus ergo opera tenebrarum et induamur arma lucis. Paulo continua com a metáfora das trevas/noite e luz/dia. Para Paulo, já estamos perto da aurora e o que importa é agir como quem tem a luz, e não pode agir como os que segundo João preferem as trevas, porque suas obras eram más (Jo 3, 19). E o apóstolo usa aqui também de uma metáfora:  O vestido, como quem adapta sua vida a certos hábitos de agir, deve ser precedido de um despir-se de obras más para se revestir das armas da luz ou do dia. Usando armas, Paulo deixa claro que existe uma luta, tanto no interior como no exterior do homem, para manter a ordem que a Lei exige como obediência a Deus e amor ao próximo.

DECÊNCIA: Como no dia, honestamente andemos, não em orgias e bebedices, não em cohabitações e dissoluções, não em contenda e inveja (13). sicut in die honeste ambulemus non in comesationibus et ebrietatibus non in cubilibus et inpudicitiis non in contentione et aemulatione. HONESTAMENTE [euschëmonös <2156>=honeste] ou decentemente isto é como gente honrada, como corresponde a fiéis que devem dar conta de sua conduta diante do juiz do mundo. ORGIAS [kömos<2970>=comesatio] propriamente é a folia e procissão noturna em honra de Baco, para ser usada em festanças e bebedeiras noturnas, prolongadas até tarde na noite. BEBEDICES [methë <3178>=ebrietas] embriaguez, e em plural bebedeiras. COABITAÇÕES [koitai<2845>=cubiles] koitë era um lugar para descansar, ou dormir.Também cama, cama de matrimônio ou alcova. Finalmente adultério, intercurso sexual, e coabitação tanto legal como ilegal. Poderiamos traduzir por promiscuidade sexual. DISSOLUÇÕES [aselgeiai <766>=impuditia] lascívia descontrolada, licenciosidade, desregramento, devassidão. A diferença com o anterior, talvez seja em que a anterior implica mais o matrimônio e as relações entreos casais, e a atual os que são célibes onde promiscuidade seja a melhor opção, sendo que nesta última estaria incluido o homo sexuualismo e otras degradações e lascívias de todo gênero. CONTENDA [eris<2054>=contentio] com o significado de brigas, disputas, discórdias e rivalidades. DISSOLUÇÕES [zëlos<2205>=aemulatio] pode ser zelo como ardor e entusiasmo por uma coisa ou ideia; mas, tendo uma acepção negativa, devemos pensar em inveja, rivalidade, ciúmes. Estas coisas todas devem ser evitadas.

O MODELO: Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo(14). Sed induite Dominum Iesum Christum. Uma vez descartados da vida cristá vìcios que a comprometem e impedem sua incorporañáo ao Reino (1Cor 6, 10 e Gal), temos um dever que podemos chamar positivo: revestir-nos de Cristo. Assim como Cristo se revestiu de nossa humanidade, ou como diz Paulo, tomou a forma de um escravo (Fp 2, 7), nós devemos nos revestir  da humanidade de Cristo. A explicação deste revestimento está descrita por Paulo quando afirma: todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes (Gl 3, 27), ou, segundo a imagem daquele que vos criou (Cl 3, 10). E explica qual é o novo vestido do novo homem, criado em justiça e santidade da verdade (Ef 4, 24). Coisa que repete em Ef 6, 14: cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça [honradez], tudo o qual completa em 1Ts 5, 8: revestindo-nos da couraça da fé e do amor, tomando como  capacete a esperança da salvação. Esse vestido consiste principalmente nas relaçóes humanas em ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade (Col3, 12). Paulo termina este trecho de sua epístola pedindo uma vida, conforme a de Cristo, de modo que possamos dizer como o mesmo Paulo: Cristo vive em nós (Gal 2, 20).

EVANGELHO (Mt 24, 37-44)

PARUSIA E ESCATOLOGIA

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Este trecho é parte do chamado discurso escatológico de Jesus, que termina o mesmo com uma advertência para estarmos vigilantes, pois o cataclismo será como nos tempos de Noé, que encontrou desprevenida a maioria dos habitantes. O tempo e a hora serão imprevisíveis e não há como predizer o evento. É por isso que a melhor coisa a fazer é estarmos preparados ou vigilantes. A conclusão indica que há um meio de salvação e que o acontecimento não será uma calamidade universal, a não ser para os que não estejam preparados. Pois a vinda do Filho do Homem é tratada como era considerada pelos antigos profetas o DIA DE YHVH. Ou seja, um castigo para os maus e uma salvação para os bons. Vamos, pois, intentar interpretar os conceitos que encontramos no evangelho de hoje

OS TEMPOS DE NOÉ: Como pois, (n) os dias de Noé, assim será também a PARUSIA do Filho do homem (37). Sicut autem in diebus Noe ita erit et adventus Filii hominis. PARUSIA: A palavra só aparece em Mateus no círculo evangélico, todas as vezes no capítulo 24, quando Jesus afirma que as edificações do templo que lhe mostravam seriam destruídas, de modo a não ficar pedra sobre pedra. É então que lhe perguntam quando sucederá isso e qual o sinal de tua vinda [parusia] e do término do século [aion]. A pergunta foi mal interpretada, de modo a ser o aion tomado como mundo. E assim foi traduzida por: qual será o sinal de tua vinda [gloriosa] e do fim do mundo.  O texto grego diz literalmente synteleias tou aionos [= conclusão do século].  Por isso, o que os discípulos pedem é quando virá  e assim chegará o fim desta geração, desta época, na qual, os romanos e os dirigentes judeus impediam Jesus de tomar posse de seu Reino (Mt 11, 12). Pois, enquanto o templo estivesse funcionando, os dirigentes dos judeus enfrentariam Jesus e impediriam o seu reinado. Confirma-se o dito pela pergunta feita nos outros dois evangelistas em que não vemos o fim do mundo mas o fim destas coisas que predizes (Mc 13, 4 e Lc 21, 7). As traduções modernas falam do fim do mundo (?Esp e It), do fim da história (?IN) ou dos tempos (? F). A pior delas talvez seja a da Bíblia de Jerusalém: consumação dos tempos (sic, em plural?), sem dúvida porque é bastante literal da tradução francesa. Vamos ver o significado das palavras gregas. AION: é a palavra com que Mateus termina a pergunta dos discípulos. Seu significado é tempo ou período prolongado, como era [age em inglês]; e, por extensão, sempre ou eterno; e implicitamente, pode significar o mundo. Em especial emprega-se para distinguir os dois períodos em relação ao momento messiânico, tanto o anterior  como o posterior: é o nosso caso. Das 8 vezes que aparece em Mateus, 7 vezes é traduzida por age [idade ou período de vida] diretamente em inglês, e uma única por esta vida  em 13, 22. SYNTELEIA: Completion em inglês que podemos traduzir por conclusão, acabamento muito melhor do que por fim, pois não é o termo final de tudo mas de uma época, como vemos na tradução da vulgata: consummationis saeculi, que, mais do que término, significa concluir inteiramente, acabar com perfeição uma obra ou um período. Também o saeculum latino tem o significado de, além de tempo de cem anos, o de idade, vida e, em plural, gerações. Com isso, vemos como as traduções atuais católicas adoecem de uma falta de crítica e dão uma idéia falsa da resposta de Jesus, como sendo a profecia do fim do mundo. Mas falta a parusia. Porém antes de estudar este novo conceito vamos expor as idéias dos contemporâneos de Jesus sobre a escatologia, que na Teologia anterior ao Concílio chamávamos de Novíssimos.

ESCATOLOGIA NO AT

Existem duas limitações nos livros sagrados do AT: a) A exceção do papel de honra ou desonra que acompanha o morto no Sheol, não existe prêmio ou castigo que diferencie bons de maus de modo explícito. Isto é feito na terra, durante a vida para a pessoa, ou para os descendentes. b) Tendência em absorver o indivíduo na nação ou na descendência. Esta última receberia o castigo ou prêmio correspondente ao indivíduo (Ex 20, 5-6). Por isso a escatologia prevalecente era a do povo e não a do indivíduo. Desta forma o reino messiânico era o reino escatológico do verdadeiro Israel  com o triunfo do verdadeiro Deus e o estabelecimento de sua justiça. Isso tudo dava ocasião a uma epifania de Javé no seu atributo de juiz e soberano. A ressurreição dos mortos em Is 26, 19 e Dn 12,2 introduz o Dia do Senhor em que tanto judeus como gentios seriam julgados e haveria uma renovação da terra que mais do que uma aplicação à nova situação do cristianismo, apontava ao fim do mundo ou do universo. Com isso, começava a nova era que propriamente seria um reino de Deus perfeito na terra, quando nós, os cristãos, só esperamos esse reino perfeito no céu, no termo deste universo atual. Finalmente, nos Salmos e em Jó, encontramos a esperança que assegura ao justo uma vida de bênçãos após a morte. Aqui encontramos um ardente desejo por uma eterna amizade com Deus, que é uma protestação clara contra o Sheol tradicional (ver Sl 48 e Jó 19,26-27). Segundo a tradução da vulgata, em seu corpo ressuscitado ele verá Deus. A doutrina da ressurreição será peculiar nos profetas como Is 26, 19 e Dn 12, 2. Em Isaías a ressurreição pessoal dos justos e em Daniel a de todos, sendo que, neste último,  julgamento e ressurreição estão unidos ao Dia do Senhor. Nos últimos livros  chamados deutero-canônicos, como  os Macabeus, até as orações e sacrifícios pelos defuntos são obras pias (2 Mc 11, 43). Nos apócrifos, o Sheol é o lugar de espera pela ressurreição, sendo que este Sheol tinha diversos apartamentos ou divisões para bons e maus. A morada dos maus recebe o nome de Inferno, ou Hades. A morada dos bons, o nome de Seio de Abraão. Finalmente, Gehena é o nome atribuído ao lugar dos malvados após a ressurreição, ou imediatamente após sua morte; e Paraíso é o lugar intermédio antes dos bons serem admitidos no céu, equivalente ao Seio de Abraão, ou melhor sua casa final de bem-aventurança com Deus no céu definitivo. O uso de Jesus destes termos indica a familiaridade com que os judeus contemporâneos os usavam.

ESCATOLOGIA NO NT

PARUSIA: Do léxico de uma Bíblia moderna tomo a seguinte definição: Termo técnico para designar a vinda gloriosa de Jesus ao final da história humana. Esta definição é repetida em outro CD de uso mais corrente. Porém a palavra tem vários significados: a) O etimológico [para ousia= estar junto]  de simples presença,(ver 2 Cor 10, 10: a presença [=parousia] pessoal de Paulo é fraca);  podendo significar bens e vinda. (ver I Cor 16, 17 : alegro-me com a vinda [parousia] de Fortunato]. b) Um segundo significado que poderíamos chamar de técnico ou administrativo-político como visita de personagens eminentes, reis ou imperadores a uma determinada região. Neste caso o personagem recebia homenagens, próprias de um deus ou salvador, com bens ou benefícios tão avultados que se iniciava  assim nova era para a historia local. Tal foi o caso de Nero nas visitas a Corinto e Pátras, cuja comemoração foi feita com uma moeda com a inscrição Adventus Aug(usti) Cor(inthi). O adventus latino equivale à parusia grega. Assim é traduzida na vulgata a parusia grega. Augustus era o Sebastos grego, ou seja adorável. c) Da linguagem política, o termo foi introduzido no vocabulário religioso, principalmente pelas religiões ditas de mistérios para significar a vinda solene da divindade através de ritos sagrados. d) A palavra é, em certo sentido, tomada como base para uma especial teologia católica, com base unicamente em Mateus no capítulo 24 ( versículos 3;27;37 e 39 com o número de Sprong 3952) e nas epístolas dos apóstolos, como as paulinas (ver 1 Cor 15, 20) e Tiago (9, 7-8). O curioso do caso é que à parte do versículo 3, nas outras ocasiões Jesus usa sempre a palavra unida ao Filho do Homem, ou seja parusia do Filho do Homem. O Nosso autor afirma: A Primeira comunidade não distinguiu bem entre proximidade teológica e proximidade cronológica, pelo qual durante algum tempo esperou a parusia como algo iminente. Os modernos exegetas se dividem entre os que dizem que as palavras de Jesus frente ao templo se podiam entender perfeitamente sobre a destruição unicamente do templo e os que além dessa época referem as palavras de Jesus como a segunda vinda no fim da história. Somos da primeira opinião. O FILHO DO HOMEM: Significa: 1º) Uma expressão semita que significa uma pessoa humana, sobretudo como ser frágil e mortal em oposição ao ser divino (Is 51,12). A frase sai em 29 versículos em Mateus , 13 em Marcos, 24 em Lucas e 12 em João. Somente uma vez [na visão de Estêvão] nos Atos, e duas vezes no Apocalipse. Sempre que sai nos evangelhos, é em lábios de Jesus, que a si mesmo se dá este título; representa sua natureza como indivíduo humano [não confundi-lo com pessoa] como era visto e ouvido por seus contemporâneos. 2º) Mas, em muitos casos, toma esse homem poderes divinos, como Mt 25,31: quando vier o Filho do Homem em sua glória  ou em 26, 64: vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. Devemos entender isso das nuvens do céu como uma expressão de tipo apocalíptico que indica poder divino, uma metáfora, não uma realidade, esta, resultante de uma interpretação fundamentalista. Assim o entendeu Caifás que exclamou: Blasfemou! Porque no livro de Daniel descreve-se o quinto reino, posterior ao de Epífanes, como tendo a figura de um homem, ou Filho do Homem, provindo das nuvens do céu (Dn 7, 13-14). Inicialmente, esse Filho do Homem significa o povo escolhido dos santos (Dn 7,18; 22 e 27). Porém como o reino era identificado com seu rei, daí que a expressão Filho do Homem tenha também um valor individual, glorioso e transcendente. É o que vemos na literatura intertestamentária, especialmente no apócrifo de Henoc. Com este sentido, Jesus o admite como único título messiânico dentre as setenta vezes que aparece nos evangelhos. Umas vezes para sublinhar seu poder e condição transcendente (Mt 9, 6 e 12, 8); outras para destacar o momento de sua paixão e ressurreição (Mc 8,3); outras para aludir ao fato de seu triunfo e sua parusia (Mc 8, 38) e finalmente ao se referir a si mesmo como substituto de “a gente” em português (Mt 8, 20 e 16, 13). Por isso as expressões de Mateus 24 podem ser entendidas nesse sentido metafórico em que a participação divina nos acontecimentos de Jerusalém é representada por meio de imagens celestes que nem sempre correspondem a fatos reais mas são figuras que devem ser corretamente interpretadas. Também podemos considerar que o capítulo 24 é um apanhado de Mateus entre o que Jesus falou, frente ao templo, do monte das Oliveiras, e o que Ele falou em outras circunstâncias e que Lucas reproduz em outras ocasiões. Tudo isso, nos oferece uma certa liberdade de interpretação, que não suportaria um sentido literal das palavras de Jesus. Finalmente vamos falar do DIA DO SENHOR: É uma expressão derivada do mundo judaico. O dia do julgamento tem como base mais primitiva, Joel l4, 1-21, em que Javé comina todos os povos que lutaram contra seus eleitos para serem julgados no vale de Josafá [=Deus julga]. Na liturgia judaica, o primeiro dia do mês Tishri [setembro/outubro], considerado o Ano Novo, tomou o aspecto de dia anual de julgamento para toda a humanidade. A tradição religiosa judaica fala do Rosh Hashaná, [cabeça do ano, em que segundo a tradição o mundo foi criado], celebrado o 1º e 2º dia de Tishri, que também recebe o nome de Yom Hadim [dia do julgamento] pois é com o ano novo que o homem e os povos serão julgados.  Seguem-se dez dias de penitência, devendo os decretos serem selados, finalmente, no dia do Yom Kippur [dia da Expiação]. Paulo toma essa tradição para afirmar sobre o dia da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo (1 Cor 1, 8). Lucas apresenta o dia do Filho do Homem vindo como um relâmpago (17, 24). Esse dia será de condenação para os opositores de Cristo, e dia de exaltação para os justos de qualquer tribo, povo, língua e nação (Ap 5, 9).

CONDUTA INCONSCIENTE: Como pois eram [acontecia] nos dias anteriores à inundação, comendo e bebendo, casando e dando-se em casamento até o dia que entrou Noé na arca (38),  e não conheceram até que veio o cataclismo e tomou todos, assim será a parusia do Filho do Homem (39). Sicut enim erant in diebus ante diluvium comedentes et bibentes nubentes et nuptum tradentes usque ad eum diem quo introivit in arcam Noe et non cognoverunt donec venit diluvium et tulit omnes ita erit et adventus Filii hominis. Como vemos, não eram condutas impróprias, mas as que se dão em todos os tempos quando não se esperam grandes desastres naturais. È uma falta de preparação porque não existe consciência do perigo. O evangelho fala do kataklismós que significa inundação ou enchente que no caso de Noé era o dilúvio. Logo lemos sobre o kiboton que é uma caixa de madeira ou arca; era o barco de Noé, tanto como a arca de Moisés. Os contemporâneos não conheciam a catástrofe [aí está a força do argumento] e por isso foram todos tomados de surpresa. Também vocês sereis, tomados de improviso, será a conclusão do exemplo. A PARUSIA: Temos falado no parágrafo anterior sobre o significado desta palavra no NT. Existe também uma outra palavra com um significado parecido. É EPIFANIA: Em grego epipháneia [manifestação ou advento, tanto passado como futuro] substitui a parusia. a) Desta palavra sabemos que, na língua religiosa do tempo, significava a manifestação da divindade oculta que agora se apresentava de forma, quer direta, quer indireta, (como por meio de um portento). Do imperador Adriano existe uma moeda com a inscrição Epipháneia Augustou. Esta expressão foi adotada por Paulo em 2Ts 2, 8 como sendo a manifestação da parusia dele [do Senhor] e especialmente em 1 Tm 6, 14 que está evidentemente no lugar de parusia. b) A palavra atualmente na liturgia tem o significado de primeiro advento de Cristo tendo em vista a festa dos magos, como manifestação de sua divindade aos gentios. Outra palavra com significado semelhante é APOCALIPSE: Revelação ou manifestação. Como exemplo temos Lc 2, 32 revelação aos gentios. Rm 2 5 em que exorta a se preparar para o dia da ira da revelação do justo juízo de Deus, frase que responde perfeitamente às expectativas de Mateus 24. Finalmente será 2 Ts 1, 7 quando do céu se manifestar o Senhor. Como vemos em Rm 2, 5 a manifestação está unida ao juízo  e dia do Senhor. Portanto, A  parusia é a presença vitoriosa de Jesus, como juiz, que pode ser vista do ponto de vista teológico ou cronológico, tendo como fundo a revelação que chamamos apocalíptica e como forma as imagens dos profetas para indicar uma ação direta de Deus. O apocalipse como fundo, é o triunfo do bem e da verdade sobre o mal e a mentira, triunfo que só será definitivo na escatologia final. Tomando esta palavra como forma significativa de um estilo, não de uma visão final, podemos afirmar que Jesus toma do AT as imagens para descrever duas coisas: o castigo dos rebeldes com a destruição do templo e portanto das leis mosaicas não naturais, e o início de um novo reino. As imagens do castigo estão tomadas quase literalmente de Isaías, sendo que Lucas une o mar (no seu abismo está o reino do mal) aos sinais perturbadores dos homens provindos do céu, onde estava escrito o sino da humanidade. E o julgamento será para, nesse dia [antigamente chamado de Jahveh e que agora se transforma no dia do Senhor Jesus], separar os crentes em Jesus dos que rejeitaram seu senhorio e se aferraram às práticas tradicionais para o rejeitar, como fizeram fariseus e escribas. Ficariam sem templo, sem lei e sem pátria. Seriam praticamente dizimados, a não ser pela abreviação dos dias por causa dos eleitos (Mt 24,22). Um segundo grupo de imagens é tomado de Daniel quando descreve no capítulo VII o quinto reino. “Eis que com as nuvens do céu vinha um como Filho do Homem; ele chegou até o Ancião e o fizeram aproximar-se da sua presença. E lhe foi dada a soberania, glória e realeza: as pessoas de todos os povos, nações e línguas o serviam. Sua soberania é uma soberania eterna, que não passará; e sua realeza, que jamais será destruída”(Dn 7,13-14). Tanto num caso como no outro, Jesus assume categorias divinas e assim o entenderam os juízes do Sinédrio e por isso decretaram que suas palavras eram blasfemas (Mt 26, 64-65).

A ESCOLHA: Então dois estarão na roça: um será tomado e o outro abandonado(40). Duas moendo no moinho:uma será recebida e outra largada( 41). Tunc duo erunt in agro unus adsumetur et unus relinquetur. Duae molentes in mola una adsumetur et una relinquetur. Agora se trata de uma verdadeira escolha: Não todos morrerão, mas haverá uma escolha, sendo que alguns serão salvos; fato que abre a esperança para a vigilância que é a conclusão final. Tanto no campo como na cidade, [o moinho de mão que usavam ao raiar do dia as mulheres], haverá quem morra, mas também quem seja salvo.  A que escolha e a que rejeição se refere Jesus? No mesmo capítulo, em versículos anteriores tinha dito que viria imediatamente após a tribulação desses dias (29) para começar a reunir seus eleitos de toda a terra (31). Evidentemente que isto não pode se referir ao eschaton final, mas a um anterior, secundário, em que alguns serão os escolhidos para o novo Reino e outros serão rejeitados e, como fim de tal  recusa, podemos pensar que terão o mesmo fim daqueles que não puderam entrar na arca.

VIGIAI: Estai vigilantes, porque não tendes conhecido em que hora vosso Senhor chega (42). Vigilate ergo quia nescitis qua hora Dominus vester venturus sit. A tradução  dos tempos verbais é em imperativo presente daí o estai e em perfeito do conhecer e em presente de chegar. O latim não tem, como no grego, a diferença entre imperativo aoristo e presente, daí o vigilate. E emprega, por motivos de gramática, o presente e o futuro dos outros dois verbos. O grego é mais incisivo ao promover uma vigilância constante e ao declarar que não se pode conhecer um fato do qual depende a vigilância. Dirigida a palavra a seus ouvintes presentes, a conclusão evidente e lógica é que estes serão testemunhas dessa vinda sem poder precisar o momento exato. Ver o Excursus final. Daí o exemplo e a conclusão final.

O EXEMPLO: Isso pois, sabei que se tivesse conhecido o pai de família em que vigília o ladrão vem, vigiaria e não permitiria ser perfurada a sua casa (43). Illud autem scitote quoniam si sciret pater familias qua hora fur venturus esset vigilaret utique et non sineret perfodiri domum suam. No possível, tenho guardado os tempos dos verbos no original grego. Vemos que o texto resulta pouco correto do ponto de vista gramatical. O latim, conserva a idéia e muda os tempos para ser sintaticamente correto. Três aclarações são convenientes: VIGÍLIA. As horas da noite eram contadas de três em três como vigílias, formando 4 vigílias ou horas de guarda durante a noite, do pôr-do-sol até a aurora. Já os judeus dividiam a noite em três vigílias de 4 horas cada uma.  VIGIAR: agrypneuo que originalmente significa estar sem sono e gregoreo  com  o significado de estar desperto. AGRYPNEÖ é usado 4 vezes sempre com o mesmo significado de estar atento, estar preparado, velar por, cuidar.  GREGOREÖ  [o verbo do versículo] com o significado de estar de vigília como o soldado, estar atento, cuidar, acautelar-se.  O encontramos 14 vezes no evangelho e 9 vezes no resto do NT. O sentido de gregoreo está claro no versículo 35 de Marcos 13, quando se contam as horas da vinda do amo segundo as vigílias dos soldados romanos. Muitos códices unem a oração a esta vigília noturna do versículo 33, como a Vulgata latina, usada como referencial durante muitos séculos. De modo que teríamos de traduzir vigiai e orai. Neste caso, compreenderíamos melhor o pedido de Jesus e a interpretação dos discípulos,  porque ambas as coisas estariam unidas. PERFURAR: As casas no tempo de Jesus eram feitas,  na sua maioria, de adobes. Chama a atenção que o ladrão tenha que perfurar [diorisso] ou formar um túnel através das paredes da casa, ou no teto (Lc 5, 9). Era o método comum na época, assim como atualmente é o de arrombar as portas. Era mais fácil fazer um buraco em paredes de adobe que abrir uma porta grossa de chave volumosa, com uma chave mestra, pequena, que pudesse forçá-la. Nesta pequena parábola é o tempo desconhecido, o quando, que monopoliza a atenção.

CONCLUSÃO: Por isso, também vós, estai preparados, porque na hora que não tendes pensado, o Filho do Homem se apresenta (44). Ideoque et vos estote parati quia qua nescitis hora Filius hominis venturus est. Usando  o presente [se apresenta] vemos como o grego dá mais força à advertência de Jesus para um atento cuidado e tempo de vigilância.

EXCURSUS

IMEDIATAMENTE: [Eutheos de meta tem thlypsin ton emeron ekeinon, porque imediatamente após a tribulação daqueles dias] (Mt 24, 29). Talvez esta seja a palavra chave para a interpretação de todo o trecho, indicando que a vinda de Jesus [parusia] está unida no tempo à destruição de Jerusalém, mostrando que o discurso de Jesus em Mateus não é sobre um eschaton absoluto, mas relativo e parcial. Isso pode ser confirmado, refletindo sobre lugares paralelos do mesmo Mateus e dos outros dois sinóticos, no mesmo discurso, mal intitulado escatológico, como é Mt 24, 34, no qual Jesus afirma que tudo será realizado durante a sua geração, afirmação que Lucas também repete em 21, 32. Em Marcos e Lucas não existem referências ao fim do mundo, como parece em Mateus e só aparentemente se fala da ruína de Jerusalém, pois de sua queda resultou a salvação (Rm 11,11) “Quando acontecerem estas coisas levantai a cabeça pois está próxima a vossa libertação”(Lc 21,28). Paulo o explica dizendo que deviam ser cortados os ramos para que a oliveira silvestre (dos gentios ) fosse enxertada (Rm 11, 19). A DÚVIDA: A que dia e hora se refere Jesus como o de sua vinda? Unicamente ao do fim da História humana, ou pode ser interpretado como o fim de uma época da mesma, especialmente do judaísmo como religião baseada no templo? Temos que interpretá-las como a história final, ou como história temporal? A consumatio orbis [do orbe] ou a consumatio urbis [da urbe ou cidade]?Nos textos de Marcos (cap 13) e Lucas (cap 21) não há nada que sugira uma história final. A pergunta é sobre o templo e os sinais que precedem sua ruína. Dir-se-á que existem certos fenômenos tanto cósmicos como sociais ainda sem cumprir, como em Lc 20, 25-27 ou em Marcos 13, 24-27 que devem suceder segundo Marcos após a grande tribulação. Que todos verão o Filho do Homem [Jesus como soberano e juiz] sobre as nuvens do céu. Em Lucas, temos uma passagem em que a vinda do Filho do homem está desvinculada da destruição de Jerusalém e que responde a quando virá o Reino de Deus (17, 22-37), que tem seu paralelo em Mateus 13, 24-27. Podemos, pois, afirmar que Mateus reuniu numa mesma redação dois momentos diferentes que Lucas distingue perfeitamente. Nos atrevemos, pois, a distinguir entre destruição de Jerusalém e Dia do Senhor,  que agora se transforma em dia do Filho do Homem. Sobre os fenômenos cósmicos e o comportamento social, comuns a Mateus, Lucas e Marcos, devemos dizer que são descrições de um gênero literário apocalíptico, em que as experiências [ou os fatos] estão cifradas e não reproduzem fatos históricos, mas são produtos de uma linguagem bíblica que não reflete exatamente uma realidade, mas uma profecia de calamidades. Ver Isaías 13, especialmente os versículos 10-16 sobre a queda de Babilônia. E não obstante, a ocupação da grande cidade foi uma entrada triunfal de Ciro no ano 539 o mais humano de todos os conquistadores. O pródromo [=mal-estar que precede uma doença] dos profetas é para indicar que na ação estava implicado o próprio Javé como causa cosmogônica e como vingador de condutas humanas detestáveis. Um autor, tão pouco heterodoxo como Tuya, afirma que não é necessária uma manifestação sensível e corporal de Cristo. Basta uma presença sua de ordem moral ou virtual.  Daí que Jesus pudesse afirmar que há aqui presentes que não gostarão da morte antes de ter visto o Filho do Homem vir em seu Reino (Mt 16, 28). O qual, evidentemente, não se refere a uma visão sensível de Cristo (Mt 10, 23): Não terminareis de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do homem. Diante do Sinédrio, Jesus afirma: vereis de ora em diante o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso vindo sobre as nuvens do céu. (Mt 26, 64).Tanto o grego como o latim usam palavras próprias para dizer que é de agora em diante [amodo e ap arti]. Com isso temos a solução: Desde sua morte, Jesus inicia um reinado que substitui o nacional teocrático, tornando-se Senhor do novo Eon e sendo juiz dos vivos e dos mortos, como tal constituído por Deus (At 10, 42). Estêvão dá a razão a Jesus muito antes da destruição de Jerusalém, quando viu os céus abertos e o Filho do Homem de pé à direita de Deus (At 7, 56). Conclusão: todos os capítulos 24 em Mt, 13 em Mc e 20 em Lc sobre o que chamamos discurso escatológico podem ser interpretados como tendo em vista a destruição de Jerusalém. Em vista desta proximidade do cumprimento desses dias de tribulação (Mt 24, 29) se compreende a advertência de vigiar dos versículos 32-51 com os quais termina o discurso. Em outro caso não teria razão de falar com gente que ainda nem tinha nascido. EXPLICAÇÃO: O capítulo 24 início do chamado discurso escatológico (?) de Jesus, começa com a destruição do Templo. Tudo indica que com ele Jesus toma a iniciativa de ser ele o templo do Senhor [de Javé] na terra, como Senhor de um novo reino numa nova era ou Eón como dizem os modernos. De fato o evangelho não é um conjunto de normas ou dogmas, mas se reduz a uma pessoa: Cristo, e a um sinal: a cruz. Onde estiver a cruz está o Senhor e a ele devemos serviço e adoração. Daí que Jesus reprova toda outra figura messiânica que não seja ele próprio (4-5). Ele virá imediatamente após a tribulação desses dias (29) para começar a reunir seus eleitos de toda a terra (31). Que entendemos por tribulação? Marcos fala sobre a grande devastação (13,24) que seguirá a Abominação da Desolação [bdelygma tes eremoseos] (Mt 24, 15 e Mc 13,14). Esta devastação é vista com o mesmo nome de eremosis em Lucas como sendo o cerco dos exércitos romanos (daí a abominação) a Jerusalém e a desolação [ou devastação] consequente à sua conquista. Devastação porque não ficará pedra sobre pedra e porque ao redor de Jerusalém as árvores foram taladas, de modo a devastar a região, para formar máquinas para o assalto, e cruzes para o castigo. A abominação está unida ao culto dos ídolos. Como vemos em Lc 16, 15 em que o que os homens exaltam [adoram] é abominação diante de Deus. Ou os três textos do Apocalipse que são com o anterior os 4 únicos do NT em que bdelygma <946> aparece. Por isso lemos que (Roma) é a mãe das meretrizes e das abominações sobre a terra (Ap 17,5). Sabemos como a idolatria é comparada à prostituição. É, pois, esse cerco que atua como sinal para a Parusia de Jesus ( Mt 24, 33 e Lc 21, 27). É tempo de fuga para os que estão em Jerusalém ( Mt 24, 16-21) e é tempo de libertação para os discípulos pois se inicia uma nova era ou Eón como dizem os modernos (Lc 26, 28). MORAL DA HISTÓRIA: A Parusia tem um significado etimológico como presença ou chegada. Mas em termos eclesiásticos ou cristológicos, significa Advento glorioso de Cristo no fim dos tempos. É bem verdade que também se admite uma segunda Parusia que foi o nascimento de Jesus em Belém  e além disso, seguindo o sentido etimológico, podemos falar de pequenas Parusias ou atos de presença de Cristo como poder divino, atuante na História. Uma delas é a destruição de Jerusalém. As tropas romanas foram o instrumento para a libertação dos cristãos. Outra, a batalha da ponte Milvio em que não faltou a cruz vista por Constantino e suas tropas. Outra, seria a batalha de Lepanto no século XVI em que as forças cristãs destruíram a marinha turca de modo a se iniciar a derrota do império muçulmano. Uma outra, nos tempos modernos, quando o muro de Berlim foi derrubado iniciando-se a desaparição do Comunismo Russo. Em todas elas a presença divina foi notável e teve como resultado a libertação dos homens e a afirmação de valores evangélicos. Vigilância, [estoimos] ou melhor, estai preparados. E dá a razão: porque não sabeis nem o dia nem a hora. Jesus não dá uma resposta definitiva à pergunta de quando e só dirá que tudo passará antes que acabe a sua geração [de 25 a 40 anos]. Consequentemente estamos vendo uma profecia de tempos já passados, mas que terá repetidas atuações em sucessivas dificuldades nos tempos presentes. Por que Deus não se manifesta de modo mais notável como um milagre espetacular? A resposta é que o milagre não conquista e, pelo contrário, torna muito mais culpados os que o rejeitam. Jesus o disse de modo mais categórico: O milagre que espera esta geração será o sinal de Jonas: a sua ressurreição (de Jesus) após três dias no seio da terra (Mt 16,4) porque  Nínive, pagã e pecadora, se converteu, enquanto os judeus não souberam interpretar os sinais dos tempos.

NOTA: O dogma do juízo final, após a consumação da História, tem no NT outras passagens que não podem neste artigo serem avaliadas. (ver Mt 12, 41-42). Uma outra consideração é sobre a ciência de Jesus que se considera limitada por sua condição humana, como ele mesmo diz, por não saber o dia nem a hora; mas também predisposta ou determinada pela ciência do seu tempo que a restringia.

PISTAS: 1) A vigilância: Lucas o explica em termos menos apocalípticos: Acautelai-vos por vós mesmos para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado pela devassidão, pela embriaguez, pelas preocupações da vida e não se abata sobre vós repentinamente aquele dia (21, 34). Por isso é necessário a vigilância e a oração (idem 36).

2) O que foi dito sobre um ato do passado, e em termos de coletividade, devemos repeti-lo sobre fatos futuros e individuais. Sabemos que a nossa Parusia particular é o dia da morte. Diante dessa certeza temos que recorrer à única preparação possível: Vigilância e oração, como temos visto em Lucas ou Paulo em Gl 5, 19-21.

3) Toda religião que promete um tempo imediato de parusia é falsa. Porque a parusia já está atuando desde a ruína do templo. Haverá momentos em que essa parusia (presença) se manifesta mais claramente como na queda do muro de Berlim, para citar um exemplo moderno. Mas Jesus está sempre presente e atuando na história. Assim como os judeus acreditavam na presença de Jahvé no templo, porque ele se manifestou no deserto, também temos o direito de ver Jesus na história, máxime quando sua presença é real na Eucaristia e ele a promete profeticamente: Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século (Mt 28,20).

4) Talvez seja esta a página mais sombria de um evangelho que se transmite como boa nova. Mas devemos pensar que as tintas negras são para um povo que, vendo, em primeira mão, a luz, não quis enxergar, e ouvindo diretamente as palavras da salvação, se obstinou em não escutá-las (Lc 8, 10). Por isso, a nossa oração deve ser como a do cego de Jericó: Senhor, que eu veja!(Mc 10,51)