EPÍSTOLA (Tt 2, 11-14)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

A MANIFESTAÇÃO DA BONDADE DE DEUS: Manifestou-se, pois, a beneficência do Deus, a salvadora, a todos os homens (11). Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus. MANIFESTOU-SE [epefanë<2014>=apparuit] do verbo epifanö aparecer, mostrar-se, vir à luz, tornar-se visível, tornar-se conhecido, manifestar-se. Em Lc 1, 79 o evangelista fala de iluminar aqueles que estão na escuridão e na sombra da morte, como voz ativa. Como intransitivo, que é nosso caso, temos At 27, 20: E quando nem sol nem estrelas durante muitos dias não apareceram. Portanto, o sentido é de se tornar conhecida a BENEFICÊNCIA [charis<5485>=gratia] de Deus. Charis é graça que é a qualidade que nos proporciona prazer, deleite; também é boa vontade, favor, benevolência, bondade, benignidade, especialmente da misericordiosa bondade pela qual Deus olha os que em Cristo se tornaram seus filhos. Pode ser sinônimo de eleos [misericórdia]. Beneficência é o amor gratuito pelo qual Deus nos salva e por isso Paulo acrescenta a qualidade de SALVADORA [sötërios<4992>=salutaris] adjetivo que tem como significado que traz a salvação ou salvadora para todos os homens. Deus não quer fazer distinção, como dirá Paulo, entre judeus e gregos (1 Cor 1, 24 e Rm 10, 12) porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. E por isso essa salvação chega a todos os homens.

O EXEMPLO: Educando-nos para que tendo negado a descrença e os desejos mundanos, prudentemente  e santamente e religiosamente vivamos nesta época (12). Erudiens nos ut abnegantes impietatem et saecularia desideria sobrie et iuste et pie vivamus in hoc saeculo. EDUCANDO-NOS [paideuousa<3811>=erudiens] particípio de presente do verbo paideuö que tem o duplo significado de instruir ou ensinar as crianças e também de castigar as mesmas, pois, segundo o velho ditado, as letras com o sangue entram, ou pueri et naves a posteriora reguntur. NEGADO [arnësamenoi<720>=abnegantes]  é o particípio de aoristo de arneomai, com o significado de negar, abjurar, renegar, renunciar. Aqui é negar com a ideia de renunciar. O que se renuncia é a falta de fé no evangelho que temos traduzido por DESCRENÇA [asebeia<763>=impietatem] propriamente é a falta de religiosidade, a irreverência ou desprezo, incredulidade e descrença que, dadas as circunstâncias, é a melhor opção. Dentre as coisas negativas que os fieis romanos tiveram que renunciar eram os DESEJOS MUNDANOS [epithymiais<1939> kosmikas<2886>= desideria saecularia] epithymia é a paixão, desejo e apetite tanto luxurioso como cobiçoso, que Paulo diz ser próprio do mundo ou mundano, como oposto à vontade de cumprir o que Deus ordena. Por isso, escreve uma fórmula breve, mas extremamente sensata de vida cristã. PRUDENTEMENTE [söfronös<4996>=sobrie] advérbio que significa sobriamente, temperadamente, moderadamente, controladamente, com o qual Paulo não condena todo uso de dinheiro e de prazer, uso que deve ser controlado, pois não são fins em si mesmos mas meios para uma vida que ele afirma deve ser vivida SANTAMENTE [dikaiös<1346>=iuste] ou em conformidade com as leis e mandatos divinos, respeitando a preeminência de Deus [RELIGIOSAMENTE=eusebös<2153>=pie] na vida humana nesta ÉPOCA [aiön<165>=saeculum]. Aiön é uma palavra que indica um período longo de tempo, como uma era, uma idade, uma geração e que por vezes se confunde com mundo e século, como em Hb 11, 3: pela fé entendemos que os mundos [aiönas] foram criados pela palavra de Deus. Em  Ef 2, 2 Paulo fala que noutro tempo andastes segundo o curso [kata ton aiöna] deste mundo [tou kosmou touto]. Poderíamos ter traduzido por geração deste mundo. Talvez, mais conforme ao nosso modo de pensar, no lugar desta época seria melhor o plural: Nestes tempos, ou o período da vida mortal de cada um.

A ESPERA: Aguardando pela ditosa esperança e a manifestação da glória do grande Deus e do nosso salvador Jesus Cristo (13). Expectantes beatam spem et adventum gloriae magni Dei et salvatoris nostri Iesu Christi. Neste modo de vida sóbrio e piedoso os fieis vivem AGUARDANDO [prodechomeneoi<4327>=expectantes] o verbo prosdechomai tem dois significados: admitir e aceitar, ou esperar e aguardar o cumprimento de uma promessa. É nesse último sentido que o temos traduzido. O que se está esperando é a MANIFESTAÇÃO [epifaneia<2015>=adventum] a comparência ou aparição da GLÓRIA  [doxa <1391>=gloria] esplendor, majestade de Deus a quem Paulo chama de GRANDE [megas<3173>=magnus] ou melhor, magnífico e do salvador nosso que é Jesus Cristo. De modo que a esperança do cristão não está no dia de amanhã, mas no DIA DO SENHOR, imprevisível no tempo e desconhecido na forma.

O SALVADOR: O qual deu-se a si mesmo por nós para resgatar-nos de toda iniquidade e purificar para si um povo próprio, zeloso de boas obras (14). Qui dedit semet ipsum pro nobis ut nos redimeret ab omni iniquitate et mundaret sibi populum acceptabilem sectatorem bonorum operum. Paulo termina este parágrafo com uma expressão dogmática que encerra uma ação de graças: Esse Salvador se  entregou a si mesmo para nos RESGATAR  [lytroö<3084>=redimere] o preço pago, que Pedro dirá não ser prata nem ouro, coisas corruptíveis, mas o precioso sangue de Cristo (1 Pd 1,18-19). E não só resgate da iniqüidade, mas também SANTIFICAÇÃO como se fosse uma limpeza das muitas purificações que os judeus tinham que fazer para se apresentarem diante da divindade. E assim formar um novo povo EXCLUSIVO [periousion<4041>=aceptabilis] que fosse diligente em realizar obras boas.

EVANGELHO (Lc 2, 1-15)

NASCIMENTO DE JESUS SEGUNDO LUCAS

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: O nascimento de Jesus foi anunciado (Mq 5, 1-3) e consequentemente previsto e querido de antemão por Deus em sua previdência ou economia de salvação, como se diz atualmente. E que tipo de família e que casa foram as escolhidas? São fatos que mostram a vontade divina tanto como a sua palavra pronunciada ou escrita pelos seus profetas. Outro assunto é o problema histórico que as narrações da infância, especialmente a de Lucas, apresentam para a crítica moderna, disposta a não aceitar, como históricos, relatos nos quais entra o sobrenatural. Impossível o milagre, impossível uma intervenção extra-humana, ou divina. A história só pode ser a narração de fatos humanos. O resto é mito ou lenda. E para isso, entre os fatos e a sua narração devem transcorrer anos suficientes para que, não existindo testemunhas visuais, esta última possa adquirir aspectos de realidade, embora seja uma elaboração fantástica. A uma e outra questão devemos enfrentar com espírito realista e com ânimo apologético.

O RECENSEAMENTO: Sucedeu, pois, naqueles dias, saiu um decreto procedente de César Augusto para recensear toda a terra habitada (1). Esse registro primeiro aconteceu, sendo autoridade governativa da Síria Quirino (2). Factum est autem in diebus illis exiit edictum a Caesare Augusto ut describeretur universus orbis. Haec descriptio prima facta est praeside Syriae Cyrino. A HISTÓRIA: É um pouco estranho encontrar em Lucas, pretendido historiador, que assinale com aparente precisão duas datas iniciais na vida de Jesus: a de seu nascimento e a do início da pregação de João Batista. Mas a sua morte está diluída no governo de Pilatos. Tem existido muita discussão sobre estes dados, tão precisos e ao mesmo tempo tão incompletos, de modo a dar interpretações confusas. Interessa-nos agora a data próxima ao nascimento de Jesus. São evidentemente dados históricos – conhecidos pelos documentos romanos correspondentes – a existência, nos últimos tempos do século primeiro aC de: A) César Augusto (na realidade Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus 23 de Setembro de 63 a.C.19 de Agosto de 14 d.C.) geralmente conhecido como Octávio. B) Públio Sulpício Quirino  [Publius Sulpicius Quirinus em latim] (45 aC –cerca 21 dC). C) Os recenseamentos de César Augusto: Foram três, o primeiro dos quais no ano 28 aC [749 da fundação de Roma] o ano 8 aC e o 14 dC segundo o famoso Monumentum Ancyranum. D) O recenseamento de Quirino  no 6 dC. Ao unir à Síria os territórios de Arquelau era o Legatus (delegado) da Síria, encarregado de fazer o censo na província e vender os bens patrimoniais de Arquelau na Palestina. Censo que é descrito por Atos 9, 37 e que deu lugar à insurreição de Judas o Galileu. DOGMA: Com o significado de opinião ou doutrina filosófica; e, a nível  civil, decreto, edito. OIKOMENOS: Temos traduzido por terra habitada, mas, na realidade, era o orbis latino, ou seja, as regiões dominadas e submetidas ao Império, que hoje chamaríamos mundo civilizado. Quando os evangelistas tratam da terra prometida ou Palestina falam com o nome de terra ou toda a terra. PRIMEIRO: Autë ë apografë prötë = Haec descriptio prima = Este o registro primeiro]. Há uma divergência notável na interpretação quanto ao adjetivo prötë [<4413>= no latim prima]. Prötë, feminino de protos, significa, como adjetivo, principal, o mais distinguido; e neste sentido, o primeiro em ordem de tempo ou espaço. Exemplos: A roupa ten proten [mais excelente] em Lc 15, 22 será a vestida pelo pródigo. Este é o prötë e grande mandamento (Mt 22, 38). Herodes convidou os protoi da Galileia (Mc 6, 21). Nestes casos, significa principal muito mais do que primeiro. E com o segundo significado de ordinal temos: na prötë emera, [dia] em Mc 14, 2. Modernamente a frase de Lucas seria melhor traduzida como anterior ao censo de Quirino, no lugar de primeiro censo de Quirino. Já temos dito que a frase era bastante estranha e que a tradução era difícil. Todo o parágrafo indica: A) que na Palestina houve vários recenseamentos; B) que entre eles, este foi o primeiro ou o principal. QUIRINO: Veremos mais adiante, no Excursus, a história deste personagem. Agora nos interessa a frase completa:  ëgemoneuontos tës Surias Kurëniou = facta est praeside Syriae Cyrino= foi feito sendo Quirino presidente da Síria. A tradução latina e a tradução da RA dão suporte a uma péssima interpretação: Quirino era o autor ou, pelo menos, o executor desse recenseamento. O grego não diz isso. Mas que o recenseamento aconteceu [egeneto] no tempo em que ele era o magistrado ou poder supremo na Síria.  O latim contribuiu para a errônea ideia de que Quirino foi  quem levou a cabo o censo, com o factum est que tanto significa sucedeu como foi executado. A BJ traduz: esse recenseamento foi o primeiro, enquanto Quirino foi governador da Síria. De fato, quem executou o recenseamento foi Herodes, o Grande, a pedido de Augusto. E foi no tempo em que Quirino era o chefe militar da Anatólia que no seu tempo abrangia provavelmente a Síria. Historicamente, podemos determinar estes dados: no ano de 133 a.C., Roma obteve como herança, após a morte do rei Átalo, de Pérgamo, a cobiçada província da Ásia. Em 129 a.C. Ásia se transforma em província proconsular. De 74 a 66 a.C., sob a liderança de Cneu Pompeu (Gnaeus Pompeius), Roma bateu o Rei Mitrídates VI do Ponto, numa disputa pela província da Ásia. Em consequência, foram incorporados ao Império Romano os territórios da Síria, Bitínia, Ponto, Cilícia, Galácia, Capadócia, Lícia e Panfília. A Armênia tornou-se um Estado vassalo.  Será em 64 a.C. que Cilícia e Chipre (Cilicia et Cyprus), tornar-se-ão província pró-pretorial. PRESIDENTE: hegemonos é traduzido por governador, mas deveríamos traduzir por autoridade máxima num dado território. Atualmente corresponde ao Presidente ou Governador de um Estado ou Província. De fato, Quirino foi cônsul no ano 12 aC e um ano mais tarde era nomeado Procônsul da Ásia num período compreendido entre 11 a 2 aC. Este é nosso caso. O pro significava estar no lugar de. Como era quase impossível a escolha anual de magistrados romanos nas províncias, estes eram escolhidos, a dedo, por um largo período e daí o nome de procônsul, propretor e proquestor. Quirino, pois, teve a maior magistratura na província da Ásia que, entre seu território, compreendia a Síria. Com a criação das províncias romanas, competia ao Senado nomear os governadores provinciais, o que era feito por meio de senatus consulta que designavam cidadãos romanos quer como procônsules, quer como propretores. Para as províncias mais tranquilas, o Senado nomeava propretores (propraetores, em latim), que haviam exercido a pretura no ano anterior. Para governar as províncias mais difíceis (na fronteira, por exemplo), geralmente com contingentes militares, o Senado designava procônsules (proconsules), que haviam servido como cônsul no ano anterior. Em ambos os casos, os funcionários mantinham, nas províncias, o mesmo nível de imperium de que gozavam no ano anterior, como cônsules ou pretores, o que lhes dava uma autoridade quase ilimitada nos assuntos provinciais. E P. S. Quirino foi nomeado cônsul junto com Válgio Rufo no ano 12 aC [justo um ano antes de seu proconsulado na Síria] e teve que enfrentar os bandidos armados da Cilícia [tudo concorda evidentemente com a narração de Lucas]. Uma outra questão é por que Lucas introduz este personagem. Pela simples razão de que era o mais conhecido dos hegemonos romanos entre os judeus, que nunca ouviram falar possivelmente de um suposto Gneus Sentius Saturninus legado imperial de 9 a 6 aC na Síria. Conclusão: Sabemos que Sulpício Quirino, nos tempos da morte de Herodes estava à frente de uma expedição militar nas províncias orientais do Império, ou seja na Síria, da qual formava parte a Cilícia (Tácito), com a evidência de que ele era um co-regente do governador, Quintílio Varo [o famoso general que perdeu em Teoturgo as legiões germânicas em 9 dC]. Era, pois, Quirino o chefe de uma missão militar, entre 12 e 6 aC. quando andava ocupado em vingar, na Cilícia, a morte do rei Amintas e esmagava os rebeldes homônades que tinham ousado enfrentar o poder de Roma. Este fato não pode fixar-se com toda a precisão, mas deu-se indubitavelmente entre o ano 9 e o ano 6 antes de Cristo. Como chefe militar, seu imperium era superior ao de qualquer outro magistrado e, sob as suas ordens, foi feito um recenseamento, mas a data deste é desconhecida.

EXCURSUS

O RECENSEAMENTO: O primeiro dos três recenseamentos de César foi feito no ano 28 aC, que corresponde ao 749 da fundação de Roma. O segundo foi feito no ano 8 aC e corresponde ao nosso caso. Havia duas classes de censo pessoal: a) o dos cidadãos romanos [census populi] tanto na Itália como nas províncias. Em grego apotímesis tou desmou (censo do povo), era feito com a finalidade de recolher impostos ou exigir o serviço militar. Normalmente requeria uma declaração [apografê] e uma valoração das propriedades [timësis]. Este tipo de censo foi feito nos anos 28 e 8 aC, e repetido em 14 dC. b) dos incolae, ou habitantes nas províncias que não tinham cidadania romana. Chamava-se também apografê, palavra que usa Lucas, e fazia-se nas províncias, dependendo das condições da demarcação em curso. Por exemplo, no Egito cada 14 anos desde o 33/34. Nas Gálias, 27 e 12 aC e 14-16 dC. E consta que na Lusitânia (Portugal), Espanha e Judeia realizaram-se também esta classe de apografés. Nas províncias imperiais, os delegados como era o caso da Síria-Palestina, podiam convocar o censo por própria vontade. Distinguia-se também entre apografé, um termo genérico para qualquer tipo de censo e apotímesis, termo técnico para um censo para fins fiscais. No nosso caso, não parece ser um censo fiscal, mas uma convocação para prestar um juramento de fidelidade a César no tempo de Herodes, feito por comparecimento à semelhança com o que foi feito em Paflagônia [região na costa da Anatólia central do Mar Negro]. O CENSO DE AUGUSTO: Há uma referência a este censo de Augusto datada no dia 5 de fevereiro do ano 3 aC num escrito pessoal do Imperador: Quando eu estava administrando meu 13º  consulado [2 aC.] o senado, e a ordem equestre e todo o povo romano me deu o título de Pai da Pátria. Por isso o registro da aprovação dos cidadãos deve ter sido feito no ano 3 ou 4 aC ou talvez antes. Orósio [século V] escreve que os registros romanos de seu tempo revelavam que um censo foi efetivamente feito quando Augusto foi nomeado o primeiro dos homens [uma adaptação de Pai da Pátria], num tempo em que as grandes nações deram um juramento de obediência a ele. Fato que data do ano 3 aC. Também Flávio Josefo corrobora este juramento de obediência a Augusto, afirmando que foi solicitado na Judeia pouco antes da morte de Herodes. Ainda mais, foi achada uma inscrição na Paflagônia [leste da Turquia] datada também no ano 3 aC mencionando um juramento de todos os habitantes da região nos altares de Augusto nos templos a ele dedicados nos vários distritos. E Moses de Khoren, historidor armênio do século V afirma que o censo que levou José e Maria a Belém foi dirigido por agentes romanos na Armênia onde colocaram a imagem de Augusto em todos os templos. Os detalhes indicam que Orósio, a inscrição de Paflagônia, Josefo e Moses apontam a um mesmo censo, feito no ano 3 aC e relatado por Lucas como motivo do traslado de Maria e José a Belém. É certo que foi começado anos antes, pois demoravam anos antes de serem cumpridos. Daí que, por exemplo, no Egito se realizassem cada 14 anos. Este juramento foi feito por ordem de Roma e com os procedimentos romanos: isto é, no lugar de residência de cada um, especialmente no Oriente em que  abundava a população flutuante. Foi feito para congraçar-se com César, aproximadamente no ano 7 aC. Seis mil fariseus se negaram e foram multados, multa que foi paga pela mulher de Ferora, irmão de Herodes. Este censo-juramento do ano 7/6 aC foi feito antes do censo de  Quirino, legado da Síria no ano 6/7 dC após a queda de Arquelau como etnarca da Judeia. Por que Lucas escreve sobre Quirino se não era propriamente esse o censo que obrigou José a ir a Belém? A solução é a memória incorreta dos judeus que consideravam como datas memoráveis, tanto a morte de Herodes quanto o censo de Quirino em que os tumultos do povo foram notáveis. A data, pois, de Lucas podia ser traduzida por: “antes do famoso censo de Quirino”. Foi feito no tempo em que Sentio Saturnino era legado da Síria (9-6 aC), segundo diz Tertuliano. A apografê ou inscrição de pessoas e propriedades iniciou-se em tempos de Saturnino (7/6 aC) e a ulterior apografesis (apotímesis) ou objetivo cadastral dos dados registrados, foi realizada por Quirino (6/7 dC ) com a conseguinte revolta dos contribuintes judeus. PUBLIUS SULPICIUS QUIRINUS (Cyrinus em latim): No ano 12 aC foi proclamado cônsul em companhia de Valgio Rufo. Tácito fala dele como um soldado intrépido e disciplinado que lutou contra os bandidos homonadenses na Cilícia ao sul da província da Galácia, sudeste da Ásia Menor, lugar montanhoso e terra perigosa pelos bandidos. Estrabão disse que após cortar toda possibilidade de mantimentos fez 4 mil prisioneiros e os deportou, de modo que ficaram as terras sem homens. Após o ano 4 aC foi Rector (assessor) de Gaio César, neto do imperador e filho adotivo do mesmo, nomeado, na época, vice-rei das províncias orientais entre as quais estava a Síria. No ano 6 dC, ao unir à Síria os territórios de Arquelau, Quirino foi o Legatus (delegado) da Síria, encarregado de fazer o censo na província e vender os bens patrimoniais de Arquelau na Palestina. Censo que é descrito por Atos 5, 37 e que deu lugar à insurreição de Judas, o Galileu. Segundo S. Justino, mártir (século II), Quirino era unicamente procurator, ou seja, assistente de Saturnino que era, de fato, o governador da Síria, como afirma Tácito. Por conseguinte, a data do nascimento de Jesus deve situar-se em 7 a. C. ou em 6 a. C., i. e. 7 ou 6 anos antes da nossa era! Foi esse mesmo Quirino que teve um segundo imperium [mandato] na Síria, estendido à Judeia no ano 6 dC, quando  esta ficou sob o controle direto de Roma; e como legado da Síria no ano 6 d. C., ele fez o inventário dos bens de Arquelau (herdeiro de Herodes), mas não podemos situar nesta data o nascimento de Jesus. E este censo foi feito por ordem do mesmo Quirino que esteve atuando no censo feito entre 8-7 aC. Uma afirmação de Tertuliano vem trazer-nos luz nova sobre este ponto. O grande escritor africano, excelente jurista e bom conhecedor dos documentos anagráficos romanos, apoiando-se não só no Evangelho de Lucas, mas num texto oficial do Império, atribui este censo do nascimento de Cristo ao legado Sêncio Saturnino. Ora, sabemos que o mandato de Sêncio Saturnino na Síria foi exercido desde o ano 8 até ao ano 6 antes de Cristo. Isto, que a primeira vista parece uma contradição, vem confirmar a afirmação do evangelista. Os dois textos completam-se, obrigando-nos a supor, ou que Sêncio Saturnino terminou na Judeia o que Quirino começara no resto da sua província, ou, o que é mais provável, que Saturnino atuava a título de colaborador de Quirino, ocupado na campanha contra os rebeldes da Cilícia, que pertencia também à província da Síria. O testemunho da Lápis Tiburtinus confirma o fato de Quirino ter sido legado na Síria duas vezes. Uma delas entre 10 e 7 aC por ocasião da guerra dos homonadenses, quando a administração civil estava nas mãos de outro administrador ou governador, incluindo Saturnino (8-6), em cujas ordens foi feito o censo, segundo Tertuliano. A outra como legatus após o ano 6 dC.

A VIAGEM: Assim, saiam todos para se registrar cada um em sua  própria cidade (3). Também, pois, José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré,  para a Judeia, a cidade de Davi que é chamada Bethleem, por ser ele da casa e família de Davi (4). Et ibant omnes ut profiterentur singuli in suam civitatem ascendit autem et Ioseph a Galilaea de civitate Nazareth in Iudaeam civitatem David quae vocatur Bethleem eo quod esset de domo et familia David. SUBIU: De qualquer ponto da Galileia ir às montanhas de Jerusalém era uma subida. Para mais detalhes, damos o versículo do salmo 24, 3: Quem subirá ao monte do Senhor?  E geograficamente Nazaré está a 140 m sobre o nível do mar, enquanto Belém está a 765m e o caminho era através do Jordão, que, no último trecho, estava a quase 300 m abaixo do mesmo nível. O último trecho era, pois, uma subida de Jericó a Jerusalém [já que Jerusalém está a 785 m acima do nível do mar] de 25 Km; e são mais 8 a percorrer para encontrar Belém. A viagem demorava aproximadamente 5 dias, já que a distância entre Nazaré e Belém é de 140 km aproximadamente. BELÉM: Inicialmente o nome da vila era Beit Lahama, em homenagem a Lahm, deus caldeu da fertilidade, que foi adotado pelos cananeus com o nome de Laham, a quem construíram um templo, localizado no atual Monte da Natividade, voltado para os vales férteis da região, depois chamados Campo dos Pastores. Fundada na região de Éfrata [=com honra, dito de uma mulher], nome de uma rica família que lhe deu o nome.  Narra o Gn 35,16: quando ficava um bom trecho de caminho para chegar a Éfrata, Raquel entrou em parto, um parto muito penoso….e morreu e foi enterrada em Éfrata. Pertencia à tribo de Judá e por isso era designada como Belém de Judá (Jz 17, 7 e Mt 2, 5) para distingui-lo de Belém de Zabulon (Js 19, 15). Nela existe o túmulo de Raquel. Ocupada pelos filisteus, foi fortificada por Roboão e repovoada quando da volta do exílio. Nela nasceu Jesus (Mt 2, 1-6; Lc 1, 4-15 e Jo 7, 42). 7, 42), cumprindo-se então a famosa profecia messiânica: “ E tu Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum o menor dentre os principais lugares de Judá. Porque é de ti que há de sair o Chefe, que há de pastorear o meu povo, Israel” (Mq 5,2). Belém, em sua etimologia judaica, significa Casa do Pão. O pão era o principal alimento de Israel, e por isso muito respeitado. O pão judaico era feito de cevada e com a flor da farinha [trigo] os israelitas faziam bolos. O pão usado era ázimo, isto é, sem fermento, sendo este último apenas um pouco de massa da véspera, posta em reserva. Este pão fermentado era tido como impuro, sendo proibido em algumas festas. Quando o judeu quer agradecer a Deus pelo alimento concedido é pão que ele leva ao templo. No tempo de Jesus, a população de Belém não excedia o milhar de habitantes. Não fora despropositada a preocupação de procurar um lugar solitário e tranquilo. Mais tarde, o mundo há de venerar a gruta onde acaba de ocorrer aquele nascimento prodigioso. Mas, transcorrido um século, já um escritor nascido naquela terra da Palestina, São Justino, nos falará dela com respeito, e algum tempo depois o grande Orígenes afirmará que até os próprios pagãos conheciam a cova em que tinha nascido um tal Jesus, adorado pelos nazarenos, mas as caravanas que passavam do Egito para Jerusalém davam-lhe certa vida. Um tal Camaam, filho de um contemporâneo de Davi, construíra em Belém uma pousada que, no tempo de Jeremias e talvez no tempo de Jesus, continuava a chamar-se o khan ou geruth – hospedaria – de Camaam.   Jerusalém e Belém distam uma da outra apenas duas horas de caminho, mas fazem parte de regiões geograficamente distintas. Ao deixar o planalto que as separa, a paisagem modifica-se bruscamente; é outro o ambiente, outro o clima, outro o curso das águas. É o vale que se estende em melodiosa policromia até a meseta situada sobre o Jordão; campos de trabalho, áridas planuras, terraplenos onde crescem oliveiras centenárias, depressões de uma beleza deslumbrante, defendidas do vento pelas montanhas do Oeste, onde os pastores têm os abrigos, e, ao centro, uma feraz terra de semeadura, que deu o nome à histórica povoação de Beth-lehem, “casa do pão”. Do outro lado de Belém, estendia-se um vasto ermo, terra inculta e abandonada, por onde erravam numerosos rebanhos guardados pelos respectivos pastores, quer no inverno quer no verão, de dia ou de noite. Embora mal vistos pelos doutores de Israel, já que davam muito pouca importância aos seus ensinamentos sobre abluções, dízimos, alimentos impuros e a observância do sábado, esses pastores eram os continuadores dos patriarcas bíblicos. Levavam a mesma vida que eles e, tal como eles, contemplavam todas as noites o céu coalhado de estrelas, negro, profundo, aveludado. Os seus atuais descendentes continuam a levar os rebanhos sem rumo fixo por aqueles ermos e planícies, e são designados por um nome que significa: “os que vivem ao relento”. Nômades, livres, de uma liberdade adquirida à força de fadigas, privações e desprezos, conservam melhor do que os habitantes das cidades a fé simples, a piedade sincera e as antigas tradições de Israel.

COM MARIA: Para se registrar com Mariam, mulher desposada com ele, estando em cinta (5). Ut profiteretur cum Maria desponsata sibi uxore praegnate. Lucas diz-nos que José levava consigo Maria, sua esposa, que estava grávida. Na realidade, ela não tinha obrigação de ir, uma vez que não era abrangida pela lei; mas era impossível deixá-la só naquele estado. Aliás, não é improvável que, dadas as circunstâncias prodigiosas da concepção, o casal tivesse resolvido estabelecer-se no lugar de origem da linhagem de Davi já que, segundo o anjo Gabriel, Deus daria ao fruto que esperavam o trono de seu pai Davi.  Maria, que nenhumas dores sentira ao dá-lo à luz, estava em condições de lhe prodigalizar pessoalmente os primeiros cuidados. É um pormenor, esse de Maria acompanhar a José, que o evangelista não quer omitir, para nos dar a entender que, se foi concebido milagrosamente, mais milagrosamente nasceu. “Jesus – diz São Jerônimo – desprendeu-se da mãe como o fruto maduro se separa do ramo que lhe comunicou a seiva, sem esforço, sem angústia, sem esgotamento”. E noutro lugar diz: “Não houve ali auxílio algum de outra mulher, como logo julgaram os evangelistas apócrifos. Foi Maria quem envolveu o Menino em panos. Ipsa mater et obstetrix fuit: a própria mãe foi a parteira”. MOTIVO: Qual foi a intenção de Lucas em narrar esses detalhes? Sem dúvida, delimitar o nascimento de Jesus com fatos históricos conhecidos na sua época. Ele quer ser um historiador e não um inventor de lendas ou mitologias. À parte essa intenção, temos a ação do Espírito que nos dá detalhes para combater uma das mais sugestivas heresias do primitivo cristianismo: o docetismo, que pretendia provar que o corpo de Jesus era aparente. Os detalhes de seu nascimento desbaratam semelhante disparate. Outra intenção é ligar Jesus com Davi, não unicamente como descendente, da mesma tribo, mas também como um nascido no mesmo lugar, para indicar a ininterrupção da realeza fundada no mais famoso dos reis de Israel. O nome Betlehem, casa do pão, é simbolicamente uma referência ao que chamar-se-ia pão descido do céu ( Jo 6, 51). Belém era a cidade de Davi e seria logo a cidade de Jesus.

O PARTO: Aconteceu, pois, que estando eles ali, completaram-se os dias de ela dar à luz (6). E deu à luz o seu  filho, o primogênito, e o enfaixou e o depositou no estábulo, porque não havia para eles lugar na sala superior (7). Factum est autem cum essent ibi impleti sunt dies ut pareret. Et peperit filium suum primogenitum et pannis eum involvit et reclinavit eum in praesepio quia non erat eis locus in diversorio. O PARTO: O parto se efetuou segundo os dias costumeiros de uma mulher. Tudo para indicar que Jesus era um homem normal de corpo e osso, formado durante a gravidez no seio de Maria (contra o docetismo e a heresia de Marcião). O envoltório em faixas era coisa rotineira entre as mulheres da época e da Palestina. Só deixavam o rosto do menino sem envolver. O detalhe de que foi Maria quem o envolveu, indica que esta não estava traumatizada pelo parto, e que José, segundo o costume da época, não estava presente. Talvez fosse a busca de uma parteira, que no caso não foi necessária. Assim o afirmam os apócrifos que, se bem rodeiam o sucesso de acontecimentos sobrenaturais, dizem uma coisa importante do ponto de vista humano e real: não houve parteira. “Tirai-me esses panos vergonhosos e essa manjedoura, indignos do Deus que adoro” – dirá Marcião, um dos primeiros hereges. E Tertuliano lhe responderá: “Nada mais digno de Deus que salvar o homem espezinhando as grandezas transitórias, julgando-as indignas de si e dos homens”. PRIMOGÊNITO: A palavra protótokos (primogênito ou primeiro nascido) tem um valor técnico, religioso. Traduz a palavra hebraica Bekor, que tem valor semântico como primícias que devem ser dadas a Jahveh. Já em Gn 4, 4 Abel oferecia os primogênitos de seu rebanho a Javé, e  em Êxodo 13, 2 Javé manda consagrar todos os primogênitos de Israel [bikeri  Israel] tanto de homens como de animais, pois todos são dEle. Nada indica sobre outros filhos. Um filho único é primogênito, segundo a linguagem bíblica. O KATALYMA: Em grego katalyma <2646> [traduzido ao latim por diversorium= estalagem, pousada, albergue, a típica taberna [inn] inglesa]. O significado inicial de Katalyma era o de quarto de hóspedes. A palavra tem origem em kataluein, verbo que significa desatar. Era inicialmente o lugar em que se desatavam as cavalgaduras após a viagem (malon em hebraico) ou albergue noturno. Ou seja, um albergue, que pode ser até uma casa particular, LISHK. Também a sala de invitados como em 1Sm 1, 18 (só nos setenta). Tanto Marcos como Lucas, usam katalyma para a sala de refeição da última ceia, que a vulgata traduz por refectio (refeitório) em Marcos e diversorium (alojamento) em Lucas. E dizem ambos os evangelistas que o dono mostrará o ANAGAION (cenaculum em latim) em ambos os casos. Uma solução moderna é dada pela arqueologia: As casas de Belém não eram covas escavadas no monte, como eram as de Nazaré, mas construídas ao redor de um pátio comum. Eram casas de dois andares. O andar inferior era uma cobertura em forma de arco ou abóbada, sobre a qual estava a casa propriamente dita à qual se subia por uma escada externa. Nessas habitações do andar superior não havia lugar, nem espaço físico disponível, nem lugar decente para um parto. Por isso, José e Maria escolheram o andar inferior, o estábulo dos animais. Aliás fatnë pode ser traduzido por estábulo, de modo que Maria deitou o menino no estábulo. Os pastores recebem como sinais (Sëmeion ou Oth em hebraico) as faixas e o presépio, ou estábulo. Sëmeion era um meio da manifestação divina, nem sempre miraculoso. Assim o arco-íris era sinal de não acontecer um novo dilúvio. São fatos indicadores de um acontecimento que deve ser conhecido. Não são apologéticos, mas didáticos, que comportam um fato real, e consequentemente não sobrenaturais. O simbolismo das faixas pode ser evidente, pois Salomão em Sb 7, 4 relaciona sua condição de REI com o fato de ter sido envolto em faixas e afirmando que nenhum entre os reis teve outro início ao nascer. Ou como Moisés que foi envolto pela própria mãe por falta de parteira [o que confirma nossa opinião anterior]. Melhor, parece ser um sinal de que Jesus é como todo homem quando criança e que é amado e acolhido, à diferença de Jerusalém que, segundo afirma Ezequias 16, 4-5, tornar-se-ia uma cidade abandonada. Antes pelo contrário, teve uma verdadeira mãe que o cuidava desde o primeiro instante. Um messias-menino era praticamente impensado nos tempos de Jesus. Uma mãe solícita é o que descobrimos neste relato íntimo e familiar. Os católicos descobriram Maria como instrumento vivo para a  vida do Salvador. O Verbo escolheu o Homem Jesus, mas também escolheu de modo especial Maria como mãe. O PRESÉPIO: (Fatnë ou Ebus). É a manjedoura das traduções vernáculas. Mas a palavra grega, fátnë, também pode significar estábulo, curral. Isso facilitaria a compreensão do sinal dado aos pastores. O midrash judeu recolhe a lenda em que, Adão castigado depois do pecado, replica a Deus: terei que comer no mesmo presépio que meu asno? Outra explicação é a de Isaías: conhece o boi seu dono e o asno o presépio de seu amo; mas Israel não me conhece; o povo não me discerne (1,3). Daí o boi e o asno no presépio natalino, que se tornaram uma imagem tradicional. Agora serão os pastores, os mais humildes, que receberão o sinal e poderão conhecer o rei Jesus em circunstâncias tão impróprias, fora de todo palácio e de todo leito real. Finalmente, o presépio era um sinal de que o menino era descendente de um rei que tinha sido pastor e desse ofício elevado a rei. Será, pois, aos pastores que Deus revela sua providencial intervenção de um Messias-pastor, nascido de uma mulher sem especial relevância (Lc 2, 48), mas que como a mãe de Moisés, o outro grande líder de Israel, não teve parteira no nascimento do seu filho, já que esta tinha como cometido matar os varões nascidos entre os filhos de Israel.

OS PASTORES: E havia pastores naquela mesma  região vivendo no campo e vigiando à noite sobre seu rebanho (8). Et pastores erant in regione eadem vigilantes et custodientes vigilias noctis supra gregem suum. Ao oriente de Belém, a caminho do Mar Morto, estende-se a planície verde onde ficava a célebre torre do rebanho, junto da qual Jacó armara a sua tenda para chorar a amada Raquel. Uma igreja, escondida entre oliveiras, assinala o lugar onde se abriram as nuvens para permitir que uma nova luz se visse, o resplendor que viram os pastores. Eram nômades que viviam no descampado, pastoreando seu rebanho e à noite faziam suas vigílias para guardá-lo. O Talmud [escrito nos inícios do século II] que é uma condensação de tradições judaicas, afirma que naquelas paragens de Belém, os rebanhos saiam para os campos em Março e os pastores os recolhiam no princípio de Novembro. Deste modo, em Dezembro já não estavam nos campos, porque, nessa época, em Belém, que se situa entre 770 e 820 m de altitude, reina a geada. E assim, Dezembro não é o mês mais provável do nascimento de Jesus. E se, frequentemente, o Talmud contradiz escritos do séc. I (não devendo merecer credibilidade histórica) é certo que não temos nenhuma informação de maior credibilidade que contrarie esta, tanto mais que as tradições dos pastores são difíceis de serem alteradas, ainda hoje. Deste modo, em Dezembro, já não estavam nos campos. Não era aos poderosos da terra, não era aos doutores do templo que a mensagem se dirigia, mas aos pobres pastores do deserto, gente desprezível e suspeita aos olhos dos escribas, que os excluíam dos tribunais e recusavam o seu depoimento nos julgamentos, e tinham inventado este provérbio depreciativo: “Não deixes que o teu filho seja guardador de burros, condutor de camelos, bufarinheiro [buhonero espanhol] ou pastor, que são ofícios de ladrões”. Os pastores eram também considerados como ladrões, pois seus rebanhos entravam nos pastos vizinhos a comer, para não falar do vício da ludopatia, pois passavam grande parta do tempo jogando aos dados. Como seria possível submeter essa gente ambulante, ladra, que acima de tudo precisava pensar em viver, às mil prescrições que complicavam a Lei? Mas a vida de Cristo aparece impregnada, logo desde o início, de uma profunda ironia contra os sábios e poderosos. Quando começar a sua atividade missionária, dará como sinal da sua missão divina a evangelização dos pobres. E eis que, mal acabado de nascer, já os pobres são evangelizados. E os pobres compreenderam e acreditaram: acreditaram que o Messias havia nascido. Em que ano? Ora, em setembro ou outubro do ano 5 a.C. adoecera o monarca [Herodes, o Grande], retirando-se para o outro lado do Mar Morto, onde morreria em Jericó após um eclipse da lua. E foi antes de sua morte que ele quis matar o menino, que tinha menos de dois anos na ocasião. Logo nos aproximamos de uma data que é aceita como a mais provável: entre o 7-6 antes de nossa Era.

O ANJO: E eis que um anjo d(o) Senhor apresentou-se a eles e (a) glória d(o) Senhor brilhou em torno deles e temeram com grande medo (9). Et ecce angelus Domini stetit iuxta illos et claritas Dei circumfulsit illos et timuerunt timore magno. A aparição do anjo, que veio interromper a conversa noturna em torno da fogueira, encheu-os de espanto. Um israelita não podia ver um raio de glória caído do céu, sem o associar à recordação dos raios de Javé, portadores de morte. DOXA KYRIOU: (o Kabod Jahveh) os envolveu de luz. No grego clássico doxa é a opinião favorável dos homens. No grego bíblico corresponde à tradução de Kabod, ou seja, a manifestação visível de Deus junto ao seu povo, rodeando o tabernáculo (Êx 16,10) ou o templo, na visão de Ezequiel (Ez 9,3). Deus toma como nova moradia os corpos simples dos pastores. São os novos tabernáculos, segundo o que Jesus declara à samaritana (Jo 4,24), pois a glória do Senhor [doxa kyriou =Claritas Dei] é, na tradição sacerdotal, um sinal característico da presença de Jahveh (Êx 2, 10 e 40, 34). Era uma luz que os envolveu como fez com os apóstolos, no monte Tabor, a nuvem luminosa que indicava a presença divina e da qual saiu uma voz (Mt 7, 5). No dia da ressurreição, o anjo tinha o rosto de um relâmpago e sua vestimenta era branca como a neve (Mt 28, 3). Isso explicaria a luz em que foram envoltos, pois o anjo estaria a pouca distância dos pastores.  Lucas não diz em que forma apareceu o anjo, mas pelo que vemos em outras circunstâncias seria em forma de um jovem ou adolescente [neaniskos de Mc 16, 5]. Seu rosto luminoso como um raio de luz e suas vestes brancas como a neve. Em Fátima os três pastorinhos foram surpreendidos por “uma luz mais branca que a neve”, na forma dum jovem. Este diz-lhes: “Não temais. Sou o Anjo da Paz. [Como três crianças, sem nenhuma instrução,  respondem com exatidão aos dados que conhecemos pelas escrituras!]. Enquanto os evangélicos apresentam os anjos como uma luz, as maiorias das apresentações católicas os representam como uma jovem mulher. Ambos estão errados provavelmente. Seu aspecto era o de um adolescente ou de um homem, que se distinguia do tipo comum pela luz que dele saia e das roupas brancas que vestia (Lc 24, 4). O MEDO: É próprio de todo relato de aparições, este medo que Lucas traduz da expressão hebraica. É o yirah [<03374>fobos= timor] ou  yirat Elohim [= Timor domini, fobos theou, temor de Deus]. Temor que recebe o nome de grande quando a epifania divina está presente nas mentes dos que a experimentam: Os marujos, no caso de Jonas [efobethesan fobon megan, tremeram com grande medo, timuerunt timore magno] palavras exatas repetidas por Lucas nesta ocasião. Ter visto a Deus ou a sua majestade nos anjos, era o mesmo que uma sentença de morte. Fala-nos tu… não nos fale Javé porque morreremos (Êx 20, 19).

O ANÚNCIO: Então lhes disse o anjo: Não temais: Pois eis que vos evangelizo uma grande alegria, que será para todo o povo (10). Porque  vos nasceu um salvador, que é Cristo Senhor, na cidade de Davi (11). Et dixit illis angelus nolite timere ecce enim evangelizo vobis gaudium magnum quod erit omni populo. Quia natus est vobis hodie salvator qui est Christus Dominus in civitate David. GRANDE ALEGRIA: A alegria, ou melhor, o gozo é uma constante do evangelho da infância de Lucas: João será para seu pai alegria e regozijo e muitos se alegrarão (Lc 1, 14). Maria deve se alegrar (Lc 1, 28). O feto se estremeceu de alegria no ventre de Isabel (Lc 1, 44). Maria canta: se alegrou meu espírito (Lc 1, 47). Os vizinhos se alegram com o nascimento do Batista (Lc 1, 58). Mas a causa de toda essa alegria é um nascimento que dá origem a todos os regozijos; é o nascimento que hoje se celebra também com festa em todo o orbe: o de um menino que os homens e mulheres de fé afirmam ser o Filho de Deus e filho de uma mulher ao mesmo tempo. Isso é o que o anjo anunciou aos pastores: O nascimento de um Salvador, Messias Senhor, que por sua vez era causa de um grande gozo para todo o povo de Israel. Pois o Laós bíblico significa o povo escolhido diferente do ethnos, povo gentil. SALVADOR: Sötër [<4990>= salvator (Moshi‘á)] é o titulo de Deus quando realizava atos salvadores, o salvador de Israel (1 Sm 14, 39 ). Da raiz Yesha (salvação) provém o nome Yeshuá, nome em hebraico que traduzimos por Jesus. Sötër foi o título que Augusto recebeu, segundo a inscrição de Priene, perto de Mileto [na atual Turquia, onde se obtinha a melhor lã da Grécia antiga] no ano 9 aC em que o Imperador, nosso benfeitor, nosso salvador [soter]: o dia de seu [do deus] nascimento, começou para o mundo o início das boas novas [tön evangeliön]. O paralelismo é, quando menos, notável. Só que o César era louvado pela pax romana e Jesus pela pax divina. Aquele pelo bem terreno e este pelo perdão dos pecados. Aquele para o mundo do império, este, nosso Jesus, pelo povo de Israel. São duas primazias opostas e divergentes. CRISTO: O segundo título dado pelo anjo é o de Cristo (Khristós [<5547>] ou Mashiáh [<04899>]), Ungido.  Ora, no AT, o cerimonial da unção realizava-se sobre alguns objetos sagrados – o tabernáculo, as pedras votivas, os altares -, mas centrava-se, particularmente, numa representação pessoal tripartida. Falamos, naturalmente, dos sacerdotes, dos profetas (Elias, Eliseu) e dos reis    (Saul, David, Salomão, Jeú, Joás).  Em Jesus se deram as três funções ao mesmo tempo. Porém o Ungido identificava-se com o Messias. SENHOR: O terceiro título é o de Senhor (Kyrios, <2962>) que no AT era a tradução de Jahveh, no aramaico Mareh só para reis e deuses e daí a fórmula maranathá= Senhor, vem! em 1 Cor 16, 22). Os três títulos aparecem de novo unidos em Fp 3, 20: “Nossa pátria está nos céus de onde esperamos como salvador o Senhor Jesus Cristo”. NA CIDADE DE DAVI: Na realidade, a cidade de Davi era o monte Ofel [=monte], ao sul do Moriá [de duvidosa etimologia e que se identifica com a esplanada do primeiro templo em 2 Cr 3, 1]. É Davi quem conquista a cidade de Jerusalém, até então habitada pelos jebuseus (2 Sm 5, 5-11), estabelecendo aí a sua capital, no “Ofel” (Monte Sião) e preocupa-se, a partir de então em atribuir à cidade a suprema importância quer pessoal, quer política ou religiosa. Porém este anúncio do anjo refere-se à pequena aldeia de Belém, cidade na qual nasceu Davi.

O SINAL: E isto (é) o sinal  para vós: encontrareis um infante, enfaixado, estando reclinado em manjedoura (12). Et hoc vobis signum invenietis infantem pannis involutum et positum in praesepio. A primeira parte é um hebraísmo, que omite o verbo ser. O sinal é de que não devem esperar um Messias adulto como era a opinião comum na época, vindo do deserto, mas que seria um menino recém-nascido e não um adulto recém encontrado. O Brefos grego indica menino como feto, recém-nascido, ou infante na mais tenra idade. O sinal não é tanto um sinal sobrenatural, mas um sinal de que hoje, é o dia em que nasceu seu Salvador. E de que a visão de um Messias acabado de nascer não era um produto de imaginação, mas uma realidade. Provavelmente não houve em Belém outro nascimento nesse mesmo dia e por isso era ao mesmo tempo uma revelação de um fato acontecido que eles não podiam inventar. Aliás, a manjedoura [ou estábulo] indicava que a família não era do lugar, era forasteira, pois caso contrário, estaria no berço e dentro de uma casa, como encontraram os reis o menino algum tempo depois. Era num estábulo onde encontrariam o menino. Não havia dúvida com semelhantes pormenores. Nisso consistia precisamente o sinal, e não em extraordinários portentos como o quarto evangelista narra dos semeia [sinais] de Jesus (Jo 2, 23). Era um sinal didático e não maravilhoso. Podemos, é verdade, refletir sobre a pobreza, ou melhor, a humildade do Messias, pois as circunstâncias modestas e de uma simplicidade e pobreza, aparentemente extremas, foram previstas pelo Pai para seu Filho.

O CÂNTICO: E de repente sucedeu com o anjo uma multidão de exército celeste louvando a(o) Deus e dizendo (13): Glória nos mais altos (lugares) a Deus e sobre a terra paz, em homens de benevolência (14). Et subito facta est cum angelo multitudo militiae caelestis laudantium Deum et dicentium. Gloria in altissimis Deo et in terra pax in hominibus bonae voluntatis. OS ANJOS: A expressão multidão de exército celeste é puramente semítica que em 1 Rs 22, 19 designa os espíritos celestes que constituem a corte de Javé. Deus, que não se agrada dos cânticos e músicas de um povo prevaricador, recebe a verdadeira glória de seus fieis cortesãos e neles se compraz e deleita com satisfação. É propriamente o canto de glória do Messias, de seus atributos e de seus efeitos, tanto nos céus como na terra. É um cântico breve de 11 palavras gregas, sem verbo algum nem artigo. Há uma leitura duvidosa: a palavra EUDOKIA, nominativo, pode ser um genitivo: EUDOKIAS. Esta segunda é a preferida pela Vulgata [bonae voluntatis] e pelos códices mais antigos. GLORIA: A Doxa significa honra que se deve tributar a Deus, como o leproso samaritano em Lc 17, 18. A divindade tem uma série de atributos que formam sua Doxa (sabedoria, poder, imortalidade…), mas o homem pode dar graças por uma intervenção poderosa e salvadora de Deus e esta é a glória que a Divindade espera e que os anjos louvam como louvarão os eleitos a majestade divina, por toda a eternidade. PAZ: ou Eirene, (shalom em hebraico) é o oposto a guerra e, em sentido figurado, significa tranquiliade de espírito. Biblicamente no NT significa o conjunto de bens desejáveis. Quando se trata da paz messiânica, abrange todos os bens, essencialmente os de ordem espiritual, provindo diretamente de Deus. O Messias devia aportar como príncipe da paz (Is 9,5), afirmando Miqueias que ele mesmo será a paz (5,4). O salmo 85, 9-10 resume perfeitamente este ambiente messiânico: Vou ouvir o que Javé Deus diz, porque ele fala de paz ao seu povo e seus fieis, para que não voltem à insensatez. Sua salvação está próxima dos que o temem e a Glória habitará em nossa terra. Após o cântico de Zacarias a paz tem um sabor de perdão, de amizade renovada após um período de inimizade (Lc 1,77). Cristo fez horizontalmente de dois povos um só e verticalmente reconciliou a humanidade com Deus (Ef 2, 14-18). A Nova Aliança, que foi chamada pelos profetas aliança de paz (Ez 37,26), seria uma aliança entre amigos e não mais entre servos (Jo 15,15). A BOA VONTADE: é uma tradução pouco feliz da palavra grega EUDOKIAS, que significa complacência, beneplácito; sem dúvida do hebraico RATSON, prazer, satisfação. É a palavra empregada no batismo de Jesus quando se submete à humilhação de ser considerado pecador (Lc 3, 22) ou no momento da transfiguração (Mt 12, 18). Há um fundo em todos eles de filiação, o verdadeiro filho de Deus, que se submete e no qual o Onipotente admite ter verdadeira complacência: Paz na terra aos filhos do beneplácito divino poderíamos traduzir em definitivo. Era essa a boa nova prodigiosa: a paz. Cristo quis nascer num momento assinalado pela paz que as vinte e cinco legiões de Roma mantinham em todas as fronteiras. Mas a paz que Ele trazia era muito mais profunda e duradoura. Era a paz que unia o homem com Deus, que havia de tornar felizes as almas que, pelos seus atos, se tornassem dignas do beneplácito divino. Aí temos a tradução exata do termo que Lucas usa: “Paz na terra aos homens por Ele amados”.

EXCURSUS

NOITE DE NATAL: Qual foi o tempo do ano em que nasceu Jesus? O dia 25 de dezembro da tradição é evidentemente falso. Só temos um dado certo no evangelho de Lucas: Os pastores estavam no campo durante as vigílias da noite e guardavam os seus rebanhos. Temos também um dado certo da climatologia: Em dezembro estamos na estação das chuvas e faz muito frio. É por isso, que os pastores têm seus rebanhos recolhidos e abrigados e não nos campos. Os pastores, na Palestina, costumavam enviar suas ovelhas aos desertos por ocasião da Páscoa e recolhê-los no começo das primeiras chuvas,  que começavam em meados de Heshvan [início de novembro]. Portanto o Messias não nasceu no dia 25 de dezembro quando não havia pastores no campo. O nono mês [kishlev] corresponde ao nosso dezembro. Pois bem: temos na escritura em Esdras 10, 19: todos os homens de Judá e Benjamim, em três dias, se ajuntaram em Jerusalém; era o nono mês, no dia vinte  do mês; e todo o povo se assentou na praça da Casa de Deus, tremendo por este negócio e por causa das grandes chuvas. E o frio é confirmado em Jr 36, 22: Estava, então, o rei assentado na casa de inverno, pelo nono mês; e estava diante dele um braseiro aceso. O que os pastores estariam fazendo, com seus rebanhos no campo, num tempo de chuvas e frio? Daí que não sabemos, nem o dia, nem sequer o mês em que Jesus nasceu. Clemente de Alexandria (243 dC) fala de que certos teólogos egípcios indicam o dia do nascimento de Jesus como sendo o 25 de Pachon [maio] do vigésimo oitavo do reinado de Augusto. Outros, o 24 ou 25 de abril. Porém ele mesmo tem como certa a data de 25 de março. Data em que foi criado o sol. Para os basilianos [monges de S. Basílio] seria entre os dias 6-10 de janeiro porque muitos códices afirmam no lugar de tu és meu Filho em quem me agrado, o hoje eu te gerei, e como a festa era celebrada no dia 6 de janeiro daí a confusão, até o ponto de que uma cruz com a imagem da Maria era levada em procissão com o canto de a Virgem deu à luz hoje nesta hora o Eterno. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV no dia 25 de Dezembro) na data atual. Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno. A GRUTA: Era gruta ou estábulo? Hoje esta última interpretação é a mais seguida. Porém, segundo uma tradição que vem do séc. II (S. Justino, nascido na antiga Siquém), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém, que, ao mesmo tempo, podia ser o estábulo [fatnë] grego. Nessa gruta, Santa Helena, mãe de Constantino, no princípio do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adônis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos.

PISTAS: 1) Muitos acreditam que quanto mais divinizemos a figura de Jesus tanto mais se tornará em proveito próprio essa imagem sagrada do mesmo que aparentemente despojamos  da vertente humana. O evangelho de hoje mostra o contrário: Deus quis se aproximar do homem, tornando-se um de nós, sem diferença, porque ele ama a humanidade e a admite no seu Filho. A humanidade de Jesus, como diz Teresa d’Ávila, deve ser sempre o motivo de nossa meditação. Como homens devemos ver nele o nosso espelho.

2) Se Cristo é como homem, o modelo, poderemos pensar que tipo de homem [o sábio, o rico, o poderoso, o louvado e estimado], ou pelo contrário [o pobre, o humilde, o necessitado, o escondido e até excluído], foi desde o início o homem Jesus em quem o Verbo quis habitar pessoalmente unido a Ele. Evidentemente o evangelho de hoje escolhe este segundo tipo e o descreve com especiais detalhes de modo que ninguém se sinta envergonhado de sua pequenez e insignificância.

3) Jesus é pastor, nasce como pastor e é visitado e adorado por pastores antes de ser Rei. Deus, entre os homens, gostará de ser o verdadeiro pastor, trocando uma realeza esperada como era a esperada de um descendente do rei Davi, pelo ofício que este tinha de cuidar das ovelhas. O reinado de Cristo começa pelo serviço como pastor que dá a vida pelas ovelhas.