EPÍSTOLA (2 Cor 1, 18-22)

(Pe.Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Paulo foi gravemente caluniado como falso apóstolo, especialmente após o escândalo do incestuoso (1 Cor 5, 1-5) e de não cumprir suas promessas de visitar os corintianos, coisa que não realizou de imediato. Daí que o seu sim fosse também não como parece indicar no começo de hoje. Ou seja, que ele não tinha uma palavra da qual se podia confiar. Este trecho da sua carta é sua defesa como palavra sempre a ser realizada, o que constituía definitivamente um sim a ser cumprido, sem que houvesse depois um não que o desdissesse.

FIDELIDADE DE DEUS: Fiel, pois, o Deus porque nossa palavra a (prometida) a vós não se tornou sim e não (18). Porque o Filho de Deus, Jesus Cristo, quem (está) em vós por meio de nós anunciado, por mim e por Silvano e por Timóteo, não foi sim e não, senão sim nEle feito (19). Fidelis autem Deus quia sermo noster qui fit apud vos non est in illo est et non Dei enim Filius Iesus Christus qui in vobis per nos praedicatus est per me et Silvanum et Timotheum non fuit est et non sed est in illo fuit. Paulo apela ao exemplo de seu Senhor, Jesus Cristo, a quem ele segue fielmente. Mas antes propõe como testemunha da firmeza de sua palavra o próprio Deus. Ele, Paulo, tinha verdadeiro propósito de visitá-los. Porém, alguma circunstância contra sua vontade, o impediu. Não era culpa sua. Porque o homem propõe, mas é Deus quem dispõe, como diz o provérbio. Temos colocado entre parêntesis a palavra prometida para dar um pouco mais de compreensão à frase. Na realidade, a tradução direita seria: nossa palavra a vós não se tornou sim e não. Uma outra versão do grego tem estin  (é) no lugar de egeneto (se tornou). A diferença é mínima e não afeta o sentido da frase, que implicaria em Paulo um caráter inconstante, por não dizer mentiroso. A política de indecisão, ambiguidade e engano não era própria da índole integrista e monolítica do apóstolo. Ao propor Deus como testemunha, Paulo está indicando como está dorido por essa calúnia que o mostra como indeciso ou talvez como falso e enganoso. Sua palavra tem o valor de seu anúncio evangélico, como diz na continuação. Discípulo como era de Cristo, anunciando sua doutrina, Paulo tinha sempre na sua memória as palavras do Mestre, evitando todo juramento e dando à palavra um valor certo e autêntico: Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna (Mt 5, 37). E ainda acrescenta o exemplo do Cristo que foi sempre um sim à vontade do Pai e sim a toda súplica humana, sem mudança, como diz Hb 13, 8: Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente. E o explica no versículo seguinte.

CRISTO É O SIM DO PAI: Porque quantas as promessas de Deus nEle o sim e nEle o amém para Deus para glória por nosso meio (20). Quotquot enim promissiones Dei sunt in illo est ideo et per ipsum amen Deo ad gloriam nostram. O SIM É NELE: De fato, Jesus não quis evangelizar os gentios e mandou seus apóstolos dizendo: Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 10, 6). Assim cumpriu as promessas divinas feitas a Abraão. Por isso escreve: Qual é a vantagem de ser judeu?… É grande em muitos aspectos. E primeiramente porque Deus confiou a sua promessa aos judeus (Rm 3, 1). Dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas. Paulo chama a Cristo de ministro da circuncisão por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais (Rm 15,18). O AMÉM: era a palavra final das orações judaicas em que se desejava se cumprisse a petição precedente. Como perfeita realização dos planos divinos e das promessas, Cristo é o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus (Ap 3, 14). Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé, nós recebamos a promessa do Espírito (Gl 3, 14). De modo que assim escreve Paulo aos romanos: Que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: Portanto eu te louvarei entre os gentios, e cantarei ao teu nome (Rm 15, 9). Pois a rejeição dos judeus abriu a porta aos gentios e a glória de Deus se manifestou, como escreve Paulo no fim da mesma carta: Glória seja dada para sempre a Deus todo-poderoso, único e sábio, por meio de Jesus Cristo. Amém (Rm 16, 27).

UNÇÃO, CARIMBO E DEPÓSITO: Pois quem nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu, (é) Deus (21). O qual também nos selou e deu o depósito de Espírito em vossos corações (22). Qui autem confirmat nos vobiscum in Christum et qui unxit nos Deus. et qui signavit nos et dedit pignus Spiritus in cordibus nostris.  Neste versículo, Paulo retoma sua defesa perante os corintianos, afirmando que foi o próprio Deus quem o ungiu como profeta. Ele reclama três aspectos da obra do Espírito nele: 1) A UNÇÃO [chrisma<5545>= unctio] que aparece para todo cristão em 1 Jo 2, 20: Vós tendes a unção do Santo, e sabeis tudo;  e 27: E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis. A ideia é que a unção é uma preparação para um serviço especial, diretamente unido à divindade, como eram o rei, o Sumo Pontífice e o profeta. E se em especial os apóstolos eram os ungidos e enviados, também segundo Pedro, todo cristão tinha essas qualidades que mereceram no AT a unção: Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa (1 Pd 2, 5), confirmado em Ap 5, 10. Em segundo lugar o CARIMBO [sfragis<4973>=signaculum], como selados e protegidos e identificados com o Espírito após ter crido no evangelho: Fostes selados com o Espírito Santo da promessa (Ef 1, 13) ao qual não devemos entristecer, pois é o sinal com que Deus vos marcou para o dia da libertação (idem 4, 30). Selo que recebeu primeiro o Filho (Jo 6, 27). Finalmente, a doação desse Espírito como DEPÓSITO ou penhor [arrabön<728>=pignus] nos corações. A palavra arrabön significa empréstimo, entrada inicial. Temos recebido o Espírito como uma entrada inicial, um penhor do que Deus nos prepara na vida eterna. É uma garantia do futuro em que entraremos a formar parte da família de Deus. Esta paga inicial é própria de Deus que tem invertido em nós o primeiro investimento de sua casa e habitação permanente. Para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito (2 Cor 5, 5). Esse penhor é de nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória (Ef 1 14). Em nossos corações, como diz Paulo já chamamos a Deus de Pai, o Abbá (Rm 8, 15), como filhos que um dia o veremos como tal (1 Cor 13, 12).

EVANGELHO (MC 2, 1-12)


O PARALÍTICO

(lugares paralelos Mt 9, 1-8 e Lc 5, 17-26)

(Padre Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Outros dois evangelistas narram o mesmo fato. Os detalhes não interessam a Mateus e são próprios de Marcos e Lucas com a diferença de que Lucas não conhece as casas da Palestina e fala, talvez propositadamente, de telhas [kéramoi] para se deixar entender pelos greco-romanos. Marcos, pelo contrário, nos fala do terraço [stegos] de fazer um buraco nele como escotilha, após ter subido o doente ao mesmo. Um terraço feito de pau a pique, com argila entre varas de madeira. A cura é feita após Jesus louvar a fé deles, ou seja, dos 4 homens que carregavam o leito [krabatos grego, grabatos latino, catre, padiola ou maca em português]. A cura serve para introduzir o verdadeiro ofício de Jesus: perdoar os pecados. E Jesus usa a cura para demonstrar que ele tinha como homem [filho do homem] poder para perdoá-los. Deus se serve dos homens para salvar os homens. Essa é a grande lição.

AS CIRCUNSTÂNCIAS: Dias depois, entrou de novo em Cafarnaum e se escutou que está em casa (1). Et iterum intravit Capharnaum post dies. A Vulgata tem uma divisão diferente. Une a segunda parte do versículo 1 com a primeira parte do segundo. Mas vejamos a interpretação do grego tal e como o temos traduzido, como tradução literal de Marcos. Mateus nada diz além de que, de barco, chegou a sua cidade, que era Cafarnaum e não Nazaré, segundo a narração do próprio Mateus em 4, 13: deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, à beira-mar. Lucas inicia o relato com estas palavras: E sucedeu, num certo dia, e ele estava ensinando (5,17). As traduções são as mais literais possíveis, apesar de alguma falta de sintaxe. Temos, pois, que era em Cafarnaum onde o relato tem lugar. De Marcos podemos deduzir que a casa era a de Pedro, segundo 1, 29. Pelas dificuldades do relato posterior, alguns sugerem que a cura não foi dentro da casa de Pedro, mas na sinagoga. Vejamos a argumentação: Segundo Lucas, estavam sentados fariseus e professores da lei os quais tinham vindo de todas as vilas da Galileia, e da Judeia e de Jerusalém (5, 17). A pergunta é: como podia estar sentada tanta gente dentro de uma pequena casa particular?  Não seria melhor interpretar a casa da qual fala Marcos como figura literária, no sentido de estar no lugar onde estava o domicílio? De modo semelhante um carioca diria: estou de volta em casa, após uma viagem fora da cidade do Rio. Por outra parte é improvável que Jesus tivesse escolhido uma casa particular para dentro dela falar como se fosse uma sinagoga. Inicialmente usou as sinagogas, mas quando a multidão superou a capacidade das casas de oração, como eram chamadas as sinagogas, Ele usaria a ladeira do monte (Mt 5, 1 e Jo 6, 3) ou uma planície (Lc 5, 17) para pregar o Reino. Quando curou, após o sábado em que livrou da febre a sogra de Pedro, muitos doentes, a multidão, se aglomerava diante da porta da casa. Agora Jesus está dentro do edifício. Logo deve ter sido a sinagoga num dia que não fosse sábado, como terça ou quinta feira. Nesses dias a sinagoga era casa de oração e de doutrina. Assim podemos interpretar muito bem Lucas, que indica estavam sentados os fariseus e mestres da lei que tinham na sinagoga assentos próprios. De todos os modos, esta teoria não é absolutamente provada e podemos pensar na casa de Pedro, suficientemente ampla, com um pátio central,  cheio de gente; e Jesus, desde a porta, falando a seus ouvintes.

A MULTIDÃO: E imediatamente confluíram muitos, de modo a  não haver espaço, mesmo diante da porta. E falava a eles a palavra (2). Et auditum est quod in domo esset et convenerunt multi ita ut non caperet neque ad ianuam et loquebatur eis verbum. Já temos explicado as diferenças, com o latim, na divisão dos versículos.  Esta pequena introdução é para justificar a ruptura do teto [furar o mesmo] e assim demonstrar a fé dos 4 homens que portavam a padiola.  Evidentemente, a palavra era o ofício principal de Jesus. O anúncio do evangelho, que hoje afirma o Papa como opus proprium [ofício próprio] da Igreja, junto ao serviço da caridade e a administração dos sacramentos. As casas da Palestina estavam formadas ao redor de um pátio comum, formando um quadrado para o qual se abriam as portas das mesmas. Podemos imaginar que a multidão, no início dentro do saguão da casa, se estendia fora  diante da porta até o pátio. Isto, caso a interpretação seja a tradicional; mas no caso da sinagoga, estando esta lotada, também haveria gente às portas da mesma.

A PADIOLA: E vêm a ele, levando um paralítico, tomado por quatro (3). Et venerunt ferentes ad eum paralyticum qui a quattuor portabatur.  A tradução literal indica a rudeza de linguagem de Marcos que Lucas suaviza dizendo: E eis que [alguns] homens, levando sobre um leito um homem que era paralítico e buscavam introduzi-lo e pôr diante dEle (5, 18). Segundo Marcos era um krabatos, segundo Lucas um klinê. Krabatos [grabatus latino] era um leito pobre [catre], e apropriado para descrever a padiola de um enfermo, e Klinê [lectus latino] era o leito  onde se reclinavam os comensais e a cama onde dormiam os moradores de uma casa. Ambos podiam consistir de um colchão ou divã, apoiado em varas para o transporte, como parece o caso. Em At 5, 15 aparecem ambas as palavras traduzidas ao latim por lectulus e grabatus [cama de enfermo ou pequena cama {daí o espanhol camilla}, e maca].

O FURO NO TETO: E não podendo aproximar-se dEle por causa da multidão, descobriram o teto [stegê, tectus, roof] onde estava e tendo escavado, deixam (sic) baixar o catre onde o paralítico estava deitado (4). Et cum non possent offerre eum illi prae turba nudaverunt tectum ubi erat et patefacientes submiserunt grabattum in quo paralyticus iacebat. Lucas escreve: E não havendo encontrado de que maneira o introduziriam por causa da multidão, subindo sobre o eirado [dôma, supra tectum, housetop], o desceram através das telhas, com o catre [literalmente pequeno leito: klinidion] no meio, diante de Jesus (5, 19). Como vemos, os versículos 3 e 4 de Marcos e 18 e 19 de Lucas podem se referir a uma casa ou a uma sinagoga, sendo que o versículo 17 é o único que favorece a interpretação de ser o teto [dôma<1390> grego ou super tecta latino] o terraço de uma sinagoga, como explicamos anteriormente. Embora a palavra dôma grega signifique edifício ou casa inicialmente, também significa uma parte da casa como o terraço. Os orientais usam os terraços de suas casas para passear e para meditação e oração. Este fato é confirmado pelos Atos quando Pedro teve a sua revelação do grande lençol (10, 8-11). A sinagoga era o lugar preferido por Jesus para o anúncio da palavra, até que a grande multidão o levasse à beira-mar ou lugares abertos como ladeiras de colinas. Ao terraço podia-se subir por uma escada externa de modo que os judeus diziam que a uma casa se podia entrar ou pela porta ou pelo terraço.

O PERDÃO: E tendo visto Jesus a fé deles, diz ao paralítico: Filho, foram remitidos teus pecados (5). Cum vidisset autem Iesus fidem illorum ait paralytico fili dimittuntur tibi peccata. Mateus acrescenta ao filho o imperativo Tharsei [confide latino] e que podemos traduzir por ânimo! O verbo remitir [aphiêmi<863>, dimittere, be forgiven] é mais usado para pagar uma dívida. Originalmente significa deixar de lado. Parece que imediatamente Jesus devia incluir a cura corporal pela qual todos os cinco tinham procurado com tamanho trabalho; mas existe uma outra cura que Jesus prioriza e é a cura da alma. Seguramente que o paralítico estava preocupado com sua vida anterior e pensava que a sua doença era produto de sua infidelidade para com a lei. Jesus o acalma e lhe diz que suas contas estão zeradas. Não há por que se preocupar. Um outro detalhe é que se Marcos e Mateus usam o tecnos<5043> [filius, child, filho], Lucas no mesmo versículo usa homem [anthropos, homo, man]. Não cremos que exista para a mudança  uma razão merecedora de explicação.

O AUDITÓRIO: Porém estavam sentados ali alguns escribas [grammateos, scriba, scribe ou secretary] e fariseus, arrazoantes em seus corações (6). Erant autem illic quidam de scribis sedentes et cogitantes in cordibus suis. Lucas descreve os escribas como nomodidaskaloi<4547>, que significa literalmente professores da lei, para que seus leitores entendam o termo. O mesmo evangelista diz que vieram de toda a região da Palestina: Galileia, Judeia e Jerusalém, fato que indica a fama de Jesus como já conhecida em toda a região. Seguramente que já estavam presentes, mais como raça de víboras do que como ouvintes, pois esperavam como apanhá-lo nalguma palavra (Mt 22, 15). A cura do sábado, dentro da sinagoga, de um endemoninhado, suscitava uma certa prevenção entre os amantes da Lei, fossem letrados ou simples leigos na matéria. Desta vez não era sábado e o lugar não era tampouco a sinagoga. Mas o perdão dos pecados era coisa que um homem não podia fazer em boa lógica.

A MURMURAÇÃO: Por que este, assim fala blasfêmias? Quem pode dimitir pecados senão unicamente (o) Deus? (7).Quid hic sic loquitur blasphemat quis potest dimittere peccata nisi solus Deus. O verbo usado é dialogizomai<1260> [cogitare, reason, arrazoar]. Segundo Marcos, a objeção às palavras de Jesus é interna [dentro dos seus corações] que podemos traduzir como em seu interior ou para seus botões em frase vulgar. Já que coração [leb hebraico] tinha o mesmo sentido figurado que mente para nós. Mateus é ambíguo na interpretação e Lucas parece que até o murmúrio era audível, pois declara que diziam: quem é este que fala blasfêmias? E a razão para afirmar que as palavras de Jesus eram blasfemas era porque ele atribuía a si mesmo uma autoridade que só pertencia a Deus: Quem pode perdoar pecados senão só Deus? (7). Palavras que Lucas traz quase literalmente substituindo o só por unicamente. Porque unicamente o ofendido pode perdoar a ofensa do ofensor; somente o credor pode perdoar a dívida do devedor. Estavam corretos quanto à razão, porém não podiam pensar que Deus estava presente na humanidade de Jesus, assumida pelo Verbo como natureza em que se encarnou e se tornou visível a divindade.

A RESPOSTA DE JESUS: E imediatamente, conhecendo Jesus em seu espírito que assim arrazoavam entre si, diz-lhes: Por que arrazoais estas coisas dentro de vossas mentes? (8). Que é mais fácil de realizar [eukopoteron]? Dizer ao paralítico, remitidos são teus pecados; ou dizer: Levanta, e toma teu catre e anda? (9). Quo statim cognito Iesus spiritu suo quia sic cogitarent intra se dicit illis quid ista cogitatis in cordibus vestris. quid est facilius dicere paralytico dimittuntur tibi peccata an dicere surge et tolle grabattum tuum et ambula. A palavra eukopoteros <2123> é usada por todos. Deriva de  Eukopos [realizável], e, como comparativo, mais fácil de efetuar. Logicamente a resposta era dizer que perdoar os pecados. Ou os oponentes ficaram sem responder ou Jesus se adiantou em sua resposta. Por isso declara: Pois, para que saibais que o Filho do Homem tem autoridade de perdoar os pecados sobre a terra, diz ao paralítico (10). As palavras de Jesus são exatamente iguais nos três evangelistas. Unicamente Lucas corrige o grego popular de Marcos ao escrever disse no lugar de diz. A frase merece uma reflexão: Nesta situação, Jesus  atua como homem [Filho do Homem] e não revela sua identidade com Deus. Ele compara o perdão dos pecados com a cura imediata de uma doença que não poderia ser atribuída a remédios ou médicos. E ambas as atividades devem ser atribuídas ao poder ou a autoridade de Deus. Se um homem cura, um homem pode perdoar. Evidentemente esse homem era aquele que pronunciou as palavras: filho, teus pecados são perdoados. Não é casual que os três sinóticos falem com as mesmas palavras sobre o Filho do Homem. Qual era o significado desta expressão? Literalmente seria o homem, mas nas circunstâncias em que Jesus disse essa frase significava eu, esse homem, que vocês estão vendo e ouvindo. Um homem tem a potestade de perdoar os pecados, coisa que parecia um paradoxo, e em momentos em que ainda o mistério cristão por excelência, a Trindade, não tinha sido revelado. Jesus vinha declarar que desde aquele momento um homem, e, portanto, todo homem escolhido pela vontade de Deus, podia perdoar os pecados. Esta afirmação deve ser mantida em toda sua integridade pelo que diz Paulo: Foi em tudo semelhante a nós (Fl 2, 7), a exceção do pecado (Hb 4, 15). Primeiramente estão as palavras de Jesus que indicam claramente sua atividade principal: perdoar os pecados, e suas credenciais: o milagre. Logo temos a realização do que é visto [a cura] para que a fé veja o que não pode ser visto [o perdão].

O MILAGRE: A ti digo: levanta, toma teu catre e vá para tua casa (11). Tibi dico surge tolle grabattum tuum et vade in domum tuam. Praticamente com uma linguagem mais polida Lucas diz o mesmo. São três ordens numa só, precedidas de uma palavra de atenção. Só a ele perdoa e a ele unicamente cura, de forma total. O paralítico não era só um enfermo, mas um inválido com a impossibilidade de tomar qualquer peso ou mesmo de andar. E ambas as coisas resultam fáceis para quem era impossível momentos antes. Tudo pela palavra de um homem, presente ali.

FINAL: E levantou-se, e imediatamente tomando seu catre saiu, à vista de todos, de modo a todos ficarem atônitos e glorificarem a Deus dizendo que nunca assim temos visto (12). Et statim ille surrexit et sublato grabatto abiit coram omnibus ita ut admirarentur omnes et honorificarent Deum dicentes quia numquam sic vidimus. Mateus nos dá uma versão particular muito interessante: Vendo isso as multidões tiveram medo e glorificaram a Deus que tinha dado tamanha autoridade aos homens (Mt 9, 8). Mateus usa o plural homens, para indicar que não só Jesus mas todo homem escolhido por Deus teria desde esse instante semelhante autoridade que mais se relacionava com o perdão do que com o carisma da cura. Lucas também fala do temor que se apoderou dos presentes dizendo: Hoje vimos umas paradoxa <3861> [coisas longe do comum, inusitadas, incríveis], que o latim traduz como mirabilia [coisas as mais admiráveis].

PISTAS: 1) Havia duas razões para perdoar os pecados: a 1a, consequente com as ideias na época, era que toda doença tinha como causa um pecado. Perdoado este, a doença não tinha razão de existir. Daí que o paralítico recebesse com as palavras de Jesus uma injeção de esperança. Sua cura estava próxima. A 2a era que Jesus queria dar uma lição aos seus ouvintes, preparando o anúncio do Reino. Este é: perdão antes de cura. Se o perdão está presente, o reino está também atuando.

2) Mais, o perdão é maior do que a cura e, não pedido, é totalmente graça divina. Perdão por parte de Deus, mas perdão anunciado por um homem, pois Jesus poderia ser ao máximo um profeta, mas era homem para todos os assistentes ao sucesso. Aliás, o perdão era sua finalidade como Cordeiro de Deus: tirar o pecado do mundo. (Jo 1, 29) Como Paulo, João, de quem é a expressão, toma o pecado em termos pessoais como se fosse uma maldade personificada, que Jesus iria destruir como Cordeiro, ou seja, com seu sacrifício.

3) Consequentemente, todo pecado pessoal pode ser remetido em nome de Jesus, e Ele usa este poder ainda antes de sua imolação porque é em seu nome que a salvação entra no mundo (Rm 10,13) assim como o pecado entrou em nome do poder do diabo, a antiga serpente.(Ap 12,9).

4) A argumentação de Jesus é contundente: O perdão só pertence a Deus. A cura desse paralítico só pertence a Deus. Logo se cura, é porque Deus age por meio dele da mesma forma que atua para perdoar. Para que saibais que o filho do Homem  tem autoridade para perdoar os pecados, dirá Jesus: levanta-te, toma tua maca e vai para casa (11). A expressão Filho do Homem era o mesmo que eu ou a gente, e assim se deve entender a não ser que em consonância com Daniel 7, 13-14 Jesus queira aqui assumir o papel do Reino de Deus em sua pessoa. O milagre feito é corretamente interpretado pela gente humilde, dando glória a Deus: Nunca vimos coisa semelhante. (12)

5) Jesus, o homem, foi e é um instrumento da divindade. Os que com Jesus se identificam pela comunhão perfeita, também podem ser instrumentos da mesma; daí a importância dos santos, os verdadeiros crentes em Jesus, que farão até maiores obras do que Ele (Jo 14,12).

6) Se nós não somos instrumentos da divindade poderemos ser de sua misericórdia. Caso isto não aconteça é porque a habitação do Espírito não é experimentada por nós. Não podemos esquecer que o maior milagre é a presença do amor num mundo indiferente ou violento com o próximo. O perdão que damos é um milagre de Deus em nós e na vida dos que considerávamos nossos inimigos. Se as misérias e infelicidades do mundo que nos rodeia não nos atingem, nem nos comovem, é porque o amor ainda não penetrou profundamente em nossas vidas, o amor cuja personificação é o Espírito Santo. Porque um grande amor tem como fonte uma profunda compaixão.

7) Se meu amor se limita à família, aos filhos de modo especial, o mundo estaria tão mais necessitado e injusto que esteve até agora. Por isso, é o necessitado, o doente, o injustiçado quem mede essencialmente a pureza de meu amor e proporciona a medida de minha entrega a Deus. Como Disse Jesus, citando o profeta Oseias, ide, pois, aprender o que significa, é a misericórdia que eu quero, não o sacrifício. (Mt 9,13).