EPÍSTOLA (Rm 8, 26-27)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

INTERCESSÃO DO ESPÍRITO: Pois do mesmo modo, também o Espírito ajuda em novas fragilidades, porque o que pedirmos como convém não conhecemos; mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos sem palavra(26). Similiter autem et Spiritus adiuvat infirmitatem nostram nam quid oremus sicut oportet nescimus sed ipse Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus. Temos que centrar estes versículos no contexto total dos versículos 16-30, em que Paulo fala da certeza da esperança cristã. É a terceira prova que Paulo oferece à esperança cristã de um mundo renovado: a base são os gemidos 1º) da criação [a criação geme dores de parto](v. 23) 2º) do próprio cristão [também nós gememos interiormente esperando a adoção] 3º) do Espírito neste versículo 26. Por isso, começa falando do MESMO MODO TAMBÉM. O ESPÍRITO [to pneuma<4151>=Spiritus] que no AT traduz a palavra ruach<07307> e que acompanhada de  kodesh <06944>=se traduz por ruach kadesho =to pneuma to agion (Is 63, 10): é o Espírito que habita  em nós, segundo Paulo: Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (1 Cor 3, 16). Porém, também pode ser o espírito humano de que somos compostos, segundo lemos em o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis ( 1 Ts 6, 23). De modo que no mesmo Paulo encontramos as duas classes de pneuma: O próprio Espírito [divino ou santo] testifica com o nosso espírito [humano como parte de nosso ser] que somos filhos de Deus (Rm 8, 16) . No nosso caso, de que  espírito fala Paulo, pois não é possível saber, como hoje, pela letra maiúscula do nome próprio, a diferença entre o humano e o divino? Parece que é o Espírito que nós chamamos de Santo, a terceira pessoa que em nós acha sua morada após o batismo e que ajuda nossas fragilidades, ou enfermidades. Ela está também gemendo conosco, já que não sabemos o que pedir por ignorar o nosso futuro e o nosso bem presente. Por isso, sem palavras e como em gemidos inaudíveis, ora por nós em nossas necessidades. Ao que parece, pode se referir ao dom de línguas em 1 Cor 12, 2, e 14-15. Porém as línguas eram reais nos temos de Paulo e só se necessitava um que as entendesse e interpretasse. Hoje o fenômeno não é uma glossoxenia, mas uma glossolalia, esta sem ser língua mas só gemidos balbuciantes. O que Paulo afirma  é que com só a sua presença, o Espírito já está intercedendo, embora sem palavras, por aqueles nos quais fez sua morada e habitação. Trata-se da  atividade do Espírito como descrita nos versículos 15-16: que está clamando em nós com um grito de Abá [Pai] testemunhando que somos filhos de Deus e que Paulo também recorda  em Gl 4, 6 e em 1 Cor 2, 10-13, pois recebemos o Espírito que provém de Deus para que pudéssemos conhecer o que nos foi dado gratuitamente por Deus dos quais falamos não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais. Evidentemente esses gemidos estão relacionados com a fraqueza, que é a deficiência que em nós encontramos, referente à nossa glorificação: quem se atreve a afirmar ser filho de Deus se não fosse pela graça, esse interior impulso do Espírito Divino? Por isso o Apóstolo adiciona não sabemos o que pedirmos. E assim, sem palavras certamente reconhecíveis e audíveis, como só sua presença, o Espírito está clamando por nós a um Deus que não é absolutamente ausente, mas que é o Pai o Abbá, quando a ele nos dirigimos. Não sabemos que Deus quer essa glorificação [falava a novos cristãos que não tinham o conhecimento atual nosso] e por isso pode Paulo afirmar que no interior nosso o Espírito dirige nossas orações não a um Deus estranho, mas a um Pai. Hoje sabemos a meta [somos filhos]; mas não conhecemos o caminho [katha dei=como convém; ou seja, como devemos nos comportar como tais]. E, portanto, também hoje o impulso do Espírito é necessário, especialmente se somos, como Paulo afirma, verdadeiros filhos de Deus que querem cumprir sua vontade. A suprir essa deficiência vem em nossa ajuda o Advogado [Paraklëtos], esse que vos ensinará todas as coisas (Jo 14, 26) e vos guiará em toda verdade porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir (Jo 16, 13). Segundo os teólogos, o modo de agir do Espírito em nós é duplo: modo humano, com inspirações que parecem nossas, mas que na realidade são impulsos sagrados que não apercebemos. E modo divino que realmente são impulsos superiores aos nossos poderes e unicamente podemos atribuir a sua eficiência. Aqueles podem ser ditos gemidos inefáveis ou inexpressíveis. Esse  gemidos não são propriamente o Espírito; mas que Ele produz em nossos corações como são os dons [modo humano] que se distinguem dos carismas [modo divino]. E como humanos não os distinguimos de nossos próprios desejos, de modo que podem ser nominados como inexpressíveis.

A RESPOSTA DIVINA: Porque aquele que examina os corações conheceu qual o pendor do Espírito, porque, segundo Deus, intercede pelos consagrados (27). Qui autem scrutatur corda scit quid desideret Spiritus quia secundum Deum postulat pro sanctis. AQUELE QUE EXAMINA a ereunaö com o significado de buscar, escrutinar, investigar, sondar, perscrutar e explorar. Evidentemente Aquele é o próprio Deus  o único que sabe  o que acontece na mente [coração, segundo o sentir dos antigos semitas] dos homens. Segundo 1 Cor 2, 10 O Espírito de Deus penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus ou em Ap 2, 23: todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda os rins e os corações e darei a cada um de vós segundo as vossas obras. Esse mesmo Deus conheceu [oida grego] o PENDOR [fronëma<5427>=quid desideret] do Espírito. É a melhor oração, pois é a do Espírito de Deus que ora por nós dentro de nós.  A palavra fronëma não é mente propriamente, mas o que nela se contém como pensamentos e intenções. Sai 3 vezes no NT traduzido por inclinação em Rm 8, 6-7: inclinação da carne,  inclinação do espírito que na TEB vemos como pendor, tendência ou aspirações. Outros traduzem por maneira de pensar. Este Espírito, provindo de Deus, é o que intercede pelos CONSAGRADOS [agioi<40>=sancti]. Agios é a palavra que Paulo emprega para designar os cristãos a quem acostuma também chamar de escolhidos [eklektoi] por que dentre os pagãos foram os que, como diz Jesus, ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos (Mt 11, 25). São os eleitos de Deus, santos e amados, aos quais pede Paulo se revistam de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade (Cl 3, 12). Em geral, é todo cristão, pertencente a uma raça ou geração escolhida [genos eklekton] segundo 1 Pd 2, 9. A esperança de todo cristão é que como filho, por ele INTERCEDA [enygchanei <1739>=postulat] o Espírito e peça como Cristo Jesus que está à direita de Deus, o qual também intercede por nós (Rm 8, 34 e Hb 7, 25). Cristo no céu, o Espírito dentro de nós são os intercessores dos cristãos.

EVANGELHO (Mt 13, 24-43)

PARÁBOLAS DO JOIO, DA MOSTARDA E DO FERMENTO

(padre Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: São três as parábolas narradas no evangelho de hoje: o joio, a semente de mostarda e o fermento. Todas elas oferecem um aspecto particular ou qualidade do Reino. Finalmente temos a explicação da parábola do joio como uma demonstração da política de Deus no mundo e da existência do mal como uma tolerância para não ter que castigar os bons ao mesmo tempo em que impõe sua justiça sobre os iníquos. Na leitura breve só temos a parábola do joio. Tanto no tempo de Jesus como nos da primitiva Igreja os pecadores e os justos estavam misturados. A paciência de Deus, como primeiro atributo do amor segundo S. Paulo (1 Cor 13, 4), espera e aguarda a conversão do pecador e só em última instância, acabado o tempo, a sua justiça atuará para que no além só exista um Reino de justos, separados os pecadores. Implicados no mal do mundo aprendamos do amor de Deus a ser pacientes com nossos semelhantes. Na explicação dada por Jesus aos discípulos, ele transforma a parábola em alegoria.

PRIMEIRA PARÁBOLA: O JOIO

BOA SEMENTE: Outra parábola lhes expôs, dizendo: O Reino dos céus tem sido semelhante a um homem semeando boa semente no seu campo (24). Ao dormirem, pois, os homens, veio o seu inimigo e semeou joio no meio do trigo e retirou-se (25), aliam parabolam proposuit illis dicens simile factum est regnum caelorum homini qui seminavit bonum semen in agro suo. Cum autem dormirent homines venit inimicus eius et superseminavit zizania in medio tritici et abiit. PARÁBOLA: A palavra parábola vem do grego paraballo: um entre outros, de cujo significado é pôr juntas duas coisas, comparar. A definição popular é que é uma história terrena que demonstra uma verdade celestial. Difere do conto ou da fábula em que a história da parábola pode ter sucedido ou pode ser real em qualquer momento futuro; e o conto ou a fábula, não. Nesta parábola do joio [lolium tremulans] encontramos uma analogia constante que a transforma em alegoria porque não é unicamente a moral da mesma que interessa do ponto de vista teológico, mas também certos detalhes como o juízo final e os anjos.  O REINO: O termo de comparação das três parábolas é o Reino [reinado] dos céus. Apesar do título dos céus, ele tem como assento a terra, não no sentido geográfico mas humano, por isso é mais exato traduzi-lo por Reinado. O povo que o forma não é o conjunto dos bemaventurados do céu, mas refere-se à Igreja da terra, formação visível da comunidade dos fieis que escolheram Jesus como seu Senhor e que estão misturados no campo do mundo (38) com pessoas que não são crentes ou têm outras ideologias, sem descartar que dentro da Igreja podem existir também os escandalosos e os que praticam a iniquidade (41). O aoristo grego em passado, tem sido semelhante, indica que Jesus fala dos acontecimentos que acabavam de suceder, apontando ao fato da Palavra não ter sido propriamente aceita pelos seus conterrâneos. O JOIO: O joio é uma planta muito parecida com o trigo antes de se formar a espiga. O gênero Lolium divide-se em 10 espécies das quais a mais conhecida é o Lolium tremulentum, que em inglês recebe o nome de darnel, cizaña em espanhol [do grego zizanion], também joyo, e joio [do latim lolium] e cizânia em português. A espiga do joio é muito mais fina do que a do trigo e frequentemente está infectada com fungos que a tornam negra e venenosa. Também a própria gramínea tem,  como o esporão do centeio, um componente venenoso. O joio só se distingue do trigo quando a espiga amadurece, sendo que a espiga do joio é formada por grãos pretos como de carvão. O INIMIGO: O inimigo do dono do campo, segundo a explicação de Jesus  é O DIABO: O grego Diábolos significa caluniador. É um adjetivo que se transforma em nome próprio com o artigo. Como adjetivo, é usado unicamente por João, quando diz que um de vós é diabo, ou seja, falso acusador que se serve mal do messiado de Jesus,  e o tal era Judas. Com artigo o encontramos 15 vezes. Uma vez não tem artigo e não é adjetivo, mas nome em caso vocativo. É o caso de Elimas, o mago, que ficou cego por ordem de Paulo e a quem o apóstolo repreende como de filho de diabo (At 13,10). João o chama de Príncipe deste mundo (12, 31). Paulo fala do deus deste eon [ciclo, época ou era] {mal traduzido por deus deste mundo}, que cegou o entendimento dos incrédulos para que não brilhe para eles o resplendor do evangelho (2 Cor 4, 4).  E em Ef 2, 2 afirma que outrora viviam [os efésios] mortos em vossos delitos e pecados, conforme a   índole [aion= época ou ambiente] deste mundo, segundo o príncipe do poder do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência. O ar era para os antigos a moradia dos demônios como é agora o habitat das bactérias e fungos (ver Lc 10, 18). Segundo o quarto evangelho, o diabo era o pai dos inimigos de Cristo e pai da mentira (8, 44), que entre os filhos conta com um dos apóstolos (6, 70). “Diabo” é o equivalente grego do hebraico “satanás” (“adversário”, “inimigo”), que na Bíblia hebraica é indiferentemente usado para indicar tanto a ação do “Anjo do Senhor” (expressão que indica o próprio Deus, Êx l6, 7) como a de pessoas como Davi, inimigo dos filisteus (l Sm 29,4) ou Amã, adversário do povo judeu (Est 7, 4). Recebe o nome de Satanás de origem aramaica correspondendo a Satã. Assim como o Parakletós é o advogado defensor, Satanás é o acusador. Aparece 4 vezes em Mateus e Marcos, 5 em Lucas e uma só em João.  No Apocalipse é identificado com o dragão, a antiga serpente, cujo nome próprio é Diabo e Satanás (Ap 20, 2). Ele tem um papel importante como tentador (Mt 4,1 comparado com 4, 10). E é quem arrebata a palavra na parábola do semeador. Agora ele tem também sua semente, o joio, que astutamente mistura com a boa semente de modo a confundir os trabalhadores do campo. Das dezenas de vezes que aparece no Antigo Testamento, a única vez em que “satanás” é empregado como nome próprio é no livro das Crônicas (l Cr 21,1), no qual o autor, numa teologia mais evoluída, imputa a “Satanás” a intenção de recensear Israel, ação em princípio atribuída ao Senhor: “A ira de Yahweh se inflamou ainda contra os israelitas, e ele instigou Davi contra eles dizendo: ‘Vai, faze o recenseamento de Israel e de Judá’” (1Sm 24,1). Com o termo “satanás” também são representadas figuras genéricas como o “acusador” (Sl 109,6), título de um funcionário de Deus e membro da corte celeste: “Chegou o dia dos filhos de Deus se apresentarem em audiência diante do Senhor. Satanás veio também com eles” (Jó l,6). Apenas em um apócrifo tardio “satanás” torna-se o nome do anjo que se recusa a adorar Adão, o primeiro homem criado, e por isso é expulso para a terra com seus anjos (Vida latina de Adão e Eva 12-l6). Contrariamente àquilo em que muitos acreditam, na Bíblia não existe a fábula do belíssimo e ambiciosíssimo anjo de nome Lúcifer, expulso para sempre por Deus do paraíso e transformado em horrível diabo.  Recebe também o nome de Maligno, nome com que o encontramos pela primeira vez em Mt 5, 37. O ponërós grego [mau, indigno] que é adjetivo se transforma em substantivo com o artigo, e é traduzido por mal ou o maligno. Mateus o usa várias vezes neste último sentido e unicamente João em 17, 15 tem um significado semelhante. O caso mais comentado é no final do Pai Nosso: mas livra-nos do mal que muitos dos modernos transladam por maligno (6, 13). Lúcifer [dador da luz] antes de cair do céu, seu nome era Luzbel [senhor da luz?]. No cristianismo se confunde com Satanás, devido à identificação feita por S. Jerônimo. Isaías menciona Lúcifer  como um anjo caído (Is 14, 12); ao que parece, se refere ao rei de Babilônia. Porém, como Jesus disse que viu cair Satanás como um raio do alto dos céus (Lc 10, 18) daí que foi o nome alternativo do chefe dos anjos caídos ou demônios e sua identificação com Satanás. Mas a Bíblia não o identifica; só a patrística. Na realidade, os latinos chamavam de Lúcifer a estrela Vênus [fösforos para os gregos] quando aparece antes do sol e Hesperos no momento da posta solar.

EXCURSUS: DEMÔNIOS NA TRADIÇÃO JUDAICA

DEMÔNIOS: Na língua hebraica não existe o termo “demônio” [pelo grego, significava “devorador de cadáveres”].  O Diabo distingue-se do demônio [daimön  e daimonion gregos], pois estes últimos eram deuses menores ou secundários. Como malignos eram chamados de espíritos impuros ou malignos [akathartoi ou poneroi] (Mt 10, 1 e Lc 7, 21). Quando a Bíblia, em uma sociedade culturalmente mais evoluída, foi traduzida para a língua grega, distanciou-se daqueles seres intermediários entre a divindade e os homens e das personagens mitológicas, cada vez mais encontradas no texto, como sereias, harpias, centauros, sátiros, faunos, duendes, gnomos e espectros, termos que passaram a ser traduzidos com o genérico “demônio” (Lv 17,7). Com a mesma palavra foram classificadas também as divindades estrangeiras, polemicamente rebaixadas a espíritos malignos, como Gad, o deus arameu da fortuna, e o “gênio protetor” da casa (Is 65,11; Dt 32,17). Talvez os tradutores tenham exagerado um pouco classificando como demônios inclusive os gatos selvagens (Is 34,14) e os bodes (Is 13,21). Deles era chefe Beelzebul (Mc 3, 22) que significa Baal, o príncipe [baal=senhor, e Zebul=príncipe]. Daí a tradução evangélica príncipe dos demônios. Outros derivam seu nome de Senhor da alta morada, que era o deus Baal da Síria (ver Mt 10, 25, em que Beelzebu é chamado chefe da casa). É o primeiro na hierarquia depois de Satã. No evangelho de Nicodemos, Satã e Beelzebul urdiram um plano para, na morte de Jesus, atrairem sua alma ao inferno, sendo Beelzebul o primeiro a enfrentar a alma de Jesus. Com sua voz, Jesus derrotou Beelzebul e este então se voltou contra Satã até que Jesus ordenou que Satã seria o rei do inferno até o fim dos tempos.  E Beelzebu (ou Beelzebul) é o diretor das nove hierarquias infernais que estão embaixo da primeira, esta última regida por Samael ou Satanás. Outros demônios conhecidos são Leviatan [ferida em espiral] que também era o nome do crocodilo (Sl 104, 26). É o senhor dos oceanos e era associado com o Tiamat de babilônia e a Hidra grega. O demônio mais popular do Antigo Testamento é Asmodeu [“Aquele que faz morrer”, exterminador], inimigo jurado das uniões conjugais que deu morte a sete pretendentes de Sara, até que Tobias se livrou do malefício com oração e jejum. Ele matou sete maridos da pobre Sara, “mortos antes que se tivessem unido a ela, conforme a obrigação que se tem para com uma esposa” (Tb 3,8). Tobias, seu aspirante a marido, temeroso de ir juntar-se aos sete cadáveres precedentes, salvou a própria vida com um remédio estranho. Como soubera que Asmodeu, demônio particularmente fraco de estômago, não suporta “cheiro de fígado e coração de peixe”, lançou esses ingredientes sobre a brasa do defumador, e “o cheiro do peixe manteve à distância o demônio, que fugiu pelos ares até as regiões do Egito” (Tb 8,3). A sobriedade das Bíblias hebraica e grega no que concerne a diabos e demônios (não se registra nenhum caso de possessão diabólica, e desconhece-se o termo “endemoninhado”) contrasta com sua proliferação no judaísmo da época precedente à ação de Jesus, quando o número e a variedade dos demônios crescem desmesuradamente, deixando espaço à fantasia mais desenfreada: “Cada um de nós tem mil [demônios] à esquerda e dez mil à direita” (Ber. 6ª). Cada demônio tinha uma especialização: a embriaguez era provocada pelo demônio Shimadon (Ber. R. 36,3); a cegueira, por Shabrirri (Ab. Z. 3ª bar); e a peste por Qeteb (Dt 32,24). No Talmud, as hipóteses sobre a origem dos demônios são mais variadas. Acredita-se que fossem herdeiros dos “Nephilîm” titãs orientais nascidos da união entre seres celestes e as primeiras mulheres: “Naqueles dias, os titãs [Nephilîm] estavam na terra; e ainda estavam nela quando os filhos de Deus vieram ao encontro das filhas de homem e tiveram filhos delas” (Gn 6,4). Ou há quem sustente a teoria da evolução: “A hiena depois de sete anos transforma-se em um morcego, o morcego transforma-se em um vampiro, o vampiro em uma urtiga, a urtiga em uma sarça e, finalmente, depois de outros sete anos a sarça transforma-se em um demônio” (B. Q. 16,1). Outros pensam, ao contrário, que haja criaturas incompletas: Deus já criara suas almas, mas quando estava para modelar os corpos sobreveio o sábado e ele o observou, cessando todo trabalho, e essas almas que permaneceram sem corpo foram os demônios (Ber. R. 7,5). A noite é seu reino incontestável (“À noite é proibido saudar quem quer que seja, por temor de que seja um demônio”, Sanh. 44ª), e é perigosíssimo sair durante o sábado e na quarta-feira à noite por causa dos milhões de demônios que saem livremente (Pes. 112b). O mais célebre demônio feminino é Lilith (Is 34,14), solteirona insaciável e luxuriosa que se insinua lépida no leito dos homens para fazer amor com eles. Demônio Súcubo [feminino] da noite. O Talmud adverte: “aquele que dorme sozinho será pego por Lilith” (Shab. 151b). Lilith era um demônio feminino que, segundo lendas [um midrash], tinha sido a primeira mulher de Adão. Segundo a interpretação moderna, Adão foi POSSUÍDO  por suas próprias inclinações sexuais, acerbadas até grados enfermiços e não contra entidades espirituais externas [isto é um demônio chamado Lilith]. Entre os numerosos deuses e demônios da mitologia babilônica encontramos Lilu e Lilitu [varão e fêmea respectivamente], entes malignos que prejudicavam os seres humanos em especial, incitando sexualmente os varões e danificando as mulheres grávidas, não só  elas como também seus filhos neonatos. Estas superstições não têm fundamento algum na Torá; mas, quando deportados para Babilônia (586 aC), algumas das crenças desta última impregnaram a cultura judaica. De fato, a palavra Lilith é mencionada pelo profeta Isaías: As feras do deserto encontrar-se-ão com as hienas. O bode selvagem [onocentaurus, ou monstro metade homem, metade asno] gritará a seu companheiro; fantasmas [night creatures em inglês;  lamiai, mulheres velhas, feiticeiras ou bruxas latinas] pousarão e acharão um lugar de descanso (34, 14). O hebraico, no lugar de fantasmas ou criaturas da noite, tem coruja [lilith], habitante da noite que passou a ser uma figura de mulher, uma deusa feminina de longa cabeleira e provida de asas como demônio, que à noite percorria os lugares desolados de Edom [sudoeste do mar Morto]. Mas também pode ser tomada como uma realidade figurada, não externa e demoníaca, mas interna e humana, já que na midrashei agadá [narrações lendárias] nos oferece a relação de Lilith com o primeiro varão da estirpe humana, Adão. Pois ele esteve separado de sua esposa Eva ou Java durante 130 anos, durante os quais copulou com espíritos femininos e gerou uma espécie mista de homens/demônios. Numa outra midrash as relações Adão–Lilith se complicam ainda mais, porque ela não quis receber o homem e rejeitou até os enviados divinos que queriam a reconciliação, decidindo que o objetivo de sua vida seria causar mal aos descendentes de Adão. Com esta narração os rabis explicavam que a masturbação era uma espécie de oferenda a Lilith que usava o sêmen para procriar os homens/demônios. Mas vejamos a explicação atual da Torá e dos hahamim [sábios]. Segundo estes últimos, Adão, no início, não era o nome de um homem, mas o genérico da espécie humana; e o relato da costela era o de uma operação para separar o ser duplo que ele era, separando as duas pessoas nele contidas: Adão e Java, o homem e a mulher. Assim, não houve um homem primeiro e uma mulher, mas ambos estavam juntos e foram separados ao mesmo tempo. Ormas, o demônio que se disfarça de mulher na tentativa de enganar e seduzir os homens faz a Lilith uma impiedosa concorrência (nos leitos). Quem deseja saber se foi visitado à noite por um demônio, basta agir da seguinte maneira: “Pega cinzas em pó, espalha-as ao redor do leito e pela manhã verás pegadas de patas de galo” (Ber 6ª), e “quem o quiser ver, pegue uma placenta de uma gata negra nascida de uma gata negra primogênita, queime-a no fogo, triture-a e coloque uma parte dela sobre os olhos, então o verá” (Ber. 6ª). Belial [indigno ou malvado] que alguns dizem Beliar. No AT fala-se dos filhos de Belial como sendo os que não admitem a lei. Azazel de etimologia incerta que, segundo os antigos judeus, era um anjo caído que habitava no deserto e para o qual era destinado o bode que recebia os pecados do povo. Asgareth [o demônio da guerra] é o último nome demoníaco conhecido, segundo testemunho do exorcista Gabriele Amorth e que [óh casualidade!] é também o nome de uma banda de música.

A PERGUNTA: Quando, pois, brotou a folha e produziu fruto então apareceu também o joio (26). Tendo, então, se aproximado os servos do dono da casa lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente em teu campo? Então de onde tem o joio? (27). Cum autem crevisset herba et fructum fecisset tunc apparuerunt et zizania. Accedentes autem servi patris familias dixerunt ei domine nonne bonum semen seminasti in agro tuo unde ergo habet zizania. Como temos escrito anteriormente, o joio só é conhecido após um tempo, quando já está crescido o trigo então se distingue deste último pela finura das folhas e das espigas. A pergunta dos trabalhadores do campo é produto de sua observação muito tempo após a sementeira, quando já se distinguem folhas e começa a sair a espiga. Como era possível que de uma semente escolhida saísse uma planta venenosa?

A RESPOSTA: Ele, porém, lhes disse: Um homem inimigo fez isso. Os servos então lhe disseram: Queres, portanto, que tendo ido recolhamos elas (28).  Ele então, disse: Não, não seja que recolhendo as cizânias arranqueis com elas o trigo (28). Et ait illis inimicus homo hoc fecit servi autem dixerunt ei vis imus et colligimus ea. Et ait non ne forte colligentes zizania eradicetis simul cum eis et triticum. As traduções usam o singular [joio] quando o grego e a Vulgata têm como visão o plural [cizânias], das plantas que surgem tão inoportunamente. A resposta do dono é que sendo difícil, nessa época da evolução das plantas, distinguir o joio do trigo, parte do resultado seria arrancar também as plantas sãs.

SOLUÇÃO FINAL: Deixai que ambos cresçam juntos até a safra e na ocasião da ceifa direi aos ceifadores, colhei primeiramente as cizânias (em plural, referendo-se às plantas) e atai-as em feixes para queimá-las. Porém, o trigo juntai-o no meu celeiro (30). Sinite utraque crescere usque ad messem et in tempore messis dicam messoribus colligite primum zizania et alligate ea fasciculos ad conburendum triticum autem congregate in horreum meum. A resposta do dono do campo é conforme ao que se sabe na realidade dos fatos. É assim que se atuava, de fato, quando um campo estava infectado pelo venenoso joio. Era fácil na época da seara distinguir as espigas do trigo das adulteradas do joio. E nessa circunstância era quando as espigas do joio podiam ser separadas facilmente das que continham o trigo real.

SEGUNDA PARÁBOLA: A MOSTARDA.

Lugares paralelos:

(Mt 4, 30-32; Lc 13, 18-19)

Outra parábola lhes propôs, dizendo: Semelhante é o reino dos céus a um grão de mostarda que, tendo tomado, um homem semeou no seu campo (31). Pois o tal é a menorzinha de todas as sementes; mas quando crescida é maior que todas as hortaliças e se torna árvore de modo a virem as aves do céu e habitarem em seus galhos. Aliam parabolam proposuit eis dicens simile est regnum caelorum grano sinapis quod accipiens homo seminavit in agro suo. Quod minimum quidem est omnibus seminibus cum autem creverit maius est omnibus holeribus et fit arbor ita ut volucres caeli veniant et habitent in ramis eius. A mostarda como planta, [sinapi em grego e sinapi ou sinapis latina], pertence à família das crucíferas e divide-se em duas espécies: sinapis alba [mostarda branca], própria do mediterrâneo e do ocidente; e brassica nigra [crucífera negra] como incitante e ardente, própria do Oriente e originária do Himalaia. A família das brassiaceae inclui as couves, os brócolis e as couves-flores. A semente em ambas as espécies tem um comprimento de 2,5 mm, de cor amarelada branca para branca, e amarelada escura para a negra. Quando adulta, a planta pode ter 2m de altura. No outono, quando as folhas caem, grande quantidade de vagens de sementes com 8 ou 20, dependendo de ser alba ou nigra, aparecem nos galhos da mesma. A mostarda é citada nos textos sumérios desde os anos 3 mil aC. E usada por Hipócrates como remédio que ainda aparece nos tempos modernos para catarros, como emplasto, e especialmente como especiaria para condimento na Idade Média e conservante de alimentos por suas qualidades. Mais da metade do comércio das especiarias tinha como fundamento a mostarda. As sementes de ambas as espécies têm até 40% de óleo vegetal, um pouco menos de proteína e uma parte de uma enzima poderosa chamada myrosin, que ao contato com água transforma os amidos ou féculas em glicose ou açúcar. Na branca se produz óleo com pouco olor, mas com um gosto picante próprio. Evidentemente o termo de comparação é o crescimento de uma semente tão pequena numa hortaliça de grande altura e frondosa ramagem. A branca chega até atingir 1,2 m de altura e a preta pode chegar até 3m e 4 m de altura. A negra é comum nas margens do lago de Tiberíades e seu tronco se torna lenhoso. Por isso os árabes falam de árvores de mostarda. Esta variedade só cresce ao longo do lago e nas margens do Jordão. Os pintassilgos, gulosos de suas sementes, chegam em bandos para pousar nos seus galhos e comer os grãos. As sementes não são as menores entre as conhecidas, mas parece que eram modelo, na época, de coisas insignificantes. O nome grego é sinapis e passou às línguas vernáculas porque a semente era usada junto com o mosto de uva para formar o mustum ardens [mosto ardente]. A mais comum é a branca não tão ardente como a preta, precisamente por sua maior facilidade em recolher os frutos. Temos visto como chegam até 3 ou 4 m de altura, suficientes para aninhar os pássaros em seus galhos. O verbo que temos traduzido por habitar é  kataskenoö [<2681>= habitare], significa descansar, estabelecer-se, como temos visto anteriormente. Não é preciso traduzi-lo por aninhar. Segundo os evangelhos, é a menor das sementes (Mt 17, 32), por isso é comparada ao reino no início e à fé mínima, necessária para operar milagres (Mt 17, 20).

TERCEIRA PARÁBOLA: O FERMENTO

Outra parábola falou-lhes: Semelhante é o Reino dos céus a um  fermento que tendo tomado uma mulher escondeu em três satos [medida de capacidade] de farinha até que tudo foi fermentado(33). Aliam parabolam locutus est eis simile est regnum caelorum fermento quod acceptum mulier abscondit in farinae satis tribus donec fermentatum est totum. O FERMENTO: Foi em 1876 que Luis Pasteur descobriu que a coisa que fazia o pão crescer era na verdade um ser vivo, uma levedura, um fungo microscópico, que se alimenta de açúcar e produz álcool e gás carbônico. Ao assarmos o pão o álcool é destruído, assim como o fermento, mas as bolhas permanecem e tornam o pão macio. De fato, ele faz a massa crescer. O fermento usado antigamente era o levedo que atua após um tempo e não imediatamente como o fermento em pó moderno e industrializado. Jesus sabia muito bem qual era a proporção fermento/massa para que toda a massa fosse atingida pelo levedo. A massa logicamente são todos os homens e sua maneira de pensar em busca da verdade final. O fermento são os discípulos de Jesus que entenderam e querem propagar a verdade entre os homens do mundo. Como o levedo, se precisa de tempo e de contato com a massa para que isso aconteça. Somos massa do mesmo pão que é Cristo, ou como diz S. Ignácio de Antioquia, trigo a ser moído pelos dentes das feras a fim de nos tornarmos pão limpo de Cristo. (Rm 4, 1). O fermento é a doutrina, segundo vemos no dito por Jesus: guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus (Mt 16, 6) que Marcos diz ser também o de Herodes (Mc 8, 15). Neste sentido, devemos evitar o velho fermento de malícia e perversidade, e por isso  Paulo exorta os de Corinto a serem pães ázimos na pureza e na verdade (1Cor 5, 8). O Sato é a tradução aramaica de sa’thá  ou do se’ah hebraico que corresponde a um terça de um ephah. Esse último tinha uma capacidade de algo mais de 13 litros. No total, pois, era um efá de farinha com a qual a mulher misturou a levedura até toda a massa fermentar. A quantidade era comum para produzir entre 20 a 30 pães de um quilograma de peso.

A RAZÃO DAS PARÁBOLAS: Todas estas coisas falou Jesus em parábolas às multidões e sem parábolas não lhes falava (34). De modo que se cumprisse o dito pelo profeta dizendo: abrirei em parábolas a minha boca; manifestarei coisas ocultas desde a fundação do kosmos (35).  Haec omnia locutus est Iesus in parabolis ad turbas et sine parabolis non loquebatur eis. Ut impleretur quod dictum erat per prophetam dicentem aperiam in parabolis os meum eructabo abscondita a constitutione mundi. O público em geral podia ficar com a ideia de que a semente da palavra era recebida de formas mui diversas pelos ouvintes, mas a razão destas diferenças só era explicada aos que, interessados, perguntaram junto aos doze pela explicação da mesma (Mc 4, 13-20). Os discípulos tinham ocasião de saber o significado verdadeiro das comparações, por vezes não muito claras para o ouvinte geral. O caso mais evidente é o do semeador e os diversos terrenos em que a semente cai. O encontro com a palavra é um dom de Deus, mas a resposta à mesma depende da vontade e do interesse de cada um. A explicação correspondente sempre a receberá quem esteja interessado em saber a verdade. Como diz o Papa Bento XVI,  Deus sempre vai ao encontro de quem se esforça. DE MODO QUE: opös [<3704>= ut latino]: o dicionário traduz como, de modo que, tal como. Já o ut latino é bem mais casual: a fim de que, para que ou como traduz o inglês: so that, de modo que pode ser entendido como causal [a fim de que] ou como confirmativo [pois assim]. O profeta citado por Mateus é o autor Asaf do salmo 72, 8, considerado como profeta  no qual em hebraico se fala de  abrirei os lábios em mashals e publicarei enigmas dos tempos antigos. A setenta à qual Mateus é fiel fala de parábolas e de problemata, palavra esta que poderíamos traduzir por coisas escondidas, ocultas. Mateus, como sempre, pretende confirmar os atos de Jesus com o predito no AT e vê como confirmação de uma profecia o fato de Jesus falar em parábolas. Para encontrar a verdadeira razão do modo de Jesus de usar parábolas, ver ISAÍAS no comentário do domingo anterior.

A PERGUNTA DOS DISCÍPULOS: Então, tendo despedido as turbas, veio Jesus para casa e se aproximaram os seus discípulos dizendo: explica-nos a parábola das cizânias do campo (36). Tunc dimissis turbis venit in domum et accesserunt ad eum discipuli eius dicentes dissere nobis parabolam zizaniorum agri. Vemos como a Vulgata traduz literal e fielmente o grego usando cizânias em plural, o que não acontece com as traduções vernáculas.

EXPLICAÇÃO: Ele, pois, tendo respondido, disse-lhes: O que semeia a boa semente é o Filho do homem (37). O campo é o Kosmos; já a semente boa esses são os filhos do reino; mas as cizânias são os filhos do maligno (38); já o inimigo, que as semeou, é o Diabo; mas a safra é a conclusão da época; e quanto aos ceifeiros são os anjos (39). Qui respondens ait qui seminat bonum semen est Filius hominis; ager autem est mundus bonum vero semen hii sunt filii regni zizania autem filii sunt nequam. Inimicus autem qui seminavit ea est diabolus messis vero consummatio saeculi est messores autem angeli sunt. Jesus mesmo, como resposta à pergunta dos apóstolos, interpreta a parábola, identificando os personagens e as circunstâncias. O semeador é o Filho do Homem na sua pregação da Boa Nova. O campo é o Kosmos [mundo] no sentido de humanidade e não geográfico. As boas sementes são os filhos do Reino, ou seja, aqueles para os quais a semente tem produzido os frutos necessários. As sementes de joio são os filhos do Maligno. O inimigo é o Maligno, nome este que temos explicado profusamente e que Jesus identifica com o Diabo. FILHO DO HOMEM: Jesus se identifica com esta figura que pode substituir a palavra eu assim como a expressão a gente é usada em português ou uno em espanhol. Os judeus usavam, pois, a frase filho do homem para se referirem a si mesmos. Porém existe um significado ulterior que caracteriza a expressão, através do uso de Jesus em conformidade com Daniel 7, 13. Filho do homem era a figura de Israel como reino, a ser instaurado definitivamente com a vinda do Messias que era o representante máximo do mesmo. O Filho do homem pode ser identificado com a pessoa de Jesus. Podemos afirmar que o Filho do homem é o Verbo enquanto homem, ou seja, Jesus tal e como era visto e contemplado por seus conterrâneos. A CEIFA: Somente existe uma dúvida: a que tempo de ceifa se refere Jesus? Geralmente se entende ao fim dos tempos, ou seja, um tempo escatológico final, mas é muito provável que synteleia tou aiönos [conclusão da época] é uma frase em que a época que acaba poderia ser a do Antigo Testamento. Neste caso, os anjos e o fogo podem ter um significado mais simbólico do que real. Isto é possível do ponto de vista de um estilo apocalíptico. A base desta interpretação está precisamente no fato de que até a vinda de Jesus os filhos do Reino eram os judeus e que, como povo escolhido, seriam lançados fora nas trevas onde haverá choro e ranger de dentes, porque recusaram o convite e rejeitaram Jesus como Messias. A esta versão contribui a tradução feita por muitos de syntelea tou aiönos como conclusão da época. A interpretação tradicional fala do fim do mundo no sentido total e dos anjos como agentes da separação entre os justos [dikaioi], que praticam os mandatos da lei [filhos do Reino] e os que no escândalo e na conduta sem lei [anomia] resultaram filhos do Diabo, como veremos nos versículos seguintes.

O FIM: Portanto, como são recolhidas as cizânias e são queimadas no fogo, assim será na conclusão do século presente (40). Enviará o Filho do homem seus mensageiros e reunirão do seu Reino todos os escândalos e os praticantes da maldade (40) e os arremessarão no forno de fogo. Ali será o pranto e o ranger dos dentes (42). Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça (43). Sicut ergo colliguntur zizania et igni conburuntur sic erit in consummatione saeculi mittet Filius hominis angelos suos et colligent de regno eius omnia scandala et eos qui faciunt iniquitatem mittet Filius hominis angelos suos et colligent de regno eius omnia scandala et eos qui faciunt iniquitatem. MENSAGEIROS: A palavra é angellos,  que significa enviado ou mensageiro e no caso podemos traduzir como ministros da justiça de Deus (Mt 16, 27;Mc 8, 48 e Lc 9, 26 ). Jesus se apresenta como dono dos anjos, exatamente como Javé no AT: Mandará seus anjos para que te guardem (Sl 91,11). A missão destes anjos parece ser unicamente o castigo dos maus. ESCÂNDALOS: Logicamente a palavra está no lugar de escandalizadores. Como paralelismo sinônimo de praticantes da maldade. A palavra escândalo significa armadilha, alçapão, trampa, arapuca e em termos morais engano, ocasião de queda ou pecado. O escândalo essencial é o causado pelos dirigentes do povo de Israel que com enganos impediam os pequeninos [discípulos, na linguagem rabínica], que de outra maneira creriam em Jesus, de aceitarem seu messiado e, portanto, seu reinado (Mt 18, 6). Pedro, impedindo a verdadeira função de Jesus, é Satanás e escândalo de Jesus. (Mt 16, 23). Essa atitude dos mestres de Israel está aclarada na blasfêmia contra o Espírito Santo que não será perdoada (Mt 12, 32). Poderíamos dizer que é o pecado do espírito, o orgulho do homem que não quer substituir os planos humanos próprios pelos projetos divinos. E ainda a soberba dos anjos que rejeitaram os planos de Deus que os relegava a um segundo plano como inferiores a um homem Jesus, escolhido como senhor do Universo. É pecado contra o primeiro mandamento: Amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas. Qual é a maldade [anomia] praticada pelos condenados nesta passagem? Nomos é a lei e, logicamente, os que serão condenados são os que não querem praticar a segunda tábua do amor ao próximo, são os que praticam as obras da carne, relatadas detalhadamente por Paulo em Gl 5, 19-21 e em Rm 1, 29-31. Ver 1 Jo 3, 10, em que o apóstolo faz a distinção entre filhos de Deus e filhos do diabo. FORNO DE FOGO: Em grego kaminos tanto pode ser forno como forja. Logicamente, é forno o sentido, já que também Dn 3, 6 fala inicialmente da fornalha ardente, onde eram castigados os que não adorassem a sua estátua. Daí que o forno de fogo e a Gehena fossem figuras do suplício infernal, que é expresso na forma popular de pranto e ranger de dentes. O choro que é expressão do sofrimento e o ranger como símbolo da desesperação. COMO O SOL: Os justos, que significam os que seguem as normas divinas, brilharão como o sol. A luz é o símbolo de glória e felicidade. Assim também, descreve Daniel em 12, 3: Os que são esclarecidos resplandecerão com o esplendor do firmamento e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas por toda a eternidade.

PISTAS: São três as parábolas com as quais se compara o Reino: A do joio é própria de Mateus sem que encontremos um paralelo nos outros evangelhos. Somente em 1 João 3, 10 encontramos a oposição entre filhos de Deus e filhos do Diabo. Estes são os que não praticam a justiça [os mandatos que procedem de Deus] e não amam o seu irmão. A explicação da parábola revela, em parte, o mistério da iniquidade de que fala Paulo em 2Ts 2, 7. Essa iniquidade [anomia] é o fruto de rejeitar a lei ou de ignorá-la e pode ser traduzida por maldade ou perversidade. Quem é o promotor dessa iniquidade é o Maligno, o Diabo. Nele nasce a maldade e a oposição ao Reino.

2) Porém existe o mistério de por que Deus permite o mal e de como combater o mesmo. Sendo Todo Poderoso e Bondade Infinita, como Ele permite que o mal triunfe de modo a parecer que a parte maligna aparece ser tão forte como a parte que Jesus chama dos filhos do Reino? Por isso existem ideologias em que ao Deus do bem se opõe o deus do mal. Ou será que Satanás é tão forte como Javé? O livro de Jó dá uma resposta parcial quando da instigação de Satanás, Javé permite a experimentação do justo com a única exceção da vida.

3) Seria melhor chamar de mistério da Bondade ao que se acostuma expor como mistério da iniquidade. Perguntar a Deus por que não destroi o mal é o mesmo que perguntar ao Pai por que não mata o filho rebelde. Deus espera que se torne pródigo e volte um dia arrependido para a casa que sempre será seu lar. Na realidade, aqueles que agem na anomalia estão dissipando os seus bens. Não sabem o que fazem, dirá Jesus. O joio não se distingue do trigo assim como uma árvore estéril não se distingue de uma boa a não ser na época dos frutos.

4) Deus é o Pai que faz com que o Sol nasça também para os maus e a chuva fertilize os campos dos incrédulos (Mt 5, 45). No fim e, unicamente no fim, a sua justiça acompanhará em parte a sua misericórdia. Para os que receberão uma eternidade de dor, é justo que recebam uma vida temporal cheia de triunfos e alegrias. Como Jesus disse na parábola do pobre Lázaro, os papeis serão invertidos. Lembra-te que tu recebeste os bens e Lázaro, pelo contrário, só os males (Lc 16, 25).

5) A influência do Diabo é a de semear o joio: propagar que a única maneira de alcançar a felicidade é saber viver na abundância e no prazer, pois não existe o além a quem tenhamos que dar contas de nossas condutas. É difícil diante desse programa de vida pregar uma existência de sacrifício e renúncia, como Jesus pede a seus discípulos. Por isso, o mal se converte em bem aparente e o verdadeiro bem está oculto aos olhos da multidão.