EPÍSTOLA (Hb 12, 18-19. 22-24a)

(Pe. Ignacio, dos padres escolápios)

O SINAI: Pois não vos aproximastes de um monte sendo tocado, e um fogo ardente e escuridão e trevas e tempestade (18). Non enim accessistis ad tractabilem et accensibilem ignem et turbinem et caliginem et procellam. Nesta exortação final, o autor da epístola contrapõe o inicio tenebroso do AT no monte Sinai à pacífica implantação do Reino do NT. O Sinai era o monte no qual Deus se manifestou e que na Epístola de hoje lemos que está SENDO TOCADO [psëlafömenö<5584>=tractabilem] do verbo psëlafaö, manobrar, tratar, tocar com a mão, ser sensível, estar em contato. Um exemplo é Lc 24, 39: vede as minhas mãos… Apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne. A versão KJV traduz monte que pode ser tocado. O sentido é que era um monte real não imaginário ou como traduz Nácar Colunga monte tangível. O versículo está em contradição aparente com o manifestado em Êx 19, 12: Guardai-vos de subir ao monte nem toqueis o seu limite; todo aquele que tocar o monte será morto. A solução parece ser que o não do princípio da frase determina também o monte, ou seja: não estejais próximos de um monte que não poderia ser tocado. É possível que o autor quisesse opor um monte material a uma cidade imaterial como é a Jerusalém celeste.  FOGO ARDENTE: As trevas e a escuridão e a tempestade eram os sinais de que Jahveh Deus estava lá com sua voz para amedrontar o povo e lançar seus mandatos. No Êx 19, 16 lemos: houve trovões e relâmpagos e uma espessa nuvem sobre o monte e mui forte clangor de trombeta. E no versículo 18: Todo o monte Sinai fumegava porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha. É, pois, esta imagem a que descreve com palavras novas e apropriadas às circunstâncias, o autor da carta.

AS CIRCUNSTÂNCIAS MEDROSAS: E som de trombeta e voz de falas as quais os ouvintes suplicaram não acrescentar palavra (19). Et tubae sonum et vocem verborum quam qui audierunt excusaverunt se ne eis fieret verbum. Continua o autor a descrever as circunstâncias que rodearam a proclamação da Torah no AT. Vejamos a tradução do Êxodo correspondente: E o clangor da trombeta [o shofar] ia aumentando cada vez mais; Moisés falava e Deus lhe respondia no trovão (19,19).  Então falou Deus todas estas palavras (20,1): Eu sou o Senhor, teu Deus que te tirei da terra do Egito (20, 2). Não terás outros deuses, etc. E na continuação vêm os dez mandamentos. E uma vez terminado o decálogo, disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus [Elohim] conosco, para que não morramos (20,19). Como vemos, as palavras de Hebreus se ajustam literalmente com o relato primeiro do Êxodo. Voz de falas é o trovão do qual fala o livro do Êxodo. E o trovão era a voz de Deus (Jo 12, 29).

NOVA SIÃO: Porém chegastes ao monte Sião e cidade do Deus vivo, Jerusalém celeste e reunião de miríades de anjos (22). Sed accessistis ad Sion montem et civitatem Dei viventis Hierusalem caelestem et multorum milium angelorum frequentiae. Os dois versículos que faltam na carta servem para reforçar a base de temor em que foi proclamada a antiga Aliança. O prêmio, ou melhor, o castigo era a consequência de uma conduta contrária à lei: Deus veio –dirá Moisés- para que seu temor esteja diante de vós a fim de que não pequeis (Êx 20, 20). Agora, na Nova Aliança, encontramos tudo o contrário: O monte é novo, sem limites de morte, e em tal monte nos encontramos com a cidade do Deus verdadeiro [o Deus vivo] que não pertence a terra mas é celeste a nova Jerusalém, cheia de miríades (dez mil) [hoje diríamos milhões] de anjos, pois miríade era na época o numeral mais alto conhecido. Como o Reino, esta Jerusalém não é um lugar específico, mas um conjunto de pessoas como uma reunião [panegyris [<3831>=frequentia]. Na realidade, era uma reunião de todo o povo para celebrar jogos públicos ou outras solenidades festivas. Na outra ocasião em que sai esta palavra é no versículo seguinte em Hb 12, 23, falando da reunião ou congresso e Igreja dos primogênitos. Neste caso se fala de anjos ou enviados, mensageiros, como devemos traduzir a palavra no seu sentido original. Mas em Hebreus, os anjos constituem uma espécie particular de seres que rodeiam o trono do Senhor, como lemos em 1,5 ao comparar os mesmos com Cristo-homem: A qual dos anjos disse jamais, tu és meu Filho. Com esta frase temos que essa Jerusalém é o Reino que está nos céus do qual Deus é o soberano como acostumamos rezar no Pai Nosso (Mt 6, 9).

SUA CONSTITUIÇÃO: À assembleia e eklesia dos primogênitos nos céus inscritos, e ao juiz Deus de todos e aos espíritos dos justos aperfeiçoados (23). Et ecclesiam primitivorum qui conscripti sunt in caelis et iudicem omnium Deum et spiritus iustorum perfectorum. ASSEMBLEIA [panëgyris<3831>=assembleia] Neste versículo temos a explicação de como é formada essa reunião que agora recebe também o título de IGREJA [ekklësia<1577>=ecclesia]. Ekklësia era a assembleia dos cidadãos em reunião pública para discutir os problemas da política cidadã. Tratando-se da reunião de cristãos, é a reunião dos mesmos como conjunto para um ato de culto; e, em termos universais, o conjunto de todos os fiéis que constituem a Igreja terrestre, ou a celeste triunfante nos céus, como é nosso caso. PRIMOGÊNITOS [prötotokos<4416>=primitivus] o primeiro em nascer como sucessor de um pai. O latim primitivus significa o que nasce temprano, ou primeiro, que é o mesmo que primogênito. Como assembleia ou ekklesia dos primogênitos  devemos entender todos os amados por Deus como se ama os primogênitos, ou seja, os escolhidos para formar seu séquito eterno no Reino dos céus, que geralmente chamamos de salvos. Na linguagem bíblica o filho, o amado [o agapetos<27>=dilectus] era o mesmo que primogênito, [em hebraico bekore<01060>] como podemos comparar Mt 3, 17 e Mc 1, 11 com Cl 1, 15 em que Paulo chama Jesus como sendo o primogênito de toda criatura. E como diz Hb 1, 6, de novo ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus O adorem. Primogênito por ser o archë<746>, com o duplo significado de começo e principal. Como primogênito, tinha o direito de ser o herdeiro do Pai, direito que o AT chama de bekorah<01062> e que a Setenta traduz como prötotokia<4413>=primogenitura. A primogenitura era o direito a ser o sucessor do Pai. Em termos materiais, era ter uma porção da herança dupla do conjunto dos demais irmãos (Dt 21, 17). Em termos espirituais, o primogênito recebia o nome da família, a qual representava como chefe da mesma; e no caso dos patriarcas, sobre ele recaia a bênção do pacto da Aliança, como vemos que Isaac deu a Jacó: Que os povos te sirvam e as nações se prostrem ante ti. Sê senhor de teus irmãos e os filhos de tua mãe se encurvem ante ti (Gn 27, 28-29). De modo que fazia o trabalho do pai submetendo seus irmãos a seu último parecer, pois era o chefe do clã. José em seus sonhos se transformou em primogênito ao ver como seu feixe se levantava em pé e os feixes de seus irmãos se inclinavam perante o meu (Gn 37, 7). PRIMEIRA INTERPRETAÇÃO: Mas no nosso caso, é a herança a que nos transforma em primogênitos, pois, como diz Paulo, somos transformados em filhos de Deus –adotivos, mas verdadeiros- em Cristo (Ef 1, 5); de modo que nele [em Cristo] fomos também feitos herança (Ef 1, 11). E Paulo pede que os olhos de vosso entendimento sejam iluminados para saberdes qual a riqueza da glória da sua herança (Ef 1, 18). A herança dos que amam a Deus é a de um primogênito; e por isso, os que rodeiam o trono de Deus são chamados de primogênitos. São, pois, os cristãos salvos pela sua incardinação em Cristo. SEGUNDA INTERPRETAÇÃO: Outra interpretação é que esses primogênitos sejam os anjos, primícias da criação. É a menos seguida pelos biblistas. Nesta hipótese seria difícil explicar quem são os espíritos dos justos perfeitos, pois onde entrariam os cristãos? INSCRITOS, pois segundo Paulo existe uma corrente contínua entre eleição e glorificação, como lemos em Rm 8, 29-30: Aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. De modo que por parte de Deus existem duas verdades: uma, a escolha dos mais fracos e inúteis (1 Cor 1, 27) que Jesus exprime em bemaventurados os humildes porque deles é o Reino dos céus (Lc 6, 20), A segunda, sua vontade de levá-los até o fim que é a  glorificação dos mesmos. Por parte do homem a humildade, considerando Deus como o fautor de sua santidade e os outros como superiores, para que assim seja verdadeira a sentença do Senhor Jesus: Os que se humilham serão exaltados (Lc 14, 11). Já o disse profeticamente Nossa Senhora: Exaltou os humildes (Lc 1, 52). Daí o dito de Teresa de Jesus: se queres ser santo sê humilde; se mais santo mais humilde; se santíssimo humildíssimo. ESPÍRITOS DOS JUSTOS: Não existe um comentário satisfatório sobre a natureza destes últimos citados. Talvez se refira aos patriarcas do AT, pois justo era quem cumpria a lei. Temos a passagem de Mt 13, 17 que determina os justos do AT como comparados aos profetas: Em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram. O Ap 11, 18 faz distinção entre os que receberão a recompensa: Teus servos os profetas, os santos e os que temem teu nome. Assim, os justos são os que cumpriram a lei, diferentes dos profetas e até dos patriarcas. Logo temos os APERFEIÇOADOS ou que chegaram à perfeição (TEB) talvez, porque não sendo batizados estariam no conjunto dos que Jesus fala como sendo inferiores aos filhos do Reino, ao comparar estes com o maior dos primeiros, como era o Batista (Mt 11, 10). Talvez seja uma alusão implícita a 1 Pd 2, 19 em que Jesus, antes de sua ressurreição, no espírito, desceu aos infernos para pregar aos espíritos em prisão. Nessa sua visita foram aperfeiçoados os justos do AT. Teremos em consequência, uma Jerusalém celeste formada não por tetos e colunas, mas por um assembleia constituída por miríades de anjos, explicados na continuação: por cristãos, salvos como primogênitos [antes da ressurreição final], com Deus, justo Juiz, e os espíritos dos justos que admitiram Cristo como Senhor na sua visita aos infernos. Ao falar dos espíritos dos justos, encontramos uma espécie de prova de que ainda não se deu a ressurreição dos mortos, [no mínimo devemos admitir isso como tradição]. Essa ressurreição, já de fato, imediata após a morte, é coisa que muitos modernos admitem, contrariando a tradição e afirmando que a ressurreição é imediata no momento da morte. É porque resulta difícil admitir uma ressurreição corporal e, tanto na ressurreição de Cristo como na nossa, prescindem do corpo. Para completar, falta o principal morador dessa Jerusalém que sai no versículo seguinte.

O MEDIADOR: E da nova aliança ao mediador Jesus (24). Et testamenti novi mediatorem Iesum. Finalmente, o principal, autor e habitante da nova Jerusalém, que é o símbolo da nova Aliança entre Deus, como juiz, e a humanidade como pecadora, perdoada por meio de um único mediador: Jesus. Com isso termina a comparação entre os dois pactos, o antigo do Sinai e o novo da Jerusalém celeste.

Evangelho (Lc 14, 1. 7-14)

O BANQUETE

(Padre Ignácio, dos padres escolápios)

NUM SÁBADO PARA COMER PÃO: E sucedeu que ao entrar Ele na casa de certo principal dos fariseus em sábado para comer pão, e eles o estavam observando (1). Et factum est cum intraret in domum cuiusdam principis Pharisaeorum sabbato manducare panem et ipsi observabant eum. Segundo os hábitos romanos, seguidos na época em quase todo o império, havia três comidas diárias: O JENTACULUM [café da manhã, derivado diminutivo de jentare, comer, daí o português janta] que consistia em pão simples ou com algum complemento como a cebola (Os pães e cebolas dos hebreus no Egito e que os romanos traduziam em panis et circenses). Os mais pobres recorriam como clientes aos patrões [de pater, pai] e após a salutatio [saúdo] na casa dos mesmos, recebiam deles uma cesta com comida chamada sportula ou no lugar da comida um pequeno pagamento em dinheiro. Um convite para a janta era também um presente típico. Para muitos pobres desempregados, esta era sua única fonte de vida, embora alguns pudessem ter um ofício retribuído. A segunda refeição do dia era o PRANDIUM; era uma comida fria de pão, fruta, nozes, queijo, azeitonas e salada, feita no fim da manhã. Finalmente a COENA ou cena, perto do pôr-do-sol. Para os pobres consistia em puls mingau de farinha cozida em água, ou um guisado de verduras e frutas, mas raramente comiam carne. Os ovos eram comida comum também entre os romanos, de modo que os postes de contar as voltas dos carros nas corridas do circo máximo terminavam em ovos. Entre os judeus da Galileia o peixe salgado e o pão sem fermento do tipo sírio, tostado na prancha, eram a comida mais comum junto com algumas frutas especialmente as secas e com azeitonas. No caso do simpósium [reunião para beber], o vinho, se existia, era avinagrado. Esta refeição tinha um horário de verão 6 da tarde e outro de inverno, 3 horas no dia mais curto do ano. Nas casas dos ricos existia uma sala chamada triclinium com três bancos em forma de U: no tramo da esquerda estava o banco lectus summus [leito superior] no horizontal o lectus medius [leito médio] e no vertical da direita o lectus imus [leito inferior]. Em cada leito, ou banco, reclinavam-se três pessoas: indo em sentido contrário ao relógio o summus, o medius e o imus. Os gregos só admitiam dois comensais por leito e os romanos até quatro, como foi o caso da última ceia. Os leitos podiam ser de pedra não horizontais, mas algo inclinados para permitir o accubatio, ou seja, para se reclinar neles acima de divãs. No centro do triclinium havia a mesa com os manjares. Os comensais tomavam a comida boca abaixo para logo se recostar sobre o lado esquerdo, apoiados no cotovelo respectivo. Era, pois natural que muitos se reclinaram no peito do comensal situado à sua esquerda, como foi o caso de João, na última ceia (13, 25). Por isso, deduzimos que esta maneira de banquetear-se tinha se introduzido desde os tempos gregos nas famílias mais ricas da Judeia. Os fariseus formavam associações religiosas que tinham como costume o banquete ritual dos sábados, em que a oração e bênção subsequentes os tornava verdadeiros irmãos. É possível que Jesus fosse convidado a um destes banquetes rituais. Como temos visto, a ordem nos mesmos era uma questão de honra. E Jesus observou a atuação dos comensais. Como exemplo do que era um banquete nas casas ricas de Roma temos um provável menu que se dividia em três partes: gustatio (aperitivo) com ovos cozidos, azeitonas, saladas etc. Prima mensa [prato principal] com peixe ou carne, miúdos de porco, etc. Secunda mensa [correspondente à nossa sobremesa] maçãs ou fruta, ostras, escargots [caracóis], vários doces etc. Aparentemente os ovos eram o tradicional aperitivo dos romanos porque tinham um provérbio: dos ovos às maçãs[ab ovo ad mala], equivalente ao dela sopa a los postres do castelhano. De fato, o pão era tão importante na dieta dos romanos que comer o pão equivalia à refeição. Por isso, Lucas diz no trecho de hoje: E sucedeu que ao entrar Jesus na casa de um dos líderes dos fariseus em sábado para comer o pão. Aparentemente, Só Jesus foi convidado. A intenção do hospedeiro e principalmente dos outros convivas era a de observar a conduta de Jesus.

A OBSEVAÇÃO DE JESUS: Dizia, pois, aos convivas uma parábola, observando como escolhiam os primeiros lugares, dizendo-lhes (7). Dicebat autem et ad invitatos parabolam intendens quomodo primos accubitus eligerent dicens ad illos. Quando fores chamado por alguém para um banquete não te reclines no primeiro lugar, que não exista que um mais honorável que tu sejas o chamado por ele (8). Cum invitatus fueris ad nuptias non discumbas in primo loco ne forte honoratior te sit invitatus ab eo. E chegando quem invitou a ti e a ele diga: dá lugar a este. E então comeces com vergonha ocupar o último lugar (9). Et veniens is qui te et illum vocavit dicat tibi da huic locum et tunc incipias cum rubore novissimum locum tenere. Mas quando fores chamado, vá reclinar no último lugar para que quando venha o que te chamou te diga: amigo, ascende mais alto.  Então será para ti glória ante os que contigo estão reclinados. (10). Sed cum vocatus fueris vade recumbe in novissimo loco ut cum venerit qui te invitavit dicat tibi amice ascende superius tunc erit tibi gloria coram simul discumbentibus. Porque todo o que se exalta será rebaixado; e quem se abaixa será exaltado. Lucas diz que Jesus falou em forma de parábola. Temos uma ideia de que parábola é um conto do qual só podemos usar como ensino a moral da história. Mas a parábola tem vários significados como provérbio, alegoria, enigma, que podem traduzir tanto a palavra mashal como hidah [enigma] ou simples reflexão. É uma comparação que usa termos descritivos mais do que narrativos para expor uma determinada valoração ou aplicação concreta. É como se observássemos uma página da vida para logo tirar as conclusões que ela nos oferece como exemplo. A primeira observação é para os convivas que com certeza lutaram pelos primeiros lugares. Jesus usa o convite de bodas [gamos, em plural um banquete] em que havia muito mais do que nove ou uma dúzia de convidados e no qual os lugares de honra não estavam previamente designados. Quem acredita ser melhor do que os outros, pode se ver na humilhação de ter que deixar seu posto a um outro mais honrado do que ele e, como todos os leitos estão ocupados, ter que ir para o último lugar. Por isso é melhor ocupar o último lugar para que o hospedeiro possa te dizer: amigo, ascende para um lugar mais importante. Já na palavra amigo se encontra uma grande manifestação de estima que se transforma em visível cortesia quando diante de todos se ocupe um lugar mais digno. Não serás envergonhado, mas exaltado, vem dizer a conclusão particular de Jesus. Os rabinos também diziam coisas semelhantes: Desce do lugar que pensas que te corresponde duas ou três posições; porque é melhor ouvir do hospedeiro sobe que escutar desce (Pr 25, 6-7). E por isso ele universaliza a conclusão, no plano divino, usando a passiva teocrática: Porque todo aquele que se exalta será humilhado e aquele que se humilha será exaltado (11).

OBSERVAÇÃO AO HOSPEDEIRO: Diziam, pois, também a quem o chamou: quando fizeres um almoço ou um jantar, não chames teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos, não seja que eles te convidem por sua parte e se torne para ti uma retribuição (12). Dicebat autem et ei qui se nvitaverat cum facis prandium aut cenam noli vocare amicos tuos neque fratres tuos neque cognatos neque vicinos divites ne forte et ipsi te reinvitent et fiat tibi retributio. Mas quando fizeres uma festa, chama mendigos, aleijados, coxos, cegos (13). Sed cum facis convivium voca pauperes debiles claudos caecos. E serás bendito porque não têm para te retribuir. Porém ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos (14). Et beatus eris quia non habent retribuere tibi retribuetur enim tibi in resurrectione iustorum. O grego usa duas palavras diferentes para classes de refeições ariston que podemos traduzir por almoço ou como temos visto o prandium romano e deipnon cuja tradução é, sem dúvida, jantar ou a coena dos mesmos, comida a mais importante do dia. Talvez Lucas esteja excetuando o jentaculum em que logicamente o proveito do patrão era ter como servos os fregueses a quem dava de comer. Nas outras duas ocasiões o proveito não era tão óbvio assim. Jesus, evidentemente, visa à recompensa: ou é dada de imediato, em forma de retribuição ou, pelo contrário, é melhor convidar pobres, aleijados coxos e cegos para a festa [doché]. Jesus está diretamente apontando verdadeiros mendigos, pois ptochós é a palavra do pobre que vive de esmolas; e aleijados, coxos e cegos eram precisamente aqueles que não podendo trabalhar, só tinham solução para poder viver, na caridade dos transeuntes das estradas, ou dos orantes no templo e sinagogas. Realmente esses tais não poderiam pagar.  Jesus mesmo nos oferece a solução evangélica a este problema humano: sereis benditos, porque não existindo quem vos possa retribuir, a vossa recompensa será na ressurreição dos justos (14). Os ouvintes eram fariseus que acreditavam na ressurreição (At 23, 8) sendo a mesma um prêmio especial para os que se consideravam a si mesmos justos (Lc 18, 19). À parte a ressurreição, eles podiam esperar um trato especial divino como recompensa pelo que não puderam fazer os seus convivas indigentes.

PISTAS: 1) A primeira observação de Jesus diz respeito à honra humana, essa que os rabinos tanto desejavam para serem vistos pelos homens (Mt 6, 5). Porém Jesus não fica unicamente no plano humano e por isso expõe a razão última da verdadeira humildade, como observada por Deus. É o próprio Deus, que nos seus planos, dispõe exaltar o verdadeiramente último em sua consciente interioridade, para degradar o que Maria chamará soberbo no fundo de seus pensamentos (Lc 1, 51).

2) A segunda observação é sobre o modo de acolher as pessoas que queremos ajudar: se unicamente temos como amigos os que podem retornar o bem feito, seria uma maneira comercial e egoísta de atuar. O mundo seria um comércio em que a lei dominante se tornaria a lei da oferta e da demanda. Mas se escolhemos os mendigos, os que nada podem oferecer como resposta, então seria o homem enquanto necessitado de nossa ajuda como valor universal quem dirigiria nossa atitude e modo de viver.

3) Evangelicamente nos interessa o modo de entender os planos divinos: Ele só premia o que os homens deixam injustamente de recompensar. Evidentemente a recompensa divina tem duas conotações que não podemos esquecer: a eternidade da mesma, e a magnanimidade de quem é infinitamente rico e dadivoso.

4) Não podemos evitar a reflexão de que, uma vez mais, o Reino é comparado a um banquete, uma festa, uma alegria por participar da vida divina plenamente em sua amabilidade e de que nós também devemos participar com os outros homens dessa alegria, de modo a sermos o sal e a luz dos que estão famintos ou cegos na vida.