EPÍSTOLA (Cl 3, 1-4)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Neste trecho, Paulo chama a atenção dos colossenses para o fim fundamental que deve dirigir toda a vida de um cristão: ele está unido a Cristo, de modo que deve imitar a vida do Mestre e, conforme essa vida, passar por este mundo vivendo a esperança de  uma ressurreição do Cristo místico e total que Paulo predica em suas epístolas.

RESSUSCITADOS COM CRISTO: Se, pois, tendes ressuscitado com Cristo buscai as (coisas) do alto onde o Cristo está sentado na destra do Deus (1). Igitur si conresurrexistis Christo quae sursum sunt quaerite ubi Christus est in dextera Dei sedens. A epístola é um canto a Cristo como sendo o fundamento e raiz da vida e do pensamento dos fieis [a sabedoria divina em nossas vidas] a quem é dirigida a carta. Essa ideia tem uma parte negativa: nada de uma Lei que ata e oprime, como eram as normas antigas em que os judeus fundamentavam sua salvação, que Paulo descreve com o não tomes, não proves, não toques como sendo mandamentos e doutrinas dos homens (Cl 2, 21-22) e que constitui a sabedoria humana para satisfazer a carne. Aqui começa o nosso trecho de hoje. TENDES RESSUSCITADO: Para Paulo, o batismo é um morrer ao homem velho e um ressurgir com Cristo que é o novo Adão (1 Cor 15, 45), de onde nasce a nova humanidade. O grego Synegeirö [<4891>=conresurgere] está formado pela partícula syn [conjuntamente] e egeirö [levantar-se] que ao uni-lo com Cristo significa corressuscitar, ou seja, ressuscitar juntamente com ele. DO ALTO [Anö<507>=sursum] é um advérbio que indica acima, ou seja, segundo o pensar da época, do céu. Por isso Paulo acrescenta que é o lugar onde está sentado Cristo atualmente. E prossegue na DESTRA [<Dexios<1188>=dextera] de Deus. Na linguagem simbólica ou metafórica, necessária para poder falar de coisas que não conhecemos, Deus habita um lugar próprio: o terceiro céu, embora saibamos que está em todo lugar e entendamos a metáfora de sua destra como o lugar mais próximo e que exerce o maior poder, dentro de seus planos de criação e redenção. Cristo seria o primeiro ministro do rei universal que é Deus. Paulo emprega as palavras do salmo 110, 1 para esse seu simbolismo: Oráculo do Senhor ao meu senhor: senta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos o escabelo de teus pés.

A SABEDORIA VERDADEIRA: As do alto considerai não as sobre a terra (2). Quae sursum sunt sapite non quae supra terram. E como se fosse um poema em que predomina a repetição com  palavras novas, mas respeitando a mesma ideia, dirá de novo que as coisas do alto [não as da terra] serão as que devem nos preocupar e dominar a nossa consideração. A morte mística é uma morte parcial: morte a tudo que na terra se considera vida de felicidade como riquezas, prazeres e honras e vida de escravos com Cristo, sempre servindo como ele deu exemplo em Jo 13, 15 dizendo que se isso praticarmos seremos felizes (idem 18).

VIDA COM CRISTO: Já que morrestes e vossa vida está escondida com Cristo em Deus (3). Mortui enim estis et vita vestra abscondita est cum Christo in Deo. Paulo repete, mais uma vez, a ideia de que todo batizado está morto para toda atividade que não seja a vida com Cristo. Vida que ele declara está oculta. Não é uma vida para ser reconhecia pela fama do mundo, mas para ser ocultada em sua maior parte, como foi a vida de Jesus. Pode ser também que esse ocultismo seja devido a que a vida plena do Cristão só se manifestará na glória, glória que agora está escondida e que desconhece o sujeito da mesma como glória, no futuro. S. Teresa dizia que se pudéssemos ver a glória duma alma em graça, ficaríamos estonteados de sua maravilha. Porque essa alma é como um pequeno céu que guarda em seu interior o esplendor divino, da forma como o que viram os três apóstolos no monte Tabor. Metamorfose que se realiza na alma em que Deus habita por graça. Porém, essa vida está escondida no momento presente na terra. Paulo dizia de si mesmo que não vivia ele, mas que era Cristo quem vivia sua vida nele por meio da fé (Gl 2, 20). Pouco antes, ele escrevia aos de Colossos: se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças? (Cl 2,20). De onde podemos intuir que essa sua preocupação com que as leis mosaicas não anulassem a lei da cruz de Cristo, entrava dentro dessa base terrena que não devia ser considerada como vida cristã.

GLÓRIA FUTURA: Quando o Cristo se manifestar, nossa vida, então também vós com ele vos manifestareis em glória (4). Cum Christus apparuerit vita vestra tunc et vos apparebitis cum ipso in gloria. Na 1  Jo 3, 2, o apóstolo também fala de uma manifestação de Deus em nossas vidas e que então seremos semelhantes a Ele pois o veremos como Ele é. Isto é entrar na glória divina. Quando Jesus se declara como caminho e vida (Jo 14, 6) pensamos nas coisas da terra e que ele nos guia e é vida durante nossa caminhada aqui embaixo; mas na realidade, está se referindo à vida final, a eterna, como ele proclama (Jo 3, 15). Pois não seria nossa condição muito melhor se só esperássemos Jesus para melhorar o mundo atual. O fracasso seria o resultado imediato. Essa vida que ele promete em abundância está oculta na terra e só será plena e visível no reino futuro, onde a fraqueza é substituída pelo poder e onde a ignomínia é transformada em glória (1Cor 15, 43), ou como declara aos filipenses, que transformará nosso corpo de  reles condição em corpo de glória (3, 21).


 

EVANGELHO  (Jo 20, 1-9)

A RESSURREIÇÃO DO SENHOR

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

 

INTRODUÇÃO: Estamos acostumados a escutar os mestres falando do sepulcro vazio e da lousa retirada. São as bases -eles o afirmam- da ressurreição de Jesus. Mas, nesse caso, por que os judeus não se tornaram cristãos? Será que existem dois grupos separados ante o acontecimento, um que reflete a atitude do discípulo amado, que viu e creu. E um outro, a de Pedro, que ficou maravilhado com o acontecido, mas sem chegar às portas da fé? Qual foi, em definitivo, a causa que também mudou a atitude de Pedro até a fé? Somente a disposição dos panos, unicamente a ausência do cadáver? Quiçá a pedra de entrada, retirada talvez de forma abrupta? Acreditamos que existe uma experiência que não podemos chamar de histórica porque é íntima e não compartida de forma sensível por todos como testemunhas. É a experiência mística da visão sobrenatural, nem por isso menos real e vívida que a experimentada pelos sentidos. Pelo contrário, deixa uma memória tanto menos extinguível quanto mais extraordinária e infrequente ela é. Logicamente quem de antemão descarta o sobrenatural, tenderá a explicar o fenômeno em termos naturais de paranoia e histeria. Mas quando a visão é coletiva, e mais,  quando responde a situações diferentes, com pessoas entre si independentes, como é o nosso caso, a explicação natural não é suficiente e constitui o único recurso de quem não quer admitir o sobrenatural. Têm ouvidos e não ouvem, têm olhos e não veem (Mc 8, 18). Cremos que as bases da ressurreição foram as experiências místicas dos discípulos que as tornaram testemunhas (Lc 1,2) de que Jesus vivia e era Senhor. É o caso de Paulo que nem viu o túmulo, nem conhecia Jesus; mas que O viu e ouviu em Damasco (At 9, 4-7). Mas vejamos o evangelho e sua exegese. Dos quatro evangelhos canônicos que a tradição identifica com Marcos, Mateus, Lucas e João, somente este último autor foi testemunha ocular (19, 35) que escreveu afirmando a verdade de seu testemunho (21, 24). Isso indica que ele esteve lá como testemunha de vista. Mas também seu testemunho poderia ser como ouvinte indireto, pois logicamente não ouviu as palavras entre Jesus e Pedro. Daí sua autoridade e importância como ouvinte de uma tradição imediata, reconhecida. É precisamente o que aconteceu com Marcos e Mateus (Lc 1,2). Lucas se apresenta como o investigador e ordenador dos fatos narrados por testemunhas oculares e espalhados por ministros [oficiais] da Palavra (Lc 1, 20). Se Marcos, Mateus e Lucas não são as testemunhas oculares, como é o quarto evangelho, são sim testemunhas oficiais de uma tradição que pode ter muitas lacunas e até importantes deficiências como todo relato humano de segunda mão; mas temos a certeza de que os fatos não são inventados. A tradição é a testemunha principal destes três evangelhos que chamamos sinóticos. Disso deduzimos que as conclusões são importantíssimas porque são de testemunhas auriculares nos quais a primitiva Igreja acreditava; e eram fatos reais aqueles  em que essa fé estava fundamentada. Há dentro dessas narrações, interpretações que dependem do ambiente e das tradições do antigo Israel, que se fundam tanto na Torah [lei escrita] como na Mishná [lei falada]. Por isso escolhemos como linha essencial o evangelho de João, a única testemunha ocular e auricular dos fatos do Domingo da Ressurreição.

AS CIRCUNSTÂNCIAS: Porém no dia  um (primeiro) da semana, Maria a Madalena vem de madrugada, estando ainda escuro, ao monumento e olha a pedra arrancada do monumento(1). Una autem sabbati Maria Magdalene venit mane cum adhuc tenebrae essent ad monumentum et videt lapidem sublatum a monumento. O DIA: Te de mia<2291> tön sabbatön<4521>: A tradução literal seria ¨No dia um da semana¨ porque Sabbatön, em plural, deve ser traduzido por semana. Assim lemos em Lucas 18, 22 que o fariseu jejuava duas vezes do sábado: [dis tou sabbatou] ou duas vezes da semana [tradução literal]. Outra irregularidade é que se usa o plural [sabbatön dos sábados, ou das semanas].  O latim traduz una autem sabbati de forma completamente literal até retendo o numeral, o que podemos traduzir ¨No uno do sábado¨. O latim não traduz Sábados, mas Sábado, assim evitando a semana e ordenado o dia como cabeça para o numeral um. Na realidade mia significa uma [dia é feminino em grego] e está implícita a palavra  emera [dia], sendo possível a tradução primeira no lugar de uma; ou seja, o grego usa o cardinal [um] pelo ordinal [primeiro].  Não existe, pois, dificuldade em traduzir: no primeiro dia da semana. Aliás o grego, tanto de João como de Lucas, toma a ordem pelo simples cardinal e teremos a tradução: ¨No primeiro (entende-se dia) da semana¨. Mateus também usa o sábado em plural. Marcos dirá que, passado o sábado (o dia, porque em singular). Somente na vulgata de Mateus encontramos o ordinal [prima] e somente Marcos usa Sábado em singular. Que indica tudo isto? Provavelmente uma tradução direta do aramaico, transmitido verbalmente. Resolvidas as dificuldades, traduziremos da melhor maneira possível,  conservando o original: Ora, no primeiro dia da semana, ou seja, segunda-feira para nós. A HORA: Cedo, ainda estando escuro- dirá João. Ou seja, de madrugada. Mateus dirá que ao luzir o dia. Marcos dirá muito cedo, quando o sol estava saído, o que parece uma contradição. Lucas fala de uma alvorada profunda que o latim traduz por ao primeiro romper do dia. Unicamente Mateus parece discordar e assim podemos ler: Depois do sábado, no alvorecer do primeiro [dia] do sábado [da semana]. O latim da vulgata serviu para confundir, traduzindo Opsé de sabbatön por vespere autem sabbati, literalmente: na tarde do sábado; porque véspera significa a tarde do dia. Mas logo Mateus acrescenta eis mian sabbatön [no primeiro das semanas]. Era na tarde do sábado ou eram as primeiras horas do domingo, que, segundo os cálculos antigos, começava às 6 da tarde do sábado e não as 24 horas?  As vésperas são as orações que se recitam na tarde do dia, mas sempre ao redor das cinco da tarde.  Logo parece que Mateus dá uma hora que corresponde com as últimas horas do sábado tal e como o entendemos hoje. Porém o advérbio Opsé significa depois, muito tempo após, tarde no dia, no fim. Daí que podemos traduzir por no fim do sábado. E assim hoje todas as traduções dizem: passado o sábado. Logo todos coincidem no dia, e na hora.

AS MULHERES: Marcos fala de Maria, a Madalena, Maria de Jacó e Salomé (16, 1). Mateus de Maria, a Madalena e a outra Maria (28, 1), expressão repetida de 27, 61. Sabemos que essa outra era a mãe de Tiago e de José (27, 56), os chamados irmãos de Jesus (Mt 13, 55). Para Lucas são muitas as mulheres; além da Madalena e Maria de Jacó, estava Joana e as demais mulheres com elas (24, 10). Evidentemente Lucas está se referindo às mulheres que acompanhavam Jesus com suas posses como diz em 8, 3: Joana, mulher de Cuza, o mordomo de Herodes, Susana e várias outras. Como vemos, eram ricas e nada diz das que eram parentes de Jesus como Maria de Jacó ou parentes dos discípulos como Salomé, a mãe dos filhos de Zebedeu que era ao mesmo tempo parente de Jesus. Já João fala unicamente de Maria, a Madalena, porque provavelmente seja a única que viu o Senhor ressuscitado (Jo 20, 117), embora as outras tenham visto os anjos (Lc 24, 23) e também porque ele afirma, no seu evangelho, que narra como testemunha os fatos que escreve. Só com a Madalena ele teve contato e por isso despreza, ou melhor, não pode contar fatos dos quais ele não foi testemunha. Assim podemos compaginar a singeleza da Madalena em João com a pluralidade e a riqueza dos detalhes dos outros evangelistas. O relato de João é, pois, muito pessoal e relativo, mas totalmente verídico.

MARIA, A MADALENA: A) O SOBRENOME :O sobrenome Madalena tem dado lugar a muitas investigações e delas destacamos duas: 1ª)  Um toponímico que poderia indicar que a mulher era de, ou tinha morado em Magdala. O seu sobrenome não era patronímico nem familiar, mas geográfico o que indica ser uma mulher solteira ou viúva sem filhos. Magdala [também de nome Magadã] situava-se no lugar que hoje ocupa Tariqueia, cinco quilômetros ao norte de Tiberíades, a cidade capital do tetrarca Herodes Antipas. A palavra Tariqueia é de origem grega e significa pesca salgada. Contava com uma frota de 230 barcas e uma população de 40 mil habitantes; mas esta cifra parece exagerada e teremos que deduzi-la a 4 mil. Era a cidade mais importante do lago, incluindo Tiberíades. O nome primitivo talvez fosse Migdal-El [= torre de Deus]. O nome de Magdala indica que era uma torre-vigia que guardava a importante  rota que a atravessava. No AT é possível que seja a Migdal ou Magdalel de Js 19, 38, pertencente ao território de Neftali. O NT usa os nomes alternativos de Magadã (Mt 15, 39)  e Dalmanuta (Mc 8,10), que alguns códices traduzem por Magdala. Dalmanuta parece ser a moderna El-Delhamive. O Talmud distingue entre dois Magdalas: Magdala Gadar [hoje El-Hammi] duas horas de caminho do o sul do lago ao leste; e Magdala Nunnaya [dos peixes], chamada também de Tariqueia, perto da antiga Tiberíades, que o Talmud palestino ou de Jerusalém afirma estar a 5,5 km  da antiga Tiberíades, capital da Galileia. Segundo o Talmud, Magdala era uma cidade rica, importante centro de agricultura, pesca e comércio, na rota chamada Via Maris que atravessava a baixa Galileia até a fértil planície de Genesaré e que foi destruída pelos romanos devido à depravação de seus habitantes. Após a destruição do templo de Jerusalém, Magdala ou Tariqueia, nome grego com que era conhecida, se tornou sede de uma das 24 classes sacerdotais e lugar habitado por alguns doutores da Lei. Nesta cidade existia, já desde o século IV dC, uma igreja dedicada à memória de Maria, a Madalena. No século VI, o peregrino Teodósio afirma que Magdala equidistava de Heptageon [hoje Ain Tabga]  no norte,  e de Tiberíades no sul como 3 Km.  Esta última foi fundada por Herodes Antipas nos anos 18 a 22 e chegou a ser a capital da Galileia, substituindo a Séforis. Tiberíades tinha foro, estádio,  um palácio real, templo pagão e sinagogas. Flávio Josefo a rendeu a Vespasiano. Após a guerra e queda de Jerusalém, o sinédrio residiu nela e nela estava a escola rabínica que compilou o Talmud jerosolimitano no século IV e os massoretas, que no século VIII, vocalizaram o texto das escrituras com pontos vocálicos chamados tiberienses. 2ª) Um apelido: [apodo em espanhol] Uma exegese moderna liga Magdalena com uma palavra hebraica que significaria perfumista. Porém no pequeno dicionário de Sprong mais do que perfume a palavra meged e seu derivado migdanah significa coisa preciosa como uma gema ou um presente muito caro. Segundo o Talmud [o livro mais importante do judaísmo pos-bíblico, intérpretre tradicional da Torah que compreende a Mishná e a Guemará], Magdalena significa cabelo crespo de mulher, embora na sua rivalidade com o cristianismo diz dela que era adúltera. Não são, pois, os evangelhos mas o Talmud que denegriu a Madalena. Era, pois, um apelido como o de Iscariotes de Judas ou de Simão, o Zelota [melhor cananeu]. Lucas fala da Madalena como Maria a chamada Madalena (Lc 8,2). Os demais evangelistas sempre unem Maria com a Madalena  [të magdalënë <2094>].  UM EXEMPLO: De Judas dirá Lucas em 22,3 que era chamado [apelidado diríamos, pois o verbo é epikaleô] iskariötës. O nome verdadeiro dele era Judas de Simão, nome patronímico como era  o de todos os judeus em geral, que significa Judas filho de Simão. O Iskariotes era um apelido, como podemos ver claramente em João 6, 71 em que fala de Ioudan Simönos iakariötën que a Vulgata traduz como Iudam Simónis, Iscariótem; [hic enim erat traditúrus eum]. Como que dizendo: Iscariotes significava traidor. Os textos gregos recebidos têm alguma diferença. O de Nestlé é o mais clássico, e o de Merk é o texto católico. Um exemplo é o de Lucas 22, 3 em que fala de Judas o apelidado iskariotes [Ioudan ton epikaloumënon iskariotën] {Nota: uma variante do sobrenome de Tomás em grego fala do epikaulomenon Didimon em Lc 6, 15. O texto de Merk substitui epikaloumenon [apelidado] por kaloumenon [chamado]}. Supondo que o original seja epikaloumenon [apelidado], que significaria então o apelido Iskariotes? Até agora derivava-se de ish kariot  ou homem de Kariot uma cidadezinha da Judeia perto de Hebron,  que tinha como nome Cariot-Hesron ou Hasor. (Js 15, 25). Mas é difícil que nos tempos de Jesus a cidade recebesse o nome de Cariot e não fosse conhecida com o nome de Hasor.  A segunda etimologia é de sicariot o partido mais radical dos Zelotas que conhecemos com o nome de sicários. Mas os zelotas e, portanto os sicários, a parte mais radical dos mesmos, só foram conhecidos como tal partido político e grupo terrorista nos anos 60 dC. Consequentemente devemos admitir que a nova interpretação que dá como tradução do nome iskariotes o aramaico ladrão é a única verossímil. Tendo em vista que Madalena é um apelido, seu significado seria o derivado do aramaico perfumista ou o dado pelo talmud: a do cabelo encrespado. B) A MULHER: Mas quem era, na realidade, Maria, a Madalena? a) IDADE: Maria Madalena era uma mulher da qual Jesus tinha expulsado sete demônios que em termos modernos diríamos uma doença mental grave como uma loucura ou esquizofrenia. A Madalena era uma mulher curada por Jesus de sete demônios (Lc 8, 2), de cujo fato não temos mais detalhes. Como os demônios eram a causa das doenças mentais como epilepsia (Mt 17, 15), esclerose (Lc 13, 11) e loucura (Jo 8, 48) e até histeria e mudez (Mt 9, 32), não podemos responder à pergunta: que tipo de doença tinha Madalena? Ela acompanhava Jesus junto com outras mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e também Joana, mulher de Cuza, mordomo de Herodes [Antipas], e Susana e outras muitas as quais o serviam com suas posses (Lc 8, 2-3). Joana era uma mulher de mais de 50 anos e todas as mulheres que acompanhavam Jesus tinham essa idade. Um exemplo é a própria mãe de Jesus, como era também Maria, prima irmã de Nossa Senhora, mãe de Tiago e José, e Salomé, a mãe dos filhos de Zebedeu que estavam com a Madalena ao pé da cruz, como diz Mateus (27, 56). A Madalena era amiga de Maria, a mãe de Tiago e José, e é de se supor da mesma idade, ou seja conforme diz Paulo em 1 Tm 5, 9  das mulheres inscritas no grupo das viúvas com não menos de sessenta anos. b) O COGNOME: Era, como recentes investigações sugerem, um epíteto que significaria cabelo enroscado de mulher, segundo o Talmud, ou perfumista, segundo outra interpretação. Era, pois um apelido como o de Judas, o Iscariote. Mas quem foi na realidade Maria Madalena? Os evangelhos falam de Maria Madalena ou Maria de Magdala.  De todos os relatos deduzimos: 1º) Os modernos têm suscitado a velha ideia gnóstica de que foi a esposa de Jesus. Mas, se fosse esposa de Jesus, os evangelistas  teriam dito Maria de Jesus, assim como nomeiam a Maria de Cléofas (Jo 19, 25). E Lucas a apresenta como uma das pacientes curadas por Jesus. Porém, é simplesmente Maria, a Madalena (sic) (Mt 27, 56;  e 28,1. Marcos 15, 40; 15, 47;16, 1 e 16, 9; Lucas 8, 2 e 24, 10) e finalmente João 19, 25; 20, 1 e 20, 18. Em todos os versículos é Maria, a Madalena, exceto em Lc 8, 2 em que o evangelista explica Maria a chamada [ou apelidada] Madalena. Pelo seu nome podemos dizer que não era casada, nem tinha parentes próximos vivos como filhos tal como Maria de Cléopas ou Maria mãe de Tiago e José. 2º) Era Maria Madalena uma pecadora ou a pecadora de Lc 7, 36-50? É difícil admiti-lo, pois no seguinte capítulo Lucas (8,2) fala de Maria Madalena sem indicar que se trata da mesma pessoa. Ser ou estar possessa não é o mesmo que ser pecadora. E como alguns intérpretes afirmam, a palavra pecadora em Lucas significa mulher pagã ou mulher judia casada com um pagão muito mais do que mulher pública. 3º) Tampouco se pode identificá-la com Maria de Betânia pois o evangelho de João distingue perfeitamente ambas as pessoas. A nossa Maria tem o nome de a Madalena, que, caso fosse toponímico, indicaria um lugar da Galileia, no norte; e a de Betânia [lugar da Judeia no Sul] é chamada de irmã de Lázaro ou irmã de Marta. Poderíamos confundir a pecadora de Lucas 7, 36-50 com Maria de Betânia, porque ambas ungem os pés de Jesus com perfume e  secam com seus cabelos. Parece que era um costume aceito na época. A mulher, no caso da pecadora na casa de Simão, teve lugar na Galileia e os convivas eram fariseus; Pelo contrário, Maria, a de Lázaro, fez a unção na Judeia em casa do Simão, o leproso, em Betânia,  com os discípulos como convivas e o aparente desperdício do rico nardo poucos dias antes da morte de Jesus. Este fato, narrado por Mateus e Marcos sem indicar o nome da mulher, tem alguns detalhes diferentes de João como o de que o perfume foi derramado na cabeça de Jesus. Lucas fala de uma pecadora em casa de Simão e coincide com João em notar que ela ungiu os pés do Mestre. No máximo poderíamos deduzir que Maria de Betânia, a de João, era  a pecadora de Lucas. Porém isto está fora de cogitação porque o mesmo Lucas fala de Maria de Betânia em 10, 39-42 sem falar da identidade das duas. O próprio João distingue em seu relato entre Maria [a de Betânia] a quem chama simplesmente Maria em 20, 11 e 20, 16, e Maria, a Madalena, em 19, 25; 20, 1 e 20, 18. Os textos evangélicos nunca identificam Maria Madalena com a pecadora ou com Maria de Betânia. A Igreja grega celebra três festas diferentes, uma para cada mulher. A Igreja latina antes de S. Agostinho (+430) falava de três mulheres a exceção de uma única passagem. Foi S. Gregório Magno (590-604) que, de fato, identificou as três mulheres. A identificação foi muito posterior ao concílio de Niceia (325). Não houve, pois, na Igreja primitiva intenção alguma de sujar a imagem de Maria Madalena, com a da  pecadora de Lucas 7, 36-50 ou com Maria de Betânia, porque ambas ungem os pés de Jesus com perfume e  secam com seus cabelos.

OUTRAS MULHERES: Para João, era Maria de Magdala aparentemente a única protagonista, embora admita que com ela havia alguém mais, pois dirá no versículo 2 não sabemos, o que indica a presença de mais alguma mulher com ela e que ela foi a encarregada de comunicar a notícia de que tinham tirado o Senhor do sepulcro. Mateus fala também da outra Maria que Marcos descreve como a de Jacob e ainda acrescenta mais uma testemunha que chama de Salomé. Para Lucas, serão Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Mateus fala também da outra Maria que Marcos descreve como a de Jacob e ainda acrescenta mais uma testemunha que chama de Salomé. Vamos conhecer essas outras mulheres com mais detalhes. A outra Maria era prima-irmã, da mãe de Jesus. Esta nova Maria era mãe de Tiago ou Jacó o menor, e de Joset (sic) (Mc 15, 47). Vemos aqui um argumento para afirmar que os irmãos de Jesus eram os filhos da outra Maria, a prima-irmã de Maria, pois ambos, Tiago e Joset, têm os mesmos nomes que os identificam com o Tiago e José de Mateus 13, 55, e segundo Lucas, mãe de Tiago (Lc 24, 10), que nos parece ser Tiago, o menor, de At 12,17, que sem outro cognome é o irmão do Senhor, como em nota afirma a Bíblia de Jerusalém. Talvez possamos identificá-la com a mulher de Alfeu (Mt 10, 3). Joana era a terceira mulher, esposa de Cuza (Lc 8, 2.3). Finalmente Salomé mulher do Zebedeu (Mt 27, 56) e mãe de Tiago e João.

O MONUMENTO: A palavra usada por João não é sepulcro ou tumba, mas monumento (funerário) ou mausoléu. Somente Mateus usa Tafos que podemos traduzir por sepulcro como na Vulgata. Isso indica que a tumba de Jesus era especial, como a de um rico proprietário. Existiam duas classes de sepulcros que podemos chamar de verdadeiras covas ou cavernas: as mais comuns eram poços de tipo vertical. Sobre a cavidade, como tampa do poço, havia uma pedra ou lousa que cobria o buraco impedindo as feras de se apoderarem do cadáver. Já as covas de tipo horizontal eram sepulcros escavados ao nível do chão com uma abertura de aproximadamente um metro de diâmetro de modo que um adulto devia se agachar (Jo 20, 5) para entrar. Uma pedra, que em casos mais sofisticados, era uma roda deslizante sobre um carril escavado ad hoc, tampava a entrada. Esta parece ser a tumba que quase todos os evangelistas chamam de monumento novo, escavado na rocha, no qual José de Arimateia colocou o corpo de Jesus, envolto num lençol limpo; e rolando uma grande pedra à entrada do monumento, retirou-se (Mt 27, 59-60). Marcos também fala da pedra rolada sobre a porta do monumento. Em Lucas a pedra está desenrolada quando as mulheres vão ao sepulcro na manhã da madrugada do domingo. Segundo comentários da On Line Bible, a pedra de uma sepultura pequena só podia ser movida com o recurso de 20 homens, e a pedra da nossa sepultura era grande. Somente João fala da pedra como Erménon, ou seja, levantada à força, que podemos traduzir por arrancada. Esta seria a tradução mais própria. Segundo os estudiosos, existiam duas classes de sepulturas individuais entre as quais podemos chamar de monumentos: as que se designam por Kõkim, com nichos ou buracos escavados horizontalmente, furados perpendicularmente às paredes, de dois metros de comprimento em que o cadáver era colocado, enterrando no buraco a cabeça em primeiro lugar; e outras em que existiam arcos em cujo semicírculo existia um banco de pedra onde era depositado o morto paralelamente à parede. Parece ser este último o lugar onde repousou Jesus morto, porque as mulheres viram dois anjos um na cabeceira e outro aos pés da mortalha (vers 12). Junto ao santo Sepulcro atual existem as duas formas de tumbas, arqueologicamente documentadas.

O SANTO SEPULCRO: As recentes investigações arqueológicas demonstram que, no tempo da crucifixão de Jesus, as proximidades do Gólgota eram hortos, também usados como sepulturas. As escavações no subsolo da basílica e ao sul da mesma demonstram que desde o século VII aC esta zona foi usada como canteira. E que uma parte desta canteira, nos primeiros anos do cristianismo, foi transformada em horto e usada como lugar de sepultura. No lugar onde se supõe estava o Gólgota encontramos os restos de uma rocha pelada. Desde os primeiros anos, o sepulcro de Jesus foi muito venerado. O momento mais crucial foi a segunda revolta dos judeus e a total destruição de Jerusalém no ano de 135. Adriano expulsou os judeus e edificou sobre a antiga Jerusalém a Aelia Capitolina, levantando nos lugares mais sagrados templos aos deuses romanos. Especialmente, sabemos pelos escritos, que Adriano erigiu estruturas pagãs sobre o Gólgota e o santo sepulcro, fatos confirmados pelas escavações que provam a existência de muros, um celeiro e colunas que depois foram usadas por Constantino para as cisternas e o Anástasis. Aí estava seu capitolium. O lugar sagrado por excelência foi rededicado por Adriano aos deuses romanos. O espaço do Gólgota e a pendente contígua em que estava o Sepulcro foram enchidos de entulho para construir sobre eles o fórum e os templos de Júpiter e Vênus. O terreno foi rodeado por um muro e repleto de enormes quantidades de terra levantando uma esplanada nova sobre a qual colocaram as colunas da rua principal, o cardo, para terminar no fórum (praça) e nos templos. Assim o descreve Eusébio no século IV. No século III os visitantes cristãos nada sabem do Gólgota e do santo sepulcro, sepultados como estavam pelo aterramento de Adriano, entre eles o bispo Macário de Aelia Capitolina, que relatou em Niceia no Concílio o abandono dos lugares sagrados de Jerusalém. Temos uma carta em que Constantino comunica a Macário seu projeto de destruir os templos de Adriano e de escavar o terreno para construir uma basílica. Assim o fez e temos testemunhas de que apareceu a rocha do Calvário, e a entrada do sepulcro perto dela. Os entulhos ocultavam uma velha cisterna para águas de chuva. No fundo da mesma encontraram-se alguns lenhos e pregos velhos. Cirilo de Jerusalém, numa carta, afirma ao imperador Constâncio que em tempos de seu pai foi encontrado o lenho da cruz. Sobre a piscina foi achada uma basílica a quem se deu o nome de Martirium. Sobre o sepulcro se construiu um santuário circular em cujo centro estava o sepulcro a que se deu o nome de Anastasis (ressurreição). Os dois edifícios foram logo unidos por pórticos, galerias e escadas. O complexo foi consagrado em 14 de setembro de 335, cinco anos após a descoberta dos lenhos e pregos por S. Helena. A Igreja atual une ambas edificações, Martirium e Anastasis,  e é praticamente a mesma que os cruzados levantaram em 1114. Podemos, pois, afirmar que o sepulcro estava bem perto do Calvário e que os lugares que hoje veneramos se conformam com os que a tradição mais antiga apontava como verdadeiros.

EXCURSUS: A VIDA NA PALESTINA NO TEMPO DE JESUS: Para ver como não podemos explicar cariot como sica e cananeu como zelota, vamos ter uma visão do que foram os movimentos revolucionários imediatamente após a morte de Jesus e as condições de vida no seu tempo. Richard L. Rohrbaugh, na Introdução de um volume sobre “As Ciências Sociais e a Interpretação do Novo Testamento”, diz sobre a expectativa de vida da população do Império Romano nesta época: “Cerca de 1/3 daqueles que ultrapassavam o primeiro ano de vida (portanto, não contabilizados como vítimas da mortalidade infantil) morriam até os 6 anos de idade. Cerca de 60% dos sobreviventes morriam até os 16 anos. Por volta dos 26 anos 75% já tinha morrido; e aos 46 anos 90% já tinham desaparecido, chegando aos 60 anos de idade menos de 3% da população”. Os que mais sofriam pertenciam às classes mais pobres das cidades e povoados, já que um pobre em Roma, no século I de nossa era, tinha uma expectativa de vida de 30 anos, quando muito. E o autor acrescenta: “Estudos feitos por paleopatologistas indicam que doenças infecciosas e desnutrição eram generalizadas. Por volta dos 30 anos a maioria das pessoas sofria de verminose, seus dentes tinham sido destruídos e sua vista acabada (…) 50% dos restos de cabelo encontrados nas escavações arqueológicas tinham lêndeas. Douglas E. Oakman, em um estudo sobre as condições de vida dos camponeses palestinos da época de Jesus, mostra que a violência que sofriam era brutal. Fraudes, roubos, trabalhos forçados, endividamento, perda da terra através da manipulação das dívidas atingiam a muitos. VIOLÊNCIA: Existia uma violência epidêmica na Palestina. Quando Vitélio Cumano (48-52 d.C.) é procurador, acontece violenta revolta dos judeus durante a festa da Páscoa, por causa de um ultraje cometido por um soldado romano, que desnuda seu traseiro como gesto de desprezo, proferindo palavras insultantes. A multidão indignada reclama que Cumano castigue o soldado. Mas o procurador, temendo um assalto à torre Antônia, manda vir mais soldados que caem sobre os judeus lançando-os fora do templo. Estes fogem e, no tumulto, morem dez mil, ou vinte mil segundo outros [provavelmente 2 mil]. Galileia e Samaria: Ao passar grande número de judeus pela Samaria para celebrar a festa dos Tabernáculos, alguns samaritanos mataram a um galileu. Da Galileia saiu um grande número de gente para lutar contra os samaritanos. O caso foi para Cumano, o pretor que não fez nada. Então, de Jerusalém, a multidão amotinada abandonando a festa, foi para a Samaria onde mataram muitos e incendiaram vilas inteiras. Cumano mandou as tropas e matou muitos judeus. Os chefes destes, vestidos de cilício, sairam pedindo a todos para não provocar os romanos e o pessoal se dispersou, mas um grande número se aproveitou  da situação para seguir roubando e insurrecionando todo o país {entendemos aqui a postura de Caifás que disse é preferível que morra um pelo povo e não pereça toda a nação (Jo 50), máxime que João escreve após estes eventos}. Os samaritanos e os chefes judeus compareceram ante Ummidius Quadratus, legado da Síria acusando-se mutuamente. Depois Quadratus foi a Cesareia onde crucificou a todos os que Cumano tinha capturado vivos. Subindo a Lídia mandou decapitar os 18 judeus que tinham sido os chefes da revolta contra os samaritanos e mandou a Roma para Cláudio os principais dos judeus, o pretor Cumano e Celero, o tribuno, para contar a César o acontecido.  Este condenou à morte três dos samaritanos mais poderosos, desterrou Cumano e devolveu o tribuno Celero encadeado à Jerusalém para que os judeus o torturassem e decapitassem. No tempo de seu sucessor Antônio Félix (52-60 d.C.) a tensão aumenta perigosamente. É no seu tempo que surge o grupo dos sicários, assim chamados por usarem em suas ações uma adaga curva e curta chamada “sica”. Sua tática é provocar tumultos e desestabilizar o governo através de assassinatos inesperados de personagens importantes. Escondem a sica sob as vestes e misturados na multidão eliminam não só romanos, mas também quem colabora com a ocupação estrangeira. Um dos assassinados, neste tempo, pelos sicários é o sumo sacerdote Jônatas. Outros grupos tentam despertar no povo os sentimentos messiânicos, proclamando-se profetas e fazendo promessas utópicas. Tais grupos são duramente reprimidos pelos romanos através de grandes matanças. Félix manda crucificar inúmeros zelotas durante o seu mandato. Outro procurador terrivelmente corrupto e repressor é Lucéio Albino (62-64 d.C.). Seu sucessor Géssio Floro (64-66 d.C.) consegue então jogar a gota d’água para que o ódio acumulado pelos judeus derrame. Na Palestina do século I d.C. havia um verdadeiro clima de terror. Quando, após muitas arbitrariedades, G. Floro requisita 17 talentos do tesouro do Templo, a revolução estoura. Os judeus escarnecem do procurador, fazendo uma coleta para o “pobrezinho” Floro. Resultado: Floro entrega para os seus soldados uma parte de Jerusalém, para que seja saqueada e crucifica alguns homens importantes da comunidade judaica. Então, os revolucionários chefiados por Eleazar, filho do sumo sacerdote, ocupam o Templo e a fortaleza Antônia. Agripa II tenta conter a revolta e não consegue. Floro teve que se retirar para Cesareia ao ser derrotado. A Palestina é invadida em setembro de 66 por Céstio Gallo, à frente de 40.000 homens, com aqueles estandartes imperiais, que suscitavam tanto horror aos judeus, como imagens idolátricas, e que, por condescendência dos imperadores, até então, nunca tinham sido exibidas em Jerusalém. Era a “abominação da desolação” da qual falou Jesus. É a guerra definitiva na qual não participaram os cristãos porque diante dos estandartes romanos fugiram para Péla na Transjordânia.  Com isto queremos aclarar como os verdadeiros movimentos zelotas e sicários eram posteriores ao tempo de Jesus e, portanto os apelidos de Simão e de Judas nada tinham a ver com os partidos violentos.

A REAÇÃO: Corre, então, e vem junto a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem amava Jesus e diz-lhes: Arrebataram o Senhor do monumento e não sabemos onde o deixaram (2). Cucurrit ergo et venit ad Simonem Petrum et ad alium discipulum quem amabat Iesus et dicit eis tulerunt Dominum de monumento et nescimus ubi posuerunt eum. Embora no evangelho de hoje seja unicamente a Madalena a protagonista, sabemos que ela não foi sozinha ao sepulcro, mas talvez a única a correr e dar a notícia da violação da tumba. Não unicamente viu a pedra arrancada, mas também foi testemunha da desaparição do corpo. Todas as mulheres que a acompanhavam  viram o sepulcro aberto ou se preferimos a pedra removida (Mc 16, 4; Mt 28, 2; Lc 24, 2 e Jo 20, 1). Sobre a pedra da entrada do sepulcro há uma unanimidade: ela era grande e era uma pedra circular que se rolava para tampar a boca do mesmo. Sobre esta pedra, há duas maneiras de interpretar sua remoção: estava rolada de novo como parece indicar Mc 16, 4, Mt 28, 2 e Lc 24, 1; pois todos usam o termo kylio  grego rolar, no caso apokylio. Distingue-se entre pros-kylio  rolar em direção a; e apo-kylio rolar à parte ou para fora. Porém, João, o único que viu o sepulcro, usa o verbo airö [levantar] como se a pedra tivesse sido violentamente arrancada, que é traduzido por revolvida [port] removida [esp] ribaltata, virada [ital] e taken away, arrancada [ingl]. Evidentemente assim se explica melhor a passagem de Mateus que diz: O anjo do Senhor descendo do céu girou a pedra e sentou-se sobre ela (Mt 28, 2). Caso rolasse a pedra até o lugar primitivo dentro da cavidade da rocha seria impossível se assentar sobre ela, mas se a pedra fosse lançada fora como numa explosão desde o interior, ela ficava deitada, diante da boca do sepulcro e facilmente serviria de assento. Optamos por esta opção que o quarto evangelista nos oferece. Um fato assim era extraordinário e indicava uma violação da tumba. Elas se perguntam: Quem ou como poderia ter rolado a pedra que era pesada? É um problema para as forças de uma só pessoa. Madalena voltou imediatamente para avisar aos apóstolos de que alguma coisa terrível tinha acontecido com o corpo do Senhor. Que ela estava acompanhada no momento da visão da pedra removida podemos deduzir de suas palavras aos dois apóstolos: Tiraram do sepulcro o corpo do Senhor e não conhecemos onde  o colocaram (Jo 20, 3). O plural indica que ela fala em nome de todas, sem ser este o caso de um plural majestático. O sepulcro não estava muito longe dos muros e no máximo seria um ou dois quilômetros de distância entre o sepulcro e o lugar onde estavam os dois apóstolos. Uma outra observação: a volta da Madalena seria a mais rápida possível, daí que ela não estivesse presente à aparição dos anjos às outras mulheres. Marcos (16, 5) Dirá que as mulheres entraram no monumento e viram um adolescente sentado à direita [às direitas em grego]. Mateus, confusamente, une a aparição do anjo aos soldados com a visão do mesmo pelas mulheres. Do relato de Mateus (28, 1-7) parece que as mulheres nem entraram no sepulcro [foram vê-lo], mas estavam perto do mesmo quase junto aos guardas que no momento ficaram desacordados como mortos; e então as mulheres ouviram o anúncio: Não está aqui…. ressuscitou (Mt 28, 6-7). É um relato tão diferente que não parece ser certo historicamente, mas produto de uma apologética, cuja tradição Mateus redige em seu evangelho. Lucas (24, 3-4) afirma que entraram no monumento e não encontraram o corpo do Senhor. Durante um tempo elas ficaram sem saber o que pensar. Foi então que dois anjos se colocaram junto delas em roupas fulgurantes. Lucas, pois, admite um tempo entre a entrada no sepulcro, a visão do desaparecimento do corpo e a aparição dos anjos. Foi o tempo suficiente para que a Madalena voltasse pedindo ajuda aos apóstolos. OS DISCÍPULOS: Pedro é bem conhecido, mas quem era o outro discípulo descrito como aquele que era amado por Jesus? Que significa para João a palavra discípulo, Mathetés em grego? A palavra grega é sempre traduzida por discípulo, mas nem sempre tem um significado concreto e único. O Batista tinha seus discípulos, dois dos quais se encontraram com Jesus e se tornaram seus primeiros discípulos (Jo 1, 35-37). Os discípulos de Jesus entram dentro de duas categorias: a restritiva, dos doze como em Jo 6, 22 pois no barco só eles podiam embarcar, ou Jo 13, 5 em que lava os pés dos discípulos. E a mais ampla, dos que seguem sua doutrina como a si mesmos se declaram os judeus como discípulos de Moisés (Jo 9, 28) e de cujo grupo formavam parte os que ao ouvirem a palavra dura no discurso de Cafarnaum abandonaram Jesus (Jo 6, 60). Logicamente este discípulo era não só amado por Jesus, mas também íntimo de Pedro. Foi a ele, recostado no corpo de Jesus, e que era amado em particular, a quem Pedro perguntou quem era o traidor (Jo 13, 23-24). Seguindo o mesmo quarto evangelho, em 1, 37-42 é o discípulo do Batista que acompanha André. Em 18,15-16 acompanha a Pedro e por sua intercessão o introduz na casa do Pontífice. Em 19, 25-27 está ao pé da cruz e recebe Maria como mãe. Está pescando junto com Simão Pedro quando da aparição de Jesus no lago da Galileia (21, 7). Pedro pergunta a Jesus sobre a sorte do mesmo e, da resposta, todos pensam que não morrerá (Jo 21, 20-23). Finalmente ele é quem afirma que todo o escrito corresponde a seu testemunho pessoal, sem intervenção de outras testemunhas (Jo 21, 24). Porém, apesar de todos estes dados, não temos certeza de quem seja esse discípulo amado, tão ligado a Pedro. Existe um dado a mais: Foi enviado junto com Pedro para preparar a ceia da Páscoa (Lc 22, 8). Provavelmente também seriam os dois os enviados para trazer o jumentinho no dia dos ramos (Lc 19, 29). Após a ressurreição, nos Atos dos Apóstolos, ambos os vemos juntos, entrando no templo (At 3,1). Ambos são levados juntos para serem julgados pelo Sinédrio e interrogados pela autoridade que pergunta em que nome fizeram a cura do paralítico (At 4, 1-7). Foram enviados juntos a Samaria para evangelizar os samaritanos (At 8, 14). Isso tudo converge em que seja João, o irmão de Tiago, esse tal discípulo. Uma coisa é certa: o acompanhante de Pedro é o discípulo amado. Outra é provável: ele é João a quem Jesus chamou filho do trovão (Mc 3, 17).

PEDRO E JOÃO: Saiu, pois, Pedro e o outro discípulo e vieram ao monumento (3). Corriam, pois, os dois juntamente e o outro discípulo correu na frente mais rápido que Pedro e entrou primeiro no monumento (4).Exiit ergo Petrus et ille alius discipulus et venerunt ad monumentum. Currebant autem duo simul et ille alius discipulus praecucurrit citius Petro et venit primus ad monumentum. Os dois versículos denotam a testemunha de primeira mão. Há detalhes que correspondem a uma memória autêntica de fatos jamais esquecidos porque correspondem a um dia inesquecível.

OS PANOS: Então, tendo se inclinado, olha os panos estendidos; todavia não entrou (5). Chega, pois, Simão Pedro seguindo-o e entrou no monumento e observa os panos estendidos (6). Et cum se inclinasset videt posita linteamina non tamen introivit .  Then Simon Peter came following him, and went into the tomb and saw the linens lying. Explicaremos no parágrafo seguinte como estavam os panos [linteamina]. Neste parágrafo vemos a concordância na apreciação dos fatos entre as duas únicas testemunhas: não existia o corpo e só ficaram os panos da mortalha que estavam estendidos no lugar do corpo que tinham envolvido.

O SUDÁRIO: Mas o sudário, aquele que estava sobre a cabeça dele, não (estava) estendido dentro dos panos, mas fora, enrolado num lugar à parte(7). Et sudarium quod fuerat super caput eius non cum linteaminibus positum sed separatim involutum in unum locum. Vamos explicar estas poucas palavras que têm sido interpretadas de forma tão diversa pelos muitos autores que as trasladaram do grego. Os detalhes apontam a testemunha ocular presente aos fatos. Unicamente João fala do encontro dos panos mortuários. Totalmente crível, pois, máxime que não narra fato sobrenatural algum que, em últimas instâncias, poderia ser produto de fantasias. Podemos ver três tipos de panos: vendas com o latim mais preciso de linteum; o lençol em latim sindon como em grego e finalmente o detalhe de João do sudário, que é de suma importância. Os othonia que vê Pedro correspondem às vendas e ao lençol, que estavam keimena (posita), do verbo keimai (estar deitado em oposição a estar de pé) e que podemos muito bem traduzir por deixados, jacentes, como o corpo de um morto. Tentaremos traduzir da melhor maneira possível o relato de João.  João ou o discípulo preferido por Jesus chegou e se inclinou e sem entrar viu os panos deitados [esta é a tradução direta de Keimena, que nós temos substituído por estendidos] (Jo 20, 6). O latim posita pode ser traduzido por uma das 4 acepções de ponere: pôr (put), colocar (place), deitar (lay), arrumar (set). Talvez devêssemos traduzir também por arrumados. Mas o mais importantes é o que João declara mais adiante como testemunha ocular. Pedro entra e então João tem uma visão mais detalhada do que tinha acontecido. Os versículos 6 e 7 têm sido traduzidos de forma diferente. (6) Pedro entrou dentro do monumento [sepulcro] e vê os othonia [<3608>=linteamina=panos de linho <3608>] keimena [<2740>=posita=postos ordenadamente]. Vamos explicar detalhadamente o significado das palavras e depois traduzir livremente, mas corretamente, a frase. Entrou em aoristo. Vê em presente, indicando um presente histórico que realça a veracidade do testemunho pessoal. O sepulcro recebe o nome de mneméion, ou seja, monumento funerário, que podemos traduzir por mausoléu, ou tumba sepulcral monumental.  Uma outra palavra é othonia que o latim traduz por linteamina [roupas de linho]. A palavra é quase exclusiva de João que diz foi atado por othoiniois (linteis). Lucas a usa para dizer que Pedro encontrou os panos unicamente (24, 12). O que Pedro viu, segundo João, eram othonia (linteamina) e o Soudarion (19, 6) do latim sudarium, um lenço. Othonion é um pedaço de pano, em latim linteum às vezes pode indicar ataduras. No singular pode significar qualquer pano de linho desde uma vela de barco, um vestido e até panos mortuários. A lã era considerada imprópria para vestimentas puras como eram as dos sacerdotes e logicamente também para cobrir os cadáveres, impedindo que objetos de procedência animal poluíssem os mortos por contato direto. A palavra está, pois, em perfeita consonância com a relíquia que conhecemos como Santo Sudário de Turim. Mas a palavra que tem dado lugar a maior número de polêmicas é Keimena. É o particípio presente da voz média ou passiva do verbo Keimai que podemos traduzir por estando deitados. Podemos encontrar dois significados diferentes desta palavra no texto grego dos evangelhos; 1) Tratando-se de coisas inanimadas keimenon [singular] significa colocadas, ordenadas, postas aí, como traduz propriamente a vulgata: posita [posto, situado, colocado com certa ordem, arrumado, sem estar tirado de qualquer jeito]. Assim em Jo 2, 6: estavam keimenai as talhas de pedra das bodas de Caná. 2) Com respeito a pessoas significa a postura jacente, deitada, em oposição a de pé ou sentada. Um exemplo é Lc 2, 12 quando o anjo anuncia aos pastores que veriam o menino deitado na manjedoura. Assim Mateus 28, 6 o anjo anuncia às mulheres: Vede o lugar onde jazia. No caso, pois, optaremos pelo significado dispostos em ordem. Não creio que possamos traduzir por desinflados, aplanados, como disse meu antigo e queridíssimo professor de grego, hebraico e bíblia o Pe. .Balaguer (qepd). Alude o professor a que uma cidade conquistada é também keimene, ou seja, arrasada as muralhas tendo desabado. Porém existe uma outra forma de ver as cidades keimenai, como mortas, como um morto jaz inerte, sem vida, sem pensar em muralhas desmoronadas. Mas, se trata de textos evangélicos. E os dois exemplos evangélicos podem ser perfeitamente traduzidos como ordenadamente postos. Assim será nossa tradução: vê os panos mortuários ordenadamente arrumados. O SUDÁRIO: Vejamos o significado de soudarion [<4676>] grego. Geralmente era o lenço próprio para tirar o suor do corpo. Era o lenço de grande tamanho que cobria o rosto dos mortos. Ele estava sobre sua cabeça (7). Isto indica que cobria rosto e nuca como se fosse um capuz, que, aliás, era veste mandatária dos condenados à morte como diz Cícero: I lictor, colliga manus, caput obnubito, arbore infelice suspendito. Vai, lictor, atada a mão, tampada a cabeça, seja pendurado da árvore infeliz. Porém também os mortos de morte natural tinham um sudário que era atado ao redor do rosto como um lenço dos antigos desenhos dos pacientes de dor de dentes para impedir a abertura da boca (Jo 11, 44) [opsis autou soudario periededeto , traduzido ao latim por fácies illius erat ligata], como eram ligados os pés e também as mãos porém  com faixas [keiriais grego]. Encontramos no mesmo evangelista duas descrições diferentes de cadáveres: Lázaro e Jesus. Um deles, Lázaro, de morte natural, em que um sudário foi usado para atar o rosto e impedir que o maxilar relaxado abrisse a boca, portanto [fácies ligata], atado ao redor do mesmo. No outro, Jesus, um sudário colocado sobre a cabeça [super caput ejus], ou seja, cobrindo totalmente a mesma; cremos que poderia ser o capuz. O corpo de Jesus foi envolto num lençol, segundo Lucas 23, 53  e mais explicitamente João dirá que eram panos de linho [othonia], os mesmos que ele encontrou dispostos em ordem. Temos uma prova de como os corpos eram sepultados ao vermos no dia de hoje os enterros dos mortos no Oriente: Envoltos num lençol e com três ataduras. Uma no pescoço, outra nas mãos e a terceira nos pés. Dentro desse <sarcófago> de linho teremos o rosto coberto com um lenço que foi o que João viu ou meta ton othonion  keimenon, allá khoris entetyligmenon eis ena topon. A tradução latina é: non cum linteamínibus pósitum, sed separátim involútum in unum locum. A tradução latina, como sempre, é literal e precisa. De ambas as frases deduzimos: o sudário, que estava [anteriormente] cobrindo a cabeça, não estava posto junto aos lençois, mas fora [dos mesmos], enrolado [do latim podemos traduzir tirado] a um único lugar [numa posição única]. É esquisito que o eis ena topon seja um acusativo de movimento, que dificilmente pode ser traduzido como estando [verbo estático] em um [outro] lugar, mas deveríamos traduzir como tirado, jogado [tomado do latim] para um lugar diferente, muito melhor que enrolado. Esta é a única maneira de entender o texto que é traduzido de maneira tão diversa. Como interpretá-lo? Não posso assegurar nada como certo. Porém dado o assombro de Pedro e a decisão de João de acreditar na ressurreição, podemos dizer que naquele sepulcro havia dados suficientes para descartar o roubo e pensar numa coisa sem explicação natural. Isso não tanto pelo modo como estavam os panos, mas pelo jeito como eles viram o sudário. Se o corpo não estava dentro, é lógico que a mortalha estivesse aplainada como vazia. Mas se o sudário não estava dentro  da mortalha e era visto como deixado fora da mesma em lugar visível isso quer dizer que saiu de dentro das ataduras exatamente como o corpo, de modo incrível. Vamos explicá-lo com um exemplo: imaginemos que enterramos um familiar. Na preparação do morto, ao vesti-lo colocamos uma gravata no defunto. Logo dentro do caixão, fechado com pregos, o enterramos. Dois dias após nessa tumba comum  vamos enterrar uma outra pessoa. Ao abrir a tampa do sepulcro vemos que a gravata que estava no pescoço do defunto está fora do caixão, sendo que este está fechado com pregos como no tempo em que o enterramos e ao abri-lo nos deparamos que o corpo não está lá. Que pensaríamos? Pois, de modo semelhante encontrou João o corpo que ele tinha ajudado a amortalhar e no lugar da gravata o que estava fora da mortalha [fora do caixão para nosso caso] era o sudário. Por isso, Pedro voltou para casa, muito surpreso com o que acontecera (Lc 24, 12). Vamos traduzir mais livremente: Viu os panos vazios no lugar onde antes envolviam o corpo; mas o sudário estava jogado fora dos panos em lugar separado deles. Ou seja, sem que as ataduras fossem desatadas, formando um conjunto harmoniosamente jacente (o positum latino) viu o lenço que cobria a cabeça que estava como um embrulho em lugar separado das mesmas. Para entender o impacto sobrenatural que recebeu Pedro, Lucas (24, 12) usa o Thaumazo grego que se emprega para explicar a maravilhosa impressão diante de um milagre (At 3, 10).

JOÃO ACREDITOU: Então, pois, entrou também o outro discípulo que tinha chegado primeiro ao monumento e viu e creu (8). tunc ergo introivit et ille discipulus qui venerat primus ad monumentum et vidit et credidit. O testemunho do apóstolo-evangelista aqui é reforçado, porque ele, não entrando, não poderia ter arrumado os panos. Eles estavam aí, e sua vista, como antes temos explicado, foi suficiente para que o apóstolo amado cresse à vista do que ele observou.

A CONFUSÃO DE PEDRO: Porque ainda não tinham conhecido a Escritura que é necessário ele ressuscitar dos mortos (9). Nondum enim sciebant scripturam quia oportet eum a mortuis resurgere O comentário abrange tanto ele, João, como Pedro. Se tivessem sabido e interpretado a Escritura, não teriam corrido angustiados para ver o acontecido como se fosse um roubo. Pedro, segundo Lucas, ficou cheio de estranhezas sobre o que tinha contemplado. Pelos mesmos fatos, João acreditou na ressurreição.  João, conforme seu propósito, nada diz sobre os sentimentos de Pedro, mas escreve sobre o que ele viu e acreditou. Porém deixa entender que Pedro tanto como os outros discípulos ainda não podia compreender os textos sobre a Ressurreição e esta não cabia em suas cabeças. Foram tomados de surpresa e contra toda expectativa. Jamais a ressurreição de Jesus entrava nos planos de suas vidas. E nas nossas?

PISTAS: 1) Nos relatos da ressurreição vemos a descrição de um verdadeiro milagre. Em todo fato sobrenatural existem dois fatores independentes: Um deles é o fato humano, que todos podem ver e do qual podem ser testemunhas. No caso, a pedra rolada ou bruscamente jogada fora [o sepulcro aberto], a ausência do cadáver que a Madalena atribui a roubo: pegaram o corpo do Senhor e não sabemos onde o levaram (2). A disposição da mortalha que mesmo aceitando traduções menos comprometidas, indicava alguma coisa de anormal. E está o outro fator que é a causa de um fato sem explicação humana nem científica: Como pode acontecer? E é precisamente nesta inexplicável causa, que encontramos um poder transcendente se finalmente cremos, ou um mistério que pensamos seja produto do acaso ou de uma causa que deixamos para o futuro poder descobrir, se o agnosticismo domina nosso pensamento.

2) A fé: Foi necessário o encontro pessoal para que os discípulos cressem em Jesus ressuscitado, com a exceção de João. O sepulcro aberto e a disposição dos panos mortuários foram suficientes para que, desses indícios, João acreditasse. Daí sua informação que parece sem importância, mas que foi para ele o início de uma vida nova e da qual nós podemos aprender uma lição extraordinária. Nós também temos unicamente indícios sem que exista o encontro pessoal com Jesus. Porém deve existir uma vontade de crer para que esses indícios não sejam um desperdício. É essa vontade que precede a fé e que será motivo de nossa justificação como Paulo afirma (Rm 4, 3).

3) Os evangelhos recolhem informações, indícios e testemunhas que apontam à transcendência de Jesus e à transcendência de nossas vidas, dependentes de Jesus. Todas as demais religiões se apoiam em valores humanos ou humanizados da divindade. Não existe um homem-Deus. A nossa, em valores divinos que são humanos em Cristo, especialmente na sua ressurreição que não é unicamente a de Jesus, mas também nossa como afirma Paulo. E sem esta fé na ressurreição, é vã a nossa fé (1 Cor 15, 17) e sem essa esperança, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens (idem 15, 19).

4) Diante do encontro pessoal de Cristo com seus apóstolos, o sepulcro vazio, os lençois e sua disposição passam a ser secundários. Eles passaram do Jesus de Nazaré ao Cristo Senhor pela visão que tiveram de sua pessoa ressuscitada. Por isso que nos outros três evangelhos as aparições são tão importantes e  que os detalhes do sepulcro se tornam vagos e imprecisos. Somente João os descreve minuciosamente porque foi neles que ele encontrou a sua fé. Foi o único que acreditou sem ter visto o Senhor [o ressuscitado]. E neste sentido, João é o discípulo que melhor se assemelha a nós, porque sem ter visto acreditamos por indícios e informações de testemunhas oculares. Por isso somos PÁSCOA!


 

EVANGELHO ALTERNATIVO

Lc 24, 13-35

OS DISCÍPULOS DE EMAÚS

 

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

EMAÚS: Ora, eis que dois deles estavam caminhando nesse dia a uma vila, distante sessenta estádios de Jerusalém, de nome Emaús (13). Et ecce duo ex illis ibant ipsa die in castellum quod erat in spatio stadiorum sexaginta ab Hierusalem nomine Emmaus. EMAÚS: Seu nome significa banhos quentes e era uma vila [komes], ou seja, um conglomerado de casas rústicas para servir de habitações para os camponeses e outros, chamados teknos [marceneiro, pedreiro e ferreiro numa só pessoa] com uma população talvez inferior a 400 habitantes. Na atualidade, existe um local a 60 estádios ou aproximadamente 10 Km de distância de Jerusalém, que corresponde ao relato de Lucas. O Emaús bíblico [El-Qubeibah] está situado ao lado de uma via romana que ia de Jerusalém ao mar. Perto existe uma fonte que se diz era onde Jesus lavou os pés após a caminhada com os dois discípulos.

A CONVERSA: E eles conversavam entre si acerca de todas as coisas acontecidas (14). E sucedeu que, enquanto eles conversavam e discorriam, também ele, (o) Jesus, tendo-se aproximado, caminhava com eles (15). Et ipsi loquebantur ad invicem de his omnibus quae acciderant Et factum est dum fabularentur et secum quaererent et ipse Iesus adpropinquans ibat cum illis. ACONTECIDAS [Symbebëkotön <4819>=acciderant]: Evidentemente eram os sucessos da morte de Jesus e de sua desaparição, tendo como sinal de discussão o sepulcro vazio. Era o domingo e o acontecido estava recente em suas mentes. Disso falavam entre si enquanto caminhavam. DISCORRIAM [Syzëtein <4802>=quaererent]: O verbo grego significa buscar, inspecionar, examinar e também debater, comentar. Temos optado por um verbo neutro como discorrer, ou seja, comentar em sentido de querer compreender o que tinha sucedido, pois para eles, os fatos não tinham uma razão compreensível. Nesse momento, Jesus,  que no grego tem o artigo determinante para indicar que era Ele precisamente, uniu-se a eles, como nova companhia.

OLHOS IMPOSSIBILITADOS: Porém, os olhos deles estavam travados de modo a não o reconhecerem (16). Oculi autem illorum tenebantur ne eum agnoscerent. TRAVADOS [Ekratounto <2902>=tenebantur]: Segundo o sentir da época, os olhos tinham dentro uma espécie de lanterna ou lâmpada, que se iluminava e assim podiam ver as coisas  (Mt 6, 22 e Lc 11, 34). O verbo grego Krateö significa agarrar, se manter firme, resistir, conter, e por isso, optamos por travar; daí entupir, estar fechado.