Epístola (Fp 2, 6-11)

(Padre Ignácio, dos padres esolápios)

 

     INTRODUÇÃO: Esta perícope constituía inicialmente um hino litúrgico, que Paulo incorpora a sua carta com pequenas adições. Afirmam-se nela a divindade e preexistência de Cristo, consubstancial ao Pai; a encarnação do Verbo, como sendo uma pessoa em duas naturezas; a realidade do corpo assumido; o mérito de sua obediência e morte; o direito de Cristo a uma adoração universal, e o exemplo exímio de humildade, abnegação, obediência e caridade do mesmo. A estes conhecimentos dogmáticos podemos acrescentar outros de índole moral e apostólica: Devemos fundamentar nossas vidas no sólido exemplo de Cristo: pela humilhação e cruz é que se consegue a glória.

     DIVINDADE DE CRISTO: O qual em aspecto de Deus persistindo, não considerou cobiça ser igual a Deus (6). Qui cum in forma Dei esset non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo. ASPECTO [morfé<3444>=forma] como em Mc 16, 12: Depois se manifestou de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo. PERSISTINDO [yparchön<5225>=esset] é o particípio de presente do verbo Yparchö com o significado de estar presente, estar à disposição de, ou simplesmente ser, substituindo o verbo einai. É ter posses como em At 3, 6: disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E como einai em Lc 8, 41: E eis que chegou um homem de nome Jairo, que era príncipe da sinagoga. Temos optado pela tradução persistir ou continuar a existir. As traduções, a iniciar pela Vulgata, usam os verbos ser ou ter: tendo ou existindo em natureza de Deus. Indica que Cristo era inicialmente da mesma natureza de Deus. E o confirma na seguinte afirmação: Não considerou como coisa imprescindível ser igual a Deus. Vejamos o sentido das palavras. CONSIDEROU [ëgësato<2233>=arbitatus est] como aoristo do verbo ëgeomai de significado guiar, liderar, governar, como em Lc 22, 26: O maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Mas também tem o significado de considerar, julgar, estimar. Assim: Por conseguinte, estimei que era necessário mandar primeiro estes irmãos para vos ajudarem (2 Cor 9, 5). Ou em Fp 2, 3: Considerem os outros superiores a vós próprios. COBIÇA [arpagmos <725>=rapina] o significado é roubo, furto, rapina, exploração, pilhagem, presa de guerra. Existem duas linhas de interpretação desta segunda parte do versículo: arpagmos é derivado de arpazö <726>, de significado agarrar, apoderar-se, confiscar, arrebatar, pegar por força, como em Mt 11, 12: Se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Em sentido ativo aspargmos é roubo como ato de apoderar-se pela força. E em sentido passivo é presa, saque, pilhagem: bem que tem sido arrebatado à força. A Vulgata opta pelo sentido ativo e traduz rapinam [rapina, usurpação]: Sua tradução será: Não teve por usurpação ser igual a Deus. Que a KJV mantém com thought it not robbery to be equal with God [pensou isso no ser roubo, o ser igual a Deus]. Já as traduções modernas optam pela passiva [coisa a que agarrar-se]: ganancioso tesouro manter-se igual a Deus (Esp). Bene irrinunciabile l’essere uguale a dio (It). A thing to be grasped [coisa a ser retida] (NAS). CONCLUSÃO: no sentido ativo da Vulgata reafirma-se a divindade de Cristo, pois ser igual a Deus não foi uma usurpação ou ato de rapina, mas uma coisa própria de sua pessoa. No segundo caso destaca-se a humildade de Cristo, pois não teve inconveniente em deixar sua glória como Deus e se tornou um homem comum, como vemos na continuação, no versículo seguinte, que é uma explicação deste hemistíquio que estamos considerando.

      A KÊNOSIS: Mas a si mesmo se esvaziou, tomando forma de escravo, tornado em semelhança de homens (7). Sed semet ipsum exinanivit formam servi accipiens in similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. ESVAZIOU [ekenösen<2758>=exinanivit] como aoristo de kenoö significa esvaziar, destruir, anular, como em Rm 4, 14: se os que são da Lei de Moisés fossem os herdeiros, a fé seria inútil e a promessa de Deus não teria valor. E em 1 Cor 1, 17: enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã. A tradução seria, pois, privou-se do que era próprio da divindade para tomar a FORMA [morfë<3444>=forma] é a aparência externa, o aspecto, como em Mc 16, 12: Depois manifestou-se de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo. Nesta perícope temos duas vezes usada a palavra morfë: como forma da divindade (v 6) e como forma da humanidade (v atual). Unida esta frase ao segundo hemistíquio do versículo anterior significa que Cristo, existente como pessoa divina, se despiu dos atributos divinos [majestade, sabedoria e poder] para assumir a forma de um ESCRAVO [doulos <1401> =servus]. Esta forma ou aspecto é chamado de escravo com respeito à divindade, como sendo a maneira mais baixa de ser de uma criatura inteligente com  respeito ao seu senhor, pois o fizeste um pouco menor do que os anjos. De glória e de honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras de tuas mãos. O Messias era, segundo Isaías, o ebed [doulos, servus, escravo] do Senhor [Deus] que teria a mesma vontade de Maria quando respondeu ao anjo: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. Mas também como homem, Cristo diz de si mesmo que veio para servir e não para ser servido (Mt 20, 28) e dos discípulos, que qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo (Mt 20, 27). EM SEMELHANÇA [omoiötati<3667>=in similitudinem] o grego indica semelhança, representando alguém como se fosse um sósia. Cristo era Deus, mas se apresentou como um homem e não excelente e principal, mas da mais desprezível aldeia (Jo 1, 46) nascido de uma mulher humilde (Gl 4, 4 e Lc 1, 48). Tanto o grego como o latim usam o plural e devemos traduzir em semelhança de homens.

     A OBEDIÊNCIA: E encontrado em aspecto como de homem, se rebaixa a si mesmo, feito obediente até morte, morte, porém de cruz (8). Et habitu inventus ut homo humiliavit semet ipsum factus oboediens usque ad mortem mortem autem crucis. ENCONTRADO [euretheis<2147>=inventus] aoristo do verbo euriskö, descobrir, encontrar, mostrar-se. É o verbo usado em Mt 1, 18: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo. ASPECTO [schëma<4976>=habitus] A palavra aparece, além deste versículo, unicamente em 1 Cor 7, 31: Os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa. A diferença entre morfë e schëma: A primeira é forma, a segunda é feitio, padrão ou estilo. A primeira é comparável a substância, natureza ou essência; não em si, mas em sua manifestação; não como vida, mas como atuação de uma vida. Em Deus, sua vida e sua forma de vida são idênticas. Cristo, como homem, é considerado doulos, escravo de Deus. Mas diakonos, servidor dos homens. Já schëma indica o vestido, os gestos, os sermões e ações que em nada diferenciam o homem Cristo dos demais homens. Schëma é muito mais superficial do que morfë. É, em parte, associado com chröma [cor da pele]  e ypografë [esboço]. De modo que morfë aponta a natureza, substância e  schëma a aparência ou aos acidentes. Exteriormente Cristo era Jesus de Nazaré, um homem comum. Mas essa kenosis [palavra de uso teológico] não foi unicamente um esvaziamento da sua divindade, mas houve também uma descida [katabasis de katabaino<2597>] (Jo 3, 13) e um REBAIXAMENTO [tapeinotës] de tapeinoö [<5013>=humiliare] esse rebaixamento foi devido à sua OBEDIÊNCIA [ypokoë <5218> obedientia] até a morte. Paulo declara aqui o que nos evangelhos podemos intuir ao ler a oração de Jesus no Getsêmani: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua (Lc 22, 41). Com isto, Paulo diz que o homem Jesus não merecia morrer, mas por mandato do Pai ele aceitou a morte como sacrifício, vítima pelos pecados do mundo, que o Batista designa como cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29) e que Paulo definitivamente une ao cordeiro pascal, que salvou com seu sangue os hebreus (1 Cor 5, 7), formando parte final do Apocalipse como quem descobre o mistério da História (Ap 5, 6-10). Porém, o sacrifício foi efetuado no alto da cruz para que o mundo saiba como amou o Pai a esse mundo pecador (Jo 3, 10). Num crescendo admirativo, Paulo escreve que a morte do Filho não foi uma morte doce ou gloriosa, mas a mais infame e dolorosa do seu tempo: morte de cruz.

     A  EXALTAÇÃO: Por isso, também (o) Deus a ele exaltou e lhe deu um nome sobre todo nome (9).  Propter quod et Deus illum exaltavit et donavit illi nomen super omne nomen. Da cruz à luz, é o provérbio que melhor sintetiza este versículo, como epílogo deste canto ao Filho encarnado. Devido a essa obediência até a cruz, Deus deu ao homem Filho um NOME [onoma<3686>=nomen] especial e distinguido, que é uma exaltação ou glorificação [apoteosis] após essa kenosis e humilhação da cruz. Geralmente nome é a palavra que determina um indivíduo: os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, chamado Pedro… (Mt 10, 41). Está no lugar de uma pessoa, como em Mt 28, 19: fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Mas também significa título, categoria: Quem recebe um profeta em nome de profeta, receberá recompensa de profeta (Mt 10, 41). Finalmente, está no lugar de reputação ou fama: E ouviu isto o rei Herodes (porque o nome de Jesus se tornara notório)- (Mc 6, 14). O nome recebido é Kyrios [Senhor] Jesus. Como diz Paulo, Kyrios unido a Jesus [Salvador] serve para a salvação: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Rm 10, 9). Nome sobre todo nome é um superlativo próprio das línguas semíticas indicando a superioridade máxima do nome de Jesus como Kyrios.

   OS SÚDITOS: A fim de que no nome de Jesus todo joelho se dobre sobre os céus, e sobre a terra e debaixo da terra (10). Ut in nomine Iesu omne genu flectat caelestium et terrestrium et infernorum. Neste versículo Paulo afirma duas coisas: O senhorio de Jesus ante o qual, como era o costume da época deviam se ajoelhar os súditos; ou, no caso de derrota, se deitar para ser pisoteado, apertando o ventre contra a terra (Sl 7, 5),  e o âmbito do mesmo, que era todo o Universo criado. DOBRE [kampsë<2578>=flectat] é o aoristo subjuntivo do verbo kamptö com o significado de dobrar, curvar; e como é o joelho, o significado textual é admitir Jesus como Senhor, sem que seja necessário o ato material. De fato, a Igreja Católica manda que, diante da presença da Hóstia consagrada, o rito de saudação seja a genuflexão, coisa que diante de imagens é somente a inclinação. SOBRE OS CÉUS [epouraniön<2032>=caelestium], SOBRE A TERRA [epigeiön <1919>= terrestrium] DEBAIXO DA TERRA [katachthoniön<2709>=infernorum]. No esquema tripartido de Universo da época, formado pelos três andares, céu, terra e abismo, em todos eles, o Senhor a quem servir e que é o Kyrios absoluto, será Jesus, o Cristo. De modo que, após essa apoteosis de sua ressurreição, tudo está subjugado ao seu domínio, como afirma Paulo em Ef 1, 10, do plano de Deus que consiste em levar o Universo à sua realização total, reunindo todas as coisas em submissão a Cristo, tanto nos Céus como na Terra. Porque, segundo o que escreve em Cl 1, 16, tudo foi criado por ele e para ele, pois ele é  o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim (Ap 21, 6).

      A CONFISSÃO: E toda língua confesse que Senhor [é] Jesus Cristo para glória de Deus Pai (11). Et omnis lingua confiteatur quia Dominus Iesus Christus in gloria est Dei Patris. Não basta crer no senhorio de Jesus; mas como diz Paulo, também é necessário confessar com a boca que Deus ressuscitou o Senhor Jesus dentre os mortos (Rm 10, 9). Pois como diz na continuação, com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação (idem 10). Já em Mt 10, 32, Jesus afirma: Qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. SENHOR [Kyrios<2962>= Dominus] Kyrios era a palavra grega que traduzia o nome sagrado de Jahveh; de modo que temos Kyrios o Theos como em Gn 4,6 traduzindo o Jahveh Elohim. Logo no NT, Cristo  está no lugar do Deus, embora a palavra própria por Kyrios em hebraico seja Adon, ou melhor, Adonai [meu Senhor] que substituía o nome sagrado [Hashan] de Jahveh que não era pronunciado nas leituras do AT nas sinagogas. GLÓRIA [doxa<1391>=gloria] de Deus Pai. Como diz Paulo quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus (1 Cor 10, 31). Sendo que neste versículo, o homem Jesus está como diferente de Deus a quem Paulo apresenta como pessoa do Pai desde o início, já que fala da obediência do Filho. Em Deus essa glória é a manifestação de sua sabedoria fundada neste caso na cruz, que para os que se salvam é também poder de Deus (1 Cor 1, 18).

EVANGELHO (Mc 11, 1-10)

Lugares paralelos:

(Mt 21, 1-11; Lc 19, 28-40 e Jo 12, 12-19)

ENTRADA TRIUNFAL EM JERUSALÉM

 

AS CIRCUNSTÂNCIAS: E quando se aproximam de Jerusalém, de Betfagé e Betânia, do lado do monte das oliveiras, envia dois dos seus discípulos(1). Et, cum appropinquárent Ierosólymae et Bethániae ad montem Olivárum, mittit duos ex discípulis suis. BETFAGÉ [casa dos figos verdes, brevas em espanhol] era um    kômê<2968>, um vilarejo, aldeia [castellum em latim]. Pode ser traduzido como bairro. Era, segundo nos dizem os dois Talmuds [babilônico e Jerosolimitano], um subúrbio de Jerusalém e, portanto, tinha todos os privilégios da capital. Orígenes afirma que era uma residência de sacerdotes. Na realidade, não sabemos onde estava localizada, unicamente que se situava  numa das ladeiras do monte das Oliveiras. BETÂNIA: Segundo o Talmud seu nome indica casa dos datis e a Betânia da qual fala o evangelho de hoje era uma pequena vila ao sudeste do monte das Oliveiras a 1600 m de Jerusalém. Na época bizantina recebeu o nome de To Lazarion [a de Lázaro] que deu origem ao nome árabe de eu Elzariyah. Aqui residiam os três irmãos: Marta, Maria e Lázaro e Simão o leproso, em cuja casa Maria ungiu os pés de Jesus. A outra Betânia estava situada na margem esquerda do rio Jordão que muitos dizem se identifica com Betabara [casa do passo] que a Vulgata diz ser a Betânia do outro lado do Jordão. Nesta Betânia, ou melhor Betabara, foi batizado Jesus e nela morou algum tempo com seus discípulos fugindo dos judeus que o perseguiam (Jo 10, 40). Num mapa de Jerusalém vemos como Betânia está a uma distância o dobro de Betfagé de Jerusalém. Ambas estão no caminho de Jericó/Jerusalém que bordeja pelo leste e sul o monte das Oliveiras, tendo na frente o monte do Escândalo. O mais provável é que Jesus, chegado em Betânia, pedisse a dois de seus discípulos para irem à frente até em Betfagé, tomar emprestado o jumentinho [filho de uma jumenta] para assim entrar triunfante como rei de paz em Jerusalém.

O MANDATO: E diz-lhes Jesus: Ide ao vilarejo em frente a vocês e em seguida, entrando nele, encontrareis um poldro [pôlon<4454>] atado, sobre o qual ninguém assentou. Havendo-o desatado conduzi (2). Et ait illis: Ite in castéllum, quod contra vos est, et statim introëúntes illuc inveniétis pullum ligátum, super quem nemo adhuc hóminum sedit. Sólvite illum et addúcite. A palavra pölon significa potro, um cavalo novo de três anos aproximadamente; também recebe o nome de poldro. Unicamente Mateus fala de encontrar uma jumenta [onon<3688>=asina] e junto com ela um potro. O substantivo onon é o acusativo da palavra onos, asinus latino. Que se trata de uma jumenta é claro pelo adjetivo dedemenên que é claramente um adjetivo feminino e assim o latim traduz: asinam alligatam (Mt 21,2). Parece que para Mateus onon é neutro comum aos gêneros, porque logo fala de que o poldro estará juntamente com ela [autês]. Para João era um [onarion<2678>] diminutivo neutro de onos. Uma caracterísitica do jumentinho é que ainda ele não foi montado ou como diz o texto grego, sobre o qual nem homem se assentou. Lucas ainda ressalta a virgindade do jumento declarando que sobre o qual, em modo algum,  ninguém dos homens se assentou que o latim traduz ao pé da letra: cui nemo umquam hominum sedit (Lc 19, 30). Marcos dirá: havendo desatado o mesmo, conduzi. É a rudeza de Marcos no domínio imperfeito do grego. Uma tradução demasiado literal do aramaico? Pode ser.

A OBJEÇÃO: E se alguém vos disser: por que fazeis isso, dizei que o Senhor necessita dele e imediatamente enviará ele [o jumentinho] aqui (3). Et, si quis vobis díxerit: Quid fácitis? dícite, quia Dómino necessárius est et contínuo illum dimíttet huc. Mateus fala deles e que enviará eles em plural como se fossem mãe e filhote. Todo o relato de Mateus está um pouco confuso porque parece que ambos os jumentos, mãe e filhote, foram levados a Jesus e sobre ambos ele montou, segundo vemos no versículo 7: puseram em cima deles as suas vestes sobre eles e se assentou sobre eles.

O JUMENTINHO: Afastaram-se, pois, e encontraram o potro atado junto à porta, de fora, no cruzamento de ruas  [amfodon<296>], e desatam (4). Et abeúntes invenérunt pullum ligátum ante iánuam foris in bívio et solvunt eum. Junto à porta de fora. É um inciso digno de anotar porque os animais estavam geralmente dentro das casas no subsolo da casa e os habitantes da mesma no primeiro andar. Estar de fora e na rua era como se estivesse preparado para o uso do mesmo.  O grego amfodon das palavras amfi ou afoteros [ambos] e odós [caminho] indica naturalmente um cruzamento de caminhos. O latim assim o traduz com a palavra bivium [de bi, dois; e via, caminho], caminho que se divide em dois, pois a rua seria a via latina. O inglês traduz por cross way corretamente. Temos traduzido com a maior fidelidade o grego  com os tempos corretos que o latim conserva religiosamente. Isto indica duas coisas: que o texto original, embora incorreto do ponto de vista gramatical, foi preservado como palavra inspirada e que o latim da Vetus Latina foi também preservado, nada menos que por um estilista como era Jerônimo que revisou o texto recebido. É um aval sobre como foi recebido e conservado na Igreja primitiva, como um texto, divinamente inspirado,  que não pudesse ser nem corrigido nem reformado.

O PROTESTO: E alguns dos que ali estavam disseram a eles: que fazeis desamarrando o potro? (5). Et quidam de illic stántibus dicébant illis: Quid fácitis solvéntes pullum? É lógico que os presentes, vendo a ação tão inusitada dos dois estranhos, perguntassem o motivo pelo qual estavam realizando a ação. Foi como uma reclamação por um fato que consideravam completamente imoral, como se fosse um roubo.

 A LICENÇA: Então eles lhes disseram como lhes mandou Jesus  e lhes permitiram (6). Qui dixérunt eis sicut praecéperat illis Iesus, et dimisérunt eis. Ou seja, que a palavra de Jesus foi suficiente para que os donos do jumentinho permitissem que os dois estranhos o levassem. Lucas é mais prolixo ao dizer que quando estavam soltando o jumento os donos perguntaram por que o soltais e então os dois responderam: porque o Senhor precisa dele. Segundo Mateus, nada aconteceu e tanquilamente os dois discípulos, que alguns acreditam serem Pedro e André, o desataram e o trouxeram a Jesus.

JESUS MONTA O JUMENTO: E levaram o potro para Jesus e jogaram sobre ele suas vestes [imatia <2440>]  e assentou-se sobre ele (7). Et duxérunt pullum ad Iesum et impónunt illi vestiménta sua, et sedit super eum. A palavra imation significa veste em geral, mas de modo especial é o manto, capa ou capote. Distinguia-se o imation do chiton que era a túnica latina ou vestido interior. A exceção dos verbos usados, Lucas afirma que eles puseram Jesus sobre o jumento, Marcos e Mateus que foi Jesus quem montou no animal. A palavra chave é vestes, imatia, que se conserva nos três sinóticos mas falta em João. Toda a história é resumida em João dizendo que Jesus tendo encontrado um jumentinho montou-o.

      A PROCISSÃO: Muitos, pois, estenderam os seus mantos no caminho, porém outros cortavam galhos das árvores e estenderam no caminho (8). Plúrima autem turba stravérunt vestiménta sua in via; álii autem caedébant ramos de arbóribus et sternébant in via. A razão de traduzir mantos é porque os judeus da época só tinham dois vestidos: o imátion [capa ou manto externo] [e a túnica, chiton, o vestido interno]. Logicamente, este, eles não podiam retirar e, portanto, só o manto era o que podiam estender no caminho. Lucas é o mais breve unicamente dizendo que estendiam seus mantos no caminho, sem falar dos galhos. O recebimento recorda a passagem de Jeú em 2 Rs 9, 13 em que os chefes do exército deitaram suas capas para que Jeú, atravessando sobre elas, subisse os degraus para ser coroado rei de Israel. Talvez era uma forma de se declarar vencidos ou inferiores à realeza, como os vencidos na batalha tinham que se deitar passando o exército vencedor sobre eles como era costume entre os orientais (Sl 7, 5). De Catão, o de Útica, se diz que seus soldados também espalharam suas clâmides ou mantos militares para que sobre eles passasse o general. No nosso caso, o caminho foi também adornado com galhos que eram tirados das árvores próximas, como dirão Marcos e Mateus, coisa que Lucas não descreve. João dará mais detalhes relativos aos galhos: a grande multidão que viera para a festa tomou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro (Jo 12, 12-13), o que parece um tanto duvidoso, pois tais árvores não existiam perto de Jerusalém. É incerto pensar que os galhos estivessem jogados no caminho, o que dificultaria a caminhada, mas aos lados do mesmo tal e qual se acostumavam fazer na procissão da festa das tendas ou sukoth.

O HOSANA: Tanto os precedentes como os subsequentes gritavam dizendo: Hosanna! Bendito o que vem em nome do Senhor! (9). Et qui praeíbant et qui sequebántur clamábant dicéntes: Hosánna! HOSANNA:  é a palavra grega do salmo 118, 25 que propriamente em hebraico deve pronunciar-se como Hoshiah Nah. O texto grego diz: Ó Senhor, salva, pois! [söson dë]. Ó Senhor conduz já! [euodöson dë]. S. Jerônimo traduz o hebraico assim: obsecro Domine, salva obsecro [hoshiah nah]. Domine, prosperare obsecro. A palavra hoshiah deriva do verbo yasha` <03467>salvar, ajudar e o Nah, uma partícula que acompanha o imperativo do verbo ao qual condiciona. Podemos traduzir o Nah por rogo-te, please em inglês.  A tradução seria, pois: Salva, peço! Como o Nah precede e segue o verbo, a melhor tradução é a dada por Jerônimo na Vulgata: Peço, Senhor, salva, peço! Como vemos na Vulgata do NT, em Marcos, a palavra Hosanna não foi traduzida. Em tempos de Jesus, parece que essa palavra tinha modificado o seu sentido. Não se traduz, por ser uma voz comum dentro das assembleias primitivas cristãs, palavra que chegou até nós na versão latina do Sanctus, o prefácio do cânon eucarístico: Hosanna in excelsis. O salmo 118 [ou 117 dos Setenta] diz entre os versículos 24-26: 24: Este é o dia que o Senhor fez; que ele seja nossa felicidade e nossa alegria! 25: Dá Senhor, dá a vitória! Dá Senhor, dá o triunfo! 26: Bendito seja aquele que entra em nome do Senhor! Nós vos bendizemos desde a casa do Senhor. Já os Setenta traduzem o versículo 25 por Ó Senhor, salva, pedimos! Ó Senhor, conduze-nos a bom termo! Esta minha tradução direta do grego coincide com a da BAC volume IV, e com a Vulgata. Também com a AR (revista e atualizada) evangélica. No tempo de Jesus, a palavra hosanna já tinha o significado de Viva! S. Agostinho afirmava que tinha o valor de uma interjeição latina, ou seja, um grito de júbilo, como olé ou viva. Mateus acrescenta ao Hosanna o objetivo do mesmo: ao filho de Davi terminando com Hosanna nas maiores alturas [In excelsis, traduz o latim]. Lucas escreve que, ao se aproximar da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos jubilosos começou a louvar a Deus com  voz grande por todas as obras que tinham visto, dizendo: bendito o que vem, rei em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas (Lc 19, 37-38). João ainda explica melhor o porquê desta aclamação ao escrever: dava, pois, testemunho disto a multidão que estivera com ele quando chamara a Lázaro do túmulo e o levantara dentre os mortos. Por causa disso, também a multidão lhe saiu ao encontro, pois ouviu que ele fizera este sinal (Jo 12, 17). De quem saiu a iniciativa dessa manifestação exultante? A eleição da cavalgadura foi de Jesus. Mas as palavras de exaltação e júbilo foram, sem dúvida, escolhidas pelos discípulos, a começar pelos apóstolos. Eles acreditavam que Jesus entraria como rei messiânico em Jerusalém e começaria logo a reinar. Parte do argumento dessas suas expectativas estavam fundadas nas maravilhas que tinham visto Jesus fazer, como era a cura do cego de Jericó, a multiplicação dos pães, e a ressurreição de Lázaro, que, segundo João (12, 12), era o motivo principal da aglomeração da multidão em torno do Mestre nazareno. Como temos dito anteriormente, esperava-se o Messias sobre um jumento (ver profecias) vindo em direção de Jerusalém, como afirmava Zacarias. Os discípulos, iletrados eles e rudes de entendimento, provavelmente não sabiam nada sobre a profecia, mas estavam cheios de entusiasmo e esperavam o restabelecimento do Reino de Israel (At 1,6). Quando Jesus pediu um jumento eles imediatamente pensaram na entrada triunfal, especialmente porque o cavalo era próprio dos romanos como instrumento de guerra e é possível que não fosse usado na época pelos judeus, que tinham jumentos e dromedários como bestas de carga e não cavalgaduras militares. BENDITO: É o Eulogemenos, que, a diferença do Makários [feliz ou sortudo], significa uma qualidade intrínseca que o aproxima à divindade, o EULOGEMENOS [bendito] por excelência. A palavra está nos quatro evangelistas sem distinção. A quem se refere? Se refere a Deus ou ao que vem em nome do Senhor, como rei? Evidentemente a este último. A realeza está clara e explicitamente indicada em Lucas, Marcos e João e implicitamente em Mateus quando indica o filho [descendente] de Davi, como termo do elogio, pois Filho de Davi era título totalmente messiânico. Com o clamor dos Hosanna in excelsis termina o texto latino, tradução direta do grego em Marcos e Mateus. Já Lucas termina os animados gritos da multidão com sua preferida frase desde a aparição do anjo aos pastores: ¨No céu paz e glória nos mais altos [céus]¨. Os judeus tinham três céus no mínimo; no mais alto, encontrando-se a morada de Deus. A ele se refere o upsistois [=excelsis] grego. Sem dúvida que cada evangelista, preservando a substância dos fatos, leva, como vulgarmente se diz, a água a seu moinho, dando lugar a uma certa flexibilidade em suas afirmações. As aclamações, unidas aos atos simbólicos referidos, mostram o desejo de receber como rei libertador à semelhança de como foi recebido Simão Macabeu (1 Mc 13, 51) após ter conquistado a cidadela de Jerusalém por meios pacíficos. Ele ordenou ser esta data celebrada todos os anos. Lembra também a purificação do templo em 2 Mc 10, celebrada todos os anos no mês de Kislew [dezembro] durante sete dias à maneira das tendas. Tanto num caso como noutro eram memórias de aclamar publicamente a presença divina, como soberano na pessoa de Simão, por exemplo, entre o povo. No caso de Jesus, também era o momento de entender essa presença na figura do seu enviado Jesus, o de Nazaré. Se em Jo 6,15 Jesus resiste ao anseio do povo de aclamá-lo rei [fora do tempo e da cidade previstos] agora ele não só deixa fazer, mas participa e colabora, pedindo uma cavalgadura ad hoc. O povo pensava em armas e vitórias para obter um triunfo político e guerreiro. Jesus, segundo a profecia de Zacarias, pretendia um triunfo pacífico como vítima, e um reino espiritual em que a geografia não recortasse sua influência e o amor dilatasse seu reinado conquistando os corações. A paz, oferecida no perdão mais generoso, e a humildade, baseada na sua submissão aos mais cruéis instintos humanos de seus contrários, e sua obediência até a morte na cruz à vontade do Pai, seriam de agora em diante, também para seus discípulos, as chaves básicas de seu reinado.

O REINO: Bendito o Reino vindo em nome do Senhor, de nosso pai Davi! Hosanna nas maiores alturas (10). Benedíctus qui venit in nómine Dómini; benedíctum, quod venit, regnum patris nostri David, hosánna in excélsis! O grego é um tanto escuro; o temos traduzido literalmente e, como podemos ver, não se entende bem se o Reino é do Senhor [Jahveh] ou do rei Davi. Por isso o latim começa o versículo com o final do anterior  e desdobra em dois a frase atribuindo a vinda de Jesus a uma presença em nome de Jahveh [o Senhor] e o Reino vindo também com ele, como sendo o reino de Davi, o antecessor. Por essa razão, clamam dando vivas ao mais alto dos céus. Mais claro é Lucas que escreve dizendo: Bendito o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!  Marcos nos dá um grego eulogemenos no final do versículo anterior. Vamos uni-los na nova tradução: Bendito o que está chegando em nome do Senhor! Bendito o reino vindo em nome do senhor nosso pai Davi! Hosanna no mais alto!  Temos explicado as palavras bendito e hosanna. Agora vamos explicar as frases em nome do Senhor e o reino do senhor nosso pai Davi. Em nome do Senhor indica ou um profeta ou um enviado especial cuja conduta estava dirigida pelo Espírito do Senhor, ou seja, pelo poder e sabedoria de Jahvé. É assim como as turbas, especialmente após os dois milagres da cura do cego de nascença e da ressurreição de Lázaro (Jo cap 9 e 11), viam Jesus aproximando-se de Jerusalém,  especialmente montado num jumento, que outrora foi o animal de estimação dos reis: Siba respondeu ao rei Davi: os jumentos são para a família do rei para que monte neles (2 Sm 16, 2). E temos a profecia de Zacarias: Pula de júbilo, filha de Sião; alegra-te, filha de Jerusalém, porque teu rei vem a ti: justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, cria de uma jumenta (Zc 9,9). Dentre as mais de 300 citações de profecias do AT referidas a Jesus, esta é claramente explicitada por Mateus que não duvida em afirmar que levaram ambos, mãe e cria, a Jesus e que este montou em ambos (Mt 21, 4-5). E termina dizendo que o jumento era cria dum animal de carga, para indicar que Jesus não veio como guerreiro, mas como alguém que traz um bem, neste caso a paz. O quarto evangelista amolda a profecia dizendo: Não temas filha de Sião, eis que o teu rei aí vem, montado em um filhote de jumenta (Jo 12, 15). Com o qual indica que não veio fazer a guerra, nem para condenar uma cidade rebelde. Assim o compreenderam seus discípulos após Jesus ter ressuscitado dentre os mortos, como afirmará João, deixando um testemunho a mais dos fatos que ele viu e que confirma com sua escrita (Jo 21, 24).

PISTAS:1) O relato dos 4 evangelistas é um fato real. Ele tem como base Zacarias. Nos anos 520 a 518 reinava, na Pérsia, Dario I, sucessor de Cambises. Era a época do retorno dos judeus do cativeiro. Em 536 começaram os trabalhos da reconstrução do Templo; mas tão modesto, que os velhos choravam ao compará-lo com o templo de Salomão. Por isso Zacarias quer apresentar um Messias nada triunfante, longe da imagem que os judeus, derrotados e humilhados, tinham de seu sonhado chefe. Montado num jumento que, se em tempos de Salomão podia representar dignamente um rei, nos tempos atuais era um imitação ridícula das esplêndidas montarias dos déspotas persas. Comparado com estas circunstâncias vemos mais claramente que a entrada de Jesus na cidade era uma entrada de paz. Por isso dirá Jesus como lamento sobre Jerusalém: Ah! Se neste dia conhecesses tu a mensagem de paz.

2) Quando Jesus vem nos visitar ele traz a sua paz. Uma paz que tem como base o nosso perdão por parte de Deus e o nosso perdão aos outros homens por nossa parte. É a paz do amor, da fidelidade,  da confiança. A paz que os anjos anunciaram aos pastores, a paz de Cristo ressuscitado aos apóstolos.

3) É por isso que quando o sacerdote visita uma casa como ministro da unção ou da Eucaristia a primeira palavra que deve pronunciar é a paz esteja nesta casa. Não podemos esquecer que a paz de Cristo é também contrária a toda violência, terrorismo ou imposição. A paz humilha o poderoso e eleva o oprimido, porque o abraço da paz só é possível entre iguais.

4) Façamos do abraço da paz na Missa, um ato generoso e universal, em que aquele a quem saudamos seja representante de todos os homens especialmente daqueles que mais necessitam de nossa paz e comunhão fraterna.

5) Jesus entrou em Jerusalém. Nós entramos em nossas casas, nas casas dos amigos e vizinhos. Que tipo de mensagem levamos? É de paz, de serviço, de amor? Enriquece nossa presença ou serve para demonstrar diferenças e rivalidades que se transformam em violentas discussões e definitivas separações?