EPÍSTOLA

EFÉSIOS 1, 3-10

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

 

 

INTRODUÇÃO: Todos os nossos privilégios e toda a bondade de Deus, derramada em nós como fruto de seu amor, têm como base e fundamento o amor do Pai por seu Filho Jesus, o Verbo Encarnado, de cuja semelhança nós participamos como parte do gênero humano, e de cuja inserção na divindade somos também porção pela imersão no batismo, que nos torna membros da família divina. Daí que Deus nos escolheu desde o início para sermos seus filhos, recapitulando em Cristo toda a obra de sua criação, que agora se tornou redenção e será, em definitivo, glorificação.

DEUS BENDITO: Bendito [eulogetos<2128>] o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo quem nos há abençoado em toda bênção espiritual nos espaços celestes [epouraniois <2032>] em Cristo (3). Benedictus Deus et Pater Domini nostri Iesu Christi qui benedixit nos in omni benedictione spiritali in caelestibus in Christo. BENDITO: Eulogeö é a palavra própria para abençoar em nome de Deus ou louvar seus benefícios como no caso do pão que vamos comer (Mt 4, 19) ou no caso de pessoas que são abençoadas por Deus (Mt 21, 9). Especificamente é a palavra usada para narrar a bênção do pão eucarístico na última ceia (Mt 26, 26; Mc 14, 22 e Lc 14, 30). Até tal ponto que Paulo chama o cálice consagrado de cálice da bênção (1 Cor 19, 6). Eulogetos [bendito] é usado só para Deus e eulogemenos [abençoado] para o homem que recebe os benefícios de Deus. Assim Maria é eulogemene (Lc 1, 42). Mas esta não é única vez em que Paulo se dirige a Deus com essa fórmula tão latrêutica e elegante. No NT a vemos repetida em 2 Cor 1, 3 e 1 Pd 1, 3. É uma fórmula que provém do AT como lemos em Gn 9, 26, Êx 18, 10 e Sl 28, 6 entre outras muitas passagens em que Deus é louvado. O eulogetos corresponde ao baruk hebraico. Eulogomenos diferencia-se de Makairos [ditoso], como bendito diverge de bemaventurado. Deus é bendito para sempre (Sl 72, 19), pois dEle só podemos receber o bem. PAI: O título indica o motivo ou a pessoa da bênção. Nesse caso, ambas as coisas estão unidas: é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito para sempre e a quem Paulo aclama como digno de ser louvado. Precisamente ao chamar Jesus como Cristo [Messias] e como Senhor [Kyrios<2962>] Paulo especifica uma paternidade que não é compartida pelos fiéis. É a paternidade essencial e natural que transforma Jesus em sagrado [ágios], como o chamou Gabriel ao explicar o mistério da Encarnação; e consequentemente será Filho do Altíssimo (Lc 1, 35). EPOURANIOIS: Literalmente significa sobre os céus, que o latim traduz como caelestis e que, não tendo uma palavra própria devemos traduzir de modo intelectual como regiões ou espaços celestes. O plural céus, é mais próprio da concepção semítica que, como mínimo, acreditava em três céus (2 Cor 12, 2) em cujas regiões Deus reinava supremo e não existia mal, nem maldade. A bondade divina se manifestava em bens que Paulo aqui denomina como espirituais; pois o corpo não podia morar em semelhantes lugares. E a causa dos benefícios é precisamente Cristo, ou seja, o Jesus já constituído em Messias que nos libertou, por meio do resgate de seu sangue, do pecado e da escravidão de Satanás.

CAUSA FORMAL: De acordo como nos escolheu [exelexanto<1586>] nEle antes da fundação [katabolës <2602>] do mundo para sermos consagrados [agious,40>] e sem culpa [amömous <299>] perante Ele em amor. Sicut elegit nos in ipso ante mundi constitutionem ut essemus sancti et inmaculati in conspectu eius in caritate. ESCOLHEU: do verbo eklegomai selecionar, escolher. A escolha foi através de Jesus [nEle] pois o nome correspondente a esse Ele é Cristo, em que foram dadas as mercês segundo o versículo anterior. E a escolha foi feita antes da fundação [kataboles] do mundo [kosmos]. KATABOLES: Segundo Mt 25, 34, o Reino definitivo foi preparado pelo Pai desde a fundação do mundo. A escolha foi feita nesse lugar feliz em que o Filho estava na glória do Pai, precisamente antes da fundação do mundo (Jo 17, 24). KOSMOS: primariamente significa um conjunto ordenado, mas logo se tornou sinônimo do Universo, o conjunto das coisas materiais que contemplamos como espaço e ambiente que nos rodeiam. ÁGIOS: A palavra significa consagrado a uma divindade, daí sagrado e finalmente santo, no sentido de não ser um ser puramente humano [psikikos de Paulo], mas transcendente ou divino. Pelo batismo fomos consagrados e imersos na família divina como membros da casa de Deus (Ef 2, 19). Daí que, inclusive a parte mais material, o corpo esteja também consagrado e dedicado, como um templo a Deus (Rm 12, 1). SEM CULPA: Paulo fala evidentemente da última realização do Reino em que tudo estará purificado, como é vista essa Igreja ou Comunidade purificada por Cristo (Ef 5, 27) e que completa seu corpo como pleroma (Ef 4, 12 e 1 Cor 12, 27), perante Ele. Isto implica uma ordem previamente estabelecida por Deus: uma eleição que corresponde, por nossa parte, a uma vocação, tendência e objetivo de nossas vidas. Uma justificação que se dá no Batismo inicialmente; e, finalmente, a glorificação que só se inicia, como em Cristo, quando, na hora da morte, entregamos a vida em suas [do Pai] mãos. Agioi e imaculados são dois adjetivos que representam as duas faces de uma pessoa purificada dos pecados: a positiva como sagrada e a negativa como livre de culpa. PERANTE ELE: Deus é o santo por excelência, como podemos ver em Santo, Santo, Santo é o Senhor (Is 6, 3) que em termos semíticos significa o superlativo máximo, ou seja, Santíssimo. Por isso, Ele não admite qualquer mácula ou imperfeição, especialmente a moral. Os animais destinados ao sacrifício deviam ser perfeitos, assim como o pão escolhido da flor da farinha. Sem essa total limpeza que os fariseus pensavam ser externa, mas que Jesus ensinou como provindo do coração ou mente, não é possível ver a Deus (Mt 5, 8). O homem deve permanecer descalço como mandou a Moisés se apresentar para ter a permissão de estar no lugar santo (Êx 3, 5). Descalço, como convém a um escravo, mas também com o significado de estar sem as impurezas que as sandálias recolhem do caminho (Mt 10, 14). EM AMOR: Paulo que fundamenta a justificação na graça de Deus, correspondendo a ela a fé do homem, não o santifica a não ser pelo amor, resumido em sacrifício e obediência. Há três maneiras de interpretar esse amor final do versículo 4: 1) Escolhidos por amor, unindo como final ao início da frase. 2) A santidade como fé aperfeiçoada pelo amor (Gl 5, 6) e que, na era escatológica, só permanecerá como amor (1 Cor 3, 13). 3) Finalmente, a que os autores modernos preferem: unida ao início do versículo seguinte: Em amor tendo nos predestinado.

A PREDESTINAÇÃO: Tendo nos predestinado [proorisas<4309] para adoção filial [uithosian <5206] através de Jesus Cristo para Ele, segundo o bem querer [eudokian <2107>] de sua vontade [thelëmatos <2307>] (5). Qui praedestinavit nos in adoptionem filiorum per Iesum Christum in ipsum secundum propositum voluntatis suae. PREDESTINADOS: Paulo deixa praticamente toda a pequena e grande história humana nas mãos do Pai. É com e por sua benevolência que nós vivemos e somos, como disse aos atenienses (At 17, 28). Aparentemente parece que a liberdade humana está fora de questão. Porém, esta é patrimônio pessoal de todo ser humano e, infelizmente, temos a escolha de podermos enfrentar os desígnios divinos que deveriam se cumprir universalmente em cada um de nós, como Paulo descreve neste versículo. ADOÇÃO: a palavra grega é um composto de uiós [filho] e tithemi [estabelecer] que, logicamente, significa adoção de um filho. Feita por Deus como Pai, é muito mais efetiva que legal. Implica uma participação na divindade, semelhante à que teve Jesus, com uma relação de amor principalmente e com um efeito que os antigos padres da Igreja exemplificavam com o fogo adquirido pelo metal nele submerso. Na realidade, o batismo implica essa submersão que nos dá o elemento divino a produzir semelhança e participação, introduzindo-nos na família divina como filhos amados do Pai (Rm 8, 15) e como irmãos queridos de Jesus, unidos no amor do Espírito. Esta adoção foi fruto do sacrifício de Jesus Cristo como causa meritória, e a Ele unidos como causa exemplar cuja vida procuramos imitar em obediência e com Ele unidos efetivamente por meio do Espírito que nos comunica eficazmente ao tornarmos membros de seu corpo pleno como pleroma de seu abundante poderio universal (Ef 1, 23). Porém não é em Jesus, o Cristo, que tudo tem fim e sentido, mas é no Pai [para Ele] que as coisas são ordenadas, como diz Paulo, uma vez que tudo esteja unido em Cristo, para assim apresentar ao Pai o Reino, dessa forma conquistado (1 Cor 15, 24). EUDOKIA: Desejo, satisfação, boa vontade, boa intenção, bel querer, ou bem querer. O Pai e Deus de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 15, 6) quis ter mais filhos além do seu unigênito encarnado; e sua vontade admite como tais os que se conformam ao seu Unigênito como diz o apóstolo em Rm 8, 29: Aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho. Este é, segundo Paulo, o modelo e origem de toda a nova humanidade; pois Ele é o primeiro dos nascidos entre muitos irmãos (idem). Assombra essa unidade de doutrina coerente nas cartas paulinas, que não vemos ter muita base nos evangelhos. À exceção do 4º evangelista, os outros têm aparentemente uma teologia muito mais simples, com base na basileia, e da qual dificilmente poderíamos extrair estas conclusões teológicas paulinas. Quem foi primeiramente escrito, Paulo ou o evangelista (Marcos, Mateus, Lucas e João)? É uma questão que praticamente não se discute, mas que é digna de grave consideração.

FINALIDADE: Para exaltação [epainon<1868>] de glória [doxës<1391>] da sua caridade [charitos<5485>] na qual nos favoreceu [echarisomen <5487>] no Amado [ëgapëmeno <25>] (6) em quem temos o resgate [apolutrösin <629>] pelo seu sangue, a remissão [afesin <659>] dos pecados [paraptömatön <3900>], segundo a riqueza [ploutos <4149>] de seu amor [charitos <485>] (7). In laudem gloriae gratiae suae in qua gratificavit nos in dilecto, in quo habemus redemptionem per sanguinem eius remissionem peccatorum secundum divitias gratiae eius. EPAINOS: louvor, elogio, panegírico. É a glorificação da DOXA, que significa, em sentido religioso, a magnificência de Deus como supremo Senhor e do Messias como rei absoluto do Universo. Também se pode falar da gloriosa condição com a qual Deus, o Pai, exaltou o Filho após seu sacrifício na cruz. E finalmente a condição gloriosa dos bemaventurados como participantes da glória de seu Senhor. A frase para o louvor de sua glória, ou da glória de sua graça, sai 3 vezes nesta epístola (1,6; 1, 12 e 1, 14). E Deus recebe o titulo de Pai da glória (1, 17); glória que deve ser participada como é a paternidade, formando a parte dada ao filho em herança (1, 18). CARIDADE: Assim temos traduzido a charis grega que significa favor, dádiva, mercê. Por parte de Deus, de modo especial, é o dom de si mesmo no Espírito Santo (Lc 11, 13) que nos é dado (Jo 14, 26) como continuação do dom do Filho (Jo, 3, 16). AMADO: É o particípio passivo perfeito do verbo agapaö que significa amar, que o latim traduz por dilectus. Evidentemente, o Amado é Jesus de Nazaret, segundo vemos em Mt 3, 17 em que Jesus recebe o título de agapetós desta vez adjetivo que substitui o nome como aposição. APOLYTRÖSIS: É um homônimo de Lytron e ambos significam resgate, ou seja, o pagamento a satisfazer para alforriar um escravo. O pagamento, no caso, foi o sangue, isto é, a vida sacrificada pelos homens, todos pecadores, considerados escravos do diabo e do pecado. Daí que a remissão seja do pecado. E tudo foi feito devido à riqueza de seu amor. PARAPTÖMATOS: propriamente transgressão, como vemos em Mt 6, 5; é a palavra que Paulo emprega 14 vezes em suas cartas. O significado é uma injúria ou afronta contra uma pessoa, seja Deus ou o próximo. Pode ser substituído por pecado ou delito. PLOUTOS: pode significar a abundancia, ou seja, a grandeza sem limites de seu amor. Paulo é um enamorado do amor de Cristo por ele e por todos os que nEle confiam.

A ABUNDÂNCIA: A qual excedeu em nós em toda sabedoria [sofia<4678>] e discernimento [fronësei<4528>] (8). Quae superabundavit in nobis in omni sapientia et prudential. A tradução mais exata, do ponto de vista mais inteligível, seria: Essa opulência de seu amor excedeu, com respeito a todos nós, tudo o que podemos pensar e é prudente imaginar. SOFIA: Embora seja um saber prudente, aqui parece ter o significado de conhecimento em todos os amplos limites da palavra. FRONESIS: Pensamento, que pode ser atitude, como em Lc 1, 17 ou discernimento como um conhecer, na sua totalidade, circunstâncias e fatos. O sentido é um superlativo absoluto desse amor divino que é impossível imaginar, dentro dos limites de nosso modo de pensar e atuar.

A POLÍTICA DIVINA: Para a administração [oikonomian<3622>] da complementação [plërömatos <4138>] dos tempos: resumir [anakefalaiösasthai <346>] todas as coisas no Cristo, tanto as dos céus como as que estão sobre a terra (10). In dispensationem plenitudinis temporum instaurare omnia in Christo quae in caelis et quae in terra sunt in ipso. ADMINISTRAÇÃO: oikonomia é a gerência dos bens domésticos que, em termos mais amplos, podemos falar de administração de uma empresa ou negócio. Aqui se trata do assunto da salvação dos homens. PLERÖMA: E estamos já no final dos tempos que Paulo fala do fim, ou do remate dos mesmos. Propriamente é a conclusão de um período. É a escatologia [o fim de uma era] que já está em função e atuando do momento em que o Verbo se encarnou, segundo Tt 1, 3, que são os tempos próprios para se manifestar essa sua bondade e benignidade (Tt 3, 4). E precisamente essa sua manifestação tem como base a de resumir, como num compêndio de sua política, todas as coisas tanto nos céus como na terra. Exclui Paulo os infernos, lugar onde estão os poderes do mal? Aparentemente não; mas sabemos por outros escritos que os demônios creem e temem (Tg 2, 19), embora estejam submetidos e tenham que dobrar, como vencidos, o joelho diante do nome de Jesus (Fl 2, 10), que os fiéis dobram como amigos. De modo que Cristo seja tudo em todos (Ef 1, 23 e Cl 3,11).

PREDESTINADOS: Nele, no qual também fomos chamados predestinados segundo o propósito daquele que todas as coisas opera segundo o desígnio de sua vontade (11). In quo etiam sorte vocati sumus praedestinati secundum propositum eius qui omnia operatur secundum consilium voluntatis suae. FOMOS CHAMADOS [eklëröthëmen<2820>=vocati sumus] é o aoristo passivo de indicativo do verbo klëroö de significado ser designado por sorte. Logicamente aqui a sorte é substituída pelos desígnios da providência. Chamados por vocação de Deus, como foram os convidados na segunda chamada ao banquete das bodas reais (Mt 22, 9). PREDESTINADOS [prooristhentes <4309>=praedestinati] particípio do aoristo passivo do verbo proorizö, com o significado de predestinar, como lemos em At 4, 28: Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se houvesse de fazer. PROPÓSITO [prothesis<4286>=propositum] apresentação, como eram os pães da proposição (Mt 12, 4); e em termos formais, plano, propósito, resolução, vontade (At 11, 23). E é neste sentido que temos escolhido a tradução. DESÍGNIO [boulë <1012>=consilium] plano, propósito, resolução, e decisão como em At 2, 23: Jesus foi entregue conforme o plano previsto na sabedoria de Deus. Ou conselho e deliberação como em At 4, 23: Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará. A tradução desígnio é até conforme com a ideia paulina que coloca a predestinação e vontade divina acima de nossos próprios méritos. É o que Paulo dirá como base de sua gratitude: O qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim (Ef 1, 5).

PARA LOUVOR: Para sermos para louvor de sua glória os que previamente temos esperado em Cristo (12). Ut simus in laudem gloriae eius qui ante speravimus in Christo. LOUVOR [epainos<1868>=laus] aprovação, reconhecimento. O exemplo é Rm 1, 29: A circuncisão, a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus. Como aprovação temos 1 Cor 4, 5: [no dia do juízo] então cada um receberá a devida aprovação da parte de Deus. Por isso, Paulo dirá que nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado (Ef 1, 5-6). Evidentemente Paulo está falando do final dos tempos escatológicos em que a bondade será suprema e o louvor terá como motivo uma ação de graças perene por termos recebido de Cristo a nova vida que nos tornou filhos no Filho (Gl 4, 20).

SELADOS: No qual também vós, ouvintes da palavra da verdade, o evangelho de vossa salvação, no qual também fostes selados com o Espírito Santo da promessa (13). In quo et vos cum audissetis verbum veritatis evangelium salutis vestrae in quo et credentes signati estis Spiritu promissionis Sancto. Paulo chama de palavra da verdade o evangelho que é salvação. FOSTES SELADOS [esfragisthëte<4972>=signati estis] é o aoristo passivo do vebo sfragizö literalmente coisa que está provista de um carimbo, ou selada, como diz Mateus 27, 66 do sepulcro: seguraram o sepulcro com a guarda, selando a pedra. Em sentido figurado, marcado com uma identidade especial, como aqui e em 2 Cor 1, 22: O qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações. A identidade do selo é o Espírito que em nós habita e clama Abbá (Rm 8, 15). Esse Espírito é o da PROMESSA [epaggelia<1860>=promisio] ou Espírito prometido, como paraklëtos, que Jesus tinha prometido: Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique convosco para sempre (Jo 14,16). Para ser o Espírito da Verdade e a Testemunha essencial de Cristo (Jo 14,13 e 16, 8-10).

O PENHOR: O qual é penhor de nossa herança para resgate de sua posse para louvor de sua glória (14). Qui est pignus hereditatis nostrae in redemptionem adquisitionis in laudem gloriae ipsius. PENHOR [arrabön<728>=pignus] com o signficado de depósito, pagamento inicial, fiança, penhor, garantia. De que é o Espírito garantia? Como Paulo afirma, pouco antes de falar do penhor do Espírito, sua garantia de que o mortal seja absorvido pela vida (2 Cor 5,4). HERANÇA [klëronomia<2817>=hereditas] como em Mt 21, 38: Os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua vinha. Segundo a lei vigente, ao não ter herdeiros o dono, a herança seria dos vinhateiros trabalhadores. A herança é eterna segundo Hb 9, 15, incorruptível e incontaminável, como é o reino de Cristo definitivo. Se a herança do AT era uma terra prometida, a Eretz Israel, a herança do NT era a participação do Reino, a eterna bem-aventurança de viver a mesma vida de Deus dentro de nós. Vive em mi Cristo, que diz Paulo (Gl 2, 20). Por isso o Espírito que habita no fiel é o penhor e garantia de que a vida definitiva nunca nele terá fim. RESGATE [apolytrösis<629>=redemptio] o significado próprio era de pagamento para a libertação de um escravo, que do latim redemptio, foi traduzido em línguas vernáculas, como redenção. Exemplo: Quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima (Lc 21, 28). Essa redenção, segundo Paulo, atinge o corpo tanto como o espírito do homem; pois substancialmente é a adoção do mesmo como filho de Deus já que esperamos a mesma por adoção como redenção do nosso corpo (Rm 8, 23). E quem fez o pagamento foi Cristo em quem temos a redenção pelo seu sangue (Ef 1, 7). De modo que o cristão já é posse de Cristo; e, como diz Paulo, para louvor de sua [de Cristo] glória. De modo que tudo é de Cristo (Cl 3, 11) e Cristo é de Deus (1Cor 15, 24).

 

 

EVANGELHO

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Marcos 6, 7-13

(paralelos: Mt 10, 1-42 e Lc 9, 1-10)

(Pe. Ignácio, dos Padres escolápios)

 

INTRODUÇÃO: O evangelho é a narração do envio dos 12, na sua missão de anunciar o Reino com missão limitada à região da Palestina (Mt 10, 5), com ênfase especial na conversão, porque o Reino já chegou (Mt 10, 7). O Reino implicava uma nova mentalidade, um giro de 180 graus de uma religião externa e formalista, com base na Torah, a outra em que o encontro com Jesus, um enviado do Pai, era o fundamento de uma fé que se exercitava pelo amor (Gl 5, 6). Embora possamos afirmar que nem mesmo os doze entendiam totalmente a base do Reino, a exceção de que Jesus era o Messias, o iniciador de uma nova Era ou pacto com Deus, de um povo novamente eleito (Jo 1, 49). O relato de Marcos é o mais breve dos três sinóticos e apenas contém doutrina teológica e uma série de recomendações práticas para distinguir os verdadeiros missionários dos astutos arrecadadores de riquezas, para proveito individual. Vejamos a interpretação dos versículos que o compõem.

 

A MISSÃO: Então, chama a si [proskaleitai <4341>] os doze e começou a enviá-los dois a dois, e deu-lhes autoridade [exousian <1849>] sobre os espíritos [pneumatön<4151>], os impuros [akathartön <169>] (7). Et convocavit duodecim et coepit eos mittere binos et dabat illis potestatem spirituum inmundorum. CONVOCA: Mateus usa o mesmo verbo, só que, mais corretamente, no aoristo e não no presente de Marcos. Os convoca, aos doze. Quando foi esta missão? Muito provavelmente após um tempo longo de convivência com Jesus. Um ano após tê-los chamado como seus discípulos, talvez. Um mestre esperava um tempo suficientemente longo para poder confiar que seus ensinamentos estivessem bem fundados para seus discípulos poderem repetir quase ao pé da letra os seus ensinamentos. Isto avalia os escritos evangélicos, se realmente escritos pelos apóstolos ou com sua licença. Os escritos são produto de um discipulado constante e repetido. A eleição de Matias corrobora este modo de julgar: homens que acompanharam Jesus desde o batismo (At 1, 21-22). Um dado a mais: as frases curtas do Senhor são, segundo os expertos, verdadeiros dísticos, como acostumavam ser os pronunciamentos dos rabinos. Nem tudo é devido à memória dos semitas, nem tudo é uma recordação afastada no tempo. O ENVIO: Foi feito de dois em dois, para ajuda mútua e para que ninguém pudesse duvidar de suas asserções, pois a Lei mandava que fossem duas as testemunhas (Dt 17, 6 e 19, 15). AUTORIDADE: Exousia que entre suas acepções está o poder de governar e mandar, de modo que os súditos fossem obrigados a obedecer. Tal era o poder dado por Jesus aos doze sobre os demônios, poder muito mais admirado, na época, que o de curar doenças, e muito mais ordenado à implantação do Reino, cujo inimigo era, evidentemente, o Maligno, ou Satanás (Mt 13, 25). ESPÍRITOS IMPUROS: Pneuma entre outros significados tem o de ser um espírito superior ao homem, mas inferior a Deus, que pode ser um anjo; mas que neste caso é um demônio ou espírito imundo [akathartos]. Esses demônios impuros eram, segundo se acreditava, a origem das doenças nervosas e doenças do tipo possessão diabólica, que tomavam posse do corpo do possesso. A frase espírito imundo sai 1 vez em Mateus (12, 43), 7 em Marcos e 4 em Lucas. Como endemoninhado temos 2 em Mateus, 4 em Marcos e 2 em Lucas. É notável que em João não tenhamos nenhum caso de cura de um possesso, mas é o próprio Jesus a quem os seus contemporâneos dizem ter demônio (Jo 7, 29; e 8, 48 entre outros). Hoje diríamos que está louco, como vemos em Jo 10, 20. Já que muitas doenças das que hoje sabemos têm sua origem puramente fisiológica, eram atribuídas a um espírito maligno, como podemos ver nos casos de mudos e cegos (Mt 9, 32 e 12, 22). Logicamente vemos como os escritores sagrados falam segundo a ciência da época e a cultura correspondente, tanto histórica, como de origem mais ou menos científica. Não podemos, pois, usar citações bíblicas para afirmar fatos científicos ou históricos como verdades reveladas. Segundo Mateus, os apóstolos também receberam o carisma de cura para toda classe de doenças e enfermidades (Mt 10, 1), coisa que Lucas confirma (Lc 9, 1).

AS ORDENS: E lhes ordenou que nada tomassem para (o) caminho, senão um bastão [rabdon<4464>] só, nem alforje [përan<4082>], nem pão, nem cobre [chalcon<5475>] no cinto [zönën<2223>] (8), mas, tendo calçado sandálias [sandália <4547>]; e não vistais duas túnicas [chitönas] (9). Et praecepit eis ne quid tollerent in via nisi virgam tantum non peram non panem neque in zona aes. Sed calciatos sandaliis et ne induerentur duabus tunicis. BASTÃO: A palavra indica um bordão, uma vara grossa que era a arma com a qual os peregrinos se defendiam dos bandidos no caminho. Mas tudo que não é imediatamente necessário para o caminho deve ser eliminado: alforjes [përa] onde levar a comida como o pão, ou onde os mendicantes religiosos ou os famosos cínicos da época, levavam os dinheiros arrecadados em suas viagens missionárias. Fora desse cajado, necessário para o caminho, a proibição de qualquer outra ajuda ou provisão é clara nas ordenanças de Jesus. Nada de comida e nada de dinheiro para comprá-la ou se hospedar nos povoados. Com respeito ao dinheiro, Marcos fala de cobre [chalcon] no cinto. No Brasil, até pouco tempo atrás, o dinheiro que em castelhano eles chamam de prata, era em português denominado como cobre. Exatamente como em Marcos. Cobre está por moedas de qualquer metal que eram colocadas no cinto [zönë], propriamente uma faixa de tela que, como era oca, servia de bolsa para carregar o dinheiro. Jesus permite o uso de sandálias: uma sola de couro atada ao pé por meio de tiras da mesma matéria. Era o calçado para o caminho, já que, em geral, em casa andavam com os pés nus. As duas túnicas: A palavra Chitön era a túnica ou vestido interior diferente da clâmide ou capa, externa. Que podemos dizer sobre estas recomendações? Jesus quer evitar a simonia. Na época, existiam muitos mensageiros ambulantes que em nome de um templo ou uma divindade percorriam os caminhos e entravam nas cidades. Saiam em busca de dinheiro para seus templos e voltavam carregados de bens. Temos o exemplo de Lucino que, como ministro da deusa Atargatis, reunia donativos para os sacrifícios de seu santuário. Saiu como mendigo, mas voltou como um arrieiro carregado de mercadorias. Em cada viagem trazia setenta sacos cheios. Talvez o exemplo dos apóstolos missionários dos tempos da Didaché tenha sido tomado deste trecho evangélico: não deve permanecer mais de um dia ou dois… Se permanecer 3 dias é um falso profeta. E quando partir, que não tome nada a não ser pão e se pede dinheiro é um falso profeta.

HOSPEDAGEM: E dizia-lhes: quando, pois, entrardes em casa, permanecei ali até dali sairdes (10). Et dicebat eis quocumque introieritis in domum illic manete donec exeatis inde. Em Mateus temos uma explicação mais explícita desta hospedagem buscando uma casa digna, isto é que não fosse impura por diversas circunstâncias. A razão de não mudar de casa é melhor compreendida nestas palavras de um rabino da época: Até quando um homem não deve mudar de hospedagem gratuita? E o rabi respondeu: Até que o hospedeiro não o golpeie ou lhe jogue suas coisas nas costas. Como temos visto, a Didaché não permitia uma estadia muito prolongada.

A REJEIÇÃO: E se em algum lugar não vos receberem nem vos ouvirem, saídos dali, sacudi o pó dos calçados de vossos pés em testemunho para eles (11). Et quicumque non receperint vos nec audierint vos exeuntes inde excutite pulverem de pedibus vestris in testimonium illis. Nas ideias da época, se alguém vinha de viagem de regiões de gentios e não se purificava ao entrar em Israel, a profanava com o pó que trazia dessas regiões. Por isso estava obrigado a sacudir vestidos e calçados antes de entrar no Hertz Haaretz [terra de Israel]. Esse gesto foi feito por Paulo e Barnabé em Antioquia da Pisídia, quando os judeus levantaram uma perseguição contra eles (At 13, 51). Mais do que o gesto está a condenação dos que não quiseram ver a luz nem ouvir a verdade testemunhada com prodígios, como eram os sinais feitos pelos apóstolos.

RESULTADOS: E tendo saído, pregavam para que se convertessem [metanoësösin <3340>] (12). E expulsavam muitos demônios e ungiam com óleo muitos doentes e sanavam (13). Et exeuntes praedicabant ut paenitentiam agerent. Et daemonia multa eiciebant et unguebant oleo multos aegrotos et sanabant. O metanoeö significa mudar de parecer, ou seja, admitir que até agora não se tinha seguido uma religião correta e se devia em consequência mudar de ideias e conduta. Era uma forma nova de culto a um Deus que rejeitava a antiga adoração como defeituosa e insuficiente. Além de que por meio dos antigos profetas, cuja tradição vemos refletida nas palavras do Batista, essa nova presença de Deus era como um julgamento em que palha e trigo deviam ser separados (Lc 3, 17). A unção com óleo é uma forma de remédio muito usada nos tempos antigos. Sua prática no Oriente é usual até em nossos dias, mas o uso pelos apóstolos, nesta ocasião, é mais instrumental que curativa. Era um sinal externo de que pela fé o poder divino atuava no enfermo para obter a cura. Todos se curavam? Não existe certeza, embora a frase deixe margem suficiente para pensar numa cura geral. Era o sacramento da Unção? Não, pois neste a finalidade principal era taumatúrgica e na unção temos o perdão dos pecados e da culpa dos mesmos como finalidade primária. O Concílio de Trento afirma: A unção sagrada dos enfermos foi instituída como verdadeiro e próprio sacramento do NT por Cristo, Nosso Senhor, insinuado já em Marcos e promulgado por Tiago (Tg 5, 14). Como temos dito no início, a expulsão dos demônios era um símbolo especial: o de que uma nova era já estava atuando e de que o poder do maligno estava sendo derrotado: Se no dedo de Deus eu expulso os demônios, certamente a vós é chegado o Reino de Deus (Lc 11, 20).