EPÍSTOLA (Tg 2, 14-18)

(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)


     INTRODUÇÃO: As afirmações de Tiago nesta perícope parecem contradizer as declarações de Paulo sobre a justificação pela fé. Mas, na realidade, não invalidam as mesmas, já que o próprio Paulo afirma que a fé opera pelo amor: Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor (Gl 5, 11). E em duas ocasiões Paulo afirma que os que operam a maldade não entrarão no reino  (1 Cor 6, 9 e Gl 5, 21) porque a igreja deve ser santa e sem mancha: Quis assim preparar a igreja para ser a sua esposa cheia de beleza, sem mancha nem defeito ou coisa semelhante, mas santa e sem pecado (Ef 5, 27). Pela fé aceitamos o convite das bodas; mas devemos nos apresentar com o vestido apropriado ou seremos expulsos das mesmas (Mt 22, 11-13). Daí a afirmação de Tiago de que a fé sem obras é uma fé morta: para nada é válida, é como se não existisse. E quando Paulo anula as obras, elas são as obras da Lei, especialmente a circuncisão. Provavelmente no seu tempo, de Tiago, já prevaleciam doutrinas gnósticas em que o conhecimento predominava sobre a caridade, o que dava lugar a toda classe de libertinagem, como conhecemos por outros escritos do NT. Ao comentar a justificação de Abraão, Paulo, opondo-se ao parecer dos judeus-cristãos que pretendiam ainda a validez   das normas da Lei, traz o versículo de Habacuc 4, 2 citando-o: o justo viverá pela fé [ek pisteös]. Mas, na realidade, o hebraico diz: pela sua [dele, de Deus] fidelidade [emunatu] que a Setenta traduz: pela minha [de Deus] fidelidade [ek pisteös mou]. E a Vulgata iustus autem in fide sua vivit. A citação paulina em grego é: o de dikaios ek pisteös sesetai [o justo viverá pela fé [ou fidelidade], pois pistis tem como primária definição fidelidade]. A tradução da Vulgata é: iustus autem ex fide vivit [mas o justo vive (presente) da fé] que é traduzido ao vernáculo por aquele que é justo pela fé viverá. Somente Paulo claramente renuncia à Lei quando afirma: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da Lei (Rm 3, 28). E terminemos dizendo que a Lei tinha um sentido amplo tanto da Escrita como da oral ou tradição dos maiores. Pelo contrário, Tiago, num ambiente adverso, traz o exemplo de Abraão: Não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaac? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada (Tg 2, 21-22). Não nega Tiago o valor da fé, mas o afirma na obra boa realizada por Abraão, que completou a fé inicial. Por isso, dirá no versículo 20 anterior: Queres tu saber que a fé sem as obras é morta? A fé deve ser  razão e motivo de nossas obras boas; ou pelo contrário, de que serve? Não será inútil como um morto? Esta é a posição de Tiago nesta epístola.

 A FÉ SÓ SALVA? Qual o benefício meus irmãos se fé alguém diz ter, mas não tem obras? Pode a fé salvá-lo? (14). Quid proderit fratres mei si fidem quis dicat se habere opera autem non habeat numquid poterit fides salvare eum. BENEFÍCIO [to ofelos< 3786>=quid proderit] traduziríamos qual o proveito, ou de que aproveitaria alguém dizer que tem fé, mas não faz as obras que a fé demanda? A fé só pode salvar? O apóstolo dará a reposta no versículo 19: Fazes bem; também os demônios creem e estremecem. E até Paulo afirmará: Invejas, homicídios, bebedeiras, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus (Gl 5, 21).

      UM EXEMPLO: Se, pois, um irmão ou uma irmã está nu e se encontrarem indigentes do alimento diário (15) e, portanto, lhes disser alguém de vós ide em paz aquecei-vos e fartai-vos, não dando-lhes as coisas necessárias do corpo, qual o benefício? (16). Si autem frater aut soror nudi sunt et indigent victu cotidiano, dicat autem aliquis de vobis illis ite in pace calefacimini et saturamini non dederitis autem eis quae necessaria sunt corporis quid proderit. ENCONTRAR-SE [yparchösin <5225> indigent] o verbo yparchö significa estar presente, existir ou estar, e em muitos casos substitui o verbo einai [ser] como no caso de Jairo, que era príncipe da sinagoga (Lc 8, 41). Tiago usa a mesma palavra ofelos para indicar que não adiantaria em nada a boa palavra, mas que era necessária a ação. A boa palavra pode se entender com o que Paulo afirma da fé: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Rm 10, 8). Como compaginar esta afirmação paulina com o que Tiago afirma? Pois afirmando que a salvação não é um ato único isolado, mas um caminho longo que dura a vida e no qual a paciência e a perseverança são frutos da graça de Deus e da sinergia do homem. Assim o afirma o próprio Tiago em 1, 3: Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência [ypomonë]. Que Jesus já tinha em conta na parábola do semeador: a semente que caiu em boa terra, esses são os que, ouvindo a palavra, a conservam num coração honesto e bom e dão fruto com perseverança [ypomonë] (Lc 8, 15). Por isso dirá: Na vossa paciência ganhareis as vossas almas [vidas] (Lc 21, 19). Finalmente será em Hb 12, 1 que encontramos esta pérola bendita: Corramos com paciência a carreira que nos está proposta.

     FÉ SEM OBRAS: Assim também a fé: se não tiver obras, morta está em si mesma (17). Sic et fides si non habeat opera mortua est in semet ipsam. A primeira manifestação da fé deve ser a que Jesus pedia a seus discípulos: Qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus (Mt 10, 32-33). A fé, admitindo Jesus como Filho de Deus, e Redentor dos homens, nos leva a uma voluntária submissão, onde agradavelmente cumprimos o que diz Paulo: toda a língua confesse que Jesus Cristo é o SENHOR, para glória de Deus Pai (Fp 2, 11). E pela fé, destruída a velha inimizade, nos consideramos todos filhos de Deus a quem devemos o amor  fraterno, que Jesus manda seja como o seu entre os discípulos: Eu vos mando: Que vos ameis uns aos outros (Jo 15, 17). Será Paulo que encaminha a fé pela senda reta, quando escreve: Todas as vossas coisas sejam feitas com amor. (1 Cor 16, 14) e em Ef 3, 17: Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; estando arraigados e fundados no amor. Por isso Paulo fala do combate de fé (Fp 1, 27; 1 Tm 6, 12 e 2 Tm 4, 7).

A FÉ SE DEMONSTRA NAS OBRAS: Mas dirá alguém: tu tens fé e eu obras tenho. Mostra-me tua fé fora de tuas obras e eu te mostrarei por minhas obras a minha fé (18). Sed dicet quis tu fidem habes et ego opera habeo ostende mihi fidem tuam sine operibus et ego ostendam tibi ex operibus fidem meam.  A sugestão de Tiago é fácil de entender: a fé é um produto do interior da alma e não pode ser vista ou experimentada senão por fatos externos como são as obras. Por isso a verdadeira fé só pode ser conhecida pelas obras. E para demonstrar como a fé sem obras é inútil logo dirá no versículo seguinte que também os demônios creem e não obstante no lugar do amor neles se encontra o pavor ou estremecimento como trasladam as versões vernáculas.

EVANGELHO (Mc 8, 27-35)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)


INTRODUÇÃO: No evangelho de hoje Jesus pergunta sobre sua missão. A resposta dos discípulos, com base no sentir do povo, é irreal. Só Pedro acerta; mas não entende o sentido de sua reposta. É, então, que Jesus explica seu destino: a morte para dar a vida, que logo dirá ser o caminho de todo verdadeiro cristão.

A PERGUNTA: E saíram Jesus e os seus discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe e no  caminho perguntou a seus discípulos dizendo-lhes: quem dizem os homens que sou eu? (27). Et egressus est Iesus et discipuli eius in castella Caesareae Philippi et in via interrogabat discipulos suos dicens eis quem me dicunt esse homines.  LOCAL: Mateus diz que era perto de Cesareia de Filipe. Na realidade, veio às partes [merë], lugares que eram dessa cidade. Cesareia era o nome comum de várias cidades. Essencialmente na Palestina existiam duas Cesareias: a da  Palestina, cidade romana, fundada por Herodes, o Grande, situada na costa do Mediterrâneo, 37 Km ao sul do monte Carmelo e 100 Km ao noroeste de Jerusalém; e a Cesareia de Filipe, cidade gentílica, situada no sopé do monte Hermon, no Antilíbano, na cabeceira principal do rio Jordão, 32 Km ao norte da Galileia. Distava 40 Km de Betsaida [dois dias de caminho desta última]. Era a antiga Panion também Pâneas ou Panias, que hoje ainda subsiste com o nome de Baniyas  numa aldeia das fontes do Jordão. Foi helenizada, no século III AC, com uma população, também da região, que em sua maioria não era judia. Em 20 aC, Augusto a cedeu a Herodes, que nela construiu um grandioso templo dedicado ao imperador, feito de mármore branco sobre uma rocha que dominava a cidade e a fértil planície da qual era capital a antigas Pâneas, assim chamada porque perto da cidade existia uma gruta, dedicada, desde tempos remotos, ao deus Pan ou Pânion. A cidade foi ampliada e embelezada pelo tetrarca Filipe, que lhe deu o nome de Cesareia em honra de Tibério César. Por isso foi chamada de Cesareia de Filipe. A partir do século II foi chamada de Cesareia de Pâneas e no século IV em diante, o termo Cesareia desapareceu, permanecendo apenas o antigo Pâneas. O templo sobre a rocha evidentemente era um símbolo que Jesus não devia desperdiçar. A PERGUNTA: a tradução literal do versículo 13 seria: Quem me dizem os homens ser o Filho do homem? Esse me [a mim] não está sendo traduzido na Vulgata latina nem nas versões vernáculas. Numa linguagem mais elaborada, a tradução seria: quem dizem os homens que Eu sou? É notória que nas três recensões da pergunta dos três sinóticos a pergunta é a mesma na primeira parte: quem me dizem os homens [as turbas em Lucas] ser? Ou quem dizem os homens que eu sou?

A RESPOSTA: Então eles responderam: João o Batista e outros Elias; mas outros um dos profetas (28). Qui responderunt illi dicentes Iohannem Baptistam alii Heliam alii vero quasi unum de prophetis. Podemos dividir esta resposta em duas partes bem diferenciadas: uma, a geral, dada pelo povo, que praticamente indica Jesus como um homem de Deus, especialmente como um profeta comparável aos grandes de Israel; a outra é a resposta particular dada por Simão Pedro. Vamos estudar ambas as respostas. A primeira  tem várias indicações: A) O Batista: A pregação de Jesus e dos discípulos era a mesma  de João: Arrependei-vos, o reino de Deus está próximo (Mt 3, 2). E oferecia um batismo como o do adusto homem do deserto (Jo 3, 22-23). A semelhança do parentesco entre o Batista e Jesus (Lc 1, 36) talvez facilitasse a ideia de que Jesus era o Batista ressuscitado. Afirmava-se que João, o Batista, era Elias, pois a Escritura afirmava que o antigo profeta não tinha morrido, mas fora arrebatado aos céus no meio de uma tempestade de fogo (2 Rs 2, 11). Essa era a razão pela qual se esperava a sua vinda. B) Elias propriamente dito. Segundo a tradição, Elias escreveu uma carta depois de ser arrebatado (2 Cr 21, 12) dirigida ao rei Jorão de Judá por sua conduta idolátrica, já que tinha como esposa uma filha do ímpio rei Acab de Israel. Supunha-se, pois, que Elias voltaria antes do dia do Senhor, o dia da vingança e do castigo dos ímpios, dia da ira que está por vir (Jo 3, 7). Em Malaquias 3, 1 lemos: Eu vos envio meu mensageiro. Ele aplainará o caminho diante de mim. Por isso numa data posterior ao livro [após o ano 450 aC] identifica-se este mensageiro ou anjo, com Elias (seria no acrescentado capítulo 4, versículo 5, que não está no canônico Malaquias). Na sua complicada alegoria animalística da História, o livro apócrifo de Henoc (século II aC), descreve a aparição de Elias antes do juízo e da aparição do grande cordeiro apocalíptico. Isto é importante, visto que João falava do Cordeiro de Deus (Jo 1, 29). Em Eclo 48, 10 temos outra referência do século II aC: Tu que fostes designado nas censuras para os tempos a vir, para aplacar a cólera antes que ela se desencadeie, reconduzir o coração do pai para o filho (Lc 1, 17). Vistos os milagres que Jesus operava, os contemporâneos de Jesus pensavam que se não fosse Elias, que em vida realizou muitos e notáveis milagres, devia ser um profeta redivivo [aneste=despertado], pois a profecia tinha acabado e não era necessária nos tempos messiânicos. C) Um profeta. Lucas dirá que é um dos antigos, redivivo. De fato, os judeus distinguiam entre antigos profetas como Josué, Juízes, Samuel, Davi e os profetas compreendidos no reinado de Davi e os últimos profetas a começar por Isaías e terminar com Malaquias. A que profeta se referem os discípulos como porta-voz da vox populi? Talvez Samuel que já nos tempos de Saul se mostrou redivivo em 1 Sm 28, 12 diante da médium de Endor? Ou talvez Moisés, pois, a ele comparam a atuação de Jesus como vemos em Jo 5, 45-46 e 6, 31-32. Na realidade, os enviados oficiais perguntam a João se ele não era o Profeta [como conhecido personagem, esperado nos tempos messiânicos] de Dt 18, 15-18. Pois Javé disse a Moisés: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Por isso em 1 Mc 3, 45 aguardavam a vinda de um profeta que se pronunciasse a respeito. Este profeta, semelhante a Moisés, que deveria ser escutado em tudo (At 3, 22), era o próprio Jesus, coisa que o povo admitiu após a multiplicação dos pães (Jo 6, 14)  e na festa dos tabernáculos em Jerusalém (Jo 7, 40). Os judeus esperavam um Profeta, um Messias e um Sumo Sacerdote. Destas esperanças está como testemunha a carta aos Hebreus.

JESUS PERGUNTA DE NOVO: Então ele diz-lhes: Vós, porém, quem dizeis que sou eu? Tendo, pois, respondido o Pedro lhe diz: Tu és o Cristo (29). Tunc dicit illis vos vero quem me dicitis esse respondens Petrus ait ei tu es Christus. E VÓS?: Que ideia têm eles, seus discípulos, do homem Jesus? Ou seja, que papel na vida pública, especialmente na vida religiosa, deve ter Jesus entre seus conterrâneos? Em qual dessas categorias deveria ser incluído o Mestre que foi seu guia e com o qual conviviam durante esse tempo? SIMÃO PEDRO: O apóstolo chefe é conhecido por diversos nomes entre os autores do NT. A) Como Simão. O nome original do apóstolo era Simão, forma abreviada de Simeão [famoso]. De fato, seu nome completo, ou como diríamos hoje, seu DNI era Simão bar Jonas [Simão, filho de Jonas], que a Vulgata conserva como Simon bar Iona, como vemos no versículo 17 do cap 16 do evangelho de Mateus no lugar paralelo. Já o quarto evangelista diz dele que era filho de João [‘yiós Iöannou] (1, 42),  e que a Vulgata traduz por filius Iona (?) [a Nova Vulgata corrige dizendo Filius Ioannis] que o próprio evangelista repete em 21, 15, como Simon Iöannou [Simão de João], com a Antiga Vulgata agora traduzindo corretamente por  filius Ioannis ou de João. A dúvida existe: o pai era Jonas [pomba] ou João [favor de Deus]? Talvez a solução seja a diferença entre o aramaico e o hebraico em cujas escritas as consoantes de Jonas e João eram as mesmas, mas a pronúncia diferente. Jesus, sempre que fala com o apóstolo, usa o nome de Simão. Além do nome próprio ou, como dizem em inglês first name, temos outros personagens com o nome de Simão no NT: Simão, o zelote, um dos doze (Mt 10, 4). Simão, o irmão do Senhor (Mt 13, 55). Simão, o leproso de Betânia (Mt 26, 6). Simão, o fariseu (Lc 7, 40). Simão, o cirineu (Mt 27, 32). Simão, pai de Judas, o Iscariotes (Jo 6, 71). Simão mago (At 8, 9) e Simão de Jope (At 8, 18).  Com este nome de Simão é que Jesus o chama.  B) Como Pedro em latim Petrus e em grego Petros. Uma única vez aparece na boca  de Jesus como vocativo (Lc 22, 34). Esta única ocasião mais parece redacional que ipsissima verba Christi. Dentro da parte que poderíamos chamar redacional dos evangelhos,  encontramos a palavra Pedro em Mateus 16 vezes, em Marcos 11, em Lucas 9,  em João 9 e 3 nos Atos.  C) Como Simão Pedro em Mateus 3, em Marcos 1, em Lucas 2, em João 17 e  em Atos 4. D) Como Kefas [o aramaico por rocha] aparece em João 1, 42 e nas epístolas de Paulo, nas duas primeiras, Gálatas e 1 Coríntios e  sempre na boca de Paulo. Deste nome, podemos deduzir que a palavra usada por Jesus foi Kefas e que, aos poucos, ela foi traduzida ao grego como Petros com o mesmo significado, pois pedra seria lythos. Em latim, petra também significa rocha, tendo o significado de pedra a palavra lápis ou calculus. Petrus era rocha e não lápis ou calculus.  A RESPOSTA: Em nome dos doze, Simão responde: Tu és o Cristo [Ungido], o Filho do Deus vivente. Vamos comparar esta resposta com a de Marcos: Tu és o Cristo (Mc 8, 29), e a de Lucas: O Cristo do (sic) Deus. Ninguém duvida de que a resposta mais breve de Marcos é a saída da boca de Pedro. A de Lucas pode ser redacional ao explicar a unção como feita pelo Deus único e a de Mateus uma explicação, como sempre, de um bom catequista, para entender as palavras do apóstolo e a bênção imediata de Jesus. Qual era o significado de Cristo [Christós em grego]? Logicamente devemos recorrer à palavra correspondente hebraica. Significa Ungido que seria a tradução da palavra aramaica Messiah. A palavra Messias era traduzida como Christos em grego (Jo 1, 41). Originariamente era uma referência de Há Kohen há Massiah [o sacerdote, o ungido], ou seja, o Sumo Sacerdote, em cuja cabeça tinha sido derramado o óleo, quando consagrado como líder espiritual da comunidade (Lv 4, 3). Daí que o Messias era alguém investido por Deus de uma responsabilidade espiritual especial. Em tempos de Jesus, existia a ideia de que um descendente da casa de Davi seria o Messias que redimiria a humanidade, tradição que provinha dos tempos de Isaías. E foi o profeta Daniel em 9, 25 que deu uma nova esperança a esse ungido de Deus. Essa tradição encarava o Messias, não como um ser divino, mas apenas como um homem, um grande chefe, reformador social, que iniciaria uma era de paz perfeita. É o que os anjos prometeram aos pastores ao anunciar o nascimento do Salvador que era o Messias (Lc 2, 14).

SILÊNCIO: E os advertiu para que a ninguém dissessem acerca dele (30). Et comminatus est eis ne cui dicerent de illo. Era o segrego messiânico: Caso Jesus fosse admitido e anunciado como Messias, teria consequências políticas e sociais completamente diferentes dos planos divinos sobre a verdadeira missão de Jesus, essencialmente transcendental como cordeiro de Deus, sacrificado pelo pecado do mundo (Jo 1, 20).

O MESSIADO VERDADEIRO: E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria (31). Et coepit docere illos quoniam oportet Filium hominis multa pati et reprobari a senioribus et a summis sacerdotibus et scribis et occidi et post tres dies resurgere. E a história de sua paixão, resumida, mas delatando os verdadeiros causantes de sua morte e finalmente o fato de seu triunfo na ressurreição.

PEDRO O REPROVA: E com clareza falava a palavra. Então, tomando-o à parte, o Pedro começou a reprová-lo (32). Et palam verbum loquebatur et adprehendens eum Petrus coepit increpare eum. Pedro não entendeu as palavras claras de Jesus e pensou que este fosse um obstinado pessimista. O messias era um triunfador e não uma vítima do pecado humano. Esta era a ideia geral que Pedro fez sua e por isso tinha  seguido o mestre.

A ADVERTÊNCIA: E chamado o povo junto com seus discípulos, lhes disse: quem quiser vir após mim negue-se a si mesmo e tome sua cruz e siga-me (34). Et convocata turba cum discipulis suis dixit eis si quis vult post me sequi deneget se ipsum et tollat crucem suam et sequatur me. É um chamado radical e fundamental que com frequência é esquecido pelos discípulos atuais de Jesus: uma parte negativa, como é a negação de si mesmo, que nos leva a ocupar o último lugar para ser servidores de todos; e  uma positiva, como é tomar a cruz, símbolo de humilhação e sofrimentos.

EM RESUMO: Pois quem quiser salvar sua alma perdê-la-á. Quem, porém, perder sua alma por minha causa e a do evangelho, a salvará (35). Et convocata turba cum discipulis suis dixit eis si quis vult post me sequi deneget se ipsum et tollat crucem suam et sequatur me. ALMA [psychë<5590>=anima] aqui é tomada como o ser mais duradouro, causa da vida, como o ser inteiro. Alma é o mesmo que vida. Como vem em Mt 6, 25: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida [psychë], pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida [psychë] mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? O mesmo significado corresponde em Lc 12, 22, com a mesma palavra psychë. Seguir o evangelho, essencialmente, o que parece mais anti-humano [perder a vida] é o maior sinal de salvação.

PISTAS: 1) Obviemos a primeira pergunta – quem dizem os homens que sou eu? -Porque tal e como está o mundo, talvez a reposta muçulmana [um profeta anterior a Maomé] seja a mais próxima daquela dada pelos discípulos em Cesareia de Filipe. Vamos, pois, responder à segunda pergunta: E vós? Hoje não é suficiente a resposta de Pedro: O Messias, o esperado de Israel. A nossa deveria ser: O Filho de Deus Encarnado, que se entregou e morreu por mim (Gl 2, 20). Por isso, vivemos a vida presente pela fé no Filho de Deus (idem). O cardeal Darío Castrillón, prefeito da Congregação do Clero, escreve que o que se necessita para alcançar a felicidade não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado como o de Cristo. E o amor é entrega, quanto mais absoluta, maior amor temos pela pessoa amada.

2) Na verdade, essa imagem de Cristo que todos nós levamos dentro, desde o batismo, está, ou destroçada ou escurecida. Como poderemos ser apóstolos se não sentimos sua presença dentro de nós? Como vender um produto do qual não estamos nós, os vendedores, convencidos?

3) A resposta de Jesus, dada a Simão, indica que a nossa resposta, admitindo seu senhorio total como Messias e como Filho de Deus, é também um dom do céu e que ela merece um makarismo especial. Já o disse o Senhor a Tomé: Bem-aventurados os que não viram e creram (Jo 20, 29). Não seremos os chefes, como Pedro, mas a Igreja doméstica estará fundada em nós e nas nossas famílias.

4) A entrega ser para o outro é ser para Cristo. Porque se em servir está o amar, este é o que mede o sacrifício e a resposta ao Mestre: vem e segue-me.