Epístola aos Hebreus 9, 24-28

CRISTO, SUMO-SACERDOTE

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Dois rasgos característicos  do sacerdócio de Cristo encontramos nesta epístola: O primeiro foi sua atuação como Sumo Sacerdote no momento de sua morte. Com seu próprio sangue fez a propiciação pelos pecados do mundo. Foi um ato de expiação. O segundo é a propiciação constante diante do trono divino por aqueles que nele esperam a salvação. É um ato de intercessão. Somente no fim da História, o eschaton dos tempos, é que sua figura se transformará em Juiz para os que não o quiseram receber como Salvador. Porém será motivo de salvação e alegria para os que nele depuseram suas esperanças.

O VERDADEIRO TEMPLO: Pois não entrou o Cristo em templos [agia<39>=sanctis] fabricados por mãos [cheiropoiëta <5499> = manufactis], figuras [antitupa<499>=exemplaria] dos verdadeiros [alëthinön<228>=verorum], mas no próprio céu, para agora estar presente [emfanisthënai <1718>=appareat] para nós, diante da face [prosöpö<4383>=vultui] de (o) Deus (24). Non enim in manufactis sanctis Iesus introiit exemplaria verorum sed in ipsum caelum ut appareat nunc vultui Dei pro nobis Hebreus. TEMPLOS: Agion, neutro se refere ao lugar sagrado com o to [artigo determinante], ou seja, to agion. A palavra sai pela primeira vez nesta carta em 8, 2, tendo como ministro [leitourgos] dos lugares sagrados [tön agiön] e do tabernáculo, Cristo. Pelo que vemos, agia [plural de agion] significa o santo dos santos [Kodesh ha-Kodashim hebraico] que a Setenta traduz por to agion tön agiön (Êx 26, 36). A tradução correta seria: não entrou em lugar santíssimo fabricado por homens…  FIGURA: Antitupos é modelo, reflexo, semelhança. Só sai também em 1 Pd 3, 21, onde a arca se transforma na figura do batismo. O templo e o santuário eram, pois, figuras dos verdadeiros lugares sacros que estavam realmente habitados pela presença abrangente divina: os céus, onde seu Reino não tinha opositor, nem  podia existir outra vontade contrária: Faça-se a tua vontade assim na terra como é feita nos céus, mandou Jesus que recitássemos (Mt 6, 10). ESTAR PRESENTE: O verbo Emfanizö significa informar, manifestar, aparecer e, em sua forma passiva, ou melhor reflexiva, seu significado é manifestar-se, revelar-se, dar-se a conhecer, que é traduzido na TEB por comparecer e que temos traduzido por estar presente em nosso favor, como testemunha de equidade, por assim dizer, diante da face [prosöpö] do próprio Deus. O autor da carta compara Jesus com o ministério dos antigos Sumos Sacerdotes que compareciam, uma vez ao ano, diante da arca em cujo trono, formado por dois querubins, se supunha estava assentado Jahveh como presidindo o santuário no meio de seu povo (Sl 80, 2 e 99, 1). Logicamente não para julgar a terra, mas para interceder, como sumo sacerdote, pelos pecados do povo. A isso aponta o yper ëmön, em favor nosso [pro nobis latino] do texto.

MODELO DO AT: Nem para se oferecer [prosferë<4347>=offerat] muitas vezes [pollakis <4178> =saepe], ao modo como o Sumo sacerdote entra nos santuários cada ano, com sangue alheio [allotriö<245>=alieno] (25). Neque ut saepe offerat semet ipsum quemadmodum pontifex intrat in sancta per singulos annos in sanguine alieno. O verbo Prosferö significa oferecer um presente como os Magos em Mt 2, 11 ou apresentar alguém, como foi feito ao trazer os doentes em Mt 4, 24 e especialmente das ofertas no templo (Mt 5, 23  e  24 ). Fora dos evangelhos só sai 2 vezes em At (8, 18 e 21, 26). No primeiro caso, quando Simão ofereceu dinheiro para comprar os dons do Espírito e no segundo, quando Paulo ofereceu sua oferta para se purificar. Nesta carta, sai 18 vezes como termo técnico correspondente ao sacerdote que apresenta à divindade um sacrifício ou dom. Hebreus aqui traz à memória as vezes [POLLAKIS] em que, no ano, se celebrava a festa do Yom Kippur, ou da Expiação. NOS SANTUÁRIOS: O plural agia é traduzido por santuário. Na realidade, eram duas as salas em que só entravam os sacerdotes e que formavam o naós<3485> propriamente dito: o santo e o santíssimo. O naós clássico era a nave onde estava a imagem do deus e que se distinguia do resto do templo chamado de  ‘ieron<2411>.  Precisamente naós deriva de naiö [habitar] e era o cubículo em que se encontrava a imagem do ídolo. Também recebia o nome de domos [casa] e sëkos [recinto], palavras que não se encontram na Escritura.  Esta distinção está clara na bíblia em Mt 23, 16 sobre o naós e 4, 5 sobre o ‘ieron. Ela também dá uma força que inutilmente podemos encontrar na Vulgata ou nas traduções vernáculas: o templo [naós] de Deus, que sois vós, é sagrado (1 Cor 3, 17). A tradução latina templum como a das línguas vernáculas, está aquém do significado de naós que deve ser santuário, ou tabernáculo, onde realmente habitava o deus pertinente. Em 9, 3 o nosso autor dirá que detrás do segundo véu [katapetasma<2665>] estava o tabernáculo [skënë<4633>] o chamado santo dos santos [agia agiön<39>], sendo skene feminino. COM SANGUE ALHEIO: A carta recorda o rito do AT em que um dos bodes era sacrificado e com seu sangue era aspergido o propiciatório (Lv 16, 14) após ter coberto o mesmo com a nuvem do incenso para evitar a sua morte (idem 16, 13). Esse rito realizava-se cada ano, no dia da Expiação [yom Kippur]

 O SACRIFÍCIO DE CRISTO: Visto que [epei<1893>=alioquin] convinha [edei<1163> =oportebat] que ele padecesse muitas vezes desde a fundação [katabolës<4930>=origine] do mundo, agora pelo contrário [apax<539>=semel], uma única vez, no fim dos tempos [synteleia<4930>=consumatione], para extinção [athetësin <115> =destitutionem] do pecado, se manifestou pelo seu próprio sacrifício [thysias<2378>=hostiam] (26). Alioquin oportebat eum frequenter pati ab origine mundi nunc autem semel in consummatione saeculorum ad destitutionem peccatiper hostiam suam apparuit. CONVINHA: O edei grego é imperfeito do verbo deö atar, colocar sob a obrigação, como em Mt 16, 21: Jesus disse que deveria ir a Jerusalém e sofrer etc. O sentido da frase é que assim como o Sumo sacerdote entrava muitas vezes no tabernáculo com sangue alheio, o Cristo com seu sangue deveria sofrer muitas vezes; e isto desde a fundação do mundo, pois dessa época foi constituído como Sumo Sacerdote. Porém, o caso foi único [apax] e no fim dos tempos [synteleia]  cujo significado é conclusão, consumação, fim. Em Mt 13, 39 Jesus diz que a ceifa é o tempo do fim dos tempos.  Ou como em Mt 28, 20 até a conclusão da época (atual). EXTINÇÃO: Poderíamos dizer abolição [do pecado]. Por isso foi chamado do cordeiro que tira o pecado do mundo  (Jo 1, 29). SACRIFÍCIO: Em grego Thysia <2378> em que a oferenda era uma vítima que deveria ser morta, como indica o verbo Tyuö que indica oferecer sacrifícios, primariamente do fumo de incenso [thymos], obtido através de ser queimado, como eram as vítimas dos sacrifícios cruentos.

 A SEGUNDA VINDA: E assim como está estabelecido [apokeitai<606>=statutum est] aos homens morrer uma vez [apax<530>=semel] e, logo, o julgamento [krisis<2920>=iudicium ] (27), assim o Cristo, uma vez oferecido [prosenextheis<4374>=oblatus] para carregar [anenegkein <399> =exhaurienda] os pecados de muitos, pela segunda vez, sem pecado, aparecerá [ofthësetai<3700>=apparebit] aos que o esperam [apekdechomenois <553> =expectantibus] para salvação [söterian <4991> =salutem] (28). Et quemadmodum statutum est hominibus semel mori post hoc autem iudicium, sic et Christus semel oblatus ad multorum exhaurienda peccata secundo sine peccato apparebit expectantibus se in salutem. ESTABELECIDO: Do verbo apokeimai, que significa deitar, estar em depósito, estar separado ou reservado. Exemplos: eis minha mina aqui está guardada num lenço (Lc 19, 20). Ou melhor: por causa da esperança que vos está preservada (Cl 1, 5). A tradução é, pois, está ordenado ou estipulado. É uma norma da qual nenhum homem foi dispensado. JULGAMENTO: Krisis grego significa separação, quebra, divisão e ao mesmo tempo julgamento, seleção, processo judicial, sentença, decisão judicial. Encontramos em Jo 8, 16: Se eu julgo [krinö] -dirá Jesus- o meu juízo [krisis] é verdadeiro. O julgamento final  está claro em Mt 10, 15 onde no dia do julgamento [en emera kriseös] haverá menos rigor com Sodoma e Gomorra do que com aquela cidade, como repete Mc 6, 11. Que seja a última e definitiva sentença vemos em Jd 1, 15: para fazer julgamento [krisin] contra todos e convencer todos os ímpios acerca de todas as suas obras ímpias. Que seja o último é claro como vemos em Mc 3, 23 em que a blasfêmia contra o  Espírito, o Santo, não tem perdão porque é réu de um julgamento [kriseös] eterno. João no capítulo V dirá: que o julgamento [krisin] foi dado a ele pelo Pai e que quem ouve sua palavra terá a vida eterna e não entrará no juízo [krisin] (v 22 e 24). João no versículo 29 distingue entre os que fizeram o bem que ressuscitarão para a vida eterna e os que praticaram o mal para a ressurreição do julgamento [eis anastasin kriseös]. O Catecismo da Igreja  Católica fala do tempo histórico e do além do mesmo que deve atravessar por um juízo escatológico. O Reino não se realizará por um triunfo histórico da Igreja, mas por uma vitória de Deus sobre o último brote e estalido do mal, tomando a forma de um juízo final. Veremos no exemplo, como  devemos interpretar as palavras divinas referentes ao mundo do além. CARREGAR OS PECADOS: Lemos em Isaías 53, 12 como o servo de Jahveh, contado entre os transgressores, contudo, levou sobre si o pecado de muitos [amartias pollön avëneken=peccatum multorum] e pelos transgressores intercedeu. DE MUITOS: Não é o oposto a todos, mas a poucos. Quer dizer que a salvação será de muitos e não de uns poucos. Mt 29, 28 abunda na mesma ideia: entregar sua vida como resgate para muitos [anti pollön=pro multis], que outros traduzem pela multidão. APARECERÁ: Melhor, será visto sem pecado, isto é, sem as debilidades e sofrimentos que o pecado, como assumido, acarretou à paixão de Cristo. AOS QUE OS ESPERAM: O mundo todo estava na expectação de forma ansiosa [apokaradokia=expectatio] pela revelação dos filhos de Deus (Rm 8, 19) e esperando [apekdechomenous=expectantibus] também a revelação do Senhor Jesus Cristo (1 Cor 1,7). Esta espera ansiosa era sobre a salvação. SALVAÇÃO: Há na Escritura 4 formas de salvação do pecado e suas consequências: da culpa, do poder, da presença e do prazer. A salvação será completa quando também o corpo ver-se-á livre da corrupção. Assim em Fp 3, 20: Paulo fala da nossa pátria que está nos céus de onde também expectamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. O ministério profético [em nome de Deus] de Cristo tem três etapas diferentes: Mestre e profeta, durante sua vida pública. Vítima e Sacerdote, desde a paixão até os tempos escatológicos. Finalmente, juiz e Rei, desde sua segunda vinda, onde seu triunfo será total e visível.

 EVANGELHO (MARCOS 12, 38-44)

Lugares paralelos Mt 23, 1-36 e Lc 20, 45-47

Denúncia contra os escribas.

O óbulo da viúva

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Desde o capítulo 11 [entrada em Jerusalém] o antagonismo entre Jesus e os fariseus é evidente: começa com a expulsão dos mercadores do templo, e uma série de discussões sobre questões apresentadas pelos legistas que resolve Jesus magistralmente. O imposto a César, a ressurreição dos mortos,  o primeiro mandato. Como conclusão, Jesus declara que os escribas [os intelectuais entre os fariseus] não mereciam o respeito e admiração que o povo os distinguia. Este é o momento do evangelho de hoje, em que Jesus apresenta o chamado fermento dos fariseus (Mt 16, 6) e o desmascara de forma absoluta e total.  São dois os episódios a comentar: a ambição de poder e honra dos escribas e a pobreza, como consequência de seus atos.

DENÚNCIA DOS ESCRIBAS

(Mt 23, 1-36 e Lc 20, 45-47)

 A LIÇÃO: Então lhes dizia em seu ensino: olhai contra os escribas, os que desejam em longos vestidos [estolas, ou vestes talares] deambular e saudações nas praças (38). Et dicebat eis in doctrina sua cavete a scribis qui volunt in stolis ambulare et salutari in foro. Mateus, em lugar paralelo, fala de escribas [grammateis<1122>] e fariseus. Na realidade, os escribas pertenciam, na sua maior parte, ao grupo dos fariseus, já que grande parte de sua erudição provinha da tradição que não era admitida pelos saduceus como Lei. Por isso, Jesus podia afirmar que na cátedra de Moisés se assentaram os escribas e fariseus (Mt 23, 2).  Lucas copia exatamente com as mesmas palavras a advertência de Jesus narrada por Marcos (Lc 20, 46); unicamente substitui o verbo olhai por estai atentos contra. De fato, olhai contra é traduzido por cavete em latim, ou seja, guardai, tomai cuidado. Vamos explicar os vestidos longos ou talares. A stola latina deriva da stolë grega. Era uma vestidura ampla e longa que gregos e romanos levavam sobre a camisa [ou roupa interna junto a pele] e se diferenciava da túnica comum porque esta só chegava até a meia perna e aquela até o calcanhar e estava também adornada com uma franja que cingia a cintura e caia por detrás até o chão. Daí deriva a veste talar, longa até os calcanhares e própria dos clérigos na idade média. A palavra talar vem do latim talus osso do calcanhar, dai o adjetivo talaris, e o nome talaria, as asas que, segundo os poetas, tinha o deus Mercúrio nos calcanhares para voar como correio dos deuses, espalhando as notícias entre os mesmos. No mundo romano, usava-se uma faixa longa e estreita usada pelos sacerdotes nas funções litúrgicas que foi logo usada pelos bispos, presbíteros e diáconos no culto católico, pendurada no pescoço e caindo à frente, cuja cor dependia das celebrações em ato. Era um vestido de distinção à semelhança da toga romana, que hoje usam os magistrados e catedráticos como veste cerimonial. Logicamente com semelhante vestimenta [o vestido talar] os escribas se distinguiam das pessoas comuns cujos vestidos não iam além de meia perna. Mateus acrescenta que alongavam os filactérios e ampliavam as fímbrias de seus mantos. Também amavam ser saudados nas praças públicas. Os filactérios, do grego que significa forte e amuleto ou talismã, e que em aramaico são chamadas de tefilim, eram as duas caixinhas de couro que continham os versículos dos 4 trechos do Pentateuco: Êx. 13, 1-10, 11-16; Dt. 6, 4 – 9; 11, 13-21. A razão de seu uso está contida literalmente nestas palavras da Escritura entre outras: Te será como um sinal na mão e como um memorial diante de teus olhos para que a lei de Jahweh esteja em tua boca, porquanto Ele te tirou do Egito com mão forte (Êx 13, 16). As palavras que deviam ser recordadas são, em especial, as da Shemá, que serão colocadas na frente ou penduradas do braço esquerdo por meio de tiras de couro; assim se cumpria materialmente o texto bíblico, que além do citado está em Êx 13, 9; Dt 13, 16 e Dt 13, 18. Segundo a Mishná (Shebu 3, 8 e 11) se exige que todo varão de 13 anos [após a cerimônia do barmitzwá=filho da lei] use cada dia os tefilim; As mulheres estão explicitamente isentas desta obrigação religiosa, pois eram comparadas aos escravos que não tinham vontade própria. O filactério da cabeça consiste em 4 compartimentos, cada um contendo uma seção da Escritura, enquanto a da mão esquerda tem um só compartimento que contem as 4 passagens num só pergaminho. As caixas dos filactérios devem ser feitas de um animal Kosher [de uma raiz que significa próprio, correto] para descrever objetos e comidas que se conformam às leis rituais do culto e da comida. O contrário é Treyf [significando rasgado, dividido, no sentido de ter sido assim por outro animal e, portanto, impedido como comida por ter sido comida de um animal antes]. O filactério da cabeça leva impressa duas vezes a letra Shin [j], início da palavra shemá, [ouve], uma do lado direto e outra do lado esquerdo. A shin do lado direito tem 4 dentes no lugar dos 3 habituais, como recordação das 4 passagens contidas nas caixinhas (Menah 35ª). Cada caixa é costurada a uma base grossa de couro com doze pontadas, cada uma por uma das 12 tribos de Israel. Os filactérios não são de uso noturno, nem festivo, nem sabático. O filactério da mão é o que primeiro se coloca no lado interno do braço, na parte superior do mesmo, e a correia se enrola ao redor do braço. O filactério da cabeça se coloca no meio da fronte com os dois extremos da correia pendurando sobre os ombros. A colocação de cada filactério é acompanhada por algumas bênçãos. Colocam-se durante as orações da manhã e são retirados em ordem inversa em que se colocaram. Parece que o costume dos filactérios data pelo menos de 159 aC, pois a carta de Aristeas menciona o filactério da mão. Descobriram-se restos de filactérios nas covas de Murabba’at, ocupadas por refugiados na revolta de Bar Kokhba (135 dC) e nas covas de Qumrã. Três das 4 passagens escritas na caixinha da cabeça ainda estavam nos seus receptáculos originais. A forma das caixinhas, o material usado para o pergaminho e as fitas concorda com as especificações do Talmud. Os filactérios de Qumrã continham o decálogo. Mas logo foi proibida esta quinta seção [Mishná, Sanh 11, 3), porque, segundo os intérpretes o decálogo foi dado unicamente a Moisés. Se as de Qumrã tinham o decálogo e as de Murabba’at não, é que a reforma foi feita ao redor do ano 135 dC. Parece que o uso dos filactérios era o critério para distinguir um Haver [membro da sociedade rabínica] de um ‘am haares [não observante dos costumes rabínicos] ou povo comum. Segundo Flávio Josefo havia no tempo da guerra (66-70 dC) 6 mil fariseus e o número total de judeus 2 milhões contados entre a Palestina e a diáspora. A palavra tefilim em hebraico é gamea’ e em grego phylacterion todas com o significado de amuleto. É possível que as massas as considerassem como possuidoras de poderes mágicos similares às gameas, escritos em pergaminho por um escriba profissional e que se levavam sobre o corpo. A eleição do termo tefilim como plural de oração era para substituir a natureza profilática supersticiosa, por uma visão litúrgica mais legítima e religiosa. As fímbrias [franjas ou orlas] eram os tzitzit e são as do Talit. O talit é um acessório religioso judaico em forma de um xale de seda, lã, ou linho, tendo em suas extremidades as tzitziot [plural feminino de Tzitzit]. O talit é usado como uma cobertura [a modo do véu das mulheres] na hora das preces judaicas, principalmente no momento da oração de Shacharit [oração da aurora] e na sinagoga. O talit isola o que está orando do mundo a sua volta e facilita-o na sua concentração durante a oração. O talit cria um ambiente de igualdade entre os que estão orando na sinagoga, tendo uma cobertura homogênea sobre as roupas que estavam usando as pessoas que poderiam mostrar o estado econômico de quem ora. Existe um outro tipo de Talit denominado Talit Katan [talit pequeno] também conhecido por Tzitzit, que é utilizado durante o dia inteiro por baixo da roupa a fim de cumprir o mandamento durante todo o dia. A bandeira do Estado de Israel é baseada em um Talit (as duas faixas que a compõem), tendo uma estrela de Davi no centro dela. O mandamento de Tzitzit encontra-se em duas passagens da Torá: Que façam para eles tzitzit [franjas] sobre as bordas de suas vestes, pelas suas gerações; e porão sobre os tzitzit da borda um cordão azul celeste. E será para vós Tzitzit [valor numérico de suas letras=613, ou seja, número total dos preceitos da Torah] e vereis e lembrareis todos os mandamentos de Deus e os cumprireis e não errareis indo atrás do vosso coração e atrás dos vossos olhos, atrás dos quais vós andais errando; para que vos lembreis e cumprais todos os meus mandamentos e sejais santos para com vosso Deus (Nm 15, 38-41). A outra passagem é: Franjas farás para ti e as porás nos quatro cantos de tua vestimenta com que te cobrires (Dt 12, 12). Hoje os judeus rabínicos usam apenas tzitzit brancas, já que creem não ser possível obter a cor azul obrigatória do mandamento e por isso não pode ser utilizado, pois este azul era obtido de uma criatura marinha chamada chilazon, cuja identificação era incerta. Citamos uma sentença de Rabi Shimon bar Johai: Quando o homem levanta de manhã e coloca os tefilim e tzitzit , a Shekiná [glória divina] paira sobre ele e proclama: Tu és meu servo, Israel, através do qual serei Glorificado. Para mais informações ver presbiteros.org.br exegese número 111.

 OS PRIMEIROS: E as primeiras  cadeiras nas sinagogas e os primeiros divãs nas ceias (39). Et in primis cathedris sedere in synagogis et primos discubitus in cenis. Brigavam também em sua ostentação por estarem nos primeiros lugares tanto nas sinagogas como nos banquetes celebrados à noite, como era o costume greco-romano. Tudo era para aparecer e obter os aplausos e reverência dos demais homens ou convivas.

ROUBO DAS VIÚVAS: Os que devoram as casas das viúvas e, com a escusa, oram longas (preces); estes receberão uma condenação mais severa  (40). Qui devorant domos viduarum sub obtentu prolixae orationis hii accipient prolixius iudicium. A tradução latina diz: os quais devoram as casas das viúvas, sob pretexto de uma oração mais ampla; e a tradução RA (revista atualizada) diz: os quais devoram as casas das viúvas e, para os justificarem, fazem longas orações. Vejamos outras traduções a espanhola: devoran los bienes de las viudas pretextando hacer largas oraciones.  A italiana: divorano le case delle vedove e fanno finta [fingimento] di pregare a lungo. A King James: Which devour widows houses and for a pretence [pretexto]  make long prayers. No lugar exatamente paralelo de Mateus 23, 14 a RA traduz: e para os justificarem, fazeis longas orações. O texto não está claro e podemos dizer que enquanto devoram as casas das viúvas [como depois explicaremos] ficam com a consciência tranquila e assim aparecem como justos, por rezarem muitíssimo. DEVORAM AS CASAS DAS VIÚVAS: Existem duas interpretações: 1ª) Marcos alude à prática da administração feita pelos escribas das propriedades das viúvas. Como as mulheres não podiam ter direito legal para administrar os bens de seus falecidos maridos; assim, confiavam nos fariseus, que através de suas longas orações públicas apareciam como honestos e conquistavam por sua piedade a confiabilidade para, em suas mãos, deixar a administração dos bens patrimoniais. Porém, de fato, ganhavam uma percentagem sobre os bens administrados e era notória  a prática do desvio do dinheiro e dos abusos. O caso era comparável ao do Korban de Marcos 7, 9-13. Por isso os escribas eram ricos e as viúvas cada vez mais pobres. 2ª) A explicação, dizem outros, está na oposição entre oração e fraude. A sede da oração dos escribas estava no templo e as despesas deste estavam por cima das necessidades das viúvas. Por isso, Jesus narrará o caso da viúva pobre que é capaz de dar todo seu sustento em oposição aos ricos [fariseus] que ostentam seus opulentos óbolos.  Neste caso, poderíamos traduzir no lugar de pretexto, compensação e por isso oferecem longas orações. A palavra fariseu deriva do hebraico Perishut, que significa abstinência e separação. O plural perishim é traduzido como farishim. Aparecem pela primeira vez como opositores a Alexandre Janeu (103-76 aC) opostos à política militar de quem era Sumo Sacerdote e rei de Israel. No ano 90, por ocasião da festa dos Tabernáculos, a multidão em sua maioria simpatizante dos fariseus, acometeu contra ele com uma saraivada de limões quando ele se preparava para oferecer um sacrifício no templo. Injuriaram-no e o declararam indigno de realizar este ato sagrado. Tal reação foi brutalmente reprimida. Janeu matou mais de 6 mil pessoas. Janeu, no seu testamento, quis se reconciliar com os fariseus. Sua viúva, Alexandra, mulher piedosa, afastou do poder os que se tomavam de liberdades em relação às leis religiosas. E os fariseus praticamente tiveram o poder em suas mãos até a morte da rainha em 67. Segundo Josefo, a seita dos fariseus tinha a reputação de fornecer os intérpretes mais rigorosos das leis; eles representavam a seita superior; atribuíam tudo ao destino e a Deus. Fazer o bem ou o mal depende essencialmente do homem, mas também para ambos intervém o destino. Aceitavam que todas as almas são imortais, mas que somente as almas dos justos passam para outros corpos, sofrendo as almas dos celerados um castigo eterno. Os fariseus têm afeição uns pelos outros e vivem harmoniosamente visando o bem comum. Segundo este mesmo historiador, os fariseus se opuseram à Herodes o Magno e recusaram o juramento em número de 6 mil [a população da palestina era de 70 mil habitantes o que dá a ideia de que quase um de cada dez habitantes era fariseu]. Sua influência notava-se especialmente nas classes médias e pobres da sociedade. A CONDENA: Implicitamente Jesus afirma que existe um julgamento e que nele há uma condena dependente dos atos maus feitos em vida; mas que todas as condenações não são iguais. E entre os que serão mais estritamente julgados e condenados estão os que se aproveitam dos próximos necessitados e impossibilitados de se defenderem, como eram órfãos e viúvas. Estas precisamente esquecidas por juízes que não se ajustavam à justiça, mas aos interesses pessoais (Lc cap 18). Donde está a fé sem obras de Lutero? Será que Jesus se equivoca ou quem erra é o frade das 95 teses?

O ÓBOLO DA VIÚVA

  (Lugar paralelo Lucas 21, 1-4)

JESUS OBSERVA: Então, tendo-se assentado em frente do Gazofilácio, contemplava como o povo lançava o cobre dentro do Gazofilácio e muitos ricos lançavam muita (sic) (41). Et sedens Iesus contra gazofilacium aspiciebat quomodo turba iactaret aes in gazofilacium et multi divites iactabant multa. GAZOFILÁCIO: é uma palavra de origem grega, que é mantida no latim da Vulgata e nas traduções hispânicas, mas que, no King James é traduzida por tesouro. A palavra grega é um vocábulo composto de duas raízes Gaza [tesouro] e Filaké [guardião]. Seria, pois, a caixa forte do templo, onde existiam 13 caixas que eram como bocas de trombetas que davam ao pátio das mulheres e dentro das quais eram jogadas as moedas, geralmente de cobre  [o chalkon grego] para pagar pelos serviços do templo e para suporte dos pobres. As trombetas eram marcadas para indicar qual seria o destino das ofertas. Depois da divisão das 12 tribos, as 48 cidades especialmente designadas para servir de habitação aos levitas não mais funcionavam como cidades levitas durante o período dos juízes, segundo sugere 2 Cr 31, 2-12. Nos tempos de Neemias  os levitas traziam os dízimos à casa do nosso Deus, às câmaras da casa do tesouro. Porque àquelas câmaras os filhos de Israel e os filhos de Levi devem trazer ofertas do cereal, do vinho e do azeite (Ne. 10, 38,39). Segundo Lucas, Jesus, de modo especial, observava as ofertas dos ricos (Lc 21, 1).

 A VIÚVA: Como chegasse uma viúva pobre depositou dois leptons o que é um quadrante (42). Cum venisset autem una vidua pauper misit duo minuta quod est quadrans. Já temos falado sobre a sorte das viúvas no tempo de Jesus, especialmente as pobres. O termo hebraico ‘almanah denota uma ideia de solidão, abandono e incapacidade de se proteger. Marcos fala que era ptöchë [literalmente mendiga] Lucas, melhor versado na língua grega, fala de  penichra [pobre, mas não mendicante, paupercula latino]. A sua contribuição eram dois leptons. A moeda era a menor de todas as existentes na época. Era uma moeda de cobre [0.8 g do mesmo metal] (Lc 12, 59 e 21, 2) e equivalia ½ quadrante romano (Mc 12, 42), também de cobre, valor deste último ¼ de asse, moeda de prata de 0,25 g (Mt 10, 29) que por sua vez era 1/16 do denário de valor real 4 g de prata (Mt 18, 28 e Lc 10, 35) um pouco superior ao dracma grego de 3.6 g de prata (Lc 10, 58) e que equivalia ao salário de um dia (Mt 20, 2). Modernamente usa-se o lepton para indicar as menores partículas dentro do átomo, formando parte dos fermions [de Fermi, Enrico, que foi o primeiro a experimentar um reator nuclear] junto com os bossons dos quais se distinguem pelo spin. O mais conhecido é o elétron. Como moeda, os gregos chamam de lepton o que os outros europeus denominam de centavo, ou seja, um lepton é um centavo de euro. O Quadrante era a menor moeda romana em circulação assim como o lepton era a menor moeda judaica circulante, que equivalia a 2% do valor do denário. O lepton era o pagamento de 15 minutos de trabalho. O nome deriva do termo grego leptos que significa despojado da própria pele, desnudo, delgado, fino, delicado, leve, derivado do verbo lepö, pelar, descascar, desnudar. Sendo uma moeda de cobre ou bronze e extremamente fina, era pequeno demais para ter valor prático. Por isso, dois deles, formando um quadrante, era o mínimo para uma subsistência: toda a renda que uma viúva pobre podia oferecer. A menor soma, porém, tudo o que possuía. Para se ter uma ideia do valor real, o asse romano equivalente a 4 quadrantes [ou assarions gregos, ou 8 leptons judaicos], e era usado pelos gregos e romanos como símbolo daquilo que não tem valor algum. Disso tudo, deduzimos que Jesus quis comparar o mínimo óbolo com a máxima doação, que não depende da quantidade, mas da necessidade de quem doa.

 A APRECIAÇÃO: Então tendo convocado seus discípulos, diz-lhes: Amém eu lhes digo que esta viúva, a mendiga, tem depositado  mais que todos os que depositaram dentro do gazofilácio (43). Pois todos depositaram do que lhes sobra, mas ela, de sua indigência, tudo quanto tinha depositou, a totalidade de sua vida (44). Et convocans discipulos suos ait illis amen dico vobis quoniam vidua haec pauper plus omnibus misit qui miserunt in gazofilacium. Omnes enim ex eo quod abundabat illis miserunt haec vero de penuria sua omnia quae habuit misit totum victum suum. O Amém de Marcos é traduzido por em verdade por Lucas (21, 3). Agora, também em Lucas, a viúva é ptöchë e não pobrezinha como no versículo anterior. O paradoxo será explicado por Jesus no seguinte parágrafo. Como conheceu Jesus que era viúva? Desde tempos de Jacó  e seus filhos as viúvas vestiam de modo especial como vemos em Gn 38, 14 e 19. Vestiam-se de saco, e de um manto especial, não se penteavam, nem ungiam o rosto (Jt 10, 3-4 e 16, 8). Tudo isso confirma a ideia de que uma viúva era conhecida à vista por seus modos de vestir,  especialmente por ir descalça e sem nenhum adorno, anel, bracelete ou pulseira, como parece foi o caso de Judite. Jesus, na base de sua apreciação,  publicamente julga o valor verdadeiro e intrínseco das ofertas, observadas durante o tempo de seu escrutínio. A totalidade dos juízos de seus contemporâneos seria favorável às ofertas mais vultosas. Porém, Jesus descarta a exterioridade e fixa seu olhar na intenção dos contribuintes. Os ricos demonstram sua ostentação, querem ser vistos e louvados por sua magnificência. O depositado é o supérfluo,  desnecessário. Já a viúva põe na balança a sua vida, o necessário sustento para a mesma como outros traduzem. E isto faz com que o mínimo se transforme num todo ou total. O importante não é a ação externa, mas a intenção e a entrega interior. Quem mais dá é quem mais generosamente entrega, quem menos se reserva.

PISTAS: 1) Na base destes dois relatos está o verdadeiro mérito, aquele que é visto pelos olhos de Deus, o único juiz verídico. E como tal, o intrínseco valor de uma vida; pois no fim da sua história, só a verdade será premiada.

2) Os que vivem para serem aplaudidos pelos circunstantes, já receberam seu prêmio e não devem esperar de Deus outro galardão que não seja uma condenação formal de seu proceder. A quem desejamos servir? A nós mesmos, procurando a aclamação dos homens, ou visando os juízos de Deus, eternos e verdadeiros? (Jo 12, 43). Por isso, a justiça do reino deve superar a dos escribas (Mt 5, 20).

3) O caso dos escribas é verdadeiramente ilustrativo, por serem eles os dirigentes que lideravam o povo. A sua verdade estava escondida na sua ambição. Como poderiam eles se tornar os verdadeiros arautos de Deus se só buscavam sua própria autopromoção? (Jo 5, 44).

4) A exibição dos escribas era mais importante do que a verdade de seu ensino. Isso constituía o fermento dos fariseus (Mt 16, 6), do qual Jesus adverte seus discípulos. Submeter a verdade à sua própria ambição da qual era um sinal sua cobiça material, que não se importava em se aproveitar da pobreza das viúvas, era o grave pecado que cegava suas mentes (Mt 15, 14).

5) Uma grande lição é dada ao ver como os homens se comportam diante de Deus ao oferecerem seu óbolo, parte [ou o todo] de sua vida como esforço ou como herança. Na realidade, damos o excedente, o que não é importante, o mínimo em esforço e importância. No lugar de Deus, estamos nós como princípio de nossas atuações e participação. A totalidade da vida que devia ser oferecida a Deus como fez a viúva, e como manda o primeiro mandamento, é substituída por um punhado de moedas na oferenda da coleta dominical. Os santos são aqueles que não entorpecem a ação de Deus em suas vidas. Ou seja, santo é quem não antepõe nada à obra de Deus.