SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ

Lc 2,22-40

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Neste primeiro domingo depois da celebração do Natal, a liturgia nos convida a celebrar a festa da Sagrada Família de Nazaré. Deus quis nascer em uma família humana, quis ter uma mãe e um pai, como nós. Com isto, a Igreja nos propõe a família de Jesus como exemplo e modelo para as nossas famílias.

 

O texto evangélico nos apresenta Nossa Senhora e São José no momento em que, quarenta dias depois do nascimento de Jesus, levam o filho a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor (v. 23), em conformidade com a Lei de Moisés, e oferecem por ele “um par de rolas ou duas pombinhas” (Lc 2,24).O oferecer aos deuses os primogênitos é um costume cananeu que consistia na apresentação da criança no Templo, onde a mãe oferecia um ritual de purificação (cf. Lv 12,2-8).

 

A cena da apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém apresenta uma catequese bem amadurecida e bem refletida, que procura dizer quem é Jesus e qual a sua missão no mundo. Antes de mais, o autor sublinha a fidelidade da família de Jesus à Lei do Senhor (v. 22.23.24), como se quisesse deixar claro que Jesus, desde o início da sua vida entre nós, viveu na fidelidade aos mandamentos e aos projetos do Pai.

 

No Templo, dois personagens acolhem Jesus: Simeão e Ana. As palavras e os gestos de Simeão são particularmente sugestivos. Simeão toma Jesus nos braços e o apresenta ao mundo, ao mesmo tempo em que o define como “a salvação” que Deus quer oferecer “a todos os povos”, “luz para se revelar às nações e glória de Israel” (v. 28-32).  E Ana,ao reconhecer em Jesus a salvação anunciada por Deus, “falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (v. 38). Jesus é reconhecido como o Messias tão longamente esperado, aquele que é “luz das nações” e “glória de Israel”.Nas figuras de Ana e Simeão, o texto bíblico nos propõe também o exemplo de dois anciãos de olhos postos no futuro, capazes de perceber os sinais de Deus e de testemunhar a sua presença no meio dos homens.

 

Lançando um olhar para a primeira leitura deste domingo, encontramos de forma muito prática, algumas atitudes que os filhos devem ter para com os pais. O livro do Eclesiástico, de onde foi extraída a primeira leitura, é um livro sapiencial e que pretende apresentar uma reflexão sobre a arte de viver bem e ser feliz.  O texto apresenta uma série de indicações que os filhos devem observar nas relações com os seus pais.  Uma palavra sobressai no texto: o verbo “honrar”, que, por sua vez nos faz lembrar do quarto mandamento da Lei de Deus (cf. Ex 20,12). Honrar uma pessoa quer dizer “dar glória” a ela; é certificar a sua importância; “dar glória aos pais” é reconhecer que eles são a fonte, através da qual Deus nos dá a vida e isso deve conduzir à gratidão; e essa gratidão tem consequências a nível prático. Implica ampará-los na sua velhice e não os desprezar nem abandonar; implica assisti-los materialmente em suas necessidades.

 

É natural que, por trás destas indicações aos filhos, esteja também a preocupação com os valores tradicionais, valores que os mais antigos preservam e que passam aos jovens. Como recompensa desta atitude de “honrar” os pais o texto promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus.

 

Desde o princípio, o matrimônio e a família estão ordenados para o bem dos esposos e para a procriação e educação dos filhos. O amor dos esposos e a geração dos filhos estabelecem entre os membros de uma mesma família, relações pessoais e responsabilidades primordiais. Um homem e uma mulher, unidos em matrimônio, formam com os seus filhos, uma família.  Ao criar o homem e a mulher, Deus instituiu a família humana e dotou-a da sua constituição fundamental (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2201-2203).

 

O Concílio Vaticano II frisa que o “papel dos pais na educação dos filhos é de tal importância que é impossível substituí-los” (CONCÍLIO VATICANO II, DeclaraçãoGravissimum Educationis”, 3). O direito e o dever da educação dos filhos são primordiais e inalienáveis para os pais (cf. S. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, n. 36). Os pais devem olhar para os seus filhos como filhos de Deus e respeitá-los como pessoas humanas. Cabe a eles educar os seus filhos no cumprimento da lei de Deus, na medida em que eles próprios se mostrarem como testemunhas para os seus filhos. Testemunham esta responsabilidade pela edificação de um lar onde são regra a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado.

 

O homem e a mulher, criados à imagem de Deus, tornam-se no matrimônio “uma única carne” (Gn 2,24), isto é, uma comunhão de amor que gera vida nova. Por isto, Os cônjuges devem ser um para o outro e para os filhos testemunhas da fé e do amor de Cristo. A obediência aos pais cessa com a emancipação: mas não o respeito que sempre lhes é devido (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2117).O respeito favorece a harmonia de toda a vida familiar; engloba também as relações entre irmãos e irmãs. O respeito pelos pais deve impregnar todo o ambiente familiar.E São Paulo exorta: “Suportai-vos uns aos outros na caridade, com toda a humildade, mansidão e paciência” (Ef 4, 2).

 

Assim, são eles os primeiros educadores da fé, mediante a palavra e o exemplo.  Quando os filhos podem ver em seus pais o amor mútuo, plena honradez e sinceridade, compreendem que podem contar com os seus pais como verdadeiros amigos e companheiros.  É neste contexto que os pais podem educar com seu exemplo e a sua palavra na transmissão de valores básicos e permanentes, tantos humanos como cristãos, tais como a honradez, a fé, a oração, a verdade, a justiça, o amor e o serviço.

 

A família cristã transmite a fé, quando os pais ensinam os filhos a rezar e rezam com eles. (cf. S. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica “Familiaris consortio”, n. 60); quando os aproximam dos sacramentos e os vão introduzindo na vida da Igreja; quando todos se reúnem para ler a Sagrada Escritura, iluminando a vida familiar à luz da fé.

 

A solenidade da Sagrada Família é uma festa que incentiva a aprofundar o amor familiar, examinar a situação do próprio lar e buscar soluções que ajudem o pai, a mãe e os filhos a serem cada vez mais como a Família de Nazaré.  Família é o lugar onde deve reinar a unidade de todos, pois onde há amor, também há compreensão e perdão.  Cada família cristã deve ser um lugar privilegiado onde se experimenta cada dia a alegria do perdão. O perdão é a essência do amor, que sabe compreender o erro e pôr-lhe remédio. É no seio da família que as pessoas são educadas para o perdão, porque é neste ambiente familiar que deve haver a compreensão e o amparo, mesmo diante dos erros que se possam cometer.

 

Peçamos a intercessão da Sagrada Família de Nazaré por todas as famílias, a fim de que possam viver na fé, na concórdia, na ajuda recíproca; para que cumpram com dignidade e serenidade a missão que Deus lhes confiou. Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ