O Pe. Jorge Carlos Patrón Wong é secretário da Congregação para o Clero e esteve hoje em Fátima para falar ao clero português que está reunido no Simpósio do Clero que decorre até quinta-feira. Em conversa com a Família Cristã, explicou qual o trabalho da congregação, os desafios dos sacerdotes hoje em dia, a necessidade de equilíbrio na vida sacerdotal, mas não quis responder à questão de saber se será permitido a jovens homossexuais iniciarem formação no seminário. Quanto aos críticos do Papa, pessoas da Igreja que criticam o seu pastor, foi claro: «a qualidade moral das pessoas diz tudo», afirmou.

Pe. José Carlos

Que trabalho desenvolve a Congregação para o Clero?
Somos responsáveis pela formação inicial nos seminários e depois pela formação contínua dos sacerdotes. Esta foi uma novidade criada por Bento XVI um mês antes da sua renúncia histórica, em janeiro de 2013.
A formação e o acompanhamento dos sacerdotes por parte da congregação é para toda a vida. Isto é muito importante, porque o seminário começa a ser o momento mais breve de formação, e por isso tem de ser intenso, forte e específico. Mas há muita formação prévia ao seminário, que se tem na família, na paróquia, na experiência de movimentos eclesiais. O seminário pega nessas realidades humanas, intelectuais, espirituais e apostólicas e ajuda os jovens a discernir, a maturar essa decisão para começar a ser sacerdote depois da ordenação.
Isto permite que cada sacerdote possa renovar cada etapa da sua vida. Isto é uma certeza na vida cristã, não apenas na sacerdotal. Aprendemos a ser sacerdote todos os dias, porque cada etapa da sua vida traz os seus desafios. Mudamos como pessoas, e mudam as circunstâncias da nossa vida e do nosso serviço. Esta visão experiencial de acompanhamento está a dar bom resultado porque integra a vida como ela é, desde o campo intelectual ao pastoral. Somos transformados, e se não estamos conscientes desta transformação, em caminho de Cristo sacerdote, então corremos o risco de haver algum desvio. Isto é a realidade humana, que se nota na vida matrimonial também.

Os sacerdotes são formados para uma unidade à volta do Papa. Mas ultimamente muitos têm sido os que caminham em sentido contrário. Como é que isto pode afetar os jovens sacerdotes?
A realidade da Igreja universal é muito rica, complexa e, como numa grande família, somos filhos de Deus, todos consagrados. As diferenças sãs são muito boas, porque enriquecem a Igreja e dão-lhe perspetivas culturais, concretas da vida, tudo em torno da mesma fé no Vigário de Cristo.
O que temos de garantir é que todos os sacerdotes oferecem a sua vida em plena liberdade de consciência. Hoje na Igreja não existe nenhum tema tabu, e isto dá-nos muita força.

Mas como se equilibra o balanço entre ter opiniões e manter o dever de obediência?
O Evangelho dá-nos essa unidade. No final, o que interessa é a vida das pessoas, isto é muito importante. Por isso, o nosso caminho é seguir a Jesus Cristo. Mais que palavras ou teologias, é a vida da pessoa. Uma pessoa que vive como Jesus, seja padre, bispo ou leigo, isso é que é importante. Tudo o resto são questões externas.

Mas não é uma questão externa ter um cardeal a pedir ao Papa que renuncie por não estar a cumprir com o legado de Pedro…
Na maior parte da Igreja, estamos a procurar seguir a Jesus. O Papa é o vigário de Jesus. A qualidade moral das pessoas diz tudo. No mundo da liberdade, tudo pode ser questionado, mas, como dizia Paulo VI, o que convence é o testemunho de vida.

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As questões da sexualidade sempre foram tabu na formação dos sacerdotes, nomeadamente a da homossexualidade. Houve mudanças nesse sentido com estas novas indicações?
Há duas realidades. Desde os anos 60, vivemos um liberalismo sexual, um uso da sexualidade para fins que não são humanos. Hoje, a realidade é que isto nos trouxe desvios e feridas muito profundas da humanidade. Um trabalho de acompanhamento da Igreja que temos de fazer todos é que a nossa sexualidade seja humana, e a partir da humanidade que seja cristã. É um caminho que temos de fazer, e temos de nos formar permanentemente nisto. Como integrar a nossa sexualidade na nossa humanidade e na nossa fé? Bom, nisto Deus é muito respeitoso, por isso o caminho de acompanhamento personalizado que a pessoa faz com Jesus, em total sinceridade e verdade. Quando uma pessoa é acompanhada, sabe que os temas são tratados com todo o respeito para com essa pessoa. É um caminho pessoal que fazemos. A nível comunitário procuramos compreender, conhecer e proteger, porque o mundo atual, por causa de muitos interesses, usa e manipula a sexualidade para ferir o coração humano. A utilização do sexo em elementos que passaram de abuso a enfermidade, perversão… é impressionante os interesses económicos que estão por trás, e o quão expostos estamos sujeitos em todos os meios.

E como estão os seminários a preparar os jovens para isto?
No acompanhamento da fé, porque os jovens têm fé, há muitas realidades humanas que têm de ser iluminadas pela fé. Uma delas é a sexualidade, e hoje temos de reconhecer que todos temos feridas e debilidades neste campo. Em todo o mundo, com a colaboração de todos os formadores, tratamos todos de ajudar, com as competências humanas, psicológicas, pastorais, tudo está incluído nos novos programas de acompanhamento dos seminaristas, e dá gosto ver como estão a ser implementados nos diferentes países, porque todos colaboram.

Como se deve abordar um jovem homossexual que pretenda ser sacerdote?
Antes do seminário, há um caminho prévio de pastoral juvenil e vocacional que deve ser feito.

Sim, mas se aparecer um jovem homossexual pode ou não iniciar o seu caminho no seminário?
Creio que fazer a pergunta assim é reduzir o discernimento vocacional, porque não posso dizer que vem de tal cultura… o discernimento vocacional diz respeito ao todo da pessoa, pelo que ligar apenas um tema a isso, não posso responder…

Mas é um tema que é abordado na formação?
Sim, aborda-se pessoalmente.

E as pessoas nessa condição podem continuar a sua formação?
O que se pede é a maturidade humana e cristã. O que estamos a falar, no que diz respeito à sexualidade, é integrar dentro da humanidade e da vida cristã.

Mas se estiver tudo bem integrado, não interessa se o sacerdote é homossexual ou heterossexual, pode desempenhar o seu ministério, é o que me está a dizer?
O requisito para ser sacerdote é viver a vida cristã e configurar o seu coração a Cristo Bom Pastor.

Não importa a sua orientação?
Este é um tema que podem discutir outros, há muitas teorias e visões.

Mas a sua Congregação é a responsável pela formação dos sacerdotes, é importante conhecer a vossa opinião…
Por isso é que estamos a falar do fundamento do discernimento, do testemunho da pessoa.

Quais são os principais desafios que se colocam aos jovens sacerdotes?
Hoje é belo ser sacerdote, porque no mundo secularizado há uma sede de Deus, e o grande desafio é ir aí, onde há muto sofrimento. Hoje, a Igreja é uma igreja de misericórdia, que vai curar feridas. Por isso, o sacerdote tem de ser um homem de bem, e isto é uma grande novidade num mundo onde as relações interpessoais estão cheios de interesses obscuros. Um homem que faça o bem, que seja presença do amor de Jesus, tem um campo imenso de ação. Todo o contacto pessoal do sacerdote transmite a Deus. O sacerdote de hoje é isso, uma presença de Deus no mundo, não é um ministro de culto. Tem um papel importante a nível de oração litúrgica, e entra em todos os campos onde a presença de Deus é necessária. Hoje o sacerdote tem de ser um homem profundamente de Deus e profundamente social, ter uma relação profunda com Deus e com todos, tem de comunicar o bem e o amor que Deus quer para cada pessoa. Hoje, em muitos lugares, os sacerdotes que estão dispostos a ir ao encontro das pessoas têm sempre muito trabalho. O desafio do sacerdote é ser isso 24h por dia, 7 dias por semana. Este é o melhor tempo para se ser sacerdote. Há um mercado imenso, e é por isso que digo que somos os únicos seres humanos que não correm risco de viver no desemprego. É a única universidade onde já estão empregados antes de iniciarem o curso. Quem é chamado ao sacerdócio pode viver plenamente como sacerdote. O desafio é como nos entregarmos ao mundo sem sermos mundanos. O que pede o Papa é atualizar hoje o que o Concílio Vaticano II nos pediu.

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Como é que um sacerdote deve equilibrar na sua vida a necessidade de formação académica, teórica, e por outro lado a ação pastoral?
Não são apenas essas duas áreas, há outros elementos muito fortes. O equilíbrio está em ser um ser relacional. A sua relação com Jesus Cristo, que é interpessoal, e a sua relação interpessoal com os demais. É impossível uma relação interpessoal rica sem uma relação com Jesus. Eu não conheço nenhuma pessoa que estude e que a relação com Cristo e com as outras pessoas não lhe enriqueça o estudo para precisamente crescer nas suas relações. Estamos a falar de relações, não de ideias. Quem se refugia no seu intelectual está excelente para Kant, mas hoje… é muito importante que quando entramos na relação com Deus e com as pessoas, perceba que tem de estudar, aprender, e tem de perceber que o pastor aprende todos os dias a dialogar com as pessoas. Há um elemento que aparece na formação dos sacerdotes, que é ser discípulo missionário. Discípulo significa alguém que está a aprender. Eu venho a Fátima e aprendo a cultura, a língua, a comida… aprendo, e sou um aluno aqui, mas ao mesmo tempo venho aqui ensinar. Este binómio dá equilíbrio, tenho de aprender pelos estudos, mas tenho de entregar algo. Quem não vive isto todos os dias, fica desequilibrado. Mas se viveres, não há um dia que se repita, não há uma lição já vista. A vida é como uma aventura.

Muitos dos jovens sacerdotes têm uma preocupação grande e excessiva com o tradicionalismo, os paramentos, a missa antiga… é uma moda, é uma preocupação vossa?
Com os jovens, há que querer aprender com eles e ao mesmo tempo partilhar com eles. Na história da Igreja, vem uma geração e pede o contrário do que a geração anterior teve. Dou-te um exemplo: pode vir uma geração de seminaristas mais desportivos, e pedem que no seminário se instale uma mesa de ping-pong na sala comum. Vem a geração seguinte e a mesa tem de ser arrumada, porque ninguém joga. E eu digo aos formadores “guardem-na, porque virá outra geração que a irá pedir de novo” (risos). Vamos receber as novas gerações e fazer delas nossas irmãs, simplesmente. Cada geração viveu uma experiência, e de acordo com essa experiência tem uma reação. Uma geração que viveu tudo muito fechado pede abertura, mas uma geração que não vê terra firme vai pedir o contrário. Há que perceber, porque os que virão depois terão outras preocupações. É um ciclo na história da Igreja, que se repete. O importante é saber como viver esse desafio, porque o importante é termos sacerdotes e seminaristas, que querem responder a Cristo e à Igreja, no seu modo próprio.

Entrevista publicada originalmente no site familiacrista.paulus.pt . Realizada por Ricardo Perna. Fotos: Ricardo Perna