Lc 2,16-21

Meus caros irmãos e irmãs,

Iniciamos um novo ano e a Igreja nos convida a confiá-lo à celeste proteção de Nossa Senhora, que hoje a liturgia nos faz invocar com o seu título mais antigo e importante, o de Mãe de Deus.  Ainda envolvidos pelo clima espiritual do Natal, no qual contemplamos o mistério do nascimento de Cristo, celebramos, com estes mesmos sentimentos, a Virgem Maria.

O dogma que declara verdade de fé que Maria é Mãe de Deus foi proclamado pelo Concílio de Éfeso, no ano 431. Maria recebeu o nome de “Theotokos”, palavra grega que diz exatamente “Mãe de Deus”.

Para este dia a Liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura a solene bênção que os sacerdotes pronunciavam sobre os Israelitas nas grandes festas religiosas, marcada precisamente pelo nome do Senhor, repetido três vezes, como que para exprimir a plenitude e a força que deriva desta invocação: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26).

Este texto da bênção litúrgica, de fato, evoca a riqueza de graça e de paz que Deus concede ao homem. Trata-se de uma bênção dada por Deus através de Moisés, a Aarão e aos seus filhos, ou seja, aos sacerdotes do povo de Israel. É um tríplice voto cheio de luz que brota da repetição do nome de Deus e da imagem de seu rosto. Cada repetição do santo nome de Deus está inserido dois verbos que indicam uma ação do Senhor em favor de cada ser humano. A paz é, portanto, o ponto culminante dessas seis ações em prol do homem, a quem Deus dirige o esplendor da sua face. Esta bênção evoca a riqueza de graça e de paz que o Criador concede a cada um de nós, sinal da Sua benevolência para conosco.

A palavra bíblica “shalom”, que normalmente traduzimos por “paz”, indica um conjunto de bens que Cristo Salvador, o Messias anunciado pelos profetas, trouxe para cada um de nós. Por isso, reconhecemos Nele o Príncipe da paz. Ele se fez homem e nasceu numa gruta em Belém para trazer a sua paz aos homens de boa vontade, aos que o acolhem com fé e amor.

Neste primeiro dia do ano pedimos ao Senhor que nos abençoe e nos conceda a paz. Todos nós desejamos viver em paz, mas a paz verdadeira, a que é anunciada pelos anjos na noite de Natal, é antes de tudo, dom divino que se deve implorar constantemente e, ao mesmo tempo, compromisso que se deve levar em frente com paciência e perseverança.

O texto evangélico narra o nascimento de Jesus e as circunstâncias que o acompanhara.  Neste contexto está o anúncio do anjo aos pastores daquela região e, ao mesmo tempo, indica a eles os sinais para que possam reconhecer a criança.  Enfim, os pastores constatam a realidade do anúncio evangélico. Eles fazem a experiência do encontro com Deus na pessoa um “recém-nascido deitado na manjedoura” (Lc 2.16). É justamente desse menino que se irradia uma nova luz que brilha na escuridão da noite. Agora, é Dele que nos vem a bênção.

E os pastores passam a ser os anunciadores da boa nova anunciada pelo anjo (v. 17), e esta novidade da mensagem dos pastores enche os ouvintes de admiração (v. 18).  Esses pastores, considerados impuros e de reputação duvidosa, são os primeiros a propagar o nascimento do Salvador.

A passagem do Evangelho termina com uma menção à circuncisão de Jesus. Como de fato, Maria, como qualquer mãe judia, leva seu filho até o templo para que se cumpra a lei da circuncisão.  Conforme a Lei de Moisés, oito dias após o nascimento, o menino devia ser circuncidado, e nesse momento lhe era dado o nome. O próprio Deus, através de seu Anjo, dissera a Maria e também a José, que o nome a ser dado para a criança era “Jesus” (cf. Mt 1,21; Lc 1,31). Aquele nome que Deus já tinha estabelecido antes mesmo que o menino fosse concebido, lhe é dado oficialmente no momento da circuncisão. E isto marca definitivamente a identidade de Maria: ela é a mãe de Jesus, ou seja, a mãe do Salvador.

O nome Jesus, no hebraico, significa “Deus salva”. Jesus é o Verbo de Deus, o Filho de Deus, por isso a Igreja deu a Maria o título de “Theotokos”, ou seja, Mãe de Deus, porque Jesus Cristo é Deus. Certa vez, disse Filipe a Jesus: “Mostra-nos o Pai, isso nos basta” (Jo 14,8). Ao que Jesus lhe respondeu: “Há tanto tempo estou convosco Filipe e não me conheces?”. E o Senhor logo acrescentou: “Quem me vê, vê o Pai”  (Jo 14,9).

E o Evangelho acrescenta também que Maria “conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19). Como Ela, também a Igreja conserva e medita a Palavra de Deus, confrontando-a com as diversas e mutáveis situações que encontra ao longo do seu caminho.  O título de “Mãe de Deus”, a que hoje a liturgia dá relevo, ressalta a missão única da Virgem Santa na história da salvação: missão que está na base do culto e da devoção que o povo cristão lhe reserva.

Maria deu a vida terrena ao Filho de Deus, continua a oferecer aos homens a vida divina, que é o próprio Jesus. Por esta razão, Maria é considerada mãe de todos os homens que nascem para a Graça e ao mesmo tempo é invocada como a Mãe da Igreja.  Nas bodas de Caná, Maria pronuncia uma frase que pode ser considerada a solene ordem do seu coração para os seus filhos: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,1-11).  Este mandato de Maria aos serventes em Caná da Galileia vale para todos os momentos da nossa vida cristã.

É no nome de Maria, Mãe de Deus e dos homens, que desde o dia 1º de Janeiro de 1968 se celebra em todo o mundo o Dia Mundial da Paz.  Ao olharmos Cristo, vindo sobre a terra para nos dar a sua paz, nós celebramos no primeiro dia do ano o “Dia Mundial da Paz”.

Que a Virgem de Nazaré, que hoje veneramos com o título de Mãe de Deus, nos ajude a contemplar a face de Jesus, Príncipe da Paz (cf. Is 9,5). Que ela nos acompanhe e nos proteja ao longo deste ano.  E, com a sua poderosa intercessão, possamos progredir no caminho do bem, da paz e da concórdia. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ