Não vos deixarei órfãos

 

Jo 14,15-21

Caros irmãos e irmãs,

 

O Evangelho deste sexto domingo do tempo pascal nos mostra que Jesus garante aos seus discípulos: “Não vos deixarei órfãos” (v.18) e promete o “Paráclito”; que conduzirá a comunidade cristã em direção à verdade; e a levará a uma comunhão cada vez mais íntima com o Pai. Estas palavras de Jesus soam como a um “testamento final”: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os seus discípulos vão continuar no mundo. Jesus fala a eles do caminho que percorreu e que ainda deverá percorrer, até à consumação da sua missão e convida os discípulos a seguir o mesmo caminho de entrega a Deus e de amor radical para com os irmãos.

E Jesus assegura aos seus discípulos que vai estar presente ao lado deles, dando-lhes a coragem para prosseguir a missão a eles confiada.   É neste contexto que Jesus fala no envio do “Paráclito” que estará sempre com os discípulos (v. 16). A palavra grega “paráklêtos”, utilizada pelo evangelista São João, pertence ao vocabulário jurídico e designa, nesse contexto, aquele que ajuda ou defende o acusado. Pode, portanto, traduzir-se como “advogado”, “auxiliar”, “defensor” e também como “consolador”.

No Antigo Testamento, Deus é o grande consolador de seu povo e São Paulo assim o identifica: “Deus da consolação” (Rm 15, 4). O Espírito Santo, sendo aquele que continua a obra de Cristo, não podia deixar de definir-se, também Ele, como “o Consolador que estará convosco para sempre” (v. 16), como Jesus o apresenta.

O termo Paráclito significa ainda “intercessor”, exprime a ideia de uma assistência dada aos fiéis, como a de um advogado que encoraja seus clientes e defende suas causas.  Os discípulos, com isto, não seriam deixados à própria sorte, numa espécie de perigosa orfandade. Eles teriam sempre a quem recorrer, pois o Espírito Santo estaria continuamente com eles.

O Espírito Santo desempenhará, neste contexto, um duplo papel: em termos internos, conservará a memória da pessoa e dos ensinamentos de Jesus, ajudando os discípulos a interpretar esses ensinamentos à luz dos novos desafios; por outro lado, dará segurança aos discípulos, irá guiá-los e defendê-los quando eles enfrentarem a oposição e a hostilidade do mundo. Nas mais diversas situações é o Espírito Santo que conduzirá essa comunidade em marcha pela história, ao encontro da verdade, da liberdade plena, da vida definitiva.

No Evangelho o termo “Paráclito” é também apresentado como o “Espírito da Verdade” (v. 17).  A comunidade cristã poderia correr o risco de ser levada pelo espírito da mentira.  Por isso, precisava da presença constante do Espírito da Verdade para que todos os discípulos de Jesus pudessem continuar no bom caminho.  É o Espírito Santo que os conduzirá em direção à verdade e à vida.

Enquanto esteve com os discípulos, Jesus os instruiu e os defendeu; mas, após a sua ascensão, será o Espírito Santo que ensinará e cuidará da comunidade de Jesus.  A sua ação se processa no interior da pessoa para ensiná-los a verdade pura e levá-los ao ensinamento de Cristo, a verdade total e dirigi-los, com seus dons, no caminho da verdade e da santidade.

A palavra “verdade” é um dos eixos sobre os quais caminhou a história da salvação no Antigo Testamento.  E, no Novo, o próprio Jesus diz de si mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a vida” (Jo 14,6).  A Verdade também é uma contraposição ao erro.  A morte de Jesus, de certa maneira, era o fim de um mundo cheio de falsidades e erros, e a vitória da verdade se concretiza no único Deus e Redentor.  O Espírito Santo paráclito ajudaria aos apóstolos a compreender esse fato novo.

Em muitos momentos a humanidade procurou a verdade.  Foram muitos os que, como Pilatos, se perguntaram: “O que é a verdade?” (Jo 18,38).  E Jesus se apresenta como a Verdade e diz que veio ao mundo para dar testemunho da Verdade (Jo 18,37). Ele também promete o Espírito Santo que conduzirá os apóstolos para a Verdade (Jo 16,13).  Esta é a missão da Igreja e a nossa missão: defender a Verdade, e torná-la vitoriosa num mundo tantas vezes dominado pelo erro, o que o torna incapaz de conhecer a Verdade, pois, para conhecê-la, pressupõe os olhos da fé.

Depois de garantir aos discípulos o envio do “Paráclito”, Jesus reafirma que não os deixará “órfãos” no mundo. A palavra utilizada “órfãos” é bem significativa.  No Antigo Testamento, o “órfão” é o protótipo do desvalido, do desamparado e vítima de todas as injustiças. Jesus é claro: os seus discípulos não vão ficar indefesos, pois Ele vai estar ao lado deles.  E garante aos discípulos que mesmo indo para o Pai, irá encontrar forma de continuar presente e de acompanhar, passo a passo, a caminhada dos seus discípulos.

O Espírito Santo é quem inspira e dá vigor à pregação dos Apóstolos, que assumiram a missão de proclamar a Boa Nova.  O Paráclito dá a estes mensageiros a valentia, a perseverança, a imaginação e a linguagem apropriada para comunicar a todos o evento tão significativo e base da nossa fé: a ressurreição de Jesus Cristo.  Os apóstolos são os enviados pelo Espírito Santo, para, no mundo, serem os instrumentos utilizados para proclamar  o mundo a glória do plano de Deus.

Em cada celebração Eucarística nossa presença é a resposta à nossa fé em Deus.  Ao estarmos reunidos sentimos de maneira especial a presença do Espírito da Verdade entre nós.  Ele é o nosso único intercessor.  Toda Eucaristia nos reúne para compartilhar na comunidade o pão e o vinho, o Corpo e Sangue de Cristo.  Jesus uma vez mais se se doa a cada um de nós para darmos testemunho de seu amor aonde quer que estejamos.  Assim, nutridos com seu corpo e sangue seguimos adiante em nosso discipulado pedindo que cada vez mais o Espírito da Verdade seja o centro de nosso existir e de nosso atuar.

Também hoje a vocação da Igreja é a evangelização através dos discípulos de Jesus Cristo, onde, pelo Batismo, somos assim inseridos, fazendo parte da grande família de Deus. O Batismo abre o nosso coração para a ação do Espírito Santo, e quando chegamos a uma idade madura, recebemos ainda o sacramento da Confirmação, também conhecido como Crisma e, com isto, somos vinculados mais perfeitamente à Igreja e somos chamados a difundir e a defender a fé com a nossa palavra e com a nossa conduta, como verdadeiras testemunhas de Cristo. Mediante este sacramento nosso compromisso na Igreja torna-se ainda maior. Somos chamados a proclamar o Evangelho, porque o Espírito Santo também está conosco e nos proverá todo o necessário para esta missão.

E como discípulos de Cristo, saibamos imitar os apóstolos, os santos e, sobretudo, a Virgem Maria, aquela que, por meio do Espírito Santo, recebeu a mensagem do anjo Gabriel e aceitou a missão de ser a mãe do Salvador.  Que ela interceda por todos nós, para que, participando regularmente na Eucaristia, nos tornemos também testemunhas da Verdade e do bem em todos os lugares, e que o anúncio do Evangelho atinja o coração de muitas pessoas e multipliquem e alarguem no mundo os espaços nos quais os homens reencontrem a alegria de viver como filhos de Deus.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ