Eu sou o pão da vida

Jo 6,41-51

Meus caros irmãos e irmãs,

Uma vez mais nos deparamos com a preocupação de Deus em oferecer a todos o “pão” da vida plena e definitiva.  O Evangelho sequencia este tema já abordado nos domingos anteriores.  Jesus mostra que o povo no deserto comeu o maná e todos morreram (v. 50).  O pão vivo, ao contrário, dá a vida eterna.  Quem comer dele não morrerá (v. 50).  O discurso é concluído no v. 51 com a revelação de Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (v. 51).  O ponto culminante da revelação de Jesus está nas palavras que Ele acrescenta: “E o pão que eu darei é a minha carne pela vida do mundo” (v. 51).

Esta leitura do Evangelho de São João, que nos acompanha nestes domingos, nos fez refletir inicialmente sobre a multiplicação milagrosa, em que cinco pães de cevada e dois peixes foram suficientes para dar de comer a uma multidão de cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças. Jesus dirige o convite aos que havia saciado, a esforçarem-se em busca de um alimento que permanece para a vida eterna.  Com isto, mostra o significado profundo do prodígio realizado: saciando de modo milagroso a fome física, prepara a multidão que o seguia para aceitar o anúncio segundo o qual Ele é apresentado como o pão que desceu do céu (cf. Jo 6,41), que sacia, de modo definitivo, a fome de todos.

O povo judeu, durante o longo caminho no deserto, rumo à terra prometida, experimentou um pão descido do céu, o maná. Mas aqui Jesus fala de si mesmo, como um verdadeiro pão que desceu do céu, capaz de manter em vida não por um momento ou durante um trecho do caminho, mas para sempre. Ele é o alimento que dá a vida eterna, porque é o Filho unigênito de Deus, que veio ao mundo para doar à humanidade a vida em plenitude e introduzi-la na vida com Deus.

No pensamento judaico era claro que o verdadeiro pão do céu, que alimentava Israel, era a Lei, a palavra de Deus. O povo de Israel reconhecia com clareza que a Torá era o dom fundamental e duradouro de Moisés, o elemento singular que o distinguia em relação aos outros povos e que consistia em conhecer a vontade de Deus e o caminho reto da vida. Jesus, agora, manifestou-se como o pão do céu, pelo qual todos podem fazer da vontade de Deus o seu alimento (cf. Jo 4, 34), que orienta e maném a sua existência.

Mas o povo de Israel duvidou da divindade de Jesus e não o acolheu como o pão descido do céu para dar vida à humanidade.  Houve uma recusa em aceitar que Deus encontre sempre novas formas de vir ao encontro de todos para oferecer vida em abundância.  Somente quem é atraído por Deus Pai, quem o ouve e se deixa instruir por Ele pode acreditar em Jesus.  Faltou uma abertura para acolher o sentido profundo da mensagem apresentada por Jesus.  Diziam: “Não é este Jesus o filho de José, aquele de quem conhecemos o pai e a mãe?  Como é que ele diz agora: “Eu desci do céu?” (Jo 6,42).  Esses adversários de Jesus se mostram céticos, chegam  a murmurar, como fez o povo conduzido por Moisés no deserto.

Jesus não se envolve com a murmuração dos judeus sobre a sua origem, mas responde-lhes indiretamente.  Ninguém pode chegar a Jesus sem a atração do Pai (v. 44).  Só aquele que o Pai atrair, pode vir a Jesus.  Contudo, o único caminho para o Pai é o Filho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).   Todo homem deve livremente abrir-se ao chamado de Deus.  Deixar que a atração divina opere nele.  Na verdade, só a fé nos possibilita crer em Jesus como o Pão da vida, para, consequentemente, termos a vida eterna.

O dom da fé é um dom gratuito de Deus; uma virtude sobrenatural.  É obra da graça de Deus que auxilia a nossa vontade.  A fé nos leva a crer no que disse Jesus: “Eu sou o pão da vida”.  O sacramento da Eucaristia é a síntese desta verdade, onde Jesus dá-se a si mesmo; entrega o seu corpo e derrama o seu sangue.  Desse modo dá a totalidade da sua própria vida, manifestando a fonte originária desse amor: ele é o Filho eterno que o Pai entregou por nós.

Outrora, o primeiro anúncio da Eucaristia dividiu os discípulos, tal como o anúncio da paixão os escandalizou: “Estas palavras são insuportáveis! Quem as pode escutar?” (Jo 6, 60). Eucaristia e a cruz são pedras de tropeço. É o mesmo mistério e não cessa de ser ocasião de divisão. Jesus já havia questionado também aos Apóstolos: “Também vós quereis ir embora?” (Jo 6, 67). Esta pergunta do Senhor ecoa através dos tempos, como convite do seu amor a descobrir que só Ele tem “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68) e que acolher na fé o dom da Eucaristia é acolher o próprio Cristo (cf. CIgC, nº 1336).

Receber a Eucaristia na comunhão traz consigo, como fruto principal, a união íntima com Cristo Jesus. De fato, Ele mesmo disse: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). A vida em Cristo tem o seu fundamento no banquete eucarístico: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por mim” (Jo 6,57).

E texto da carta de São Paulo escrita aos cristãos de Éfeso, que a liturgia da palavra nos apresenta, como segunda leitura para este domingo, faz uma exortação aos batizados, para que vivam de forma coerente com o seu Batismo e com o seu compromisso com Cristo.  São Paulo lembra que pelo Batismo, passamos a ser morada do Espírito e recebemos um sinal ou um selo que prova a nossa pertença a Deus.  Este selo ou este sinal nos remete ao tempo em que os escravos recebiam na pele uma marca com ferro em brasa, como se faz com o gado.  O objetivo desta marca é identificar aqueles que pertenciam para sempre a um determinado senhor.  O apóstolo usa esta comparação para explicar a condição de cada batizado.  Esta identificação, entretanto, não está gravada a fogo, mas passa a ser impressa pelo Espírito Santo, para mostrar a pertença a Deus.

É o selo com que o Espírito Santo nos marcou “para o dia da redenção” (Ef 4, 30). O Batismo é, efetivamente, o selo da vida eterna. E todo fiel que tiver “guardado o selo” até o fim, quer dizer, que tiver permanecido fiel às exigências do seu Batismo, estará sempre “marcado pelo sinal da fé”, na expectativa da visão bem-aventurada de Deus. Por isto, como filhos de Deus, devemos evitar os vícios e praticar as virtudes, como homens novos, implica, na perspectiva do Apóstolo São Paulo, assumir uma nova atitude de comportamento, eliminando as irritações, os rancores, os insultos, as violências, as invejas… Vícios que devem ser eliminados. Estes vícios são próprios de um “homem velho” e não podem ter espaço na vida de um homem novo, de um “filho de Deus”.  São Paulo ainda frisa como deve ser o comportamento deste homem novo: cordial, afável e, sobretudo, inspirado em sentimentos de misericórdia, que é a primeira das características de Deus.

Ainda segundo o apóstolo São Paulo, pelo Batismo o crente comunga na morte de Cristo; é sepultado e ressuscita com Ele: “Todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte, para que, assim como Cristo que ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6, 3-4).

Que possamos viver todos os dias o nosso batismo e direcionar nossos passos ao encontro com Jesus, a fim de que a nossa amizade com Ele seja cada vez mais intensa, para que possamos estar em plena comunhão de amor com Ele, o pão descido do céu, de maneira a sermos por Ele renovados no íntimo de nós mesmos.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB