A multiplicação dos pães

Jo 6,1-15

Meus caros irmãos e irmãs,

A partir deste domingo, a liturgia interrompe a leitura do Evangelho de São Marcos e intercala um longo trecho do Evangelho de São João, que contém a narrativa da multiplicação dos pães e o discurso eucarístico de Jesus na sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6).  Tudo isto tem seu motivo prático: o Evangelho de São Marcos é o mais breve de todos e não chega a preencher todo o ano litúrgico e, por isso, é integrado com o Evangelho de São João, que não é lido no ciclo dos anos litúrgicos.  O importante é que, durante quatro domingos teremos a oportunidade de desenvolver uma catequese sobre o Sacramento da Eucaristia.

Iniciemos a nossa reflexão tendo como referência o texto da primeira leitura que nos é proposto para este domingo (cf. 2Rs 4,42-44), em que nos é dito que um homem de Baal trouxe a Eliseu o pão das primícias: vinte pães de cevada e trigo novo que deviam ser apresentados diante do Senhor, a quem deveriam ser consagrados para depois serem revertidos em benefício do sacerdote (cf. Lv 23,20). Ao ser entregue a Eliseu, ele, no entanto, não conservou os dons para si, mas mandou reparti-los.  O servo do profeta não acreditava que os alimentos oferecidos chegassem para cem pessoas; no entanto, ainda sobraram. A descrição de uma milagrosa multiplicação de pães de cevada e de grãos de trigo sugere que, quando o homem é capaz de partilhar os dons recebidos de Deus, esses dons chegam para todos e ainda sobram.

No Evangelho o mesmo tema se repete. Jesus, o Deus que veio ao encontro dos homens, percebe a “fome” da multidão que o segue e propõe saciá-la. Aos discípulos, aqueles que vão continuar até ao fim dos tempos a mesma missão que o Pai lhe confiou, Jesus os convida a assumirem o dom da partilha, concretizada na distribuição do pão. A multidão que segue Jesus tem fome e não tem o que comer (vv. 5-6). Esta referência nos leva ao Livro do Êxodo quando, no deserto, o Povo que caminhava para a terra prometida sentiu fome (cf. Ex 16,4ss).

Ao procurar uma solução para saciar a fome dos que ouviam a sua Palavra, Jesus envolve os seus próprios discípulos e ouve a pergunta: “Onde haveremos de comprar pão para lhes dar de comer?” (v. 5).  O Evangelista São João nota que Jesus põe a questão aos discípulos, representados por Filipe, para os “experimentar” (v. 6).  Filipe constata a impossibilidade de resolver o problema, dentro do quadro econômico vigente: “Duzentos denários não bastariam para dar um pedaço a cada um” (v. 7).  O denário era uma moeda de prata da época romana e tinha o valor de uma dracma, o salário diário de um trabalhador no tempo de Jesus (cf. Mt 20,2.9.13). Então Deus respondeu à necessidade do Povo e lhe deu comida em abundância. Os discípulos raciocinam em termos financeiros, mas Jesus procura dar ênfase à partilha.

André, porém, apresenta uma solução: “Há aqui um menino, que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos” (v. 9). No entanto, o próprio Apóstolo André não está convicto dos resultados, quando completa: “Mas o que é isso para tantas pessoas?” A figura do “menino”, anônimo, é significativa: quer pela idade, quer pela condição, pois trata-se de alguém ainda frágil em sua estrutura física e também social.

Jesus ordena aos discípulos que façam sentar aquela multidão, em seguida ele tomou aqueles pães e peixes, deu graças ao Pai e distribuiu-os, como nos relata o Evangelho: “Tomou os pães e deu graças. Em seguida, distribuiu-os a quantos estavam sentados” (Jo 6,11). As palavras pronunciadas por Jesus sobre o pão, que é compartilhado, junto com a ação de graças, são paralelas às palavras da Última Ceia e evocam a Eucaristia, o Sacrifício de Cristo para a salvação do mundo. A palavra “Eucaristia” quer dizer “Ação de Graças” e é o grande encontro permanente do homem com Deus, em que ele mesmo se faz nosso alimento e se oferece a si próprio para nos transformar nele mesmo.

Os pães e os peixes foram sendo distribuídos fartamente, sinal da bondade de Deus, operada pelas mãos de Jesus.  A multidão fica admirada com o prodígio da multiplicação dos pães; mas o dom que Jesus oferece é a plenitude de vida para o homem faminto. Jesus sacia não só a fome material, mas aquela mais profunda, a fome do sentido da vida, a fome de Deus.

Na cena, a atitude do menino tem uma especial relevância. Diante da dificuldade de alimentar tantas pessoas, põe ele em comum o pouco de que dispõe: cinco pães e dois peixes (v.8). O milagre se realiza a partir de uma primeira partilha modesta daquilo que um simples menino possuía.

O final do relato também tem algo a nos dizer. Quando todos se saciaram, Jesus ordenou: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido” (v. 12-13).  O número doze era o número dos apóstolos e era o símbolo da universalidade dos bens de Deus.  A recomendação de Jesus para recolher os pedaços que sobraram indica que é aos Apóstolos e aos sacerdotes que Jesus incumbiu esta missão de conservar como o maior tesouro sobre a terra, a divina Eucaristia, e de levá-la aos doentes, por isto chamamos de reserva eucarística. E, quanto aos fiéis, devem conservar religiosamente os frutos e as graças da comunhão recebida.

Na Oração do Pai Nosso, em sua segunda parte, o próprio Senhor Jesus nos ensina a pedir: “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje”.  O Pai, que nos dá a vida, não pode deixar de nos dar o alimento necessário à vida.  Este pedido de pão que fazemos na Oração do Pai Nosso não pode ser isolado de uma frase dita por Jesus na parábola do Juízo Final: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35).  Mas, devemos também lembrar que “o homem não vive apenas de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca de Deus” (Dt 8,3; Mt 4,4).  Há também na terra não apenas a fome de pão, mas também a fome de ouvir a palavra de Deus (cf. Am 8,11).

Assim, devemos lembrar também da palavra de Deus a ser acolhida na fé, e do Corpo de Cristo a ser recebido na Eucaristia. A Eucaristia deveria ser também o nosso Pão quotidiano.  No milagre da multiplicação dos pães, quando o Senhor proferiu a bênção, partiu e distribuiu os pães através dos seus discípulos para alimentar a multidão, o que prefigura a superabundância deste único pão da sua Eucaristia.

Que a nossa oração ampare o compromisso comum para que nunca falte a ninguém o Pão do céu que dá vida eterna e o necessário para uma vida digna e se afirme a lógica da partilha e do amor. Que o Senhor nos faça redescobrir a importância de nos alimentarmos não só de pão, mas de verdade, de amor, de Cristo, do corpo de Cristo, participando fielmente e com grande consciência na Eucaristia, para estarmos cada vez mais intimamente unidos a ele.

Peçamos também ao Senhor que nos conceda ouvidos atentos de discípulos para acolher e transmitir a sua Palavra e que tenhamos sempre fome do verdadeiro Pão, que é a Eucaristia, e que ela seja vivificante para cada um de nós. A Virgem Maria nos acompanhe com a sua materna intercessão e venha em nosso auxílio para que o nosso coração esteja sempre aberto à compaixão pelo próximo e à partilha fraterna dos dons que possuímos.  Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ