O verdadeiro pão do céu !

Jo 6,24-35

Meus caros irmãos e irmãs,
As leituras deste domingo repetem, no essencial, a mensagem das leituras do último domingo.  Mais uma vez sentimos a preocupação de Deus em oferecer ao seu Povo, com solicitude e amor, o alimento que dá a vida.

A primeira leitura já nos mostra que Deus acompanha o seu povo rumo à terra prometida, concedendo a esse povo o alimento necessário à vida.  No Evangelho, Jesus se apresenta como o “pão” que desceu do céu para dar vida ao mundo. Aos que O seguem, Jesus pede que aceitem esse “pão”, isto é, que escutem as palavras que Ele diz, que as acolham e as coloquem em prática.

O episódio que o Evangelho nos apresenta ocorre na cidade de Cafarnaum, no “dia seguinte” ao relato da multiplicação dos pães e dos peixes. A multidão que tinha sido alimentada pelos pães e pelos peixes, ainda estava do “outro lado” do lago e ao notar que Jesus tinha regressado a Cafarnaum, dirigiu-se ao seu encontro. A multidão encontra Jesus na sinagoga e, confrontado com a multidão, profere Ele um discurso onde explica o sentido do gesto precedente que havia realizado: a multiplicação dos pães e dos peixes.

Jesus ensina à multidão que é preciso esforçar-se por conseguir, não só o alimento que mata a fome física, mas sobretudo o alimento que sacia a fome de vida. Ao preocupar-se apenas com o alimento material, esquecem o essencial: o alimento que dá a vida definitiva. Esse alimento que dá a vida eterna é o próprio Jesus que o traz (v. 27).

O caminho que percorremos nesta terra é sempre um caminho marcado pela procura da nossa realização, da nossa felicidade. Temos fome de vida, de amor, de paz, de esperança, de transcendência e procuramos, de muitos modos, saciar essa fome; mas continuamos sempre insatisfeitos, tropeçando nos nossos erros, em tentativas falhas de realização, em propostas que parecem sedutoras, mas que só geram escravidão e dependência.

Precisamos ter consciência de que só em Cristo Jesus podemos encontrar o “pão” que mata a nossa fome de vida. Ele é o “pão” enviado por Deus para dar a vida ao mundo”. É esta a questão central que o Evangelho deste domingo nos propõe. É em Jesus e através de Jesus que Deus sacia a fome e a sede da humanidade e oferece a vida em plenitude a todos.

Para termos acesso a esse “pão” que desce do céu para dar a vida ao mundo precisamos aderir a Jesus e escutar o seu chamamento, acolher a sua Palavra, assumir e interiorizar os seus valores, segui-lo. Trata-se de uma adesão que deve traduzir-se em obras concretas.  A nossa adesão a Jesus deve partir de uma profunda convicção de que só Ele é o “pão” que nos dá a vida.

A multidão parece não entender e pensa que Jesus pede a observância dos preceitos para poder obter a continuação desse milagre, e pergunta: “O que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” (v. 28). A resposta de Jesus é clara: “Esta é a obra de Deus: que creiais naquele que ele enviou” (v. 29).

 

O âmago da questão está na fundamental fé em Jesus. Não se trata aqui de seguir uma ideia, um projeto, mas de encontrar Jesus, de deixar se envolver totalmente por Ele e pelo seu Evangelho. Jesus convida a não parar no horizonte puramente humano, mas a abrir-se para o horizonte de Deus, para o horizonte da fé.

Jesus quer ajudar as pessoas a ir além da satisfação imediata das próprias necessidades materiais. Quer abrir para elas um horizonte de existência que não é simplesmente o das preocupações cotidianas do comer e do vestir. Jesus fala de uma comida que não perece, que é importante buscar e acolher. Ele afirma: “Trabalhem não pela comida que não dura, mas pela comida que permanece para a vida eterna” (v. 27).

Na segunda leitura continuamos a ler a Carta de São Paulo aos Efésios, onde o apóstolo convida a todos a viver na unidade do amor (cf. Ef 17,20-24) e exorta os cristãos a viverem de acordo com a sua condição de homens novos em Cristo.  Paulo usa duas expressões opostas para definir a realidade do homem antes e depois do encontro com Cristo. O homem que ainda não aderiu a Cristo é, para Paulo, o homem velho, cuja vida é marcada pela mediocridade, pela futilidade (v. 17), pela corrupção, pela escravidão aos “desejos enganadores” (v. 22). O homem que já encontrou Cristo e que aderiu à sua proposta é o homem novo, que vive na verdade (v. 21), na justiça e na santidade (v. 24). O Batismo é o momento decisivo da transformação do homem velho em homem novo. O próprio rito batismal de imersão na água significa o morrer para a vida de pecado e, ao mesmo tempo, indica o nascimento de um outro homem puro. Sugere a transformação para uma vida nova: a vida em Cristo.  Mas, diante das fraquezas e das tentações que podem surgir, a cada dia somos chamados a renovar esta adesão a Cristo, construindo a nossa existência de forma coerente com os compromissos assumidos no dia do nosso Batismo, por isso a necessidade de continuamente renovarmos a nossa adesão a Ele.

O homem novo é o homem continuamente atento às propostas de Deus, que aceita integrar a família de Deus, que não se conforma com a maldade, com a injustiça, com o erro, mas procura viver na verdade, no amor, na partilha, no serviço, na prática de obras boas, de misericórdia, de humildade, que dia a dia dá testemunho, com alegria e simplicidade, dos valores de Deus.

A adesão a Jesus implica o deixar de ser um homem velho e o passar a ser um homem novo. Aquele que aceita Jesus como o “pão” que dá a vida e adere a Ele, passa a ser uma outra pessoa. O encontro com Cristo deve significar uma mudança radical, um jeito completamente diferente de se situar face a Deus, face aos irmãos, face a si próprio e face ao mundo.

Ouvimos no Evangelho Jesus dizendo: “O meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu”.  A Eucaristia é, então, dom do Pai, um dom que prolonga o da encarnação: Deus tanto amou o mundo, que deu a nós na encarnação, e continua a dar na Eucaristia, o Seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16).  A Eucaristia vem, pois, do Pai.  Mas o mais importante é que a Eucaristia nos conduz ao Pai.  Quem se alimenta do pão que é Jesus, ou seja, quem nele crê, tem a vida eterna, porque predispõe a fazer sempre a vontade de Deus.

Que o Senhor Jesus nos ajude a viver sempre mais esta realidade. Nos dias carregados de preocupações e de problemas, mas também naqueles de descanso e relaxamento, o Senhor nos convida a não esquecer que, se é necessário preocuparmo-nos com o pão material e restaurar as forças, ainda mais fundamental é fazer crescer a relação com Ele, reforçar a nossa fé naquele que é o “pão da vida”, que enche o nosso desejo de verdade e de amor. Saibamos sustentar com o Pão da vida, que é o próprio Cristo, o nosso caminho de fé.  Assim seja.


D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB