Tu tens palavras de vida eterna. Jo 6,60-69

Caros irmãos e irmãs,

Nos últimos domingos a liturgia da Palavra nos proporcionou meditar sobre o discurso do “pão da vida”, pronunciado por Jesus na sinagoga de Cafarnaum, depois de ter dado de comer a milhares de pessoas com cinco pães e dois peixes (cf. Jo 6,1-15). O evangelista São João sublinha que a partir de então muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não andavam mais com ele (cf. Jo 6,66), porque não acreditaram nas palavras ditas por Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu, quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá eternamente” (Jo 6, 51.54).

O povo e os próprios discípulos ficaram escandalizados com as palavras do Senhor, a ponto de muitos, depois de o terem seguido até então, exclamarem: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (v. 60). Ao ver que muitos ficam desanimados e se retiram, Jesus se dirige aos doze Apóstolos, que neste momento parecem estar pensativos, e diz: “Vós também vos quereis ir embora?” (v. 67).  Pedro toma a palavra e responde em nome dos seus companheiros fiéis: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (v. 68s).

Os apóstolos são livres; de fato, alguns vão embora, mas outros ficam; ficam os doze Apóstolos que formarão a Igreja.  Eles ouvem os ensinamentos de Jesus, difíceis de aceitar e de pôr em prática, por esta razão, alguns abandonam o Cristo. A pergunta de Jesus feita outrora deve ressoar também hoje aos nossos ouvidos.  Saibamos responder como o Apóstolo Pedro: “Só tu tens palavras de vida eterna” (v.68).  Estas palavras de vida eterna podem ser encontradas também em cada celebração Eucarística, onde nos deparamos com a mesa da Palavra e a mesa do Pão: “A minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida” (Jo 6,55).

E também para os discípulos é inaceitável o que Jesus diz neste momento. Era e é para a nossa mentalidade, um sermão “duro”, que provava a fé (cf. Jo 6,60). Tratam-se de pessoas coerentes, pois deram-se conta de que os ensinamentos do Mestre são difíceis de ser seguidos e não sentem eles o impulso para segui-lo e, por isto, se afastam.  Jesus respeita a decisão e a liberdade de cada um. Ninguém está obrigado a segui-lo.  Não é fácil ser cristão autêntico e seguir o Cristo de verdade.

Muitos dos discípulos se afastaram.  O resultado do discurso de Jesus parece desanimador, mas mesmo diante desta reação dos seus ouvintes, Jesus não retira nenhuma das suas exigências.  Podemos imaginar como as palavras de Jesus eram difíceis também para Pedro, que em Cesareia de Filipe se tinha oposto à profecia da cruz. Contudo, quando Jesus perguntou aos doze: “Vós também vos quereis ir embora?” (v. 67), Pedro reagiu com o impulso do seu coração generoso, guiado pelo Espírito Santo. Em nome de todos respondeu com palavras imortais, que devem ser também as nossas: “Senhor, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna; nós cremos e conhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Jo 6, 66-69).

O termo “conhecemos”, presente no texto evangélico, expressa não um mero conhecimento teórico.  Ele deve ser compreendido, na dimensão semita de seu substrato hebraico da mentalidade do evangelista, como um conhecer em uma linha de experiência pessoal, ou seja, como um re-conhecer.  O Apóstolo Pedro ainda reconhece Jesus como o “Santo de Deus”. Esta expressão, com suas reminiscências veterotestamentárias, coloca a confissão de Pedro em uma linha de aceitação de Jesus como o Messias esperado pelo Antigo Testamento.

Saibamos também nós ficar com Cristo em cada Eucaristia e que seja ela o centro de nossa vida cristã e que a comunhão eucarística nos sacie a fome que sempre devemos ter do Pão Vivo que é o Cristo Senhor. A Igreja nos convida a santificar o domingo, sobretudo com a participação na Eucaristia e com um repouso permeado de alegria cristã e de fraternidade. Cada domingo somos chamados a relembrar a ressurreição do Senhor. Como de fato, a celebração dominical da Eucaristia do Senhor está no centro da vida da Igreja (cf. CIgC, n. 2177).

A riqueza de significado da Missa dominical para os membros do Corpo místico justifica plenamente a insistência do Magistério na importância de conservar e viver o Domingo, pois “A Eucaristia nutre e plasma a Igreja” (S. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica “Dies Domini”, n. 32).  E o Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica “Sacramentum caritatis”, nos lembra: “A fé cristã corre perigo quando se deixa de sentir o desejo de participar na celebração eucarística em que se faz memória da vitória pascal. A participação na assembleia litúrgica dominical, ao lado de todos os irmãos e irmãs com os quais se forma um só corpo em Jesus Cristo, é exigida pela consciência cristã. Perder o sentido do domingo como dia do Senhor que deve ser santificado é sintoma de uma perda do sentido autêntico da liberdade cristã, a liberdade dos filhos de Deus” (SC, n. 73).

Voltando ao texto evangélico, chama a nossa atenção um detalhe na frase do Apóstolo Pedro. Ao fazer a sua confissão de fé em nome dos outros Apóstolos: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (v. 68). Pedro não diz “para onde iremos?”, mas “para quem iremos?”. A pergunta fundamental é “quem”: ir para “quem”, “quem” seguir, “a quem” entregar a própria vida.

Sobre este trecho temos um significativo comentário de Santo Agostinho, que diz, numa das suas pregações sobre esta passagem do Evangelho de São João: “Vede como Pedro, por graça de Deus, por inspiração do Espírito Santo, compreendeu? Por que compreendeu? Porque acreditou. Tu tens palavras de vida eterna. Tu dás-nos a vida eterna, oferecendo-nos o teu corpo e o teu sangue. E nós acreditamos e conhecemos… O que acreditamos e o que conhecemos? Que Tu és o Cristo Filho de Deus, ou seja, que Tu és a própria vida eterna, e na carne e no sangue nos dás aquilo que Tu mesmo és” (S. AGOSTINHO, Comentário ao Evangelho de São João, 27, 9).

A partir desta interrogação de Pedro, compreendemos que a fidelidade a Deus é questão de fidelidade a uma pessoa, com a qual nos unimos para caminhar juntos pela mesma estrada. E esta pessoa é Jesus. Tudo o que temos no mundo não sacia a nossa fome de infinito. Precisamos de Jesus, de estar com ele, de alimentarmo-nos à sua mesa, com as suas palavras de vida eterna!

Todo o ser humano, mais cedo ou mais tarde, termina exclamando como Pedro: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (v. 68). Só Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, o Verbo eterno do Pai, só Ele é capaz de satisfazer as aspirações mais profundas do coração humano.

E neste domingo somos convidados a fazer juntos uma escolha, a repetir que queremos seguir Jesus, porque compreendemos que ele, e somente ele, tem para nós palavras de vida eterna.  Com Pedro, diante de Cristo, Pão da vida, também nós hoje queremos repetir: “Senhor, para quem havemos nós de ir? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).  Que o Senhor nos ajude para que nossos passos caminhem sempre em sua direção, pois só ele tem palavras de vida eterna e só ele é o caminho, a verdade e a vida. Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ