Tu tens palavras de vida eterna

Jo 6,61-70

Caros irmãos e irmãs,

Meditamos nos últimos domingos sobre o discurso do “pão da vida”, pronunciado por Jesus na sinagoga de Cafarnaum, depois de ter dado de comer a milhares de pessoas com cinco pães e dois peixes. Hoje, o Evangelho apresenta a reação dos discípulos àquele discurso, uma reação que o próprio Cristo, conscientemente, provocou. O evangelista João, que estava presente com os outros apóstolos, sublinha que a partir de então muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não andavam mais com Ele (cf. Jo 6,66), porque não acreditaram nas palavras ditas por Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu, quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá eternamente” (Jo 6, 51.54). Esta revelação era para eles incompreensível, porque a entendiam em sentido material, mas estas palavras estavam preanunciando o mistério pascal do próprio Cristo Jesus, no qual Ele teria oferecido a si mesmo pela salvação do mundo: a sua presença na Sagrada Eucaristia.

São João descreve ainda a reação do povo e dos próprios discípulos, escandalizados com as palavras do Senhor, a ponto de muitos, depois de o terem seguido até então, exclamarem: “Duras são estas palavras! Quem pode escutá-las?” (v. 60). A partir de então “muitos dos seus discípulos retiraram-se e já não andavam mais com Ele” (v. 66).

Aqueles discípulos vão embora, ainda que Judas continue no grupo, mas cada vez mais receoso e afastado espiritualmente. Ao ver que vão embora, Jesus se dirige aos Doze, que estão pensativos: “Também vós quereis deixar-me sozinho?” Pedro toma a palavra e responde em nome dos companheiros fiéis, com palavras que expressarão a fé da Igreja: “Senhor, a quem iremos? só Tu tens palavras de vida eterna, e nós cremos que Tu és o santo e o enviado de Deus” (Jo 6,68).

Estes discípulos que permaneceram com Jesus eram homens simples como pescadores e publicanos, pessoas que viviam à margem da lei e da religião hebraica. Chegou o momento em que também a eles se deparou a dramática alternativa: “Escolhei: quereis ficar comigo ou ir-vos?”  São eles livres; de fato alguns se vão e outros ficam, ficam os Doze que formarão a Igreja, mas ficam não mais como antes, sem empenho; agora sabem que escolheram a Ele para a vida e para a morte: “Tu tens palavras da vida eterna.  E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus!” (Jo 6,68s).

Também nós, como o povo eleito e como os primeiros discípulos de Jesus, fomos escolhidos, admitidos na família de Deus pelo batismo, admitidos à Sua própria mesa na Eucaristia. Na linguagem do Novo Testamento, “escolhidos” é o termo habitual com que se designam os que crêem em Cristo.  Fizemos esta escolha, por meio de nossos pais e padrinhos, por ocasião do batismo, quando proclamamos querer crer em Cristo e em nenhum outro.  Mas nossas escolhas são instáveis, como também é mutável a nossa própria natureza humana, somos sempre tentados a olhar para trás depois de ter colocado a mão no arado (cf. Lc 9,62).

Também hoje nos encontramos diante daquela pergunta de Jesus: “Quereis vós também retirar-vos?” Todos os dias percebemos que alguém se retira e não anda mais com Ele, porque julga o Seu discurso muito duro. Para muitos é difícil, por exemplo, o matrimônio indissolúvel, ou em buscar primeiro o reino de Deus.  Hoje o Cristo nos manda escolher.  Muitos de nós talvez ainda não nos demos conta disso, porque continuamos a fazer coisas diametralmente opostas ao que o Senhor nos ensinou. Escutamos o evangelho de Jesus e escutamos também o evangelho do mundo, que muitas vezes é ateísmo, é desprezo à moral e à fé cristã.  Para muitos liberdade significa seguir os impulsos ou os instintos, deixar-se levar pelas paixões por aquilo que lhes agrada num dado momento.  Mas a liberdade não se caracteriza pelo poder de escolher o mal, e sim pela possibilidade de realizar responsavelmente o bem, reconhecido e desejado como tal.

Os ensinamentos de Jesus parecem “duros”, difíceis de aceitar e de pôr em prática. Então há quem rejeite e abandone Cristo; há quem procure “adaptar” a sua palavra às modas dos tempos, desvirtuando o seu sentido e valor. A pergunta de Jesus feita outrora, deve ressoar também hoje aos nossos ouvidos.  Mas saibamos responder como o Apóstolo Pedro: “Só tu tens palavras de vida eterna” (v.68).  Estas palavras de vida eterna podem ser encontradas também em cada celebração Eucarística, onde nos deparamos com a mesa da Palavra e a mesa do Pão.  Esta continuidade transparece neste discurso eucarístico apresentado pelo evangelista São João, quando, no anúncio de Jesus, passa da apresentação fundamental do seu mistério à ilustração da dimensão eucarística propriamente dita: “A minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeira uma bebida” (Jo 6,55).

Sabemos que foi esta dimensão que fez entrar em crise grande parte dos ouvintes, induzindo Pedro a fazer-se porta-voz da fé dos outros Apóstolos e da Igreja de todos os tempos. Na narração dos discípulos de Emaús, o próprio Cristo intervém para mostrar, “começando por Moisés e seguindo por todos os profetas”, o que quer mostrar que toda a Sagrada Escritura nos conduz ao mistério da sua pessoa (cf. Lc 24,27). As suas palavras fazem “arder” os corações dos discípulos, retirando-os da obscuridade da tristeza e do desânimo, suscitam neles o desejo de permanecer com Ele: “Fica conosco, Senhor” (cf. Lc 24,29).

Saibamos também nós ficar com Cristo em cada Eucaristia e que seja ela o centro de nossa vida cristã e que a comunhão eucarística nos sacie a fome que sempre devemos ter do Pão Vivo que é o Cristo Senhor. A Igreja nos convida a santificar o domingo, sobretudo com a participação na Eucaristia e com um repouso permeado de alegria cristã e de fraternidade.  O livro do Apocalipse testemunha o costume de dar ao primeiro dia da semana o nome de “dia do Senhor” (Ap 1,10). Com isto, exprime-se o dia em que toda a comunidade é convocada para relembrar a ressurreição do Senhor. Como de fato, a celebração dominical da Eucaristia do Senhor está no centro da vida da Igreja (cf. CIgC, n. 2177).  É precisamente na Missa dominical que os cristãos revivem, com particular intensidade, a experiência feita pelos Apóstolos na tarde de Páscoa, quando, estando eles reunidos, o Ressuscitado lhes apareceu (cf. Jo 20,19).  A Eucaristia dominical, com a presença comunitária e a solenidade especial que a caracteriza, precisamente por ser celebrada no dia em que Cristo venceu a morte, e nos fez participantes da sua vida imortal.

A Eucaristia é, pois, o memorial da morte de Cristo, mas também presença do seu sacrifício e antecipação da sua vinda gloriosa. É o sacramento da contínua proximidade salvadora do Senhor ressuscitado na história.  E o domingo é um dia que está no âmago mesmo da vida cristã.  O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida.

E hoje, reunidos aqui para a assembléia eucarística, somos convidados a fazer juntos essa escolha, a repetir que queremos seguir Jesus porque compreendemos que Ele, e somente Ele, tem para nós palavras de vida eterna.  Que o Senhor nos ajude para que nossos passos caminhem sempre em direção a Ele, pois só Ele é o caminho, a verdade e a vida.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB