XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Parábola dos dois filhos chamados à vinha

Mt 21,28-32

 

Caros irmãos e irmãs

 

O texto evangélico deste domingo nos apresenta uma cena ocorrida na cidade de Jerusalém, onde os líderes judeus encontraram Jesus no Templo e perguntaram a Ele com que autoridade agia e quais eram as suas credenciais (cf. Mt 21,23-27). Jesus responde convidando-os a pronunciarem-se sobre a origem do batismo de João. Os líderes judaicos não quiseram responder, pois se dissessem que João Batista não vinha de Deus, temiam a reação da multidão, por ser considerado por muitos como um profeta; se admitissem que o batismo de João viesse de Deus, temiam eles um questionamento de Jesus acerca da não aceitação da sua mensagem. Na sequência, Jesus apresenta três parábolas, destinadas a ilustrar a recusa de Israel em acolher a proposta de salvação.

 

Uma das parábolas ilustra duas atitudes diversas de dois filhos mediante a ordem do pai. Os dois filhos são convidados pelo pai para irem trabalhar na vinha. O primeiro filho respondeu: “‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi” (v. 29).  O outro filho, ao contrário, disse ao pai: “‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi” (v. 30).  Em seguida, Jesus pergunta sobre qual dos dois cumprira a vontade do pai; e os ouvintes respondem: “O primeiro” (v. 31).

 

Jesus dirige esta parábola aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo de Israel, isto é, aos peritos de religião do seu povo. Eles começam por dizer “sim” à vontade de Deus; mas não aceitaram a mensagem de João Batista e a de Jesus. Por isso, as palavras finais da parábola são fortes: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele” (v.31-32).

 

Esta parábola nos ensina que, na perspectiva de Deus, o importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros; mas, quem cumpriu realmente, a vontade do Pai. É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do povo, disseram “sim” a Deus ao aceitar a Lei de Moisés, mas, posteriormente, eles também se recusaram a acolher o convite de João à conversão, assim como o filho que disse “sim”, e depois não foi trabalhar na vinha. Isto mostra que não são as palavras que contam, mas o agir, os atos de conversão e de fé.

 

João Batista mostrou o caminho da salvação, mas, os escribas e os fariseus, que se envaideciam por serem fiéis seguidores da vontade divina, não lhe deram importância. Teoricamente, eram os cumpridores da Lei, porém, não souberam ser dóceis ao querer divino, manifestado também através da mensagem de Cristo. Em contrapartida, aqueles que, num primeiro momento disseram “não”, por exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas, posteriormente disseram “sim”: acolheram a mensagem e se converteram, acolhendo a proposta do Reino apresentada por Jesus (v. 32).  Atenderam ao apelo à conversão e arrependeram-se: como o filho que em princípio disse “não vou”, mas depois foi.  O importante é fazer a vontade de Deus.

 

Também em nossos dias, Deus continua tendo dois filhos: alguns, no batismo, dizem “sim”, mas depois, na vida concreta, transformam o “sim” em “não”. Todos nós devemos ter consciência de que também somos chamados a trabalhar na vinha do Senhor.  Os chamados de Deus, nós os conhecemos pela Sua Palavra, contida na Sagrada Escritura. O Senhor continua a nos dizer: “Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática!” (Lc 11, 28).

 

Deus não leva em conta as aparências, por isso, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).  Não é suficiente apenas ouvir a pregação, mas é necessário colocar em prática os ensinamentos. Deus respeita a nossa liberdade; não nos constrange. Ele aguarda o nosso “sim”.

 

O filho que foi trabalhar na vinha representa os pecadores e os marginalizados que aceitaram a mensagem de Jesus. O próprio evangelista Mateus está entre eles, pois ele era cobrador de impostos (cf. Mt 9,9s).  Jesus mostra que estes irão preceder os demais no Reino de Deus.  Este linguajar “preceder, entrar antes” é um modo de afirmar a exclusão. Não é que os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes e os outros entrarão depois. Na verdade, os primeiros entram e os segundos ficam fora. E isso está de acordo com a parábola, pois o filho mais novo diz inicialmente “sim”, mas não vai trabalhar na vinha. É o que afirma também Jesus: “Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mt 5,20).

 

A parábola procura ressaltar que devemos ser humildes, imitando o próprio Cristo, que cumpriu com fidelidade a vontade do Pai. É o que nos diz São Paulo na segunda leitura: “Não façais nada por rivalidade ou vanglória, mas cada um de vós, com toda humildade, considere os outros superiores a si mesmo” (Fl 2,3). São estes os mesmos sentimentos de Cristo que, despojado da glória divina por amor a nós, fez-se homem e se rebaixou até morrer crucificado (cf. Fl 2,5-8).  O apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que Paulo faz aos Filipenses, também é dirigido a todos nós: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos.

 

Nesta leitura, São Paulo sublinha o amor de Jesus Cristo pela virtude da obediência.  Naqueles tempos, a morte de cruz era a mais infame, pois estava reservada aos piores criminosos.  Eis porque a máxima expressão do amor de Cristo pelos planos salvíficos do Pai consistiu em ser obediente até à morte. Cristo obedece por amor; este é o sentido da obediência cristã. A obediência é o oposto da soberba, que nos inclina a fazer a vontade própria.  São Bento, em sua Regra, faz um grande elogio à obediência, ao mesmo tempo em que condena a soberba (cf. RB 7).

 

Para os discípulos de Jesus a humildade é uma virtude.  A palavra latina “humilitas”, tem a ver com “humus”, isto é, com a aderência à terra, à realidade.  As pessoas humildes vivem com ambos os pés na terra; mas, sobretudo, escutam Cristo, a Palavra de Deus, que ininterruptamente renova a cada um de nós.

 

É a humildade que nos torna cada dia conscientes de que não somos nós que construímos o Reino de Deus, mas é sempre a graça do Senhor que age em nós; é a humildade que nos impele a dedicarmos inteiramente ao serviço de Cristo, sendo fiéis operários da sua videira.

 

Peçamos ao Senhor que nos conceda a graça de progredirmos sempre na humildade, fundamento de todas as virtudes, pois, pela humildade, reconhecemos a nossa pequenez diante da grandeza do Senhor, que a todo o momento nos chama a trabalhar na sua vinha. Assim seja.

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ