A cura dos dez leprosos


Lc 17,11-19

Meus caros amigos,

A leitura do Evangelho deste domingo, narrado pelo evangelista São Lucas nos leva ao episódio da cura operada por Jesus dos dez leprosos, dos quais só um samaritano volta para agradecer. Em ligação a este texto, está a primeira leitura tirada do segundo Livro dos Reis (cf. 2Rs 5,1-14), onde temos o relato da cura de Naamã, comandante do exército do rei da Síria, também leproso e, para se curar da lepra, vai ter com o profeta Eliseu, que lhe pede apenas para confiar em Deus e mergulhar sete vezes nas águas do rio Jordão.  Ao ser curado, Naamã volta a procurar o profeta e, reconhecendo nele o mediador de Deus, professa a fé ao único Senhor.

No tempo de Jesus a lepra era tida como uma doença terrível. Os dez leprosos são curados por Jesus, quando iam apresentar-se aos sacerdotes, como Jesus ordenara: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes” (v. 14).  Esta ordem de Jesus é o cumprimento de uma prescrição legal.  O leproso excluído da comunidade de Israel como impuro, só poderia ser reintegrado, após a declaração do sacerdote (cf. Lv 14,2-3).  Na obediência a ordem de Jesus aqueles homens encontram a cura.

Os dez leprosos do Evangelho curados por Jesus, vão ao seu encontro, param à distância e gritam: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós” (Lc 17, 13). Estão doentes e procuram alguém que os cure. Segundo a teologia da época, a doença, em especial a letra, era considerada como um castigo de Deus.  Agora aquele homem se sente perdoado por Deus e ele o louva com todas as suas forças: “Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu” (v. 15s).

A este samaritano que volta para agradecer, a ele o Senhor diz: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (Lc 17,19). É a fé que salva o homem, restabelecendo-o na sua relação profunda com Deus, consigo mesmo e com os outros; e a fé expressa-se no reconhecimento.

Com isto, tomamos consciência acerca da importância da fé para aqueles que, angustiados pelo sofrimento e pela enfermidade, se aproximam do Senhor. No encontro com Ele, para os que acreditam, nunca estão sozinhos! Com efeito, no seu Filho, Deus não nos abandona às nossas angústias e sofrimentos, mas está próximo de nós e deseja curar profundamente o nosso coração (cf. Mc 2,1-12).

O samaritano curado, ao agradecer, demonstra que considera a sua cura como um dom que provém de Deus. Portanto, a fé o fez abrir à graça do Senhor e reconhecer que tudo é dom, tudo é graça. Vendo-se purificado, cheio de admiração e de alegria, contrariamente aos demais, vai imediatamente até Jesus para lhe manifestar o próprio reconhecimento, deixa entrever que a saúde readquirida é algo precioso, pois constitui um sinal da salvação que Deus nos concede através de Cristo, que o exorta: “A tua fé te salvou!” (v.19).

A gratidão é uma virtude elementar.  O samaritano, percebendo que foi curado, volta para agradecer ao Senhor o benefício recebido.  A gratidão é uma das mais nobres virtudes do coração humano: “Sede agradecidos” nos recomenda São Paulo na carta aos colossenses (Cl 3,15).

O texto ainda nos faz perceber como Jesus reservou sempre uma atenção particular para com os enfermos. Ele não só convidou os seus discípulos a curar as feridas dos doentes (cf. Mt 10,8; Lc 9,2; 10,9), mas também instituiu para eles um Sacramento específico: a Unção dos Enfermos. A Carta de São Tiago oferece um testemunho da presença deste gesto sacramental já na primeira comunidade cristã (cf. Tg 5,14-16). Mediante a Unção dos Enfermos, acompanhada pela oração dos presbíteros, a Igreja inteira recomenda os doentes ao Senhor, a fim de que alivie as suas penas e os salve.

A reflexão deste texto evangélico pode ser também para nós uma ocasião propícia e preciosa para redescobrir a força e a beleza da fé diante da dor e do sofrimento. Podemos encontrar sempre uma âncora segura na fé, alimentada pela escuta da Palavra de Deus, da oração pessoal e dos Sacramentos, para vencermos as provações e dificuldades de cada dia.  O sofrimento pode constituir um tempo de graça, e pode proporcionar ao doente um voltar a si mesmo.

Jesus cura dez leprosos, enfermidade que na época era considerada uma “impureza contagiosa” que exigia uma purificação ritual (cf. Lv 14, 1-37). Nos tempos atuais, a lepra que deturpa a humanidade parece ser o pecado, o ódio, a violência…  Mantendo-se à distância, os leprosos gritaram, dizendo: “Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós!” (v.13).  Esses homens mantinham-se à distância porque não ousavam, levando em conta o seu estado, avançar para mais perto de Jesus. O mesmo pode acontecer conosco. Enquanto permanecemos nos nossos pecados, ficamos afastados. Portanto, para recuperarmos a saúde e nos curarmos da lepra dos nossos erros, devemos suplicar com voz forte: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” (v. 13).

Também neste sentido a Igreja oferece aos seus filhos o sacramento da penitência, pelo qual retornamos à casa do Pai, da qual o pecador se afastou pelo pecado.  A confissão dos pecados perante o sacerdote é um elemento essencial deste sacramento e pela absolvição sacramental do sacerdote, Deus concede ao penitente o perdão e a paz.

Podemos ainda observar que Jesus não cura apenas um leproso, mas dez. Este número na Sagrada Escritura tem um significado simbólico: indica totalidade.  Os dez leprosos, portanto, representam todo um povo.  A lepra é o símbolo da condição do pecado, do erro, do distanciamento de Deus.  Com isto, a lição do texto evangélico é também esta: Todos precisam ter um encontro com Jesus. Todos precisam da salvação do Senhor.

Um outro detalhe é que os dez leprosos não buscam a salvação individualmente, mas em conjunto. Eles fazem uma oração comunitária: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” (v. 13).  Isto indica que houve integração entre eles.  E um deles era samaritano.  A história nos mostra que os judeus não se davam com os samaritanos, mas diante da desgraça e da dor, ocorre a unidade.

Que também tenhamos a coragem de gritar por socorro ao Senhor para que ele cure a nossa lepra, especialmente, aquela espiritual, a fim de que, reconhecendo as maravilhas que ele opera na nossa vida, possamos cada vez mais ter uma fé mais fortalecida.

Quantos benefícios nós já recebemos de Deus, mas muitas vezes somos indiferentes.  No momento em que somos agradecidos a Deus nossa vida se transforma.  Devemos louvar e agradecer sempre aquilo que o Senhor nos dá constantemente. Só o fato de sermos chamados à existência já bastaria para transformarmos a nossa vida em um perene louvor. É preciso saber agradecer a Deus sempre.

Continuando a Eucaristia, invocamos a intercessão de Maria, Mãe de Misericórdia, a ela elevemos o nosso olhar para que, com a sua maternal compaixão, acompanhe e sustente a nossa fé e a nossa esperança. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ