O Óbolo da Viúva

Mc 12,38-44
Caros irmãos e irmãs,
Duas humildes mulheres iluminam as páginas da liturgia da palavra deste domingo.  No centro das leituras encontramos duas pobres viúvas, mais precisamente, encontramos os gestos que elas realizam e, por isso, são louvadas por Deus, pela generosidade de quem dá sem hesitações o pouco que possui.
A primeira leitura nos direciona para o Livro dos Reis e nos fala do ministério profético de Elias, o grande defensor da fidelidade a Deus. O ciclo de Elias começa com o anúncio, diante do rei Acab, de uma seca que irá atingir Israel (cf. 1Rs 17,1). A implacável seca o leva para a pequena cidade de Sarepta, onde o nosso texto nos situa geograficamente.
Elias dirige-se a uma viúva da cidade, a quem pede um pedaço de pão. Nesse tempo dramático de fome e de seca, a mulher tem apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite, que havia reservado para comer com o filho, antes de se deitar à espera da morte; mas acaba por preparar o pão para Elias. E, por ação de Deus, durante todo o tempo que Elias aí permaneceu, nem a farinha se acabou, nem o azeite faltou. A viúva de Sarepta queria guardar para si e para o seu filho o pouco de alimento que possuía; mas foi desafiada a partilhar, viu esse escasso alimento ser multiplicado uma infinidade de vezes.
O texto do Evangelho nos leva a Jerusalém, poucos dias antes da prisão, julgamento e morte de Jesus.  Na primeira parte desta perícope (v. 38-40), Jesus faz direcionar a atenção dos seus discípulos sobre o grupo dos doutores da Lei. Aparentemente, são figuras intocáveis da comunidade, com uma atitude religiosa irrepreensível. São estimados e admirados pelo povo, que os tem em alto conceito.  Contudo, o olhar avaliador de Jesus não se detém nas aparências.
Os doutores da Lei agem para serem considerados e admirados pelo povo, procuram os primeiros lugares, preocupam-se em afirmar a sua superioridade diante dos outros e aproveitam da posição e da confiança que inspiram, como intérpretes autorizados da Lei de Deus, para explorar os mais pobres. Ao olhar para a atitude dos doutores da Lei, os discípulos de Jesus devem se conscientizar de que este não é o comportamento que Deus pede àqueles que querem fazer parte da sua família.

 

Na segunda parte (v. 41-44), Jesus convida os discípulos a perceber a essência do verdadeiro culto, da verdadeira atitude religiosa. Em profundo contraste com o quadro dos doutores da Lei, Jesus apresenta aos discípulos a figura de uma pobre viúva, que se aproxima de um dos treze recipientes situados no átrio do Templo, onde se depositavam as ofertas para o tesouro do Templo. A mulher deposita aí duas simples moedas.  O texto grego identifica esta moeda como “leptá”, ou seja, uma moeda de cobre, a mais pequena e insignificante das moedas judaicas; contudo, aquela quantia insignificante era tudo o que a mulher possuía.
Jesus manifesta admiração pelo gesto da viúva. Apenas Jesus, que lê os fatos com os olhos de Deus e sabe ver para além das aparências, percebe nesta atitude a marca de um dom total, de um completo despojamento, de uma entrega radical e sem medida. O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que aceita despojar-se de tudo para se entregar completa e gratuitamente nas mãos de Deus, com humildade, com generosidade, com total confiança. É este o exemplo que os discípulos de Jesus devem imitar; é esse o culto verdadeiro que eles devem prestar a Deus.
Como na primeira leitura, também no Evangelho temos um exemplo de uma mulher simples e, ainda mais, uma viúva, que, por sua própria condição, pertencente à classe dos abandonados e dos mais pobres, é capaz de partilhar o pouco que tem. Na reflexão bíblica, os pobres, pela sua situação de carência, debilidade e necessidade, são considerados os preferidos de Deus, aqueles que são objeto de uma especial proteção e ternura por parte de Deus.
Ao lançarmos o nosso olhar mais uma vez para o Evangelho, podemos notar que a figura dos doutores da Lei está em total contraste com a figura desta pobre viúva. Eles estão cheios de si e têm os corações dominados por sentimentos de ambição e de vaidade, apostam tudo nos bens materiais. Na verdade, no coração deles não há lugar para Deus e para os outros irmãos; só há lugar para os seus próprios interesses. Nunca é demais refletirmos sobre este ponto: quem vive para si e é incapaz de viver para Deus e para os irmãos, com verdade e generosidade, não pode integrar a família de Jesus.
No templo, havia muitos ricos e uma pobre viúva. Só Jesus repara nesta mulher cuja pobreza é dupla: financeira e afetiva. Os ricos fazem barulho com as mãos ao depositar no cofre grandes somas. A mulher é mais discreta, só Jesus consegue ouvir cair as duas pequenas peças. Uma vez mais, Jesus procura ver o coração. Ele vê que aquilo que distingue a pobre viúva dos ricos: seu interior. A mulher não negociou com Deus, ela deu tudo o que tinha para viver. Ela oferece o que tem com o bom coração. Por esta razão Jesus diz que ela ofertou mais do que todos, não em quantidade, mas em generosidade. A viúva deu toda a sua vida, tudo o que tinha.
Não se questiona sobre como ela vai viver a seguir. Dá um salto no abandono total de si mesma ao Senhor. Lança-se nos braços de Deus.  É este o significado perene da oferta da viúva pobre, que Jesus exalta porque deu mais do que os ricos, os quais oferecem parte do que lhe é supérfluo, enquanto ela dá tudo o que tem para viver e entrega-se a si mesma.
Ao observar a pobre viúva, Jesus move seus discípulos a aprender dela algo peculiar: uma fé total em Deus e uma generosidade sem limites. Seu gesto passa despercebido por todos, mas não por Jesus; no seu silêncio e no seu anonimato, a viúva põe em evidência a humildade. Ela não busca honras nem prestígio, mas atua de maneira discreta e humilde: dá o que tem porque outros podem necessitar, não dá o que lhe sobra, mas “tudo o que tem para viver” (v. 44).
Com estes destes dois episódios bíblicos, sabiamente combinados, é possível obter um precioso ensinamento também sobre a fé. Trata-se de uma atitude interior daqueles que fundamentam a própria vida em Deus, na sua Palavra e confia plenamente na providência divina. A viuvez, na antiguidade, era em si mesma uma situação de grande necessidade. Por isso, na Bíblia, as viúvas e os órfãos são pessoas de quem Deus cuida de modo especial.
Possamos todos nós imitar o exemplo dessas duas viúvas, modelos de fé e de generosidade, mostrando que ninguém está dispensado de partilhar.  Que o Senhor venha em nosso auxilio, para que nunca falte em nós a farinha e o azeite da caridade, da confiança e da esperança. Que Ele nos faça abrir as nossas mãos e o nosso coração para a partilha e para a oferta daquilo que Ele mesmo nos concedeu. Assim seja.

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB