Minhas palavras não passarão


Mc 13, 24-32

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos faz um convite à esperança.  A primeira leitura anuncia aos crentes perseguidos e desanimados a chegada iminente do tempo da intervenção de Deus para salvar o Povo fiel. É esta a esperança que deve sustentar os justos, chamados a permanecerem fiéis a Deus, apesar da perseguição e do sofrimento.  Nesta primeira leitura, retirada do livro do profeta Daniel (cf. Dn 12,1-3), o autor utiliza símbolos que evocam a transfiguração dos ressuscitados.  Essa vida nova não será como a do mundo presente, mas será uma vida transfigurada.  A mensagem de esperança que o nosso texto nos deixa destinava-se a animar os crentes que sofriam a perseguição numa época e num contexto particulares. No entanto, é uma mensagem válida para os cristãos de todos os tempos e lugares.  É a certeza de que Deus nunca abandona o seu povo e a vitória final será daqueles que se mantiverem fiéis aos seus ensinamentos.

O trecho do Evangelho inicia com algumas imagens de tipo apocalíptico: “O sol vai se escurecer, e a lua não brilhará mais, as estrelas cairão do céu e as forças que estão nos céus serão abaladas” (v. 24-25).   Antigamente os astros do céu eram considerados divindades, com influência sobre a vida dos homens.  Podiam conceder benefícios ou provocar tragédias, por esta razão era preciso conquistar a sua amizade, oferecendo-lhes orações e sacrifícios.  Visando refutar a religião dos que adoravam o sol, a lua e as estrelas, os profetas afirmavam que um dia estes corpos celestes perderam a sua luz e teriam caído (cf. Is 13,10; 34,4; Gl 2,10).  Com estas afirmações os profetas mostravam que o mundo pagão, representado por estes astros, teria sido destruído.  Ao retomar essas imagens, Jesus não quer assustar os seus discípulos, mas confortá-los.

E o texto do Evangelho segue dizendo: “Então verão vir o Filho do Homem sobre as nuvens, com grande poder e glória” (v. 26). A expressão “Filho do homem” é uma referência ao próprio Jesus Cristo, que relaciona o presente e o futuro; as antigas palavras dos profetas encontraram o seu centro no Messias de Nazaré. É Ele o verdadeiro acontecimento que, no meio dos transtornos do mundo, permanece o ponto firme e estável.

Mas Jesus ainda diz: “Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (v. 30). Aquela geração, à qual Jesus refere, de fato, não passou; o mundo conhecido por aqueles que o escutavam, o mundo judaico, passou tragicamente com a destruição de Jerusalém no ano 70 depois de Cristo. Quando, no ano 410, sucedeu o saque de Roma por obra dos vândalos, muitos grandes espíritos do tempo pensaram que era o fim do mundo. Não erravam muito, acabava um mundo, o criado por Roma com seu império.  Estes acontecimentos fazem firmar a seriedade do compromisso cristão para com a sua fidelidade ao Senhor. Por isso, Jesus conclui o Evangelho de hoje com a recomendação: “Estai atentos e vigiai, porque não sabeis quando será o momento preciso” (v. 32).

Nestas reflexões, apesar de nos assustar, encontramos uma mensagem de esperança, porque, após todas as trevas e tribulações, depois de todos os horrores e os erros do nosso caminho humano, virá o “Filho do Homem” para nos confortar com a sua palavra eterna, a única que não passará, para devolver-nos com força e com ternura, a verdade da nossa vida.

O modo como Jesus descreveu o fim dos tempos se encaixava no horizonte teológico da época.  De fato, esperavam-se abalos e outros fenômenos terríveis, quando Deus interviesse, definitivamente, na História.  A intenção de Jesus, porém, era a de levar os seus discípulos à vigilância, de maneira a estarem sempre preparados para o encontro com o Senhor.

A exortação de Jesus não passa com o tempo, como eternas são todas as suas palavras.  Elas não passarão, embora tudo o mais perca seu valor.  Assim, é absolutamente certa a vinda do Cristo Senhor e há necessidade de mantermos vigilantes e preparados para colhê-lo.  É, também, firme a palavra do Senhor que apresenta o amor como critério do juízo final, a recompensa para quem se mantiver fiel e a comunhão definitiva com o Pai, como destino último do cristão.  Por conseguinte, o discípulo sensato deixa-se guiar pelos ensinamentos de Jesus.

E Jesus ainda sublinha: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,30).  O mundo é provisório.  Deve terminar.  Mas a palavra de Jesus é eterna.  E é ela que deve orientar nossa vida e nossas preocupações.  Ela nos ensina que não somos provisórios.  Somos destinados à vida eterna. Com efeito, sabemos que na Sagrada Escritura a Palavra de Deus está na origem da criação: todas as criaturas, a partir dos elementos cósmicos: sol, lua, firmamento, obedecem à Palavra de Deus. Este poder criador da Palavra divina concentrou-se em Jesus Cristo, Verbo feito carne, e passa também através das suas palavras humanas, que são o verdadeiro “firmamento” que orienta o pensamento e o caminho do homem sobre a terra.

Jesus quer subtrair os seus discípulos de qualquer época da curiosidade pelas datas, pelas previsões, e deseja dar-lhes uma profunda chave de leitura e, sobretudo, indicar a senda justa sobre a qual devem caminhar, hoje e amanhã, para entrar na vida eterna. Tudo passa, nos recorda Santa Teresa de Ávila, só Deus basta. Só ele é eterno e a sua Palavra não muda, por isto, deve ser ela a base e o alicerce para os nossos atos e o nosso comportamento.

Na parábola do semeador Jesus explica que a semente é a Palavra (cf. Mc 4, 14).  Todos aqueles que a ouvem, a acolhem e dão fruto, fazem parte do Reino de Deus, isto é, vivem sob o seu senhorio; permanecem no mundo, mas já não são do mundo; levam em si o germe de eternidade, um princípio de transformação que se manifesta já agora numa vida boa, animada pela caridade, e no final produzirá a ressurreição da carne.

Em cada celebração eucarística, após a consagração do pão e do vinho, dizemos: “Anunciamos Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa Ressurreição, enquanto esperamos a vossa vinda”.  Embora Cristo disse que ninguém conhece o momento do seu regresso, enquanto isto, podemos perguntar: Estou preparado para encontrar-me com o Cristo quando ele voltar?

Peçamos ao Senhor que nos ajude a trilhar sempre no caminho do bem, observando a sua Palavra e que saibamos também ser a terra boa que acolheu a Palavra de Deus com disponibilidade, de modo que toda a nossa existência, seja transformada e nos conduza à vida eterna.  E seguindo o Cristo pelo caminho da cruz, possamos alcançar juntos a glória da ressurreição.

 
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB