Vigiai!

Mc 13,33-37

 

Caros irmãos e irmãs,

Estamos iniciando um novo ano litúrgico e, simultaneamente, o tempo do advento: um tempo de expectativa e de esperança, um tempo privilegiado de escuta e de reflexão, sob a condição de que nos deixemos guiar pela liturgia que nos convida a ir ao encontro do Senhor que vem. A palavra advento deriva do latim “adventus”, e pode ser traduzida como presença, chegada, vinda. Na linguagem do mundo antigo, era um termo técnico utilizado para indicar a chegada de um funcionário, a visita do rei ou do imperador a uma província.

Os cristãos adotaram a palavra “advento” para expressar a sua relação com Jesus Cristo. O advento, este tempo litúrgico que estamos iniciando, nos convida a refletir sobre a vinda de Cristo que está para chegar.  Por isto, falamos que advento é também um tempo de espera, que é, ao mesmo tempo,  esperança. O advento nos leva a compreender o sentido do tempo e da história como “kairós”, como ocasião favorável para a nossa salvação.

Trata-se de um caminho novo de fé, para percorrer no âmbito da história o caminho da salvação.  O ano litúrgico começa com o Tempo do Advento: tempo no qual desperta em nossos corações a expectativa do retorno de Cristo e a memória da sua primeira vinda, quando se despojou da sua glória divina para assumir a nossa carne mortal.

O advento é também um tempo de alegria, de júbilo interiorizado, que nenhum sofrimento pode anular. A alegria pelo fato de que Deus se fez Menino para habitar entre nós. No momento da anunciação do anjo Gabriel a Maria, nota-se que já existe um convite à alegria: “Alegra-te” (Lc 1, 28). A visita de Maria a Isabel faz com que João Batista, salte de alegria no ventre de sua mãe (cf. Lc 1, 41). No seu cântico, Maria proclama: “O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 47).

A Liturgia da Palavra neste domingo, nos exorta a prepararmo-nos para o advento de Cristo com uma palavra bem significativa: “Vigiai”. É o que nos diz Jesus na breve parábola do dono de casa que parte, mas não se sabe quando regressará (cf. Mc 13,33-37).  Antes, porém, de partir, este homem distribuiu tarefas aos seus servos e mandou ao porteiro que vigiasse (cf. Mc 13,33-34) e os admoesta acerca da atitude correta para esperar o Senhor (cf. Mc 13,35s).  Nesta parábola Jesus tem como objetivo recordar aos seus discípulos o dever de guardar e fazer frutificar os dons que ele deixa a cada um.

A palavra chave da parábola é esta: “vigilância”, pois, quando chegar o momento do retorno do Senhor, deve Ele encontrar os seus discípulos isentos do erro, do pecado, e, realizando fielmente as tarefas a eles confiadas. Essas tarefas passam pelo compromisso efetivo com a construção de um mundo que viva cada vez mais de acordo com os projetos de Deus. Trata-se de uma atenção não só da mente, mas também do coração e de toda a vida.

Por isto, o bom discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” significa viver sempre ativo, empenhado, comprometido na construção de um mundo de amor e de paz. Significa cumprir, com coerência os compromissos assumidos no dia do batismo e ser um sinal vivo do amor e da bondade de Deus no mundo.

Vigiar significa ainda seguir o Senhor, escolher o que Cristo escolheu, amar o que Ele amou, conformar a própria vida com a sua; vigiar exige que se transcorra cada momento do nosso tempo no horizonte do seu amor, sem nos deixarmos abater pelas inevitáveis dificuldades e problemas quotidianos, como fizeram muitos santos.

No extremo oposto dessa vigilância situa-se a desesperança de quem nada mais espera do futuro, de quem desistiu de esperar e de acreditar e, por isto, vive como uma lâmpada apagada ou como o sal que perdeu o seu sabor.  Todavia, no início deste advento, a Igreja também nos faz lembrar das palavras do Apóstolo São Paulo: “Já é hora de despertardes do sono” (Rm 13,11).  Esta vigilância nos convida a isto, a estar desperto.

Jesus dirige esta parábola aos seus discípulos, mas também a todos nós, porque cada um de nós, na hora que só Deus conhece, será chamado a prestar contas da própria existência.  Isto exige um arrependimento sincero dos próprios erros, uma caridade para com o próximo e uma entrega confiante nas mãos de Deus.

O homem que partiu para o estrangeiro, conforme assinala a parábola, é o próprio Cristo Jesus. Ele não partiu para sempre.  Ele voltará.  Ao deixar este mundo, com a sua ascensão aos céus, deixou aos seus seguidores a missão de completar a obra por Ele iniciada. Confiou a eles uma missão: a construção de um mundo mais humano, tendo como base a fraternidade e o amor; tendo como alicerce o seu próprio evangelho.

A mensagem que podemos buscar desta passagem evangélica está no fato de que os criados da parábola viviam como se o seu dono estivesse presente, pois não sabiam nem o dia, nem a hora da sua chegada e estavam a desempenhar uma missão.  Nós também devemos ter consciência desta certeza: Somos chamados a ser como a árvore boa, capaz de dar muitos frutos.

Neste sentido, o advento é um tempo de preparação para a celebração da vinda de Deus. Por isto, o tempo do advento é tempo de espera, é tempo de vigilância.  Um tempo de compromisso ativo e efetivo com a construção do Reino de Deus. É bom estarmos atentos e interrogarmos como está se concretizando a nossa própria vigilância.

Mas o Senhor vem continuamente na nossa vida. Portanto, é oportuno o apelo de Jesus, que neste primeiro domingo nos é proposto com vigor:  “Vigiai!” (Mc 13, 33.35.37). O Tempo do Advento chega todos os anos para nos recordar isto, para que a nossa vida encontre a sua orientação justa, rumo ao rosto de Deus.

Para viver de maneira mais autêntica e frutuosa este período de Advento, a liturgia nos exorta a olhar para a Virgem Maria. Que saibamos caminhar com ela para a Gruta de Belém. E ela, como Virgem fiel, interceda sempre por nós, e nos faça fazer deste tempo do advento e de todo o novo ano litúrgico um caminho de autêntica santificação.  Assim seja.

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ