A TEMPESTADE EM ALTO MAR
Mc 4,35-41

Meus caros amigos,

A liturgia da Palavra deste domingo nos leva a perguntar: Deus preocupa-se com os dramas dos homens? Onde está Ele nos momentos de sofrimentos e de dificuldades que enfrentamos ao longo da vida?

Para responder a estes questionamentos, façamos uma breve reflexão sobre as leituras que a Liturgia da Palavra nos convida a ouvir neste domingo.

A primeira leitura, retirada do Livro de Jó, nos faz pensar a respeito de certos temas fundamentais sobre os quais o homem sempre se interroga, como, por exemplo, a questão do sofrimento do justo inocente, a situação do homem diante de Deus e a atitude de Deus face ao homem. O livro nos apresenta o triste itinerário de um homem bom e justo chamado Jó, repentinamente atingido por um vendaval de desgraças que lhe rouba a riqueza, a família e a própria saúde.

Diante dessa drama ele mesmo se interroga acerca da origem do sofrimento que o atingiu e do papel de Deus no seu drama pessoal. Alguns dos seus amigos procuram responder às suas questões, apresentando as explicações dadas pela teologia oficial: o sofrimento é sempre o resultado do pecado do homem; assim, se Jó está a sofrer, é porque pecou… Com um apurado sentido crítico Jó rejeita essa explicação tradicional e dirige-se diretamente àquele que lhe pode fornecer a melhor resposta: o próprio Deus.

No seu discurso, cruzam-se a animosidade, a violência, as queixas, o inconformismo, a dúvida, a revolta, com a esperança, a fé e a confiança. Quando, finalmente, Deus se dirige a Jó, lhe recorda o seu lugar de criatura, limitada e finita; mostra como só Ele conhece as leis que regem o universo e a vida, mostra ainda a sua preocupação e o seu amor para com cada ser criado; e o convida a não pôr em causa os desígnios divinos, já que esses desígnios ultrapassam infinitamente a capacidade de compreensão e de entendimento de qualquer criatura.

Deus tem uma lógica, um plano, um projeto que ultrapassa infinitamente aquilo que cada homem pode entender. A história termina com Jó a reconhecer a transcendência de Deus e a incompreensibilidade dos seus projetos, a entregar-se nas mãos do Criador com humildade e confiança.

Nesse discurso, Deus coloca a Jó uma série de questões sobre a terra, o mar, os grandes mistérios da natureza e da vida; a finalidade não é obter respostas de Jó, mas levá-lo a perceber a sua incapacidade para entender o mistério insondável de Deus.

Passando um olhar ao Evangelho, vemos o episódio que o evangelista São Marcos nos narra durante a travessia no Lago de Tiberíades. O Lago de Tiberíades, designado frequentemente por “Mar da Galileia”, é um lago de água doce, alimentado, sobretudo, pelas águas do rio Jordão.

As tempestades que se levantavam neste “mar” podiam aparecer subitamente e ser especialmente violentas. Inicialmente, podemos lembrar que o “mar”, para a mentalidade judaica, é uma realidade assustadora, indomável e desordenada, onde residiam os poderes maléficos que o homem não conseguia controlar. Só Deus, com o seu poder e majestade, podia pôr limites ao mar e libertar os homens dessas forças descontroladas daí oriundas.

Mais do que uma crônica fiel de uma viagem de Jesus com os discípulos através do Lago de Tiberíades, a narração que Marcos nos apresenta deve ser vista como uma página de catequese. Usando elementos com uma forte carga simbólica (o mar, o barco, a tempestade, a noite, o sono de Jesus), o Evangelista nos apresenta uma reflexão sobre a comunidade dos discípulos em marcha pela história.

Marcos a escreve numa época em que a Igreja de Jesus enfrenta sérias “tempestades”, tais como: a perseguição do Imperador Nero aos cristãos, problemas internos causados pela diferença de perspectivas entre judeus e cristãos e entre pagãos e cristãos, dificuldades sentidas pelas comunidades em encontrar o caminho para o futuro etc; e pretende dar sugestões aos crentes acerca do caminho a percorrer.

Reparemos, em primeiro lugar, no “ambiente” em que os discípulos estão com Jesus: no mar, ao anoitecer (v. 35). Situar o barco com Jesus e os discípulos “no mar”, é colocá-los num ambiente hostil, perigoso, rodeados pelas forças que lutam contra Deus e contra a felicidade do homem. Por outro lado, a “noite” é o tempo das trevas, da falta de luz; aparece como elemento ligado com o medo, com o desânimo, com a falta de perspectivas. O “mar” e a “noite” definem uma realidade de dificuldades, de hostilidades, de incompreensão.

No “barco” encontra-se Jesus e os discípulos (v. 36). O “barco” é, na catequese cristã, o símbolo da comunidade de Jesus que navega pela história. Jesus está no “barco”, mas são os discípulos que se encarregam da navegação, pois é a eles que é confiada a tarefa de conduzir a comunidade pelo mar da vida. O “barco” dirige-se “para a outra margem” (v. 35), ao encontro das terras dos pagãos. Com este dado São Marcos alude, muito provavelmente, à missão da comunidade cristã, convidada por Jesus a ir ao encontro de todos os homens para lhes levar a sua mensagem.

O Evangelho ressalta que durante a travessia Jesus “dorme” (v. 38). O “sono” de Jesus durante a viagem refere-se, possivelmente, à sua aparente ausência e o seu silêncio ao longo da “viagem” que a comunidade cristã faz pela história. Com frequência os discípulos, ocupados em dirigir o “barco”, têm a sensação de que estão sozinhos, abandonados à sua sorte e que Jesus não está com eles a enfrentar as vicissitudes da viagem. É bem provável que Marcos estivesse a pensar numa “tempestade” concreta, talvez a perseguição de Nero aos cristãos de Roma, durante a qual foram mortos Pedro e Paulo, bem como muitos outros cristãos (anos 64-68, ocasião o Evangelho de Marcos foi escrito); mas a “tempestade” refere-se também a todos os momentos de crise, de perseguição, de hostilidade que os discípulos terão de enfrentar ao longo do caminho, até o fim dos tempos.

Jesus, despertado pelos discípulos, acalma a fúria do mar e do vento, com o poder da sua Palavra (v. 39). Sabemos que, na teologia judaica, só Deus era capaz de dominar o mar e as forças hostis que se alojavam no mar. Jesus aparece assim, como o Deus que acompanha a difícil caminhada dos discípulos pelo mundo e que cuida deles no meio das provações. Depois de acalmar o mar e o vento, Jesus dirige-se aos discípulos e repreende-os pela falta de fé: “Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?”(v. 40). Os discípulos, depois da caminhada feita com Jesus, já deviam saber que Ele nunca está ausente, nem alheio à vida dos seus discípulos. Eles não podem esquecer que, em todas as circunstâncias, Jesus está com eles no mesmo “barco” e, por isso, nada precisam temer e as tempestades da história não poderão impedi-los de concretizar no mundo a missão que lhes foi confiada.

O texto termina com o “temor” dos discípulos e a pergunta que eles fazem uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem”? (v. 41). O “temor” define o estado de espírito do homem diante da divindade. No universo bíblico, este “temor” não apresenta caráter de pânico ou de medo servil, mas encerra um misterioso poder de atração que se traduz em obediência, entrega, confiança, entusiasmo.

Tal atitude positiva deriva da experiência que o crente tem de Deus: um Deus presente, que guia o seu Povo com uma solicitude paternal. Se por um lado o homem tem consciência da onipotência de Deus, por outro lado sabe que pode confiar incondicionalmente nele. Assim, o “temor” dos discípulos significa que eles reconhecem que Jesus é o Deus presente no meio dos homens, e a quem os homens são convidados a aderir, a confiar e a obedecer.

O homem a cada dia parece enfrentar a perplexidade do terror e da humilhação. E diante deste cenário o homem também questiona: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?” E ainda pergunta: “Por que Deus permanece em silêncio?” Estas perguntas muitos também fizeram e ainda hoje fazem: “Onde está Deus?”. Diante da violência e do mal Deus parece silenciar porque está junto daquele que sofre. Um silêncio de amor compadecido e solidário. Um amor paciente que tudo pode, mas não pode reagir a violência com violência. Um amor que não pôde impedir que o próprio filho morresse na cruz. Diante disso nem sempre nós compreendemos e, por isso, perguntamos: Por quê? Na mentalidade do homem, tanto do passado como do presente, Deus parece dormir diante da injustiça, da violência e da matança dos inocentes.

Mas a tempestade que também hoje deixa desorientados os próprios navegantes, é o esmorecimento da fé e a pouca força de nossa esperança. Na nossa visão o próprio Deus parece indiferente aos males dos homens. É como se nós também falássemos: “Mestre, isto não te diz nada?”. Mas Deus, em Jesus, respeitando infinitamente a nossa liberdade, só podia fazer uma coisa: juntar-se à nossa vida, esconder-se nas nossas tempestades e nas nossas mortes, para aí colocar a sua presença, mais forte que todas as trevas. O que Ele nos pede hoje é que sejamos firmes na fé, depositando nele a nossa confiança. Quem está com Deus não precisa ter medo. Com Ele na nossa vida, as forças do mal não terão a última palavra.

Uma conhecida história nos fala que certa vez um homem teve um sonho, e neste sonho via dois pares de pegadas que se haviam ficado gravadas na areia do deserto e compreendia que um par de pegadas eram as suas e o outro par de pegadas eram as de Jesus, que caminhava a seu lado. Em um certo momento, um par de pegadas desaparece, e compreende que isso sucedeu precisamente em um momento difícil de sua vida. Então se lamenta com Cristo, que lhe deixou sozinho, em um momento da provação. “Mas, eu estava contigo!”, respondeu Jesus. “Como é possível que estivesse comigo, se na areia só se vê um par de pegadas?”. “Eram as minhas – respondeu Jesus. Nesses momentos, eu havia te carregado”.

Lembremos disso, quando também nós sentimos a tentação de nos queixar com o Senhor por nos deixar sozinhos nos momentos de dificuldades. E que possamos despertar o Senhor que parece estar a dormir lá no fundo da barca da nossa vida, aclamemos por ele, para que possa nos ajudar a abrir o nosso coração à fé, à esperança de um futuro feito de paz, de tranqüilidade e de reconciliação. Assim seja. Um bom domingo para todos.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB.