Caros irmãos e irmãs

 

O simbolismo da vinha era muito usado pelos profetas e sábios do Antigo Testamento, certamente, porque esta era uma das características da região de Israel, singularmente caracterizada pelo cultivo da videira.  A imagem da vinha descreve com frequência na Sagrada Escritura, o projeto divino de salvação e se apresenta como uma significativa alegoria da aliança de Deus com o seu povo.  No Antigo Testamento, a vinha é também imagem do amor para com o próximo e da solidariedade para com o outro (cf. Ex 23,11; Dt 24,21; Dt 23, 24; Lv 25,3), concretizado em ações que resultam no interesse do homem para consigo e para com o próximo. O próprio Evangelho é o vinho novo, fervilhante de vida, que Jesus vai colocar nos odres novos dos corações renovados pela sua pregação.  A vinha aparece ainda como símbolo do povo que o Senhor escolheu. Assim como a vinha, o homem exige cuidado, atenção e requer uma dedicação paciente e fiel. É deste modo que Deus age com cada um de nós e é, também, assim que devemos agir com as pessoas, no âmbito do convívio fraterno.

 

E dentro deste cenário, a liturgia da Palavra deste domingo nos apresenta a Parábola dos vinhateiros homicidas, destinada a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto de salvação que Deus oferece aos homens através do seu Filho Unigênito. A carta aos hebreus também assinala: “Muitas vezes e de muitas maneiras Deus falou a nossos pais por meio dos profetas: por último nos falou em seu Filho a quem constituiu herdeiro de tudo” (Hb 1,1s).

 

No texto evangélico Jesus retoma o cântico de Isaías (cf. Is 5,1-7), com algumas adaptações, fazendo ressonâncias à nova hora da história da salvação. Jesus começa contando que o dono de um campo plantou uma vinha e a cercou de todos os cuidados, para que ela pudesse crescer com segurança e a seu tempo, dar frutos, que seriam transformados em vinho no lagar construído junto à própria vinha.  Esse proprietário teve que viajar e a arrendou para vinhateiros que, no momento oportuno, lhe entregariam os lucros obtidos com a produção.

 

Na época da colheita, o proprietário mandou emissários seus para receber o que lhe era devido.  Mas os vinhateiros prenderam uns, apedrejaram outros e mataram alguns.  Um segundo grupo de emissários, mandados em seguida, foi tratado da mesma maneira (v. 35-36).  O texto ainda diz: “O proprietário, por fim, enviou-lhe o seu próprio filho, pensando ‘ao meu filho eles vão respeitar’.  Mas os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!’  Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram”  (v. 37-39).

 

Observa-se aqui uma alusão ao fato que Jesus foi crucificado no Gólgota, fora dos muros da cidade de Jerusalém. A decisão de matar o filho, como nos narra a parábola, para “ficar com a herança”, refletiria igualmente um aspecto da legislação judaica (cf. 1Rs 21,15) e romana de então. Essa legislação previa que terceiros poderiam entrar na posse de todo e qualquer bem, quando deixasse de existir um legítimo proprietário. Jesus ainda cita, nesta parábola, um versículo do Salmo 118: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (v. 22). A expressão “pedra angular” significa a última pedra, com a qual se completa a abóbada e que garante a consistência, quanto a pedra fundamental, isto é, a primeira pedra de um edifício, sobre a qual cairá o peso inteiro da construção.

 

Podemos identificar nesta parábola que a vinha é Israel; o dono é Deus; os arrendatários, os chefes do povo judeu; os mensageiros, os profetas; o filho morto, Cristo Jesus, e o castigo de justiça é a entrega da vinha a outros.  Quem seriam estes outros? Trata-se, pois, da Igreja que é o novo Povo de Deus, o novo e verdadeiro Israel de Deus (cf. Gl 6,16).

 

A mensagem que a parábola nos deixa é que também nós somos chamados a produzir muitos frutos.  Por isso, nos fala a segunda leitura (cf. Fl 4,6-9) que devemos praticar “tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, amável, puro e louvável; tudo o que é virtuoso”. Esses são os frutos maduros que devemos produzir e não as uvas amargas do egoísmo, da rivalidade agressiva, competição desleal, intolerância e violência. Todos nós somos pecadores e também podemos ter a tentação de nos apoderarmos da vinha, por causa da ganância que nunca falta em nós, seres humanos. O sonho de Deus parece sempre confrontar com os nossos interesses pessoais. Podemos também ser como os vinhateiros infiéis, se não nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo.

 

Sem a ação do Espírito Santo em nós, podemos correr o risco de também querermos eliminar o Cristo da nossa vida.  Muitos são os que parecem perder a sua identidade religiosa, talvez sob a influência da cultura moderna. Mas, porém, quando o homem elimina Deus de seu horizonte, quando declara que Deus para ele não existe, está construindo uma falsa felicidade. Quando o homem rejeita Deus, ele se proclama proprietário absoluto de si mesmo e único dono da criação. Por isto, surge a tentação da ganância, tanto pelo dinheiro como pelo poder. O homem torna-se violento e pode até matar em nome do poder.

 

A Sagrada Escritura, no relato do assassinato de Abel por seu irmão Caim, revela, desde o começo da história humana, a presença da cólera e da cobiça no homem, consequências do pecado original (cf. Gn 4,10-11). A partir de então, o homem tornou-se inimigo de seu semelhante. No Sermão da Montanha, Jesus recorda o mandamento da lei de Deus: “Não matarás” (Mt 5,21), e acrescenta a proibição da cólera, do ódio e da vingança. A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2270).

 

Os vinhateiros homicidas da parábola são os que matam em nome de um pressuposto direito, mas, matar alguém é matar o Filho de Deus presente em cada criatura humana. Se a cólera chega ao desejo deliberado de matar o próximo ou de feri-lo com gravidade, atenta gravemente contra a caridade, constituindo um pecado mortal. Lemos no Evangelho: “Todo aquele que se encolerizar contra seu irmão terá de responder no tribunal” (Mt 5,22).

 

Mas, nas palavras de Jesus há uma promessa consoladora: a vinha não será destruída. O proprietário não abandona a sua vinha e a confia a outros servidores fiéis. Jesus, após sua morte, não permanecerá no túmulo, mas será o início de uma vitória definitiva. Após a sua dolorosa paixão e morte seguirá a glória da ressurreição. A vinha continuará então dando uva e será arrendada pelo dono “a outros lavradores que lhe pagarão o produto em seu tempo” (Mt 21, 41). A consoladora mensagem que recolhemos destes textos bíblicos é a certeza de que o mal e a morte não têm a última palavra, mas que ao final Cristo vence.  

 

A imagem da vinha, com suas implicações morais, doutrinais e espirituais, voltará ao discurso da Última Ceia, quando ao despedir-se dos apóstolos, o Senhor dirá: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o ramo que der fruto, para que produza mais fruto” (Jo 15,1-2). A Eucaristia que constantemente celebramos e na qual oferecemos a Deus o pão, fruto da terra e do trabalho do homem, e o vinho, como fruto da videira, é o sacramento que nos irmana no compromisso de construir um mundo novo. Peçamos ao Senhor, que nos entrega seu corpo e o seu sangue, no sacramento da Eucaristia, que nos faça ser a terra boa, capaz de produzir copiosos frutos de amor e de acolhimento, e que possa nos propiciar o acesso à vida eterna.  Assim seja.

 
Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento-RJ