A descida do Espírito Santo

Jo 20,19-23

 

Meus caros irmãos e irmãs,

O tema deste domingo é sobre o Espírito Santo, que é o Dom de Deus a todos os crentes, o Espírito que dá vida, renova, transforma e faz nascer o homem novo.  Quando já estava iminente para Jesus Cristo o tempo de deixar este mundo, ele anunciou aos apóstolos um outro Defensor (cf. Jo 14,16). O evangelista São João escreve que, durante a ceia pascal, no dia anterior à sua paixão e morte, Jesus se dirigiu a eles com estas palavras: “Tudo o que pedirdes em meu nome, eu o farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho.  Eu pedirei ao pai, e ele vos dará um outro Defensor, que ficará para sempre convosco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,13.16-17). E ainda completa: “Mas, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito” (Jo 14,26).

O próprio Jesus tinha preparado os seus apóstolos para a vinda do Espírito Santo, aparecendo a eles várias vezes após a sua ressurreição (cf. At 1,3). Antes da Ascensão ao céu, pediu que não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem que se cumprisse a promessa do Pai (cf. At 1,4s). Solicitou ainda que permanecessem juntos para que pudessem receber o dom do Espírito Santo.  E eles reuniram-se em oração com a Virgem Maria no Cenáculo à espera do acontecimento prometido (cf. At 1,14).

O Cenáculo, a “sala no andar de cima” onde Jesus realizara a última Ceia com os seus Apóstolos, torna-se agora a sede da Igreja nascente (cf. At 1,13).  O texto bíblico, além de fazer uma referência ao lugar físico, mostra também a atitude interior dos discípulos: “Todos, unidos pelo mesmo sentimento, se entregavam assiduamente à oração” (At 1,14).  

O livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra que depois de ter passado quarenta dias com seus discípulos, o Senhor ressuscitado subiu ao céu. No quinquagésimo dia, enviou o Espírito Santo: “Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído como de um forte vento.  Então apareceram línguas como de fogo, que se repartiram sobre cada um deles. E começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia expressar-se” (At 2,1-4). Animados pelo Espírito Santo, os apóstolos serão capazes de testemunhar, com gestos e com palavras, os ensinamentos de Jesus.

Segundo Santo Agostinho, aquelas línguas faladas pelos que estavam repletos do Espírito Santo prefiguravam a futura Igreja, que haveria de se difundir entre as línguas de todos os povos.  De fato, após o dilúvio, a soberba dos homens construiu uma torre elevada contra o Senhor, e o gênero humano mereceu ser dividido em línguas diversas, começando cada povo a falar sua língua, para não ser entendido pelos outros povos… Os membros dispersos do gênero humano, como membros de um único corpo, voltam a ser unificados na única cabeça que é Cristo, fundidos na unidade de seu santo corpo pelo fogo do amor (cf. S. AGOSTINHO, Sermo 8,1: PL 65, 742-743).

As línguas próprias de cada povo se tornaram comuns, começando a ressoar pelo mundo inteiro a pregação do Evangelho.  A partir de então, uma chuva de carismas e rios de bênçãos irrigaram todo deserto e toda terra árida, a fim de renovar a face da terra (cf. S. LEÃO MAGNO, Tract. 75, 1-3).  A Igreja que nasce no Pentecostes não constitui, acima de tudo, uma comunidade particular, a Igreja de Jerusalém, mas sim a Igreja universal, que fala as línguas de todos os povos (cf. BENTO XVI, Homilia para a festa de Pentecostes, 11 de maio de 2008).

A página evangélica deste domingo nos conduz ao primeiro encontro de Jesus ressuscitado com os seus apóstolos.  O Evangelista São João nos diz que foi justamente neste primeiro encontro que Jesus comunicou o seu Espírito aos apóstolos, mediante o gesto de soprar sobre eles.  Jesus começa por saudá-los, desejando-lhes “a paz”, em hebraico, “shalom”. Esta expressão “shalom”, não é uma simples saudação; é muito mais: é o dom da paz prometida (cf. Jo 14,27) e conquistada por Jesus ao preço do seu sangue, é o fruto da sua vitória na luta contra o espírito do mal. Portanto, trata-se de uma paz “não como o mundo a oferece”, mas somente como Deus a pode conceder.

A paz é um dom messiânico; mas, neste contexto, significa, sobretudo, a transmissão da serenidade, da tranquilidade, da confiança, que permitirão aos discípulos superar o medo e a insegurança: a partir de agora, nem o sofrimento, nem a morte, nem a hostilidade do mundo poderão derrotar os discípulos, porque Jesus ressuscitado está com eles. Mas a paz é ainda um bem inestimável e todos nós somos chamados a ser um sinal e instrumento dessa paz de Deus para todos.

Em seguida, nos narra o texto bíblico que Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado” (v. 20), sinais que evidenciam a entrega de Jesus, o amor total expresso na cruz. São nesses sinais que os discípulos reconhecem Jesus, logo depois ocorre a comunicação do Espírito. O gesto de Jesus de soprar sobre os discípulos reproduz o gesto de Deus ao comunicar a vida ao primeiro homem vindo da terra (cf. Gn 2,7). Com o sopro de Deus, o homem se tornou um ser vivente, e agora, com esse novo sopro, Jesus transmite aos discípulos a vida nova e faz nascer o homem novo.

Para a nova criação Deus enviou um novo Adão, Seu próprio Filho Jesus Cristo.  Tirou-o da carne da Virgem Maria, como no início tirara Adão da virgem terra, “por virtude do Espírito Santo” (Mt 1,18).  O Espírito Santo marca também aqui o início de uma nova fase na história da salvação (cf. Lc 1,35).

Toda a vida de Jesus se desenvolve sob a ação do Espírito Santo: é o Espírito Santo que guia todas as suas escolhas e opera os prodígios que Ele realiza junto aos doentes, aos oprimidos pelo demônio, aos pecadores.  No batismo do Jordão “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder” (At 10,38).

Como nos diz o texto evangélico, Jesus soprou sobre os Apóstolos e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,21-23). Pelo dom do Espírito Santo é também concedido aos apóstolos o poder escatológico de perdoar ou reter os pecados. Com isto, podemos dizer que o Cristo Senhor confere à Igreja o poder do perdão. E a fórmula atual com que o sacerdote absolve o penitente lembra o mistério da Ressurreição e a vinda do Espírito Santo.  Declara que Deus, “pela morte e ressurreição de seu Filho reconciliou o mundo consigo, e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados”, e pede que “pelo ministério da Igreja”, sejam concedidos ao penitente, através do Espírito Santo, “o perdão e a paz”. Portanto, o perdão é uma manifestação da paz e da alegria, uma paz que existe mediante a expulsão do pecado, pois não há paz para os ímpios (cf. Is 48,22). Pelo sacramento da reconciliação somos novamente reintegrados na amizade com Deus.

O pecado é, antes de mais, ofensa a Deus, ruptura da comunhão com Ele. Ao mesmo tempo, é um atentado contra a comunhão com a Igreja. É por isso que a conversão traz consigo, ao mesmo tempo, o perdão de Deus e a reconciliação com a Igreja, o que é expresso e realizado liturgicamente pelo sacramento da Penitência e Reconciliação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1440).  Só Deus perdoa os pecados (cf. Mc 2,7). Jesus, porque é Filho de Deus, diz de si próprio: “O Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados” (Mc 2,10) e exerce este poder: “Os teus pecados são-te perdoados!” (Mc 2,5). Em virtude da sua autoridade divina, concede este poder aos homens para que o exerçam em seu nome.

Suplicamos uma vez mais a intercessão da Virgem Maria, para sermos sempre mais fortalecidos na fé pela força do Espírito Santo e saibamos pedir com frequência: “Envia o teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra” (Sl 104,30).  Assim seja.

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ