Os Dez Mandamentos

  A Quaresma é um tempo de conversão e de renovação. Mas não acontece verdadeira e autêntica renovação se não se passa por uma corajosa revisão da própria vida moral e da própria vida litúrgica ; com palavras mais simples, dos próprios costumes e da própria oração.

  Ensina São Leão Magno: “A Quaresma é tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro. Convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossa vontade e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a Deus.”

  A liturgia do terceiro domingo nos apresenta, na primeira leitura, o trecho de Êxodo 20,1-17, o Decálogo. Não pronunciarás o nome do Senhor Teu Deus em vão; lembra-te de santificar o dia de sábado; honra teu pai e tua mãe; não matarás; não cometerás adultério; não furtarás; não levantarás falso testemunho; não cobiçarás as coisas do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo. Um pormenor chama imediatamente a nossa atenção: a enunciação dos Dez Mandamentos é introduzida por uma significativa referência à libertação do povo de Israel. O texto diz: “Eu sou o Senhor teu Deus, que ti fiz sair da terra do Egito, da casa da servidão” (Ex 20, 2). Por conseguinte, o Decálogo deseja ser uma confirmação da liberdade conquistada. Com efeito, se considerarmos profundamente, os Mandamentos são o instrumento que o Senhor nos concede para defender a nossa liberdade, tanto dos interiores condicionamentos das paixões, como dos abusos exteriores dos mal-intencionados. Os “não” dos Mandamentos são outros tantos “sim” ao crescimento de uma liberdade autêntica.  O Decálogo é testemunho de um amor de predileção.

  Estes dez mandamentos foram a base da vida moral, antes do povo hebreu e depois do povo cristão. Não contém toda a lei; sua forma negativa (“não fazer”) indica que se trata de alguns limites que delimitam um âmbito moral, antes que descrevê-lo positivamente; dentro devem ser colocados “toda a lei e os profetas” e de maneira especial o mandamento do amor que os resume a todos (Mt 22,40). É precisamente este caráter “negativo” que assegura aos dez mandamentos sua perene, imutável atualidade.

  No início, eles não são percebidos nem mesmo como lei, mas como evento: o povo entra na aliança com Deus e os mandamentos são um sinal de sua pertença ao Senhor; são a proclamação de seu caráter de povo eleito, diferente de todos, isto é, santo. Daqui o fato, surpreendente para nós, de que Israel não fala da lei como um peso, ou de uma imposição, mas como de um dom sumamente grande, de um facho que ilumina meus passos (Sl 118,105); fala dela com paixão e com um desmedido orgulho: Ditosos somos nós, Israel, porque a nós foi revelado o que agrada a Deus!  (Br 4,4).

  O Decálogo é uma escolha de vida que Deus propõe ao homem: Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal; observes seus mandamentos, suas leis e seus preceitos […] para que vivas e te multipliques […] se não obedeceres e se te deixares seduzir eu te declaro neste dia: perecereis (Dt 30,15 ss). O Decálogo é para o homem, não contra ele; não quer amarrar ou limitar sua liberdade, mas antes soltá-la. Aquilo que proíbe não é, com efeito, algo arbitrário que desagrada a Deus não se sabe por que, mas é o que compromete antes de tudo o próprio homem e sua possibilidade de ter relações equilibradas com os outros, de ser, em outras palavras, autenticamente homem.

  Diz S. Paulo: Nós pregamos Cristo crucificado […] força de Deus e sabedoria de Deus (1Cor 1,23). Faz-nos compreender que agora tudo –inclusive a Lei- toma sentido a partir de Jesus Cristo. Nós não estamos mais sozinhos diante a lei; entre nós e o Decálogo existe no meio Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Ele é a “sabedoria de Deus” para nós, isto é, a nossa lei.

  Para sermos discípulos do Senhor, temos de seguir o seu conselho: Se alguém quiser vir após de mim, renuncia a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. As palavras de Jesus Cristo têm plena vigência em todos os tempos, uma vez que foram dirigidas a todos os homens, pois quem não carrega a sua cruz e me segue – diz-nos Ele a cada um – não pode ser meu discípulo (Lc 14,27).

  Carregar a cruz – aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã – é condição indispensável para seguir o Mestre.

  Eis como a Palavra de Deus se torna hoje ocasião de renovação quaresmal. Ela nos impele com uma força incomum a nos lavar, a nos purificar, a tirar o mal que há em nossas ações (Is 1,16), a eliminar o fermento velho, para ser uma massa nova e celebrar assim, dentro em breve, a festa do Senhor com ázimos de sinceridade e de verdade (1Cor 5,7s).

Mons. José Maria Pereira

 

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O CHICOTE E A CRUZ

No Evangelho (Jo 2, 13-25) Jesus se apresenta “expulsando os vendedores de bois, ovelhas, pombas e os cambistas”. O Templo era um lugar muito sagrado para os judeus, todo judeu deveria ir ao templo ao menos uma vez por ano para oferecer um sacrifício a Deus. Como bom judeu, Jesus exige respeito pelo templo. Desrespeitá-lo significava desrespeitar o próprio Deus, pois templo significa a presença de Deus entre os seres humanos. A Palavra templo vem do grego e significa lugar separado do profano para Deus, onde habita Deus. Assim, templar significa morar no templo e contemplar, morar com Deus, estar no espaço de Deus, habitar com Deus.

O gesto ousado de Cristo não é apenas zelo de purificação do templo. As ofertas para os sacrifícios faziam girar muito dinheiro e provocavam abusos e exploração. “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2, 16). As relações do homem com Deus, e também para com o próximo, têm que ser orientadas pela retidão, pela sinceridade; pode acontecer que, no culto divino ou na observância de determinado preceito do Decálogo (os Dez Mandamentos) se preste maior atenção ao aspecto externo legalista, do que ao interno e, assim, poderá chegar-se, pouco ou muito, à profanação do templo, da religião, da Lei de Deus. São João afirma que Jesus purificou o templo, expulsando dele os vendedores com as suas mercadorias, quando já estava próxima a “Páscoa dos Judeus”.

A Igreja, durante a quaresma, caminhando para a Páscoa, parece repetir o gesto de Jesus, convidando os cristãos à purificação do templo do seu coração para que possam prestar a Deus um culto mais purificado. Jesus falou de outro templo, infinitamente digno, “o Templo do Seu Corpo” (Jo 2, 21), ao qual fazia alusão quando dizia: “Destruí este Templo, e em três dias Eu o levantarei” (Jo 2,19).

Jesus identifica o Templo de Jerusalém com Seu próprio Corpo, e deste modo refere-se a uma das verdades mais profundas sobre Si mesmo: a Encarnação. Depois da Ascensão do Senhor aos Céus essa presença real e especialíssima de Deus, no meio dos homens, continua no sacramento da Eucaristia

Ao falar da destruição do Templo e da sua reconstrução em três dias, Jesus quer indicar a grandiosidade do milagre da Sua Ressurreição: Jesus recorre a uma metáfora, é como se dissesse: Vede este Templo? Pois bem, imaginai-o destruído. Não seria um grande milagre reconstruí-lo em três dias? Isso farei Eu como sinal. Porque vós destruireis o Meu Corpo, que é o Templo verdadeiro, e Eu o voltarei a levantar ao terceiro dia.

Jesus purificou o templo de seus profanadores e nos convida a purificar também o templo de nosso coração.

Jesus nos convida a sermos templos no qual está presente Deus e nele se oferece um verdadeiro culto em espírito e em verdade…

A Quaresma é tempo de conversão! Tempo de Jejum, oração, e por isso é tempo do amor, a força maior de conversão. Aproveitemos bem esse tempo fazendo a Via Sacra, meditando no amor de Deus por nós. Meditemos na Cruz! Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. Carregar a cruz, aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para a nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã é condição indispensável para seguir o Mestre. “Que seria de um Evangelho, de um cristianismo sem Cruz, sem dor, sem o sacrifício da dor?, perguntava-se o  Beato Papa Paulo VI. Seria um Evangelho, um cristianismo sem Redenção, sem Salvação, da qual temos necessidade absoluta. O Senhor salvou-nos por meio da Cruz; com sua morte, devolveu-nos a esperança, por meio da Cruz; com sua morte devolveu-nos a esperança, o direito à Vida”. Diz São Leão Magno que seria um cristianismo desvirtuado que não serviria para alcançar o Céu, pois “o mundo não pode salvar-se senão por meio da Cruz de Cristo.”

Preparemo-nos para a Páscoa com jejum e oração! “Se não te mortificas, nunca serás alma de oração” (São Josemaria Escrivá, Caminho nº 172). E Santa Teresa ensina: “Pensar que o Senhor admite na sua amizade gente regalada e sem trabalhos é disparate”.

Todos nós somos chamados a sermos Templo de Deus em Cristo Jesus. Vivamos a sabedoria ou a loucura da Cruz.

Mons. José Maria Pereira