Conversão e Seguimento

O início da atividade apostólica de Jesus, para S. Marcos, é um convite à conversão (Mc 1, 14-20).  Quando  Jesus começou a pregar, as primeiras palavras que disse foram estas :

“Completou – se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei – vos e crede na Boa Nova” ( Mc1,15).

Acabou-se o tempo das promessas e da espera: O Messias chegou e está começando o seu ministério! A sua presença é a plenitude dos tempos, tornando-os veículos da misericórdia de Deus e da história da salvação.

Para acolher Jesus, a condição primeira é a conversão, a mudança profunda de vida que exige, sobretudo, a luta contra o pecado e, consequentemente, a rejeição de tudo aquilo que o pode desviar do amor e da Lei de Deus. Uma conversão parecida à que Deus exigiu à cidade de Nínive, por meio da pregação de Jonas, e que os seus habitantes praticaram, abandonando “o seu mau caminho” (Jn 3, 10). Mas, a fuga do pecado é apenas a primeira fase da conversão anunciada por Jesus, que exige também um segundo momento que é destacado no Evangelho: “Acreditai na Boa-Nova”. O cristão tem que aderir positivamente ao Evangelho com uma fé vivificada pelo amor, que não se fica apenas na sua aceitação teórica, mais procura evidenciá-lo com a vida prática. É necessário e urgente, pois, deixar de lado a mentalidade terrena que faz com que o homem viva e atue apenas com vistas à felicidade e aos interesses temporais. O Evangelho diz: Convertei – vos!  Paulo esmiúça esta importante palavra em algumas atitudes mais concretas; diz – nos: os que têm mulher vivam como se não tivessem(…) os que choram, como se não chorassem. “A aparência (a figura) deste mundo passa”, adverte S. Paulo (1 Cor 7,29 – 31). Estamos diante de um paradoxo: Quem está casado, viva como se não o estivesse! É uma palavra forte, aparentemente em contraste com todas as coisas belas que, em outras circunstâncias, a Palavra de Deus nos disse sobre o matrimônio. Mas o contraste é somente aparente. Ela se atém apenas a explicar a palavra dita por Jesus aos saduceus, a respeito da mulher que tinha passado por sete maridos: “Neste mundo, homens e mulheres casam – se, mas os que forem julgados dignos de participar do mundo futuro e da ressurreição dos mortos não se casam…” ( Lc20, 34s).

É preciso criar-se uma consciência cristã capaz de fomentar desejos, intenções, hábitos, e comportamentos em total sintonia com o Evangelho de Cristo. E isto é tão urgente quanto “o tempo é breve” (1 Cor 7, 29), brevidade esta fixada precisamente pela vinda de Cristo e da qual não fica mais que uma fase histórica, ou seja, a que separa o dia de hoje da sua última vinda. O tempo não tem mais que um sentido: acertar os passos do homem – individual ou coletivamente – no seu caminho para a eternidade.

A Palavra de Deus nos leva a refletir numa dimensão essencial da vida cristã: a provisoriedade, viver como peregrinos e forasteiros. Diz – nos São Pedro: “”Caríssimos, eu vos exorto como a migrantes e forasteiros: afastai – vos das paixões carnais, que fazem guerra a vós mesmos.”. Estes termos nos lembram que o nosso viver é provisório, com o pé na estrada, impelidos pela pressa, mas uma pressa boa que se chama fervor, como a dos hebreus quando estavam para deixar o Egito ( Cf. Ex 12,11). Não temos aqui cidade permanente, mas estamos à procura da que está para vir. Nós somos cidadãos do céu… ( Hb 13,14 e Fl 3,20).

O convite à conversão estende-se a todos os povos. O tema da conversão e da penitência poderia parecer um tema quaresmal. Porém não é assim! Toda a nossa vida deve ser marcada pela conversão; o ano todo é tempo de conversão; a vida toda é tempo de conversão!

Converter-se significa crer no Evangelho, ou seja, significa pautar a vida pela Boa-Nova, ou o Evangelho de Deus. Significa entrar no discipulado de Cristo. É pautar a nossa vida segundo os ensinamentos e os exemplos do próprio Cristo, em relação a Deus, como seus filhos; em relação ao próximo, como nosso irmão e irmã.

No Evangelho somos chamados, como Simão e André, a aceitar o convite de Jesus: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens” (Mc 1, 17). Entramos no discipulado de Jesus se fizermos como Tiago e João: “Jesus os chamou. E eles, deixando o pai Zebedeu na barca com os empregados, o seguiram” (Mc 1, 19-20).

Estes homens deixaram tudo imediatamente e seguiram o Mestre.

Para seguirmos o Senhor, é preciso que tenhamos a alma livre de todo o apegamento; em primeiro lugar, do amor próprio, da preocupação excessiva pela saúde, pelo futuro…, pelas riquezas e bens materiais. Porque, quando o coração se enche dos bens da terra, já não resta lugar para Deus. Por isso o cristão necessita de uma vigilância contínua, de um exame frequente, para que os bens criados não o impeçam de unir-se a Deus, antes sejam um meio de amá-Lo e servi-Lo.

Ensina o concílio Vaticano II, na Lumen Gentium: “Cuidem todos, portanto, de dirigir retamente os seus afetos, para que, por causa das coisas deste mundo e do apego às riquezas, não encontrem um obstáculo que os afaste, contra o espírito de pobreza evangélica, da busca da caridade perfeita, segundo ensinamento de S. Paulo: “Os que usam deste mundo, como se dele não usassem. Pois a figura deste mundo passa” (1 cor 7,31); (LG. 42).

Cristo continua dirigindo ainda hoje o mesmo apelo: “Vinde após mim e eu farei de vós pescadores de homens” (Mc 1, 17).

É um chamamento para aderir à pessoa de Jesus, para fazer aprender com Ele a ser uma pessoa nova que vive no amor a Deus e aos irmãos.

Todos os batizados são chamados a ser discípulos de Jesus, a “Converter-se”, a acreditar no Evangelho, a seguir Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida.

Mons. José Maria Pereira