A Vinha: Frutos e Missão.

O Profeta Isaías (Is 5, 1-7) mostra como Deus manifestou o seu amor, os seus cuidados pela vinha, por Israel, o povo eleito e a falta de correspondência a esse amor. Descreve Israel como uma plantação de Deus, tratada com todos os cuidados possíveis: “Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu: um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta. Cercou-a, limpou-a de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu um lagar: esperava que ela produzisse uvas boas, mas produziu uvas azedas. O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” ( Is 5, 1-4 ).

A Palestina era um lugar rico em vinhedos, e os Profetas recorreram com frequência a essa imagem, tão conhecida por todos, para falar do Povo eleito. Israel era a vinha de Deus, a obra do Senhor, a alegria do seu coração. O próprio Senhor, como se lê em Mt 21, 33-43, referindo-se ao Profeta Isaías, revela-nos a paciência de Deus, que manda os seus mensageiros, um após outro, em busca de frutos. Por fim, envia o seu Filho amado, o próprio Jesus, que os vinhateiros acabarão por matar: “E, lançando- lhe as mãos, puseram-no fora da vinha e mataram-no.” É uma referência clara à crucifixão, que teve lugar fora dos muros de Jerusalém.

Historicamente ou literalmente, a vinha descreve o povo hebreu, que não correspondeu aos cuidados divinos; mas é também a Igreja, bem como cada um de nós: “Cristo é a verdadeira videira, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós que pela Igreja permanecemos nEle e sem Ele nada podemos fazer” (Jo 15, 1-5). A história é evocada pelo Salmo 79 (80). É uma alusão clara ao destino do povo de Israel: tendo recusado os profetas e maltratado “o Filho”, ele vai ser disperso e o herdeiro das promessas será outo povo.

Meditemos hoje se o Senhor pode encontrar frutos abundantes na nossa vida; abundantes porque é muito o que nos foi dado. Frutos de caridade, de trabalho bem feito, de apostolado com os amigos e familiares; jaculatórias, atos de amor de Deus e de desagravo ao longo do dia, ações de graças, contrariedades acolhidas com paz, pequenos sacrifícios praticados discretamente e com toda a naturalidade. Examinemos também se, ao mesmo tempo, não produzimos essas uvas amargas que são os pecados, a tibieza, a mediocridade espiritual, a desordem, as faltas de que não pedimos perdão ao Senhor…

A Vinha foi cercada, fez nela um lagar… A cerca, o lagar e a torre significam que Deus não economizou nada para cultivar e embelezar a sua vinha.

Esperava uvas boas e produziu uvas azedas. O pecado é o fruto amargo das nossas vidas. A experiência das fraquezas pessoais ressalta com demasiada evidência na história da humanidade e na de cada homem. “Ninguém se vê inteiramente livre da sua fraqueza, solidão ou servidão. Antes pelo contrário, todos precisam de Cristo modelo, mestre, libertador, salvador e vivificador” (Ad Gentes, 8). Os nossos pecados estão inteiramente relacionados com essa morte do Filho amado, de Jesus.

Para produzirmos os frutos de vida que Deus espera diariamente de cada um de nós, temos em primeiro lugar de pedir ao Senhor e fomentar uma santa aversão por todas as faltas – mesmo veniais- que ofendem a Deus. Os descuidos na caridade, os juízos negativos sobre esta ou aquela pessoa, as impaciências, os agravos não esquecidos, a dispersão dos sentidos internos e externos, o trabalho mal feito…, “ fazem muito mal à alma. Por isso, diz o Senhor no Cântico dos Cânticos: caçai as pequenas raposas que destroem a vinha” (Caminho, 329). É necessário que nos empenhemos continuamente em afastar tudo aquilo que não é grato ao Senhor. A alma que detesta o pecado venial deliberado, pouco a pouco vai crescendo em delicadeza e em finura no trato com o Mestre.

São Paulo (Fl 4, 6-9) lembra que na nossa fraqueza é preciso que nos apoiemos na oração. Devemos pedir a graça da fidelidade para que possamos dar muitos frutos, guardando nossos corações e pensamentos, em Cristo Jesus.

Somos todos nós, membros do Povo de Deus, a Igreja, que tem a missão de produzir seus frutos, para não frustrar as esperanças do Senhor na hora da colheita.

Que frutos estamos produzindo para a realidade do Reino de Deus? Nesse Mês Missionário, somos convidados a renovar com Deus a Aliança. Se hoje não somos missionários, não é esse um sinal de que estamos sendo maus vinhateiros?

O povo a quem foi confiado o Reino somos nós, cristãos, que formamos a Igreja. Nós somos agora, em sentido especial, a vinha de Deus.

“Ao chamar os seus para que O sigam, Jesus lhes dá uma missão precisa: anunciar o Evangelho do Reino a todas as nações (cf. Mt 28, 19 ;  Lc 24, 46-48). Por isso, todo discípulo é missionário, pois Jesus o faz partícipe de sua missão, ao mesmo tempo que o vincula como amigo e irmão. Cumprir essa missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã, porque é a extensão testemunhal da Vocação mesma” (Aparecida, 144).

Interessa que permaneça a fé em Jesus Cristo, a aceitação de sua Palavra. Se esta faltar como videira, somos rejeitados, somos galhos secos.

A Palavra de Deus é ainda mais séria se aplicada a cada um de nós. Deus nos deu tudo. Plantou – nos na Igreja, enxertados em Jesus Cristo no Batismo, podou – nos e nos alimentou. Agora, tem direito de vir pedir os frutos. E vem, com efeito, também se nós não percebemos suas visitas. Vem como o dono vinha procurar figos em sua árvore e não encontrava senão folhas. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto ( Jo 15, 1- 2 ).

A Palavra de Deus se nos apresenta hoje feita espada que penetra  em nós e nos obriga a tomar posição, coloca – nos em estado de ter de  decidir. O que queremos ser? Um ramo unido a Cristo, à sua Palavra, a seus sacramentos, em estado de crescimento (e, por isso, de conversão), ou um ramo estéril, coberto somente de folhas, isto é, um cristão  de palavras, não de fatos?

Voltemos a nos unir à videira! A Eucaristia nos oferece a possibilidade de reativar em nós o nosso Batismo e a circulação daquela seiva que vem da videira.

Nesta perspectiva consideremos e meditemos nas palavras de S. Paulo: “Irmãos ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor; é o que deveis ter no pensamento” (Fl. 4,8).

Mons. José Maria Pereira