O Batismo de Jesus! O Batismo de Crianças!
Dom José Maria Pereira
Hoje, celebra-se a Festa do Batismo do Senhor, que encerra o tempo de Natal. A Liturgia propõe-nos a narração do Batismo de Jesus, no Jordão, por São João Batista (Mt 3, 13-17).
Segundo a narração do Evangelista Mateus (3, 17-23), Jesus foi da Galileia ao Rio Jordão, para ser batizado por João; com efeito, de toda a Palestina acorriam para ouvir a pregação deste grande profeta, o anúncio do advento do Reino de Deus, e para receber o batismo, ou seja, para se submeter àquele sinal de penitência que chamava à conversão do pecado. Embora se chamasse batismo, ele não tinha o valor sacramental do rito que hoje celebramos; com efeito, é com sua Morte e Ressurreição que Jesus instituiu os Sacramentos e faz nascer a Igreja. O batismo administrado por João era, principalmente, um ato penitencial, um gesto que
convidava à humildade, diante de Deus, para um novo início: mergulhando na água, o penitente reconhecia que tinha pecado, implorava de Deus a purificação das próprias culpas e era convidado a mudar os comportamentos equívocos.
O Senhor desejou ser batizado, diz Santo Agostinho, “para proclamar, com a sua humildade, o que para nós era uma necessidade”. Com o Batismo de Jesus, ficou preparado o Batismo cristão, diretamente instituído por Jesus Cristo e imposto, por Ele, como lei universal, no dia da sua Ascensão: Todo poder me foi dado no céu e na terra, dirá o Senhor; ide, pois, ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 18-19).
O dia em que fomos batizados foi o mais importante da nossa vida, pois nele recebemos a fé e a graça. Antes de recebermos o batismo, todos nós nos encontrávamos com a porta do Céu fechada e sem nenhuma possibilidade de dar o menor fruto sobrenatural.
Devemos agradecer a Deus a Graça do Batismo. Agradecer que nos tenha purificado a alma da mancha do pecado original, bem como de qualquer outro pecado que tivéssemos naquele momento. A água batismal significa e atualiza, de um modo real, o que é evocado pela água natural: a limpeza e a purificação de toda a mancha e impureza.
“Graças ao Sacramento do Batismo tu te converteste em templo do Espírito Santo: não te passe pela cabeça – exorta São Leão Magno – afugentar, com as tuas más ações, um hóspede tão nobre, nem voltar a submeter-te à servidão do demônio, porque o teu preço é o sangue de Cristo.”
O Batismo é o início da vida espiritual, que encontra a sua plenitude por meio da Igreja. No momento propício do Sacramento, enquanto a comunidade eclesial reza e confia a Deus um novo filho, os pais e os padrinhos comprometem-se a acolher o recém-batizado, apoiando-o na formação e na educação cristã. Esta é uma grande responsabilidade, que deriva de um grande dom! Por isso, desejo encorajar todos os fiéis a redescobrirem a beleza de serem batizados e a darem jubiloso testemunho da própria fé, para que esta fé gere frutos de bem e de concórdia.
Na Igreja, ninguém é um cristão isolado. A partir do Batismo, o cristão passa a fazer parte de um povo, e a Igreja apresenta-se como a verdadeira família dos filhos de Deus. O Batismo é a porta por onde se entra na Igreja.
Ora, batismo não é uma espécie de inscrição em clube de futebol. Não querer batizar é não querer o filho como filho de Deus e herdeiro do céu, e fortalecido por graça imensa. O mundo e o diabo não esperarão que os filhos deles tenham vinte anos para inocular o veneno do mal.
Ademais, para serem coerentes com essa mentalidade, não deveriam ensinar nada, devendo deixar que decidam tudo quando forem maiores. Meus pais não esperaram ser maior para pedir permissão de me colocar no colégio.
E quando os pais geram os filhos, perguntam se eles querem vir ao mundo? Não. Então, esperar para pedir permissão para dar o maior presente: a vida divina oferecida por Deus?
Supõe-se que os pais tenham fé e queiram ajudar a desenvolver o dom da fé. Essa é a responsabilidade dos pais. Por isso, a Igreja não quer que uma criança seja batizada contra a vontade dos pais. O batismo de bebês acontece tendo como fiança a fé dos pais.
“E na Igreja, precisamente, pelo Batismo, somo todos chamados à santidade” (LG 11 e 42), cada um no seu próprio estado e condição. A chamada à santidade e a consequente exigência de santificação pessoal são universais: todos, sacerdotes e leigos, estamos chamados à santidade; e todos recebemos, com o Batismo, as primícias dessa vida espiritual que, por sua própria natureza, tende à plenitude. É importante lembrar o caráter sacramental do Batismo “um certo sinal espiritual e indelével,”impresso na alma (Dz, 852). É como um selo que exprime o domínio de Cristo sobre a alma do batizado. Cristo tomou posse da nossa alma no momento em que fomos batizados. Ele nos resgatou do pecado com a sua Paixão e Morte.
Com essas considerações, é fácil compreender por que é de desejar que as crianças recebam logo o Batismo. Desde cedo, a Igreja pediu aos pais que batizassem os seus filhos, o quanto antes. É uma demonstração prática de fé. Não é um atentado contra a liberdade da criança, da mesma forma que não foi uma ofensa dar-lhe a vida natural, nem alimentá-la, limpá-la, curá-la, quando ela própria não podia pedir esses bens. Pelo contrário, a criança tem direito a receber essa graça. No Batismo, está em jogo um bem infinitamente maior do que qualquer outro: a Graça e a Fé; talvez a salvação eterna. Só por ignorância e por uma fé adormecida se pode explicar que muitas crianças sejam privadas pelos seus próprios pais, já cristãos, do maior
dom da sua vida.
Também nós fomos marcados pelo Espírito Santo. No Batismo, Ele se derramou sobre nós.
Fomos chamados a viver segundo o Espírito. Isso significa um ato de fé na presença atuante do Espírito Santo em nós. Implica uma disponibilidade para deixar-se conduzir por ele a fim de realizar uma missão como a de Cristo.
Em virtude do Batismo, somos chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo. Como diz o Documento de Aparecida, nº 209: “Os fiéis leigos são os cristãos que estão incorporados a Cristo pelo Batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Realizam, segundo a sua condição, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. São homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja.”
“Enquanto batizado, o homem deve sentir-se enviado pela Igreja a todos os campos de atividade que constituem sua vocação e missão, para dar testemunho como discípulo e missionário de Jesus Cristo…” (nº 460, do Documento de Aparecida).
Disse São João Paulo ll, na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, no término do Grande Jubileu do ano 2000: “Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para o qual deve tender todo caminho pastoral é a santidade. Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus, mediante a inserção em Cristo e a habitação de seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: “Queres receber o Batismo?,” significa, ao mesmo tempo, pedir-lhe: “Queres
fazer-te santo?”. Significa colocar em sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,48), números 30 e 31.
Diz São João, na sua primeira carta: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu, de sermos chamados filhos de Deus! E nós somos!” (1Jo 3,1).
Portanto, pelo Batismo, somos chamados à santidade! “Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão, na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque “a vontade de Deus é que sejais santos” (1Ts 4,3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa a refletir e a encarnar, em um momento determinado da história, um aspecto do Evangelho.
Essa missão tem o seu sentido pleno em Cristo e só se compreende a partir dele. No fundo, a santidade é viver em união com Ele os mistérios da sua vida…” (Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, n. 19).
Há, no Rito do Batismo, um sinal eloquente, que expressa, precisamente, a transmissão da fé, que é a entrega, a cada um dos batizandos, de uma vela que se acende no Círio Pascal: é a Luz de Cristo ressuscitado que os pais e padrinhos se comprometem a transmitir aos filhos e afilhados. Assim, de geração em geração, nós, cristãos, transmitimo-nos a luz de Cristo, de modo que, quando Ele voltar, possa encontrar-nos com esta chama ardente, nas mãos.
Durante o Rito, diz o celebrante: “A vós, pais e padrinhos, é confiado este sinal pascal, chama que deveis alimentar sempre.” A Missão dos pais e padrinhos é alimentar sempre a chama da fé com a escuta e a meditação da Palavra de Deus e com a comunhão assídua com Jesus Eucaristia.
Invoquemos a proteção materna de Maria Santíssima, “Auxilio dos Cristãos”, sobre todos os batizados! Rezemos por todos os cristãos, para que possam compreender, cada vez mais, o dom do Batismo e se comprometam a vivê-lo com coerência, testemunhando o amor do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Gostaria de convidar todos a fazer memória do nosso próprio Batismo, daquele renascimento espiritual que nos abriu o caminho da vida eterna. Possa, cada cristão, redescobrir a beleza de ter renascido do alto, do amor de Deus, e viver como verdadeiro filho de Deus.
Você sabe a data de seu Batismo? Vale a pena procurar saber e celebrar, com festa, todos os anos, pois é a data mais importante de sua vida: o dia que se tornou filho (a) de Deus!
Dom José Maria Pereira
