Prioridade Pastoral

 

O plano de salvação, apresentado hoje na segunda leitura (Ef. 1,3-14), pode servir, como ponto de partida, para a meditação sobre a liturgia da palavra. S. “Paulo remonta-se ao chamamento eterno dos crentes à salvação, abençoados em Cristo, eleitos “antes da criação do mundo”, predestinados por Deus a que nos tornássemos seus filhos”. Este grandioso desígnio de misericórdia realiza-se por meio de Cristo Jesus; o Seu sangue redime os homens do pecado e confere-lhes “a riqueza da Sua graça. Mas, exige também a colaboração de cada um: a fé e o empenho pessoal para ser, na caridade, santos e irrepreensíveis diante d’Ele.

Ninguém pode pensar que tal chamada à salvação e à santidade se esgote, atendendo apenas ao próprio bem pessoal; não seria, pois, santidade cristã, que se realiza na caridade de Cristo, que deu a vida para a redenção da humanidade inteira, e na caridade do Pai celestial que abraça todos os homens.

  1. Paulo vai especificando cada uma das bênçãos ou benefícios que estão contidos no projeto (plano) eterno de Deus. A primeira destas bênçãos é a escolha, antes da criação do mundo, daqueles que iam fazer parte da Igreja.

A escolha tem como fim “sermos santos e imaculados na Sua presença”.

Com frequência S. Paulo chama aos cristãos “santos” (cf. Rm 1,7; 1 Cor 1,2; Fil. 1,1; Ef.5,26; etc.). São títulos que o cristão se transformou pelo Batismo.

Todos os batizados são chamados a viver a santidade, como consequência do que realmente são: santos e fiéis. A santidade, portanto, é um presente de Deus que exige, ao mesmo tempo, o empenho do homem para o conseguir e desenvolver. Assim  ensina o Concílio Vaticano II: “É, pois, claro a todos, que os cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano. Para alcançar esta perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida em que as dá Cristo, a fim de que, seguindo as Suas pisadas e conformados à Sua imagem, obedecendo em tudo à vontade de Deus, se consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim crescerá em frutos abundantes a santidade do povo de Deus, como patentemente se manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos” (Lúmen Gentium, 40).

“A nossa missão de cristãos é proclamar a Realeza de Cristo; anunciá – la com a nossa palavra e com as nossas obras. O Senhor quer os Seus em todas as encruzilhadas da Terra. A alguns, chama-os ao deserto, desentendendo-se das inquietações da sociedade humana, para recordarem aos outros homens, com o seu testemunho, que existe Deus. Encomenda a outros o ministério sacerdotal. A grande maioria, o Senhor a quer no mundo, no meio das ocupações terrenas. Estes cristãos, portanto, devem levar Cristo a todos os ambientes em que se desenvolvem as tarefas humanas: à fábrica, ao laboratório, ao trabalho do campo, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e às veredas da montanha” ( São Josemaria Escrivá, Cristo que passa, 105 ).

A santidade que recebemos é um dom gratuito de Deus, sem mérito algum de nossa parte, já que ainda não existíamos quando Deus nos escolheu. Comenta São Josemaria Escrivá: “Escolheu-nos antes da constituição do mundo, a fim de sermos santos. Eu sei que isto não te enche de orgulho, nem contribuiu para que te consideres superior aos outros homens. Essa escolha, raiz do teu chamamento, deve ser a base da tua humildade. Costuma levantar-se porventura algum monumento aos pincéis dum grande pintor? Serviram para fazer obras primas, mas o mérito é do artista. Nós – os cristãos – somos apenas instrumentos do Criador do mundo, do Redentor de todos os homens” (Cristo que passa,1).

Ao terminar o Jubileu do Ano 2000, São João Paulo II disse que: “espera-nos uma entusiasmante obra de retomada pastoral; uma obra que toca a todos”. E apontando para o Século XXI, afirma: “Como estímulo e orientação comum, desejo apontar algumas prioridades pastorais que a experiência do Grande Jubileu me fez ver com particular intensidade”. Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para o qual deve tender todo caminho pastoral é a santidade. Terminado o Jubileu, retoma-se o caminho comum; no entanto, apontar a santidade permanece mais que nunca uma urgência da pastoral.

Por sua vez, o dom se traduz num dever que deve dirigir toda a existência cristã: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Ts 4,3).

Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus mediante a inserção em Cristo e a habitação de seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: “Queres receber o Batismo ?” Significa ao mesmo tempo pedir-lhe: “Queres fazer-te santo?” Significa colocar em sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48).

Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um. É hora de repropor a todos, com convicção, esta medida alta de vida cristã habitual: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direção. (Cf. Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, nº 29-32).

Ensina Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate: “Precisamos de um espírito de santidade que impregne tanto a solidão como o serviço, tanto a intimidade como a tarefa evangelizadora, para que cada instante seja expressão de amor doado sob o olhar do Senhor. Dessa forma, todos os momentos serão degraus no nosso caminho de santificação” ( 31).

Continua o Papa Francisco: “ Não tenhas medo da santidade. Cada cristão, quanto mais se santifica, tanto mais fecundo se torna para o mundo. Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da Graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida “existe apenas uma tristeza: a de não ser santo” ( cf. números 32, 33 e 34 da referida Exortação Apostólica ).

Ainda S. Paulo nos diz: “Deus chamou-nos com uma vocação santa, não por causa das nossas obras, mas em virtude do seu desígnio” (2 TM 1,9).

“Assim concluímos com a oração desse domingo: Ó Deus, que mostrais a luz da verdade aos que erram para retomarem o bom caminho, dai a todos os que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno desse nome”.

Mons. José Maria Pereira

 

————————————————————————————————————————————————————

 

 

 

 

Quem é o Padre?

“Em Cristo, o Senhor nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor” (Ef 1,4). Todos os batizados podem aplicar a si próprios essas palavras de São Paulo. Graças ao Batismo e à Confirmação (Crisma), todos os fiéis cristãos são “uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade” (1 Pd 2,9), “destinados a oferecer vítimas que sejam agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (Vat. II, LG,10).

Por vontade divina, dentre os fiéis que possuem o sacerdócio comum, alguns são chamados- mediante o sacramento da Ordem- a exercer o sacerdócio ministerial. Este pressupõe o sacerdócio comum dos fiéis, mas distingue-se dele essencialmente: pela consagração recebida no sacramento da Ordem, o sacerdote converte-se em instrumento de Jesus Cristo, a quem empresta todo o seu ser, para levar a todos a graça da Redenção. É um homem escolhido entre os homens, constituído em favor dos homens no que se refere a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados (Hb 5,1). Qual é, pois, a identidade do sacerdote? “A de Cristo. Todos os cristãos podem e devem ser não já alter Christus, mas ipse Christus: outros Cristos, o próprio Cristo! Mas no sacerdote isto se dá imediatamente, de forma sacramental” (S. Josemaria Escrivá, Amar a Igreja, pág. 72).

O Senhor, presente de muitas maneiras entre nós, mostra-se muito próximo na figura do sacerdote. Cada sacerdote é um imenso dom de Deus ao mundo; é Cristo que passa fazendo o bem, curando doenças, dando paz e alegria às consciências; é o instrumento vivo de Cristo no mundo, empresta a Nosso Senhor a sua voz, as mãos, todo o seu ser. “Jesus – recordava Beato João Paulo II aos sacerdotes – identifica- nos de tal modo consigo no exercício dos poderes que nos conferiu, que a nossa personalidade como que desaparece diante da sua, já que é Ele quem atua por meio de nós.”

Na celebração da Missa, é Jesus Cristo quem muda a substância do pão e do vinho no seu Corpo e no seu Sangue. E “é o próprio Jesus quem, no sacramento da Penitência, pronuncia a palavra autorizada e paterna: Eu te absolvo dos teus pecados. E é Ele quem fala quando o sacerdote, exercendo o seu ministério em nome e no espírito da Igreja, anuncia a Palavra de Deus. É o próprio Cristo quem cuida dos doentes, das crianças e dos pecadores, quando o amor e a solicitude pastoral dos ministros sagrados os envolvem” (Beato João Paulo II).

Um sacerdote é mais valioso para a humanidade que todos os bens materiais e humanos juntos. Daí a importância de rezarmos muito pela santidade dos sacerdotes, ajudá-los e ampará-los com a nossa oração e a nossa estima.

 

Deus toma posse daquele que chamou ao sacerdócio, consagra-o para o serviço dos outros homens, seus irmãos, e confere-lhe uma nova personalidade. E este homem, eleito e consagrado ao serviço de Deus e dos outros, não o é somente em algumas ocasiões determinadas, por exemplo, quando realiza uma função sagrada, mas sempre, em todos os momentos, tanto quando exerce o mais alto e sublime ofício como no ato mais vulgar e humilde da vida quotidiana. Qualquer coisa que faça, qualquer atitude que tome, quer queira, quer não, será sempre a ação e a atitude de um sacerdote, porque ele o é sempre, em todas as horas e até à raiz do seu ser, faça o que quiser e pense o que pensar.

O Sacerdote é um enviado de Deus ao mundo, para que lhe fale da sua salvação, e é constituído administrador dos tesouros de Deus: o Corpo e o Sangue de Cristo, bem como a graça de Deus por meio dos sacramentos, a palavra de Deus mediante a pregação, a catequese ,os conselhos da Confissão. Está confiada ao sacerdote a mais divina das obras divinas, que é a salvação das almas; foi constituído embaixador e medianeiro entre Deus e os homens.

Por isso temos que rezar muito mais para que a Igreja conte sempre com os sacerdotes necessários, com sacerdotes que lutem por ser santos. Temos que rezar e fomentar essas vocações, se é possível, entre os membros da própria família! Que imensa alegria para uma família se Deus a abençoa com este dom!

 

Enviai, Senhor, Apóstolos Santos à vossa Igreja.

 

Mons. José Maria Pereira