A Quem iremos?

 

Jesus, ao concluir o discurso do Pão da Vida (Jo 6, 60-69), propõe aos seus discípulos uma decisão sobre quem seguir. Os discípulos entraram em crise.

Diante de Jesus e de suas palavras, são levados a fazer uma escolha! Cristo havia feito o milagre da multiplicação dos pães; o povo entusiasmado quer proclama-Lo rei! Cristo pede um gesto de fé: crer ou não nele… aceitar ou não a sua proposta…

Buscar apenas o pão material ou acolher o Dom do Pão do Céu, Pão da Vida.

O povo foi alimentado pelo pão material… assim também Ele daria um outro pão que seria o próprio corpo (a Eucaristia).

E o povo se escandaliza, não aceita; até os discípulos murmuram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”

Muitos se retiram e O abandonam. Porém, Jesus não muda o discurso, exige fé.

A fé pode ser aceita ou recusada, mas não negociada. Sem a fé não entenderiam aquelas palavras e aqueles sinais… “Ora, sem a fé é impossível agradar a Deus…” (Hb 11,6).

Jesus questionava os doze: “Vós também quereis ir embora?”

Diante desse desafio, aparece o belo testemunho de Pedro:”A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.”

A atitude forte de Pedro dissipa as dúvidas dos demais apóstolos, e todos permanecem fiéis junto ao seu Mestre.

Pedro exprimiu os sentimentos dos Apóstolos, que, ao perseverarem junto do Mestre, O iam conhecendo mais profundamente e iam unindo as suas vidas à dele. Disse o Beato João Paulo II: “Buscai a Jesus esforçando-vos por conseguir uma fé pessoal profunda que informe e oriente toda a vossa vida; mas sobretudo que seja o vosso compromisso e o vosso programa amar Jesus, com um amor sincero, autêntico e pessoal. Ele deve ser vosso amigo e vosso apoio no caminho da vida. Só Ele tem palavras de vida eterna” (Discurso aos estudantes).

O mistério de Cristo é indivisível: ou se aceita integralmente, ou recusando um aspecto, tudo se rejeita. Nem mesmo a compaixão pelos incrédulos ou o desejo de atrair os irmãos afastados pode legitimar uma mutilação daquilo que Jesus disse sobre a Eucaristia.

Quem se decidiu por Cristo só tem que dizer com Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que Tu és o Santo de Deus.”

A fé no mistério eucarístico continuará distinguindo, através dos séculos, os verdadeiros seguidores de Cristo.

O mistério da Eucaristia exige um especial ato de fé. Por isso já São João Crisóstomo aconselhava: “ Inclinemo-nos diante de Deus; não O contradigamos, mesmo quando o que Ele diz possa parecer contrário à nossa razão e à nossa inteligência. Observemos esta mesma conduta relativamente ao mistério (eucarístico), não considerando somente o que cai debaixo dos sentidos, mas atendendo às Suas palavras. Porque a Sua palavra não pode enganar.”

Enquanto cada um dos dias em que seguimos o Senhor nos faz experimentar com mais força a alegria da nossa escolha e a expansão da nossa liberdade, vemos ao nosso redor como vivem na escravidão os que um dia voltaram as costas a Deus e não quiseram conhecê-Lo.

“Escravidão ou filiação divina: eis o dilema da nossa vida. Ou filhos de Deus ou escravos da soberba, da sensualidade, desse egoísmo angustiante em que tantas almas parecem debater-se.

O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: a minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas” (São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, nº38). Ao escolhermos Cristo como fim da nossa vida, acabamos por ganhar tudo.

Há momentos em que devemos fazer a nossa escolha! Cristão é quem escolhe Cristo e O segue…

Tenhamos a convicção firme de Josué: “Nem que todos te abandonem, eu e minha família, não…” (Js 24,15); ou a firmeza de Pedro: “A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna.”

Reafirmemos hoje o nosso seguimento de Cristo, com muito amor, confiantes na sua ajuda cheia de misericórdia! Dizer sim ao Senhor em todas as circunstâncias significa também dizer não a outros caminhos, a outras possibilidades. Ele é o Amigo; só Ele tem palavras de vida eterna!

 

Mons. José Maria Pereira