A Quem iremos?

A Quem iremos?

A Liturgia propõe à nossa reflexão o capítulo 6 do Evangelho de São João, no qual Jesus se apresenta como o “Pão vivo que desceu do Céu” e acrescenta: “Se alguém comer deste Pão, viverá eternamente; e o Pão que Eu hei de dar é a minha Carne, entregue pela vida do mundo” ( Jo 6, 51 ). Aos judeus que discutem asperamente entre si, perguntando-se: “Como pode Ele dar-nos a comer a sua Carne?” (v.52) – e o mundo continua a discutir – Jesus reafirma em todos os tempos: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós” (v. 53 ); motivo também para nós de refletir se compreendemos realmente esta mensagem. Hoje, 21 domingo do tempo comum, meditamos a parte conclusiva do capítulo 6, no qual o Evangelista João descreve a reação do povo e dos próprios discípulos, escandalizados com as palavras do Senhor, a ponto que muitos, depois de O terem seguido até então, exclamam: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (v.60 ). 

Diante de Jesus e de suas palavras, os discípulos são levados a fazer uma escolha! Cristo havia feito o milagre da multiplicação dos pães; o povo entusiasmado quer proclamá-Lo rei! Cristo pede um gesto de fé: crer ou não nele… aceitar ou não a sua proposta…

Buscar apenas o pão material ou acolher o Dom do Pão do Céu, Pão da Vida!

O povo foi alimentado pelo pão material… assim também Ele daria um outro pão que seria o próprio corpo (a Eucaristia).

Muitos se retiram e O abandonam. Porém, Jesus não muda o discurso, exige fé.

A fé pode ser aceita ou recusada, mas não negociada. Sem a fé não entenderiam aquelas palavras e aqueles sinais… “Ora, sem a fé é impossível agradar a Deus…” (Hb 11,6).

Jesus questiona os doze: “Vós também quereis ir embora?” Diante desse desafio, aparece o belo testemunho de Pedro: ”A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” ( Jo 6, 68 ).Como noutras situações, é Pedro quem responde em nome dos Doze: “Senhor, para quem havemos nós de ir? – Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que és o Santo de Deus” ( Jo 6, 68-69 ). Temos sobre este trecho um bonito comentário de Santo Agostinho, que diz, numa das suas pregações sobre João 6: “Vede como Pedro, por graça de Deus, por inspiração do Espírito Santo, compreendeu? Por que compreendeu? Porque acreditou. Tu tens palavras de vida eterna. Tu dás-nos a vida eterna, oferecendo-nos o teu Corpo ( ressuscitado) e o teu Sangue ( a ti mesmo). E nós acreditamos e conhecemos. Não diz: conhecemos e depois acreditamos, mas acreditamos e depois conhecemos. Acreditamos para poder conhecer;  de fato, se tivéssemos querido conhecer antes de crer, não teríamos conseguido nem conhecer nem crer. O que acreditamos e o que conhecemos? Que Tu és o Cristo Filho de Deus, ou seja, que Tu és a própria Vida Eterna, e na carne e no sangue nos dás aquilo que Tu mesmo és” ( Comentário ao Evangelho de João, 27,9).

A atitude forte de Pedro dissipa as dúvidas dos demais apóstolos, e todos permanecem fiéis junto ao seu Mestre.

Pedro exprimiu os sentimentos dos Apóstolos, que, ao perseverarem junto do Mestre, O iam conhecendo mais profundamente e iam unindo as suas vidas à dele. Disse São João Paulo II: “Buscai a Jesus esforçando-vos por conseguir uma fé pessoal profunda que informe e oriente toda a vossa vida; mas sobretudo que seja o vosso compromisso e o vosso programa amar Jesus, com um amor sincero, autêntico e pessoal. Ele deve ser vosso amigo e vosso apoio no caminho da vida. Só Ele tem palavras de vida eterna” (Discurso aos estudantes).

O mistério de Cristo é indivisível: ou se aceita integralmente, ou recusando um aspecto, tudo se rejeita. Nem mesmo a compaixão pelos incrédulos ou o desejo de atrair os irmãos afastados pode legitimar uma mutilação daquilo que Jesus disse sobre a Eucaristia.

Quem se decidiu por Cristo só tem que dizer com Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que Tu és o Santo de Deus.”

A fé no mistério eucarístico continuará distinguindo, através dos séculos, os verdadeiros seguidores de Cristo. Também nós podemos e queremos repetir a resposta de Pedro neste momento, conscientes da nossa fragilidade humana, dos nossos problemas e dificuldades, mas confiantes no poder do Espírito Santo, que se exprime e se manifesta na comunhão com Jesus. A fé é dom de Deus ao homem e é, ao mesmo tempo, entrega livre e total do homem a Deus; a fé é escuta dócil da Palavra do Senhor, que é “farol” para os nossos passos e “luz” para o nosso caminho ( cf. Sl 119, 105 ). Se abrirmos com confiança o Coração a Cristo, se nos deixarmos conquistar por Ele, podemos experimentar também nós, como por exemplo, o santo Cura d’ Ars, que “a nossa única felicidade nesta terra é amar Deus e saber que Ele nos ama”.

O mistério da Eucaristia exige um especial ato de fé! Por isso, já São João Crisóstomo aconselhava: “ Inclinemo-nos diante de Deus; não O contradigamos, mesmo quando o que Ele diz possa parecer contrário à nossa razão e à nossa inteligência. Observemos esta mesma conduta relativamente ao mistério (eucarístico), não considerando somente o que cai debaixo dos sentidos, mas atendendo às Suas palavras. Porque a Sua palavra não pode enganar.”

Enquanto cada um dos dias em que seguimos o Senhor nos faz experimentar com mais força a alegria da nossa escolha e a expansão da nossa liberdade, vemos ao nosso redor como vivem na escravidão os que um dia voltaram as costas a Deus e não quiseram conhecê-Lo.

Há momentos em que devemos fazer a nossa escolha! Cristão é quem escolhe Cristo e O segue…

Tenhamos a convicção firme de Josué: “Nem que todos te abandonem, eu e minha família, não…” (Js 24,15); ou a firmeza de Pedro: “A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna.”

Reafirmemos hoje o nosso seguimento de Cristo, com muito amor, confiantes na sua ajuda cheia de misericórdia! Dizer sim ao Senhor em todas as circunstâncias significa também dizer não a outros caminhos, a outras possibilidades. Ele é o Amigo; só Ele tem palavras de vida eterna!

Peçamos à Virgem Maria que mantenha sempre despertada em nós esta fé impregnada de amor, que a tornou, humilde jovem de Nazaré, Mãe de Deus e mãe e modelo de todos os crentes.

 

Mons. José Maria Pereira