Fé mais profunda

As passagens do Evangelho que a Igreja oferece para esse ciclo litúrgico são uma verdadeira catequese. No primeiro domingo, escutamos o Evangelho das tentações e pensamos nas provas, lutas e dificuldades da vida. No segundo, o da Transfiguração, no qual fomos iluminados com a contemplação, na fé, do rosto do Senhor e meditamos na nossa filiação divina. No terceiro, aparecia a Samaritana pedindo a água que sacia sem saciar, o Espírito Santo. Hoje, quarto domingo, o cego que começa a ver por iniciativa de Jesus; no entanto, depois a iniciativa seria do cego, pois ele procuraria Jesus e o adoraria. Finalmente, no domingo que vem, escutaremos a narração da ressurreição de Lázaro e nos recordaremos tanto da nossa ressurreição espiritual no Batismo e na Confissão sacramental quanto da ressurreição da carne que experimentaremos na consumação dos últimos tempos nos quais vivemos.

O Papa Bento XVI dizia que “o domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz»” (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2011).

Deus conceda que a nossa fé seja mais profunda. Nós, como aquele que fora cego, começamos a ver somente pela iniciativa e pelo poder de Jesus; também foi pela ação misteriosa da graça que nós continuamos a buscar a Cristo e a adorá-lo. Há uma antiga oração da Igreja que pede a Deus que as nossas ações sejam precedidas, ajudadas e terminadas com o auxilio divino mostrando, dessa maneira, a nossa dependência total do Senhor. Seria terrível se algum dia nos invadisse uma espécie de autossuficiência espiritual. Seria o momento no qual Jesus nos diria, como outrora aos fariseus, que a nossa pretensão é o que nos cega (cfr. Jo 9,41).

Não nos consideremos grande coisa só porque participamos de uma determinada pastoral ou de determinado grupo; nem pensemos que seremos salvos porque somos desse ou daquele movimento; tampouco nos apoiemos numas obras que sabemos que são boas, mas que frequentemente estarão manchadas pelo egoísmo e pelo orgulho. A caminhada junto ao Senhor, as contínuas quedas no caminho rumo à santidade, a aparente repetição das lutas interiores que nós não sabemos explicar, deveriam levar-nos a uma profunda humildade, a confiar sempre mais na iniciativa de Jesus, a combater os nossos próprios defeitos em total dependência da ação divina e a adorar a Deus com todo o nosso ser.

Livre-nos Deus de toda pretensão. Ao contrário, devemos reconhecer constantemente que Jesus é o nosso único Salvador. É esse reconhecimento que nos faz fortes e audaciosos, não por nossa própria virtude, mas confiando em Jesus. Aprofundar na fé nos fará ver, cada vez mais, a importância de sermos pequenos diante de Deus. Essa pequenez é totalmente compatível com a visão de águia, ampla e audaciosa, que nós devemos ter. Uma criança, deixada às suas próprias forças, cairá; verá pouco porque é de baixa estatura, ou seja, terá uma visão demasiado limitada da realidade. No caso de que essa criança seja levantada pelos braços poderosos do seu Pai do céu, terá outra visão das coisas. Nos braços de Deus e, portanto, das alturas, veremos diferente. Surgirá um panorama antes insuspeitável, um horizonte jamais contemplado e uns campos jamais ceifados. A profundidade da fé que nos leva à humildade, a cavar profundamente no nosso nada, nos leva também à magnanimidade, ao desejo de realizar grandes ações, ao desejo de “comer o mundo” por Deus, a ser apóstolo, a evangelizar, a trazer muitas pessoas à casa de Deus. Tudo isso é resultado de ir aprofundando cada vez mais na fé. Isso é graça, mas também é responsabilidade pessoal: rezar, fazer penitência, confessar-se, ler assiduamente o Evangelho, pedir a Nossa Senhora e a São José que nos ensinem a conviver com Jesus, lutar por extirpar defeitos e pecados. Esses são os meios que o Senhor coloca à nossa disposição para que alcancemos o fim.

Não podemos ficar lamentando-nos: “sou um pobre pecador”, “não posso nada”, “pobre de mim”. Não podemos paralisar-nos! Enquanto isso os inimigos de Deus e de sua Igreja trabalhariam para dominar. Não! Sabedores das nossas fraquezas, confiaremos na graça de Deus; conscientes da nossa pobreza, nos enriqueceremos com os tesouros imperecíveis do nosso Pai do céu. O cristão deve ser uma pessoa de fé cada vez mais profunda, humilde, simples; deve ser pequeno diante de Deus. Mas um filho de Deus deve ser também alguém que anda com a cabeça erguida, consciente da sua nobre condição e do seu dever de “comer o mundo”. Um maior crescimento na fé implica uma visão mais ampla das coisas e uma audácia antes não experimentada. Deus conta conosco!

Pe. Françoá Costa