O Reinado de Cristo

Há anos, muitos anos atrás, no Brasil havia reis e rainhas, príncipes e princesas, condes e condessas, duques e duquesas, enfim… era o tempo da monarquia. A atual forma de governo, república democrática, consta de um presidente e um vice. Junto a eles, cumprindo funções próprias para o bem do Brasil, estão os presidentes da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e do Supremo Tribunal Federal. Há, além disso, 38 ministérios e os mais diversos cargos públicos a nível nacional, estadual e municipal. O Brasil é como uma fantástica máquina que vai funcionando às vezes com engrenagens cilíndricas retas; outras, com as cônicas; outras ainda, com as coroas etc. O que nunca podemos deixar de pensar é na análise de forças. Ainda que é certo que somente uma pessoa com certa educação tecnológica vai me entender, fica claro no entanto a complexidade do sistema, em qualquer caso.

Pois bem, ainda que complexo, o sistema presidencialista parece ser muito mais inteligível para nós do que o monárquico, entre outros motivos porque é o sistema que nós temos atualmente. Não seria, portanto, mais interessante chamar a celebração de hoje “Solenidade de Cristo Presidente” em lugar de “Cristo Rei”?

E, não obstante, chamando-o Cristo Rei ou Cristo Presidente, a Igreja, ao celebrar a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo (que assim se chama), desde o ano 1925, não identifica nunca o poder real de Cristo com um poder temporal. Aquilo que o Senhor Jesus disse a Pilatos é uma sentencia a ter em conta à hora de considerar a festa de hoje: “o meu reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36). O Papa que instituiu a festa de Cristo Rei, Pio XI, também deixava isso bem claro ao afirmar que a realeza de Cristo “é principalmente interna e respeita sobretudo a ordem espiritual” (Carta Encíclica “Quas Primas”, 11-12-1925, nº 12). Contudo, um reinado espiritual não exclui a potestade judiciária, legislativa e executiva do Rei Jesus. Todas as coisas, também as temporais, lhe estão submissas. Segue-se, portanto, que a legitima autonomia das realidades criadas não significa independência dessas mesmas coisas com respeito ao seu Criador, mas que a realidade criada tem leis ínsitas ao seu mesmo ser e que devem ser respeitadas. Estas leis naturais têm a Deus por autor e mostram que tudo lhe está submisso.

É um erro gravíssimo tentar retirar a Deus da sociedade dos homens, pois um mundo sem Deus não é habitável, se estraga e se condena. Não nos esqueçamos de que teremos que prestar contas a Deus da administração que fizemos dos bens que ele nos deu para que os trabalhássemos e os colocássemos a serviço dos outros. Justamente isso é o que nos fala o Evangelho de hoje: dar de comer, dar de beber, praticar a hospitalidade, visitar os enfermos, entre outras obras de misericórdia, tudo isso é uma clara manifestação de que estamos fazendo frutificar os dons que Deus nos concedeu e, consequentemente, de que estamos fazendo efetivo o reinado de Cristo neste mundo.

Tudo é de Deus. Mas ele quis que nós fôssemos seus administradores. Façamos a nossa tarefa, qualquer que seja, com competência, profissionalidade, amor a Deus e para o bem dos irmãos, oferecendo-lhe tudo o que somos e temos. Desta maneira não será difícil fazer que Cristo reine nas nossas inteligências, nas nossas vontades, nas nossas ações, em primeiro lugar; depois, Cristo reinará, através de nós, no nosso trabalho, na nossa família, entre os nossos amigos e conhecidos. Neste sentido, o apostolado é uma clara manifestação de que realmente desejamos que Cristo reine: quem ama a Deus sempre está a procura de que alguém também o ame.

Através de nós, Jesus tem que reinar no Brasil e no mundo, mas, repito, tem que começar em nós. Por exemplo, se queremos que ele reine no nosso trabalho é só começarmos o labor profissional com uma pequena oração feita no coração; depois, teremos que trabalhar bem, com a máxima perfeição humana e cristã; cada momento que nos lembrarmos, ofereceremos a Deus tudo o que está ao nosso redor; finalmente, terminaremos depositando o esforço e o suor da jornada nas mãos do Todo-Poderoso: do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Pe. Françoá Costa