Amar de fato

O padre católico Georges Lemaître propôs, lá pelo ano 1927, o que hoje se conhece como a teoria do Big Bang ou – na linguagem do próprio Lemaître – teoria do átomo primordial.  Segundo essa teoria, o Universo derivou-se de um átomo com temperatura e densidade altamente elevadas. Este átomo, devido à compressão de energia, se teria explodido há uns 13 bilhões de anos atrás. A partir de então, o Universo está em constante expansão e a sua temperatura continua diminuindo.

Tal hipótese é bastante coerente. Ela não contradiz a Sagrada Escritura quando esta afirma que “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1,1). A Escritura fala de Deus que cria todas as coisas, todas em absoluto. Trata-se de um começo primordial. O Big Bang nos fala de um começo que não exclui o Criador do Big Bang. Ou seja, esse átomo primordial pressupõe uma causa externa a si mesmo.

Mas, porque eu estou falando do Big Bang se o Evangelho de hoje nos fala de amor a Deus e ao próximo? É simples. Quando nós fomos conquistados pela graça de Deus começou a existir em nós, que somos um microcosmo, um átomo de caridade inicial: potente, com temperatura e densidade altamente elevadas. No dia do nosso Batismo começou uma explosão de graças em constante expansão até o momento presente. Se tivéssemos morrido naquele mesmo dia iríamos ao céu sem passar pelo purgatório, teríamos visto a glória de Deus já que a graça é o começo da vida eterna em nós.

A Escritura diz que “Deus é amor” (1 Jo 4,8.16). Ele é o amor perfeito. Nós somos uma espécie de universo em desenvolvimento, em expansão, rumo ao ato perfeito do amor segundo a nossa própria capacidade de criaturas.

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Mt 22,37). Mas, como amar? O Catecismo nos diz que a maneira concreta de amar a Deus é viver as virtudes teologais: fé, esperança e caridade (cfr. Cat. 2086). Quando a graça de Deus atingiu a nossa vida, nós, sendo o que somos, passamos a ser o que não éramos: filhos no Filho. Todo o nosso ser foi elevado à vida sobrenatural. A partir daquele momento, o Pai começou a gerar o seu Verbo (eternamente gerado) e a espirar o seu Amor (eternamente espirado) em nós, dentro de nós; nós passamos a ser templos de Deus, moradas do Altíssimo. Consequentemente, as nossas faculdades superiores também foram elevadas: a inteligência foi potencializada pela fé, a vontade foi fortificada pela caridade, e ambas foram revigoradas pela esperança. Se nós percebêssemos de verdade o que vale a nossa vida em Deus, não a trocaríamos por nada nesse mundo; as coisas temporais guardariam uma relação profunda com as realidades eternas. Talvez já seja assim, mas, caso contrário, pensemos no quanto estamos perdendo ao não buscar a intimidade com a vida íntima do Deus uno e trino.

A pessoa que ama a Deus de todo o coração o adora, conversa com ele, oferece-lhe tudo buscando uma comunhão de vida cada vez mais perfeita com ele. O cristão tem que amar verdadeiramente o Senhor com exclusividade: Deus é o único Deus! Há que evitar, por conseguinte, a superstição, a idolatria, a adivinhação, a magia, os horóscopos, o pôr Deus à prova, o sacrilégio, a simonia, o ateísmo e o agnosticismo. Poderíamos fazer uma reflexão sobre cada um desses pecados citados. No entanto, de momento, basta saber que todas essas coisas tiram a Deus do centro das nossas vidas e fazem com que a criatura ocupe o lugar de Deus no nosso coração.

Mas, pode a criatura ocupar algum lugar no nosso amor? O Evangelho de hoje responde com toda propriedade: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39). Como? A essa pergunta se responde com os seguintes mandamentos: honrar pai e mãe, não matar, não pecar contra a castidade, não furtar, não levantar falso testemunho, não desejar a mulher do próximo e não cobiçar as coisas alheias. Como se pode ver, todos os mandamentos continuam válidos e o cristianismo sempre os ensinou. Não obstante, a vida cristã não consiste em cumprir mandamentos, mas em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Em que medida? Na medida de Cristo. A nossa moral, a nossa ética, não é uma moral de mandamentos, mas a vida nova em Cristo, moral de amor e de virtudes. De fato, diz o Catecismo: “Os mandamentos propriamente ditos vêm em segundo lugar; exprimem as implicações da pertença a Deus, instituída pela Aliança. A existência moral é resposta à inciativa amorosa do Senhor” (Cat. 2062). Dito de outra maneira, a nossa existência cristã é vida no amor de Deus cujas implicações são, basicamente, o cumprimento dos mandamentos.

Quem ama a Deus, ama o próximo. O amor do cristão, mergulhado no amor que Deus tem por todos os seres humanos, se compadece e vai ao encontro das necessidades dos outros. Somente o amor de Deus no coração explica ações como essas: “o rei S. Luís visitava e cuidava dos doentes com tanto desvelo como se fosse sua própria obrigação. (…) S. Gregório muito folgava de dar agasalho aos peregrinos, a exemplo do patriarca Abraão, e, como ele, recebeu um dia o Rei da glória na forma de um peregrino. Tobias exercia a caridade, sepultando os mortos. Santa Isabel, sendo uma augusta princesa, achava a sua alegria em humilhar-se a si mesma. Santa Catarina de Gênova, tendo perdido o seu marido, dedicou-se ao serviço num hospital. Cassiano refere que uma jovem virtuosa, que muito desejava se exercer na paciência, recorreu a Santo Atanásio, que a encarregou de uma pobre viúva melancólica, colérica, enfadonha e mesmo insuportável, de sorte que, como a viúva estivesse constantemente ralhando, a jovem tinham ocasião bastante de praticar a brandura e a condescendência” (S. Francisco de Sales, Filotéia ou Introdução à vida devota, III, 1). Chegaremos lá? Com a graça de Deus e o esforço pessoal, amaremos de fato.

Pe. Françoá Costa