Aleluia: o Ressuscitado está entre nós!

 

Contar-vos-ei uma lenda de um escrito da antiguidade com sabor judeu-cristão, a “Vida de Adão e Eva”. A historieta diz que quando Adão ficou velho e chegou ao fim da sua vida, Eva encontrava-se junto ao seu leito de enfermidade e cuidava dele; os seus filhos também lá estavam. Noite e dia, o primeiro pai da humanidade, moribundo, era torturado pelas terríveis dores, das quais não encontrava alívio algum. Na sua desolação, pediu a Eva, sua mulher, e ao seu querido filho Set que fossem ao Paraíso e pegassem para ele o “azeite da compaixão” que estava na árvore da vida; o azeite ser-lhe-ia alívio em meio às dores. E lá se foram Eva e Set. Quando eles chegaram às portas do Paraíso, pegaram o pó da terra e jogaram sobre as suas cabeças, depois se arrojaram ao chão e pediram a Deus tivesse piedade de Adão e lhes enviara por meio do seu anjo o azeite da compaixão. Conta-se que apareceu naquele então o arcanjo Miguel que deu uma negativa ao pedido. Adão tinha mesmo que morrer. Mas o anjo deu-lhes esperança de que, depois de 5.500 anos viria à terra o amantíssimo Rei, Cristo, o Filho de Deus, no corpo de Adão. O Cristo – continuava Miguel – depois de subir do Jordão ungiria a todos os que nele cressem com o óleo da compaixão e então conduziria o seu pai Adão ao Paraiso e à árvore da compaixão.

A árvore da compaixão é, sem dúvida, a Santa Cruz, que agora a contemplamos gloriosa pelo poder da Ressurreição do Senhor. Cristo ressuscitou, ele mesmo é a árvore da vida. Exatamente por isso nós adoramos a Santa Cruz na sexta-feira santa: Cristo é a nossa árvore da vida, árvore da compaixão, árvore da misericórdia. A cruz está nas nossas igrejas porque Cristo ressuscitou. Mais ainda: nada no cristianismo teria sentido se Cristo não tivesse ressuscitado.

A ressurreição do Senhor é ao mesmo tempo um fato histórico que transcende a mesma história. A sobriedade das narrações da ressurreição fala por si mesma. Não busquemos uma explicação racionalista para esse mistério, simplesmente adoremos o mistério! Diante do sepulcro vazio e de testemunhas tão qualificadas, nós renderemos a nossas inteligências. Nós cremos porque doze homens – brutos, sem cultura, simples pescadores – nos disseram: “Cristo ressuscitou e nós o vimos”. Tal afirmação poderia escandalizar o orgulho intelectual de alguns; nós, ao contrário, acreditamos com fé firme, rija e robusta: o Senhor ressuscitou! Mas, também é preciso pensar: como estar alegres nesta noite si há guerras, sofrimentos e até dificuldades em nossa vida? Será que nós vivemos no mundo da utopia? Tenhamos presente que o fato de existir mais uma pessoa triste não resolve o problema do mundo atual; ao contrário, aumentariam os problemas. É preciso que nós, os cristãos, estejamos contentes, que sejamos otimistas. Sê-lo-emos com aquela alegria que não é a alegria do “animal sadio”: do que não tem nem fome nem frio, tampouco fome ou qualquer dor. Esse tipo de alegria passa! A alegria do cristão vem de dentro, do mais profundo do seu coração, da paz que tem com o seu Senhor, da vida em graça, por tratar intimamente o Pai e o Filho e o Espírito Santo na oração.

Quebrou-se o silêncio de Deus, pois ele falou-nos tudo no seu Filho. Também nós precisamos quebrar o nosso silêncio: falemos com o nosso Pai do céu tudo o que está acontecendo conosco. Deveríamos até mesmo ter um desejo ardente de falar com o nosso Deus. Não podemos ficar sempre no cumprimento, que as vezes é “cumpro-e-minto”, dos preceitos da religião. Caso amemos a Deus de verdade, procuraremos estar com ele, conversar intimamente com ele, desejaremos estar perto dele. A religião não tem tão somente que fazer parte de nós, mas tem que ser um “outro eu”, “eu mesmo”, isto é, nós temos que ser ponte, meio de re-ligação das outras pessoas com Deus… Esse é o apostolado de quem reza, e reza bem. É preciso, então, que estejamos ligados, conectados, online, com o Senhor. Do contrário, não conseguiremos ser canais de conexão para que os outros falem com Deus e por ele se apaixonem.

Que todos estejam alegres neste dia composto por todo o tempo pascal! Nós queremos e propomo-nos a busca do trato com Deus na oração porque desejamos que essa noite da ressurreição seja também a noite da nossa ressurreição espiritual para coisas mais altas: hoje nos levantamos também da nossa preguiça espiritual e começaremos a vida nova de vibração junto ao Senhor ressuscitado que de nós teve compaixão. Saudaremos também a Nossa Senhora: “alegra-te, Virgem Maria, porque o Senhor ressuscitou!”

Pe. Françoá Costa