Jesus enviou Seus Discípulos de Sandálias.

Homilia – 15.VII.018. XV. Domingo do Tempo Ordinário

“Jesus chamou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros. Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (Mt 6,7-9).

Idéias principais: Só envia outrem quem tem poder ou autoridade. Só é enviado quem o aceita. Que significa ser enviado de sandálias?

I. Só envia outrem quem tem poder ou autoridade.

O Dicionário nos diz que enviar  é um verbo bitransitivo, isto é, exige complemento direto e indireto. Uma maneira de explicar em palavras mais simples: envia-se algo ou alguém a algum lugar ou com uma finalidade. Etimologicamente é um verbo latino tardio invĭo,as,āvi,ātum,āre que significa andar sobre, percorrer. E percorrer significa ir à toda pressa, atravessar. “Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas”.

O Senhor enviou os Seus Discípulos com autoridade divina. De fato, quem O ouvia falar dizia que Ele o fazia “como quem tem autoridade”1 

As recomendações do Divino Mestre ao enviar os Seus seguidores aparecem, ainda, em outros trechos do Evangelho: “Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece o seu sustento. Nas cidades ou aldeias onde entrardes, informai-vos se há alguém ali digno de vos receber; ficai ali até a vossa partida. Entrando numa casa, saudai-a: Paz a esta casa. Se aquela casa for digna, descerá sobre ela vossa paz; se, porém, não o for, vosso voto de paz retornará a vós. Se não vos receberem e não ouvirem vossas palavras, quando sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi até mesmo o pó de vossos pés”.2

Em outra ocasião o Senhor diz: “Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos. Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho. Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! Se ali houver algum homem pacífico, repousará sobre ele a vossa paz; mas, se não houver, ela tornará para vós. Permanecei na mesma casa, comei e bebei do que eles tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não andeis de casa em casa. Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que se vos servir. Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo. Mas se entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei: Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo” 3

E mais adiante o Salvador faz uma análise do envio: “Depois ajuntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada”. 4

Estes textos são mais que suficientes para ver que o Senhor realmente, com autoridade, enviou os Seus a fim de impregnarem o mundo com o bom odor de Sua doutrina de Salvação amparada pelo bom testemunho de suas condutas.

II. Só é enviado quem o aceita.

Uma rápida olhada num bom Dicionário nos ensina que enviado é uma pessoa credenciada. Pode se tratar de um embaixador, um delegado, um representante comercial. É um agente mandado em missão diplomática ou para realizar um trabalho ou acompanhar determinado evento.

Um embaixador só aceita ser enviado a trabalhar em outro país ou numa missão diplomática, seja ela importante ou sem muito relevo, delicada ou fácil, porque aceitou a totalidade do ofício.

Aceitou a nomeação e, por conseguinte, aceita também as missões e tarefas próprias do trabalho; aceita os encargos do cargo.

Com os primeiros Discípulos do Senhor aconteceu o mesmo: uma vez que aceitaram os ensinamentos do Divino Salvador, encontrando o caminho do Reino de Deus, aceitaram ser igualmente enviados para anunciar a Boa Nova.

É triste ver que alguém faz as coisas obrigado. Já quando vemos que as pessoas fazem as coisas com gosto, ficamos edificados.

Os Apóstolos, e tantos Discípulos do Senhor da primeira hora e de todos os séculos da vida da Igreja, receberam com gosto o seu envio, abraçaram de verdade a sua missão.

Ser enviado por Jesus significa ir à missão, mas não separar-se d’Ele.

O cristão não pode pensar que faz tudo sozinho. Eis o conselho do Senhor: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos”5.

Num jardim público havia uma árvore muito frondosa. Era uma castanheira. Dava sombra às senhoras de idade que, sentadas num banco tricotavam e bordavam. Servia de brinquedo às crianças que a escalavam. Tratava-se também do refúgio dos namorados que desenhavam em seu tronco rugoso um coração com os seus nomes.

Todos no vilarejo elogiavam aquela árvore.

Um galho rebelde não suportava mais os elogios. Ficava raivoso quando elogiavam a árvore e não ele, pois, afinal de contas, pensava em seu íntimo, sou eu quem tenho as castanhas na época da produção, sou eu quem passo frio quando as folhas caem e é a árvore quem leva a fama!

A árvore tentou em vão consolá-lo dizendo que ele era um filho importante tanto quanto os outros galhos. Um belo dia o galho pediu, com tons de humildade, um favor ao vento: que o separasse da árvore. O vento exitou um pouco, mas cumpriu o serviço pedido.

E lá foi o galho para cima de um gramado. Resolveu dormir e descansar. Quando acordou estava meio tonto. Suas folhas estavam murchando. Sentiu saudades da árvore. Mas não pode nem derramar uma lágrima, pois já era tarde demais. Já era um ramo seco.

III. Que significa ser enviado de sandálias?

Como termos, então, autonomia se precisamos ser dependentes de Cristo?

A lição das sandálias, contida no envio dos Discípulos por Jesus, nos dá a resposta.

Muitas vezes a palavra sandália aparece na Bíblia. Em grego o termo upódema indicava calçado e sandálion significava sandália. Aparece 10 vezes no Novo Testamento a referência a calçado, sandália ou calçar. O verbo usado é upodéo significando “amarrar”, estando em foco, na maioria dos casos a sandália, já que era o tipo de proteção dos pés mais usado e, por isso, o termo referia-se a “amarrar”, em referência às correias das sandálias. Até hoje dizemos “amarrar os sapatos”.

No tempo de Jesus os formatos dos calçados eram variados conforme as profissões. Existiam já botas para mulheres, existiam calçados com a ponta curva virada para cima para os nobres e assim por diante e muita gente também andava descalça.

Muitas pessoas entendem que Jesus estava falando da pobreza que queria nos Seus Discípulos enviando-os deste modo: sem duas túnicas, sem bolsa, sem dinheiro, etc. Mas se Ele estava dando ênfase à pobreza, por que não mandou os Seus andarem descalços?

As palavras de Jesus ao enviá-los não eram só por causa da pobreza. As sandálias nos fazem entender isso. Como podemos aplicar isso à nossa vida? Como podemos vestir as sandálias da recomendação de Jesus?

As sandálias, naquele tempo, eram muito mais que uma simples proteção para os pés. Elas serviam para outras finalidades também.

Pisar com as sandálias numa nova terra, significava possuí-la.

Se alguém fazia negócio com uma propriedade, tirava dos pés as sandálias e as dava ao novo proprietário.

Sandália significava segurança, domínio e também significava destreza em realizar alguma tarefa, já que ela é calçada e tirada com facilidade.

Ademais, se estamos com sandálias nos pés, podemos andar muito mais ligeiro do que descalços.

Nosso Senhor quis passar esta mensagem a todos nós: temos de estar unidos ao tronco, à arvore, termos comunhão entre nós, mas espírito de iniciativa também, segurança no agir em nome de Cristo, domínio nos ensinamentos do Senhor e na parte que nos cabe na missão, humildade e, ao mesmo tempo, coragem de enfrentar os desafios.

“És, entre os teus, alma de apóstolo, a pedra caída no lago. – Produz, com o teu exemplo e a tua palavra, um primeiro círculo…; e este, outro… e outro, e outro… Cada vez mais largo. Compreendes agora a grandeza da tua missão?”. 6

Peçamos hoje, a graça do Senhor de pisarmos firme, mas sempre em comunhão com o Senhor e com a Igreja.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

 

  1. “Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não
    como os escribas” (Mc 1,22).
  2. Mt 10, 9-14
  3.   Lc 10,3-11
  4.   Lc 22,35.
  5.   Jo, 15,4-8
  6.  São Josemaria Escrivá, Caminho, 831.