Trindade no céu! Trindade no coração!


“Não devemos perder de vista a tradição, a doutrina e a fé da Igreja católica, tal como o Senhor ensinou, tal como os apóstolos pregaram e os Santos Padres transmitiram. De fato, a tradição constitui o alicerce da Igreja, e todo aquele que dele se afasta deixa de ser cristão e não merece mais usar este nome” (Das cartas de Santo Atanásio).

A fé da Igreja nos ensina que há um só Deus em três pessoas: Pai e Filho e Espírito Santo. Nós queremos dizer hoje com a liturgia da Igreja: “Sede bendita, ó Trindade indivisível, agora e sempre e eternamente pelos séculos, vós que criais e governais todas as coisas” (Ant.do Cântico evangélico de Laudes). E pedimos: “Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente” (oração coleta da Missa).

O Mistério da Trindade, junto com o da Encarnação do Verbo de Deus, é central na nossa fé cristã. Ele, sendo o Filho, ensinou-nos que Deus é seu Pai, ensinou-nos também que o Amor do Pai e do Filho é o Espírito Santo. O Senhor Jesus tem toda a autoridade no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Somos batizados em nome das três divinas Pessoas e tornamo-nos filhos de Deus. Deus aproximou-se de nós, fez-nos seus filhos: “Abba! Pai!” é a nossa oração no dia de hoje.

Deus está em todos os lugares sem circunscrever-se a nenhum lugar, ele é onipresente. Mas também está na nossa alma em graça: o Pai e o Filho e o Espírito fizeram morada no coração dos cristãos. Por que as vezes vivemos como se Deus não estivesse ao nosso lado? Um tipo de ateísmo consiste em viver como se Deus não existisse: trata-se de negar a Deus na prática. Quantos cristãos vivem como se fossem ateus! Vivem como se Deus não existisse, como se Deus não contasse para nada em suas vidas.

Há um filme intitulado “O terceiro homem”, protagonizado por Orson Welles que mostra, salvando as distâncias, como vivem alguns que dizem que acreditam em Deus e desacreditam ao mesmo tempo a religião e o sagrado. Num parque de diversões, uma roda-gigante gira lentamente acima dos telhados da Viena do tempo pós-guerra, bombardeada e ocupada pelas forças internacionais, enquanto lá em baixo, como pontos minúsculos, umas crianças se entretêm nos seus jogos.

O protagonista do filme é um adulterador de penicilina sem escrúpulos. No alto da roda, o seu amigo pergunta-lhe se chegou a ver pessoalmente a desgraça de alguma das suas vítimas, e o homem responde cinicamente: “Não me agrada falar disso. Vítimas? Não seja melodramático. Olhe aí em baixo: você sentiria compaixão se alguns desse pontinhos negros deixassem de mover-se?”

“Você antes acreditava em Deus”, recordou-lhe o amigo.

O protagonista refletiu um momento e disse: “E continuo a acreditar, amigo! Acredito em Deus e na sua misericórdia. Mas acho que os mortos estão melhor do que nós: considerando o que deixaram para trás!”

Felizmente, são poucos os que chegam a esse grau de cinismo. (…) todos corremos o risco de ser seduzidos por essa ética da normalidade, cujos slogans emblemáticos poderiam ser: “Isso é normal, todos fazem”, “hoje em dia, ninguém pensa assim”, “não se deve complicar a vida”, “a vida é assim, que vamos fazer?”, ou outros semelhantes. (A. Aguilló, É razoável crer, São Paulo: Quadrante, 168-169).

Pode-se observar nesse filme o comportamento de muitos que dizem acreditar em Deus. A verdade de fé que afirma que existe um só Deus em três Pessoas realmente distintas não é uma abstração mental. Esse mundo saiu das mãos amorosas de Deus, que é comunhão, e está chamado a viver em comunhão. Todos os seres humanos estão chamados a viver o céu também aqui na terra, pois o céu é Deus e ele quer morar em nós.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo!

Pe. Françoá Costa