Autor: Marco Politi com tradução de Moisés Sbardelotto.
Fonte: (La Repubblica e UNISINOS)

O Ratzinger secreto, aquele que poucos conhecem, é o pregador. Os livros do teólogo podem ser encontrados em todo o lugar, os gestos do pontífice reinante estão expostos ao olhar de todos, mas para atingir o íntimo de Bento XVI é preciso ir escutá-lo. Não apenas nas basílicas, mas em uma igreja paroquial ou em uma casa de acolhida a doentes.

É ali que ele revela – com palavras cheias de significado e simples ao mesmo tempo – o seu desejo de um cristianismo essencial, puro, não carregado de superestruturas. Essa pureza, Ratzinger reencontrou na intensidade com a qual, na recente viagem ao Camarões e a Angola, os fiéis africanos se entregavam aos cantos da missa. Fossem em latim ou nas diversas línguas locais, eram melodias em que se manifestava uma plenitude de fé que lhe é cara.

Porque a “experiência cristã” – exclamou no aniversário da morte do Papa Wojtyla – não pode ser reduzida a “uma ideologia, a um slogan de grupo, a um revestimento exterior”. Cristo não quer que os fiéis recitem a parte dos seus discípulos. Nem tem sentido, recordou outras vezes o Papa, apresentar o cristianismo como um pacote de regras ou como uma pretensa hegemonia de uma “única” cultura e de um “único” mundo.

A palavra que frequentemente aparece no vocabulário do Papa alemão é amor. Que também é o título latino da sua primeira encíclica “Deus Caritas Est”. Para Bento XVI, ser cristão consiste fundamentalmente na “livre adesão do amor”. Amor para com Deus inseparavelmente ligado ao amor para com o próximo. Isso poderá admirar os que veem no Papa predominantemente o líder, que se expõe a polêmicas na cena internacional por causa de escolhas de governo ou de opiniões controversas, mas o ânimo de Ratzinger, nutrido pelo ensinamento de São Paulo e de Santo Agostinho, está realmente orientado para uma fé íntima, que quando se expressa no compromisso social também permanece ancorada nos dois fundamentos da experiência cristã: a cruz e a ressurreição. Se Cristo não tivesse ressuscitado, ele disse na Páscoa ecoando o apóstolo Paulo, “o vazio teria levado a melhor”.

Chegando ao seu 82º aniversário e iniciando o seu quinto ano de pontificado, Bento XVI condensou nos dias passados alguns temas entre os mais fortes do seu pensamento. Sobretudo, a busca incessante do encontro com o rosto de Cristo. Ser cristão, para Ratzinger, é palavra vazia se não se traduz no desejo e na necessidade de se encontrar face a face com esse Rosto, que pertence a um homem de carne e ossos, “histórico”, não mítico. Na desorientação da época contemporânea, é preciso saber parar para contemplar “o rosto do Homem das dores, que se encarregou de todas as nossas angústias mortais”. O rosto de Cristo, afirma Ratzinger, se reflete em cada pessoa humilhada e ofendida, doente e sofredora, sozinha, abandonada e desprezada. “Ter-te-ias perdido, se Ele não tivesse chegado”, afirma Santo Agostinho. Por que, então, não acolhê-lo na própria vida?, conclui Bento XVI.

Um papel particular, nessa visão, corresponde ao clero. No fundo, Ratzinger rejeita tudo o que é clerical e afetado. Na missa da Quinta-Feira Santa, o Papa certamente polemizou com o conceito de liberdade absoluta defendida pelo filósofo Nietzsche, mas também se serviu das suas palavras para estigmatizar as caricaturas de humildade e de submissão existentes na Igreja e “que não queremos imitar”. Aqui, pelo contrário, Ratzinger traça a linha divisória entre um sacerdócio concebido como profissão em que o indivíduo se “autorrealiza”, e como ascese cotidiana centrada no serviço e no abandono a Cristo.

Palavras comprometedoras. Mas que fascinam muitos católicos e também, muitas vezes, os seguidores de outras religiões ou agnósticos. O discurso é feito diferentemente quando entra em cena a imagem da Igreja em confronto com a sociedade hodierna, vista como sujeita ao materialismo e ao niilismo. Parece uma Igreja sempre em perigo, assediada pelo ódio, atirada ao abismo ao ponto de dar “a impressão de que ela deve afundar”, se não fosse continuamente salva por Cristo. É o momento em que o pessimismo agostiniano tinge as palavras de Ratzinger, e talvez certas escolhas soberanas suas nasçam justamente disso.