Durante o meu primeiro ano de sacerdócio houve um pequeno episódio que gostaria de relatar. Um daqueles diálogos que tão frequentemente temos com os fiéis e que poderia passar rapidamente ao esquecimento. No entanto, este fez-me reflectir e tem-me acompanhado ao longo destes anos.

Acabara de celebrar a Santa Missa, tirara os paramentos na sacristia e saíra para o adro para cumprimentar os fiéis. Enquanto falava com uma família, uma menina de uns quatro anos aproximou-se de nós com timidez e curiosidade, rodeava os pais e não tirava os olhos de mim. Por fim, exclamou rindo e apontando-me o dedo:

– Eu sei quem tu és!

Olhou-me e voltou a olhar-me meneando a cabeça e, por fim, solenemente, com um enorme sorriso, como quem acaba de descobrir um grande segredo, exclamou:

-Tu és o padre!

Fiquei desconcertado.

Acabara de celebrar a Santa Missa e estava ali, diante daquela família, claramente identificado como sacerdote. No entanto, para aquela criança havia uma surpresa. Que estaria ela à espera? Que se passara na sua cabecinha para fazer tal comentário. Qual a razão para essa surpresa ou esse grande mistério?

Ela «descobrira-me». Entrou num «jogo» e descobrira-me. Eu não era aquele senhor que estava ali a falar com os pais dela, mas sim «o Padre», o sacerdote paramentado, aquele mesmo que acabara de celebrar a Eucaristia. Eu era «o padre da Missa», eu era Cristo para ela.

Tenho de confessar que o facto de esta menina confundir a minha vocação e missão com um jogo de escondidas me chocou. No entanto, reflectindo um pouco, dei-me conta de que fora eu quem demorara a aperceber-me da existência desse «jogo» divino. Se o próprio Deus se referiu à sua acção como a um jogo sobre a superfície da terra, a um jogo com os filhos de Deus![1] Sim, Deus brinca com os homens. Ao longo da História e na nossa vida. Deus esconde-se e mostra-se neste jogo de amor. «Eis a voz do meu amado! Ele aí vem, transpondo os montes, saltando as colinas. (…) Ei-lo detrás do nosso muro, a olhar pela janela, a espreitar através das grades».[2] Deus esconde-se e mostra-se. Esconde-se e deixa-se encontrar para que fiquemos contentes como as crianças, «sei quem Tu és!».[3]

A liturgia não é senão este «jogo» de Deus com os homens. Ele esconde-se nos sacramentos. E não só no pão e no vinho consagrados, como acontece na Eucaristia, ou nos outros sacramentos. Ele esconde-se nos homens. Cristo, em virtude do sacramento da Ordem, esconde-se nos seus ministros. Como não dera conta antes!

A Igreja torna isto mesmo visível e palpável na cerimónia da ordenação sacerdotal ao vestir os recém ordenados com as vestes sacerdotais litúrgicas. Com este rito, ela recorda-nos a todos que eles, agora, são Cristo. São sacerdotes. São ministros de Jesus Cristo. Assim o refere Bento XVI: «no momento da Ordenação sacerdotal, a Igreja tornou-nos visível e alcançável esta realidade das “vestes novas” também externamente, mediante o facto de termos sido revestidos com os paramentos litúrgicos. Neste gesto exterior, ela deseja tornar-nos evidente o acontecimento interior e a tarefa que nos vem dele:  revestir-nos de Cristo, entregar-nos a Ele como Ele se doou a nós».[4]

Em Espanha utiliza-se o termo «revestir-se» para a acção de se paramentar. Trata-se de uma expressão feliz, pois torna claro o que vou fazer: revestir-me de Cristo. Foi esse o termo utilizado por S. Paulo para se referir ao baptismo (Gal 3, 27). E esse revestir-se de Cristo produz os seus efeitos: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 2).

«Este evento, o “revestir-se de Cristo”, é representado sempre de novo em cada Santa Missa mediante o revestir-nos dos paramentos litúrgicos. Vesti-los deve significar para nós mais que um facto exterior: é entrar sempre de novo no “sim” do nosso encargo, naquele “já não sou eu” do baptismo que a Ordenação sacerdotal nos dá de modo novo e ao mesmo tempo nos pede. O facto de estarmos no altar, vestidos com os paramentos litúrgicos, deve tornar claramente visível aos presentes e a nós próprios que estamos ali “na pessoa do Outro”. As vestes sacerdotais, assim como se desenvolveram ao longo do tempo, são uma profunda expressão simbólica do que significa o sacerdócio.»[5]

O facto de se utilizar vestes litúrgicas que são muito diferentes do vestuário normal certamente ajuda a recordar que vou participar numa acção diferente da habitual, a recordar-me que devo esquecer as ocupações e correrias. Sendo destinados exclusivamente ao culto, eles tornam-se sagrados e recordam-nos também que não continuo a fazer as coisas normais do dia-a-dia, mas sim as de Deus. O próprio facto de serem longas e cobrirem todo o corpo parecem esconder-nos ou ocultar-nos. Fazem-nos entrar no tal jogo. Efectivamente, não se trata de um acaso, como o refere um documento pontifício: «pode-se dizer que a “ocultação” do corpo do ministro sob as vestes, em certo sentido, despersonaliza-o, removendo o ministro celebrante do centro, para revelar o verdadeiro Protagonista da acção litúrgica: Cristo. A forma das vestes, portanto, lembra-nos que a liturgia é celebrada in persona Christi, e não em nome próprio.[6]

Estas considerações são sempre actuais, pois, como homens que somos, temos tendência para nos esquecermos de coisas essenciais, para nos habituarmos às coisas santas, para entrarmos na rotina. Basta citar o número anterior desta revista, em que apresentámos um artigo do card. Robert Sarah, perfeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, no qual recordava a necessidade de redescobrir a origem trinitária da acção litúrgica e, para tal, de recordar e sublinhar que a liturgia não é outra coisa que realizar a obra de Cristo, «actio Christi». É Ele, Cristo, o sumo sacerdote, o verdadeiro sujeito, o verdadeiro protagonista da liturgia (cfr. SC 7). Assim, «o sacerdote deve tornar-se esse instrumento que deixa que Cristo transpareça. Como recentemente recordou o nosso Papa Francisco, o celebrante não é o apresentador de um espectáculo, não deve procurar a simpatia da assembleia colocando-se diante dela como seu interlocutor principal. Penetrar no espírito do Concílio significa, pelo contrário, desaparecer, renunciar a ser o ponto focal».[7]

As vestes litúrgicas recordam-nos tudo isso. E o modo como as vestimos também. Daí a importância do recolhimento, de o fazermos num clima de oração para recordarmos quem somos e o que vamos realizar.

Nesse sentido, a IGMR pede: «já antes da própria celebração é louvável observar o silêncio na igreja, na sacristia, no vestiário e nos lugares que lhes ficam mais próximos, para que todos se disponham com devoção e devidamente para celebrar os ritos sagrados».[8] Este pequeno apontamento é, curiosamente, o único ponto de referência para o sacerdote celebrante na sua preparação para a Santa Missa. Motivo pelo qual seja ainda mais importante não o passar por alto.[9]

Efectivamente, trata-se de uma altura ideal para o sacerdote recordar de novo a razão pela qual está ali. Recordar que na Missa e nos outros sacramentos «torna-se visível de modo dramático o que significa em geral ser sacerdote; o que expressamos com o nosso “Adsum estou pronto”, durante a consagração sacerdotal: eu estou aqui para que possas dispor de mim. Pomo-nos à disposição d’Aquele que “morreu por todos, para que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos…(2 Cor 5, 15). Pôr-nos à disposição de Cristo significa que nos deixamos atrair para dentro do seu “por todos”: estando com Ele podemos ser verdadeiramente “para todos“.»[10]

Recordo o testemunho daquele sacerdote que se demorava um pouco, com a casula já nas mãos, pronta a vestir. Inquirido sobre aquela hesitação respondera que estava a recordar as pessoas pelas quais queria rezar na Missa, as que iria colocar na patena do altar, as ovelhas que iria carregar sobre os seus ombros de pastor. A esta atitude de ser para os outros, de carregar as ovelhas aos ombros, esse jugo suave, se referia o Papa Francisco na sua primeira Missa Crismal e, para tal, servia-se precisamente do significado da casula:

«As vestes sagradas do Sumo Sacerdote são ricas de simbolismos; um deles é o dos nomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ónix que adornavam as ombreiras do efod, do qual provém a nossa casula actual: seis sobre a pedra do ombro direito e seis na do ombro esquerdo (cf. Ex 28, 6-14). Também no peitoral estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo».[11]

Pedro Boléo Tomé


 

[1] Cfr. Prov 8, 22-31

[2] Cant. 2, 8-10

[3] «Lê-se na Escritura: ludens in orbe terrarum (Prov 8, 22-31), que Ele brinca em toda a superfície da terra. Mas Deus não nos abandona, porque imediatamente acrescenta: deliciæ meæ esse cum filiis hominum, a minha delícia é estar com os filhos dos homens. O Senhor brinca connosco.» S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Amigos de Deus, n. 152.

[4] BENTO XVI, Missa crismal, 5.IV.2007.

[5] Ibid.

[6] DEPARTAMENTO DAS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS DO SUMO PONTÍFICE, «A vestição dos paramentos litúrgicos e as respectivas orações», www.vatican.va, 16.II.2010

[7] SARAH, R., Silenciosa acção do coração, Celebração Litúrgica 2015, n. 6, p. 1348.

[8] INSTRUÇÃO GERAL DO MISSAL ROMANO, 45.

[9] SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 34

[10] BENTO XVI, Missa crismal, 5.IV.2007..

[11] FRANCISCO, Missa crismal 28.III.2013

 

Referência: Cliturgica