RITOS INICIAIS

Salmo 65, 1–2

ANTÍFONA DE ENTRADA: Aclamai a Deus, terra inteira, cantai a glória do seu nome, celebrai os seus louvores. Aleluia.

Diz-se o Glória.

Introdução ao espírito da Celebração

A liturgia deste Domingo apresenta-nos Jesus Cristo ressuscitado como companheiro de viajem, alentando a esperança, aquecendo o coração dos discípulos de Emaús. Como os primeiros discípulos, é na Eucaristia que nós reconhecemos hoje a presença viva de Jesus Ressuscitado: caminha connosco, fala-nos através da Escritura, alimenta-nos com o seu Corpo.

ORAÇÃO COLECTA: Exulte sempre o vosso povo, Senhor, com a renovada juventude da alma, de modo que, alegrando-se agora por se ver restituído à glória da adopção divina, aguarde o dia da ressurreição na esperança da felicidade eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LITURGIA DA PALAVRA

Primeira Leitura

Monição: «Jesus de Nazaré cravado na cruz… Deus ressuscitou-O… porque não era possível que Ele ficasse sob o domínio da morte!» Esta foi pregação de S. Pedro, citando o Salmo 15. Todo o Antigo Testamento apontava para Jesus Cristo. Ele próprio dirá: «Estava escrito nos profetas e nos salmos que o Messias havia de sofrer e Ressuscitar!» Acreditar em Jesus e escutar a sua Palavra é uma garantia de ressurreição.

Actos, 2, 14.22–33

No dia de Pentecostes, 14Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: 22«Homens de Israel, ouvi estas palavras: Jesus de Nazaré, foi um homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis. 23Depois de entregue, segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós deste-Lhe a morte, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa. 24Mas Deus ressuscitou-O, livrando-O dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio. 25Diz David a seu respeito: «O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. 26Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. 27Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção.28Destes-me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença». 29Irmãos, seja-me permitido falar-vos com toda a liberdade: o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós. 30Mas, como era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que um descendente do seu sangue havia de sentar-se no seu trono, 31viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo, dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos, nem a sua carne conheceu a corrupção. 32Foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas. 33Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo, que Ele derramou, como vedes e ouvis».

A leitura corresponde a uma selecção de versículos do discurso de S. Pedro no dia do Pentecostes. «Pedro» aparece aqui, como noutras vezes, na sua função de Chefe dos Apóstolos, falando em nome de todos e à frente de todos (cf. Act 2, 37-38; 5, 2-3.29; 1, 15).

22 «Jesus de Nazaré» Pedro, para anunciar Jesus como o Messias, parte da Sua humanidade, no aspecto mais humilde, um homem de Nazaré, terra desprezada (Jo 1 48); nos vv. seguintes estabelece a sua perfeita identidade com o Cristo da fé, o Senhor ressuscitado.

23 «Segundo o desígnio imutável e previsão de Deus». A morte na cruz, o grande «escândalo para os Judeus», não era mais do que o cumprimento do desígnio salvador de Deus, anunciado pelos Profetas.

24 «Deus ressuscitou-O. O grande sinal de que aquele homem de Nazaré já antes credenciado com «milagres, prodígios e sinais» (v. 22), era o Messias, Deus vindo à terra, é sem dúvida a Ressurreição. Esta apresenta-se como anunciada no Salmo 15 (16).

27 «Nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção». Citação do Salmo 15 (16), segundo a tradução dos LXX, que alguns chegam a considerar inspirada. O texto hebraico massorético não é tão expressivo, pois diz: «conhecer a cova», isto é, a morte; Pedro e depois Paulo (cf. Act 13, 35) dão-nos o sentido mais profundo, o cristológico do Salmo, ao explicitar que designa a ressurreição do Messias, sentido este que, em geral, os exegetas classificam de sentido plenário (intentado só por Deus), ou sentido típico (o salmista como tipo do Messias).

Salmo Responsorial    Sl 15 (16), 1–2a.5.7–8.9–10.11

Monição: O Salmo de hoje foi utilizado na pregação dos Apóstolos como prova de que Deus não abandonaria o Justo na decomposição do túmulo. Também nós acreditamos que a misericórdia e a fidelidade de Deus se estendem de geração em geração, dilatando a nossa esperança. Confiamos nas suas promessas! «Gozaremos da alegria plena, delícias eternas na sua presença».

Refrão: MOSTRAI–ME, SENHOR, O CAMINHO DA VIDA.

Ou:                ALELUIA.

Defendei–me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.

Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.

Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,

está nas vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,

até de noite me inspira interiormente.

O Senhor está sempre na minha presença,

com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta

e até o meu corpo descansa tranquilo.

Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,

nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

Dar–me–eis a conhecer os caminhos da vida,

alegria plena em vossa presença,

delícias eternas à vossa direita.

Segunda Leitura

Monição: «Fomos resgatados pelo sangue precioso de Cristo» derramado por todos, oferecendo-nos uma salvação universal. A nossa fé e a nossa esperança estão em Deus e não nas alegrias passageiras deste «exílio neste mundo».

São Pedro 1, 17–21

Caríssimos: 17Se invocais como Pai Aquele que, sem acepção de pessoas, julga cada um segundo as suas obras, vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo. 18Lembrai-vos que não foi por coisas corruptíveis, como prata e oiro, que fostes resgatados da vã maneira de viver, herdada dos vossos pais, 19mas pelo sangue precioso de Cristo, Cordeiro sem defeito e sem mancha, 20predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por vossa causa. 21Por Ele acreditais em Deus, que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória, para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.

Esta leitura adapta-se maravilhosamente ao tempo pascal, falando-nos da nossa libertação através do Sangue do novo Cordeiro Pascal e da Ressurreição de Jesus. Há mesmo exegetas que vêem nesta carta um fundo de homilia pascal ou baptismal. O trecho de hoje é tirado de uma secção inicial da Carta (1, 13 – 2, 10), uma série de exortações que têm como pano de fundo a libertação dos hebreus a caminho da terra prometida, símbolo do Baptismo e da vida cristã, o que faz pensar que formariam parte duma catequese ou homilia pascal-baptismal. Vejamos: «de ânimo preparado para servir» (v. 13; cf. Lc 12, 35) é dito no original com uma imagem («cingida a cintura da vossa mente»), que evoca a forma de celebrar a Páscoa (cf. Ex 12, 11, símbolo do Baptismo (cf. 1 Cor 10, 1-2.6); «sede santos» (v. 14-16) é uma exigência da aliança (cf. Lv 11, 44; 19, 2; 20, 7) e do Baptismo (cf. Rom 6, 4.11.19; 12, 2; Gal 3, 27); o santo temor de Deus (cf. 2 Cor 2, 11; Rom 2, 11) «no tempo da peregrinação» (cf. 1, 1.17; 2, 11; 4, 2, é a alusão à peregrinação pelo deserto no Êxodo) está na sequência de invocar a Deus como Pai (referência ao Pai-nosso, Mt 6, 9, recitado no rito do Baptismo e certamente matéria da instrução preparatória); o resgate pelo sangue de Cristo é mais do que uma referência ao custo da nossa redenção (1 Cor 6, 20; 7, 23; cf. Ef 1, 7; Hebr 9, 14; Apoc 1, 5), pois alude a Jesus como cordeiro pascal (Ex 12, 3-14; cf. Jo 1, 29.36; 19, 36; 1 Cor 5, 7; Act 8, 32-35); o amor fraterno (v. 22-25) é proposto como consequência de se ter purificado (cf. Ex 19, 10-11) e ter nascido de novo e por meio da palavra de Deus (cf. Tg 1, 18; 1 Jo 3, 9; Is 40, 8); esta mesma palavra é o «leite puro» (cf. Ex 3, 8; 1 Cor 3, 2) que os baptizados têm de desejar avidamente (2, 1-2; cf. Salm 34, 9); assim todos entram activamente na construção do edifício que é o novo Povo de Deus, figurado no antigo (2, 4-10).

17 «Pai… que… julga». Pode-se ver aqui uma alusão à recitação do Pai Nosso. Deus, que é o melhor dos pais, também é um Juiz imparcial; o sentido correcto da nossa filiação divina traz consigo o santo temor de Deus, o temor de desagradar a um Pai que nos julga e que calibra perfeitamente o valor de todos os nossos actos.

«Exílio neste mundo». Cf. 1 Pe 1, 1; 2, 11; 4, 2; Hebr 11, 13. Nestes textos inspirados fica patente a nossa condição não apenas de peregrinos da Pátria celeste, mas também a ideia de pena que envolve a nossa situação de «degredados filhos de Eva» neste «desterro» (cf. Salve Rainha).

18-19 «Libertados… com o Sangue precioso de Cristo». A obra salvadora de Jesus não consistiu numa mera libertação, como, por exemplo, a libertação do Egipto, pois foi um verdadeiro resgate, pagando Jesus o preço dessa libertação com o Seu Sangue, daí que esta obra libertadora se chama mais propriamente Redenção (cf. Ef 1, 7; Apoc 1, 5).

«Cordeiro sem defeito e sem mancha». Cf. Ex 12, 5; 1 Cor 5, 7; Jo 1, 29.36; 19, 36. Cf. também: Is 53, 7; Act 8, 32-35. Os primeiros textos falam de Jesus, Cordeiro imolado na nova Páscoa; os segundos, de Jesus manso «Cordeiro de Deus».

Aclamação ao Evangelho

Lc 24, 32

Monição: Cantemos o triunfo de Jesus ressuscitado que nos fala através das Escrituras, inflamando no fogo do seu amor divino os nossos corações.

ALELUIA

Senhor Jesus, abri–nos as Escrituras,   falai–nos e inflamai o nosso coração.

Evangelho

São Lucas 24, 13–35

13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». 19E Ele perguntou: «Que foi?» Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: 25«Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais; podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite «fontes especiais» para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições, mas não temos elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes.

13 «Emaús»: uma povoação a 60 estádios, traduzidos por duas léguas, que se traduzem nuns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios. Alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; El-Qubeibe é o de maior aceitação, a uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa (Abugoxe corresponde aos 160 estádios).

16 «Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem». Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.

18 «Cléofas» parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Kleopâs.

22-24 «É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos…»: aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que os nossos são Pedro e João (cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). «Mas a Ele não O viram»: se não se trata de um pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro referida adiante, no v. 34 (cf. 1 Cor 15, 5).

28-30 «Jesus fez menção de seguir para diante». Lucas volta a aludir ao «caminho de Jesus» (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia (a fracção do pão do v. 30) constitui o momento cume do seu caminhar pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus): depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto sucede-nos muitas vezes na vida cristã: Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia; com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.

31 «Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença»: É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real. Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.Comenta João Paulo II: «É significativo que os dois discípulos de Emaús, devidamente preparados pelas palavras do Senhor, O tenham reconhecido, quando estavam à mesa, através do gesto simples da ‘fracção do pão’. Uma vez iluminadas as inteligências e rescaldados os corações, os sinais ‘falam’. A Eucaristia desenrola-se inteiramente no contexto dinâmico de sinais que encerram uma densa e luminosa mensagem; é através deles que o mistério, de certo modo, se desvenda aos olhos do crente. Como sublinhei na encíclica Ecclesia de Eucharistia, é importante que nenhuma dimensão deste Sacramento fique transcurada. Com efeito, subsiste sempre no homem a tentação de reduzir às suas próprias dimensões a Eucaristia, quando na realidade é ele que se deve abrir às dimensões do Mistério. ‘A Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções’» (Carta Mane nobiscum Domine, 14).

32 «Não ardia cá dentro o nosso coração?». Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato põe-se em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.

33 «Partiram imediatamente». «Os dois discípulos de Emaús, depois de terem reconhecido o Senhor, «partiram imediatamente» para comunicar o que tinham visto e ouvido. Quando se faz uma verdadeira experiência do Ressuscitado, alimentando-se do seu Corpo e do seu Sangue, não se pode reservar para si mesmo a alegria sentida. O encontro com Cristo, continuamente aprofundado na intimidade eucarística, suscita na Igreja e em cada cristão a urgência de testemunhar e evangelizar» (João Paulo II, Mane nobiscum Domine, 24).

Sugestões para a homilia

Jesus Cristo caminha connosco,

Neste terceiro Domingo da Páscoa, S. Lucas descreve-nos a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús.

Lembremos que Maria Madalena não reconheceu Jesus, quando O viu pela primeira vez. Os seus olhos embaciados pelas lágrimas não a deixavam ver bem. Pensou que era o jardineiro. Os discípulos de Emaús também não O reconhecem devido à sua profunda tristeza. Estavam desiludidos! Como bons israelitas esperavam um Messias glorioso e libertador. Jesus tinha morrido e com a sua morte desmoronou-se o sonho, perdeu-se a esperança: «Nós esperávamos que Ele viria libertar Israel! Mas já lá vai o terceiro dia depois da sua morte!»

Tinham vivido com Jesus durante três anos, mas só isso não foi suficiente. Tinham visto os milagres e podiam afirmar que Jesus foi um «Profeta poderoso em obras e palavras», mas só isso não chegou. Tinham escutado o testemunho das santas mulheres, falando do túmulo vazio, mas como a «Ele não o tinham visto», só isso não os convenceu. Tinham caminhado com Jesus como companheiro de viagem. Tinham desabafado com Ele acerca do que se tinha passado em Jerusalém naquela Sexta-feira. Tinham ouvido a Palavra da Escritura, mas a ideia de um Messias triunfal não se adaptava minimamente a Jesus Cristo carregado de sofrimentos, humilhado até à morte e morte de cruz. Como seria possível acreditar em alguém que morreu condenado à morte mais cruel e humilhante?

É certo que os profetas tinham anunciado esta morte redentora. O próprio Jesus por várias vezes predissera tudo quanto aconteceu. Por isso fez-lhes uma forte repreensão «ó gente sem compreensão e lentos de espírito! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para se cumprir o que os profetas tinham anunciado e assim entrar na sua glória?»

O seu coração foi aquecendo: «não ardia cá dentro o coração quando Ele falava?», mas ainda não acreditavam. Isto significa que não basta apenas ouvir a Palavra, conhecer a Escritura! Pode saber-se o que está escrito na Bíblia e não creditar em Deus! Conhecemos muita gente que acredita no Jesus da História, mas não acreditam que Ele esteja vivo. Para os discípulos de Emaús nem mesmo a presença de Jesus ressuscitado foi suficiente para acreditar! Verdadeiramente pode o Senhor estar muito perto e caminhar ao nosso lado e nós não O reconhecermos, se não tivermos fé.

«Jesus fez menção de seguir para diante», dispondo-se a deixá-los. Contudo, eles convidaram-no: «Fica connosco, Senhor porque vem caindo a noite». Foi um gesto de simpatia, mostrando a sua hospitalidade e a sua gratidão. Sentiam-se bem na presença deste companheiro, que fazia renascer a esperança, inflamando os seus corações. Jesus aceitou o convite, entrou em casa e tomou lugar com eles à mesa. Depois «tomou o Pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho». Que maravilha! Reviviam a Quinta-feira anterior! «Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O».

Se a fé de muitos cristãos é fria e espiritualmente pouco produtiva não será por falta de alimento? Andamos desfalecidos e com fome?! Na Eucaristia Jesus está vivo no meio de nós. Aqui todos O podem encontrar, para O ouvir, para O receber. Aqui Ele torna-se nosso companheiro de viagem. Aqui Ele oferece-nos o alimento que mata a nossa fome de infinito. Está escrito: «Os discípulos reconheceram o Senhor Jesus na fracção do Pão».

LITURGIA EUCARÍSTICA

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS: Aceitai, Senhor, os dons da vossa Igreja em festa. Vós que lhe destes tão grande felicidade, fazei–a tomar parte na alegria eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Prefácio pascal: p. 469 [602–714] ou 470–473

SANTO

Monição da Comunhão

Os discípulos reconheceram o senhor Jesus na fracção do Pão. A Eucaristia é sempre um momento privilegiado para ouvirmos a palavra do divino Mestre, para nos alimentarmos com o Pão vivo.

Lc 24, 35

ANTÍFONA DA COMUNHÃO: Os discípulos reconheceram o Senhor Jesus ao partir o pão. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: Olhai com bondade, Senhor, para o vosso povo e fazei chegar à gloriosa ressurreição da carne aqueles que renovastes com os sacramentos de vida eterna. Por Nosso Senhor.

RITOS FINAIS

Monição final

«Fica connosco, Senhor!»

Juntamente com os discípulos de todos os tempos nós vos suplicamos: Fica connosco, Senhor!

Com a vossa palavra queremos crescer na fé, proclamada por S. Pedro: «fomos resgatados pelo sangue precioso de Jesus Cristo, Cordeiro sem defeito e sem mancha».

Com a vossa presença queremos testemunhar que sois o Emanuel, o Deus vivo no meio de nós, «ressuscitado de entre os mortos, para que a nossa fé e a nossa esperança estejam em Deus», apontando-nos o horizonte da vida eterna.

HOMILIAS FERIAIS

3ª SEMANA

2ª Feira, 7-IV: À procura de Jesus.

Act 6, 8-15 / Jo 6, 22-29

A multidão viu que Jesus ali não estava… Subiram todos para as embarcações e foram para Cafarnaum à procura de Jesus.

É admirável este desejo de procurar Jesus, embora não fosse com a melhor das intenções: tinham ficado saciados com os pães (cf. Ev). Noutras ocasiões, a procura e o encontro com Jesus acarretam dificuldades, como aconteceu com Estêvão (cf. Leit).

Nesta semana de orações pelas vocações consagradas peçamos a Deus para que muitos O procurem, para se dedicarem ao seu serviço. E também que todos nós não deixemos de ir ao seu encontro nos sacramentos e nas orações, vencendo as dificuldades que encontrarmos.

3ª Feira, 8-IV: O Pão que dá forças.

Act 7, 51-8, 1 / Jo 6, 30-35

Meu Pai é que vos dá o verdadeiro Pão que vem do Céu. O Pão de Deus é que desce do Céu, para dar a vida ao mundo.

Jesus promete um grande milagre: um alimento que é o seu próprio Corpo (cf. Ev). É o alimento que dá forças a Estêvão, para suportar o seu martírio (cf. Leit).

Todos precisamos deste Pão da vida, pois vivemos num ambiente paganizado, em que encontramos hostilidade para sermos coerentes com a nossa fé. Somos acusados de ‘fanáticos’ por defendermos a dignidade e a liberdade de cada pessoa: a defesa da vida desde o início até à morte natural, a defesa da família, etc. O Senhor garante-nos a sua ajuda: «Eu é que sou Pão da vida» (Ev).

4ª Feira, 9-IV: A vontade do Pai revelada por Jesus.

Act 8, 1-8 / Jo 6, 35-40

Porque desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.

Jesus apresenta-se como exemplo do cumprimento da vontade de Deus, ao mesmo tempo que nos revela qual é essa vontade: que não se perca ninguém que lhe foi confiado e quem n’Ele acredita terá a vida eterna (cf. Ev). Por vezes a vontade de Deus pode ocasionar grandes contrariedades: uma perseguição contra a igreja de Jerusalém mas que ajuda à pregação da boa nova noutras cidades (cf. Leit).

Procuremos seguir a vontade de Deus, como Jesus, no cumprimento de todos os nossos deveres e, quando for difícil, digamos: tudo é para meu bem.

5ª Feira, 10-IV: Os alimentos para termos uma vida divina.

Act. 8, 26-40 / Jo 6, 44-52

Eu sou o Pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente.

O homem comeu um alimento de morte (no pecado original) e agora deve tomar um remédio que sirva de antídoto, como acontece com aqueles que tomam um veneno devem tomar um contraveneno (cf. S. Gregório de Nissa). E este remédio é o Pão da vida (cf. Ev). Para eliminar a ignorância das Escritura, Deus enviou o diácono Filipe a um etíope (cf. Leit).

vida divina que recebemos no Baptismo vai desenvolvendo-se graças aos alimentos da palavra de Deus e da Eucaristia. Temos muita necessidade de ambos.

6ª Feira, 11-IV: Frutos da Comunhão.

Act 9, 1-20 / Jo 6, 52-59

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.

A Comunhão aumenta a união com Cristo (cf. Ev). Jesus quer associar a sua vida à nossa de um novo modo: é uma comunhão misteriosa e real entre o seu Corpo e o nosso.

Mas a Comunhão também tem como efeito a unidade do Corpo Místico. Foi uma das verdades fundamentais, descoberta por S. Paulo, no momento da sua conversão (cf. Leit). Podemos ajudar os outros, vivendo fielmente os compromissos da nossa vocação cristã, rezando mais por todos, pedindo a conversão dos pecadores, etc.

Sábado, 12-IV: Unidade da Palavra e do Pão.

Act 9, 31-42 / Jo 6, 0-69

As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não acreditam.

Muitos acreditaram e se converteram ao Senhor, quando presenciaram os dois milagres realizados por Pedro (cf. Leit). Mas com o anúncio da Eucaristia muitos se afastaram (cf. Ev).

Na Missa existe uma unidade de duas mesas: a da Palavra e a do Pão. Manifestemos a nossa fé em ambas, aproximando-nos. E que a Palavra seja uma orientação para a nosso comportamento; e que a Comunhão nos comunique a vida divina e nos dê forças para tudo o que tivermos que fazer.

Celebração e Homilia:           JOSÉ ROQUE

Nota Exegética:                    GERALDO MORUJÃO

Homilias Feriais:                 NUNO ROMÃO