A. COMEMORAÇÃO DA ENTRADA DO SENHOR EM JERUSALÉM

Primeira forma: Procissão

À hora marcada, reúnem-se todos numa igreja secundária ou noutro lugar apropriado fora da igreja para a qual se dirige a procissão. Os fiéis levam ramos na mão.

O sacerdote e o diácono, revestidos de paramentos vermelhos próprios da Missa, dirigem-se para o lugar onde o povo está reunido. O sacerdote, em vez da casula, pode levar o pluvial, que deporá terminada a procissão.

Entretanto, canta-se a antífona seguinte ou outro cântico apropriado.

 

Mt 21, 9

ANTÍFONA: Hossana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Hossana nas alturas.

 

O sacerdote, ao chegar, saúda o povo na forma habitual. Depois exorta os fiéis a participarem activa e conscientemente na celebração deste dia, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Irmãos caríssimos:

Desde o princípio da Quaresma vimos a preparar-nos com obras de penitência e de caridade. Hoje estamos aqui reunidos para darmos início, em união com toda a Igreja, à celebração do mistério pascal do Senhor, isto é, da sua paixão e ressurreição.

Foi para realizar este mistério da sua morte e ressurreição que Jesus Cristo entrou na sua cidade de Jerusalém. Por isso, recordando com fé e devoção esta entrada triunfal na cidade santa, acompanharemos o Senhor, de modo que, participando agora na sua cruz, mereçamos um dia ter parte na sua ressurreição.

 

Seguidamente, o sacerdote, de mãos juntas, diz uma das seguintes orações:

 

Oremos.

Deus eterno e omnipotente, santificai com a vossa bênção estes ramos, para que, acompanhando a Cristo nosso Rei nesta celebração festiva, mereçamos entrar com Ele na Jerusalém celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Ou:

Aumentai, Senhor, a fé dos que esperam em Vós e ouvi com bondade as nossas humildes súplicas, para que, aclamando com estes ramos a Cristo vitorioso, permaneçamos unidos a Ele e dêmos fruto abundante de boas obras. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Terminada a oração, asperge os ramos com água benta, sem dizer nada.

A seguir, faz-se a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor, segundo o texto evangélico correspondente a cada um dos ciclos. Esta proclamação é feita do modo habitual pelo diácono, ou, na falta dele, pelo sacerdote.

 

Evangelho

São Marcos 11, 1-10

Naquele tempo, 1ao aproximarem-se de Jerusalém, cerca de Betfagé e de Betânia, junto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos 2e disse-lhes: «Ide à povoação que está em frente e, logo à entrada, vereis um jumentinho preso, que ninguém montou ainda. Soltai-o e trazei-o. 3E se alguém perguntar porque fazeis isso, respondei: ‘O Senhor precisa dele, mas não tardará em mandá-lo de volta’». 4Eles partiram e encontraram um jumentinho, preso a uma porta, cá fora na rua, e soltaram-no. 5Alguns dos que ali estavam perguntaram-lhes: «Porque estais a desprender o jumentinho?» 6Responderam-lhes como Jesus tinha dito e eles deixaram-nos ir. 7Levaram o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as capas e Jesus montou nele. 8Muitos estenderam as suas capas no caminho e outros, ramos de verdura, que tinham cortado nos campos. 9E tanto os que iam à frente como os que vinham atrás clamavam: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor! 10Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai David! Hossana nas alturas!»

 

ou

 

São João 12, 12-16

12Naquele tempo, a grande multidão que tinha vindo à festa da Páscoa, ao ouvir dizer que Jesus ia chegar a Jerusalém, 13apanhou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!» 14Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, como está escrito: 15«Não temas, filha de Sião: Eis que vem o teu Rei, sentado sobre o filho de uma jumenta». 16Os discípulos não entenderam isto ao princípio, mas, quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que assim estava escrito acerca d’Ele e era isso mesmo que eles tinham feito.

 

Os quatro evangelistas referem a entrada de Jesus em Jerusalém, com algumas pequenas diferenças. Em S. João aparece mais como uma iniciativa da multidão, ao passo que nos Sinópticos é Jesus a preparar a sua entrada.

«Um jumentinho». Mateus fala também da jumenta, mãe do jumentinho para sublinhar o cumprimento da letra da profecia de Zacarias 9, 9. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé; Jesus, porém, quer entrar a cavalo, desta vez. Tendo evitado até então todas as aclamações messiânicas, mostrar-se agora como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado num humilde jumentinho, e não como um rei temporal, ou um general vitorioso, montado num corcel. Ele não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidãoo príncipe da paz.

A aclamação é a do Salmo 118 (117), e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: «Bendito o que vem» (baruk habá é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel). «Hossana» é uma palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso «viva!», e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: «salva, por favor, (ó Deus)». A saudação do Salmo era uma bênção com que se recebia o peregrino que subia a Jerusalém; aqui é uma aclamação do povo que acompanha Jesus no cortejo. Nos Sinópticos a aclamação, com distintos matizes, tem o carácter de aclamação messiânica, mas em João a entrada tem claramente o aspecto de um rito de entronização, com pormenores que não aparecem nos Sinópticos: a gente sai da cidade a recebê-Lo, e com ramos de palmeira (Jo 12, 13), como a um rei vitorioso.

 

Depois do Evangelho, conforme as circunstâncias, pode fazer-se uma breve homilia. A anunciar o começo da procissão, o sacerdote ou outro ministro idóneo pode fazer uma admonição, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Imitemos, irmãos caríssimos, a multidão que aclamava Jesus na cidade santa de Jerusalém, e caminhemos em paz.

 

Inicia-se a procissão em direcção à igreja onde é celebrada a Missa.

À frente vai o turiferário com o turíbulo aceso (se se usa o incenso); depois, no meio de dois ministros com velas acesas, o cruciferário com a cruz ornamentada; segue-se o sacerdote com os outros ministros: finalmente, os fiéis com os ramos na mão.

Á entrada da procissão na igreja, canta-se o responsório seguinte ou outro cântico alusivo à entrada do Senhor.

 

V. Ao entrar o Senhor na cidade santa, as crianças de Jerusalém, com ramos de palmeira, anunciaram a ressurreição da vida, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

V. Quando o povo ouviu dizer que Jesus vinha para Jerusalém, saiu ao seu encontro com ramos de palmeira, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

Ao chegar ao altar, o sacerdote faz-lhe a devida reverência e, conforme as circunstâncias, incensa-o. Seguidamente, dirige-se para a sua cadeira (depõe o pluvial e veste a casula) e, omitindo tudo o mais, diz, como conclusão da procissão, a oração colecta da Missa. Terminada esta oração, a Missa continua na forma habitual.

 

A Missa deste domingo é dotada de três leituras, que muito se recomendam, se não há um motivo pastoral que aconselhe outra coisa.

Dada a importância da leitura da Paixão do Senhor, compete ao sacerdote, tendo em conta a natureza de cada grupo de fiéis, a opção de ler apenas uma das duas leituras que precedem o Evangelho, ou apenas a história da Paixão, se for necessário, mesmo na forma breve.

Isto vigora apenas para as Missas celebradas com participação do povo.

 

B. MISSA

 

Depois da procissão ou da entrada solene, o sacerdote começa a Missa com a oração colecta.

 

ORAÇÃO COLECTA: Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

LITURGIA DA PALAVRA

Primeira Leitura

Monição: O Profeta Isaías introduz-nos no mistério do servo de Yavé, que sofre por nós. Pelas suas chagas havemos de ser curados. Jesus é o servo sofredor, obediente até à morte e morte de Cruz!

Isaías 50, 4-7

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

O texto é tirado do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv. do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste canto (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): «O Senhor Deus»; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo; na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta; na terceira, a fortaleza no meio das dores.

4 Apresenta-se «a falar como um discípulo», embora não se trate de um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 «Não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam… não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…

 

Salmo Responsorial

Sl 21 (22), 8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)

Monição: Este salmo é um pequeno resumo da paixão de Jesus. O refrão escolhido, «meu Deus, porque me abandonaste?», foi tirado do segundo versículo e traduz a tristeza e a angústia mortal do nosso Salvador. Não é uma interrogação de desespero, mas a oração do Filho, que por nosso amor se oferece a seu eterno Pai, como cantaremos Sexta-feira Santa: «Pai nas vossas mãos entrego o meu espírito.» Hoje, em comunhão com toda a Igreja cantemos:

 

Refrão:         MEU DEUS, MEU DEUS, PORQUE ME ABANDONASTES?

Todos os que me vêem escarnecem de mim,

estendem os lábios e meneiam a cabeça:

«Confiou no Senhor, Ele que o livre,

Ele que o salve, se é seu amigo».

 

Matilhas de cães me rodearam,

cercou-me um bando de malfeitores.

Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,

posso contar todos os meus ossos.

 

Repartiram entre si as minhas vestes

e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,

sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

 

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,

hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,

glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,

reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

Segunda Leitura

Monição: Esta página da carta de S. Paulo aos filipenses é conhecida como um dos hinos cristológicos mais antigos. Os primeiros cristãos, contemplando o amor infinito manifestado na paixão de Jesus Cristo, podiam cantar: «Cristo Jesus, que era de condição divina assumiu a condição de servo e aniquilou-se até à morte e morte de Cruz!»

Filipenses 2, 6-11

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, um hino que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino; é a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressãoem forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus «tinha um ser como Deus, um ser divino».

«Não se valeu da sua igualdade com Deus». Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considerar o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou em sentido passivo (coisa roubada). A Vulgata traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo). Segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossa tradução litúrgica (sentido passivo), teríamos: «não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22), e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).

7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo n’Ele a figura do «servo de Yahwéh», a que se refere a primeira leitura de hoje. «Tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15).

8 «Humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz». Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o humilhante desfecho dum história trágica com que tudo acabou. Temos em paralelo o sublime paradoxo da sua «exaltação»: «por isso Deus – não Ele próprio, mas o Pai – O exaltou» de modo singularíssimo, à letra, acima de tudo o que existe, como o sugere a preposição hypér na composição do verbo hypsóein (exaltar). Esta exaltação deu-se com a glorificação da humanidade de Jesus na sua Ressurreição e Ascensão. A esta sublime exaltação corresponde o «Nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes em todos os tempos. Com efeito, já não se trata do simples nome de Jesus, um nome corrente com que era tratado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, nem apenas o título da sua condição messiânica, «Cristo», pois o nome que agora Lhe compete é o mesmo nome com que o próprio Deus é designado no A. T.: «Kyrios-Senhor», nome divino, como consta da tradução grega de «Yahwéh». Desde agora, a todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – «toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor» (mais expressivo sem artigo, como no original grego) – e o seu domínio sobre toda a criação, a saber: «no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai» (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: «que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai»).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 55/56 (data mais provável), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola.

 

Aclamação ao Evangelho         

Filip 2, 8-9

Monição: Vamos escutar a paixão de Jesus segundo S. Marcos. Este evangelista explica-nos de forma simples e clara quem é Jesus Cristo que entrou triunfalmente em Jerusalém: «Verdadeiramente este homem é o Filho de Deus!»

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

 

 

Evangelho*

* O texto que está entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: São Marcos 14, 1-15, 47                               Forma breve: São Marcos 15, 1-39

N   [1Faltavam dois dias para a festa da Páscoa e dos Ázimos e os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à traição para Lhe darem a morte. 2Mas diziam:

R   «Durante a festa, não, para que não haja algum tumulto entre o povo».

N   3Jesus encontrava-Se em Betânia, em casa de Simão o Leproso, e, estando à mesa, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto preço. Partiu o vaso de alabastro e derramou-o sobre a cabeça de Jesus. 4Alguns indignaram-se e diziam entre si:

R   «Para que foi esse desperdício de perfume? 5Podia vender-se por mais de duzentos denários e dar o dinheiro aos pobres».

N   E censuravam a mulher com aspereza. 6Mas Jesus disse:

J    «Deixai-a. Porque estais a importuná-la? Ela fez uma boa acção para comigo. 7Na verdade, sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podereis fazer-lhes bem; mas a Mim, nem sempre Me tereis. 8Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura. 9Em verdade vos digo: Onde quer que se proclamar o Evangelho, pelo mundo inteiro, dir-se-á também em sua memória, o que ela fez».

N   10Então, Judas Iscariotes um dos Doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes entregar Jesus. 11Quando o ouviram, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele procurava uma oportunidade para entregar Jesus.

N   12No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus:

R   «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»

N   13Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes:

J    «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o 14e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ 15Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».

N   16Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. 17Ao cair da tarde, chegou Jesus com os Doze.18Enquanto estavam à mesa e comiam, Jesus disse:

J    «Em verdade vos digo: Um de vós, que está comigo à mesa, há-de entregar-Me».

N   19Eles começaram a entristecer-se e a dizer um após outro:

R   «Serei eu?»

N   20Jesus respondeu-lhes:

J    «É um dos Doze, que mete comigo a mão no prato. 21O Filho do homem vai partir, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser traído! Teria sido melhor para esse homem não ter nascido».

N   22Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse:

J    «Tomai: isto é o meu Corpo».

N   23Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse Jesus:

J    «Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. 25Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».

N   26Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.

N   27Disse-lhes Jesus:

J    «Todos vós Me abandonareis, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas’. 28Mas depois de ressuscitar, irei à vossa frente para a Galileia».

N   29Disse-Lhe Pedro:

R   «Embora todos Te abandonem, eu não».

N   30Jesus respondeu-lhe:

J    «Em verdade te digo: Hoje, esta mesma noite, antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás».

N   31Mas Pedro continuava a insistir:

R   «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N   E todos afirmaram o mesmo. 32Entretanto, chegaram a uma propriedade chamada Getsémani e Jesus disse aos seus discípulos:

J    «Ficai aqui, enquanto Eu vou orar».

N   33Tomou consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia. 34Disse-lhes então:

J    «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai».

N   35Adiantando-Se um pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele aquela hora. 36Jesus dizia:

J    «Abbá, Pai, tudo Te é possível: afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres».

N   37Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os dormindo e disse a Pedro:

J    «Simão, estás a dormir? Não pudeste vigiar uma hora? 38Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N   39Afastou-Se de novo e orou, dizendo as mesmas palavras. 40Voltou novamente e encontrou-os dormindo, porque tinham os olhos pesados e não sabiam que responder.41Jesus voltou pela terceira vez e disse-lhes:

J    «Dormi agora e descansai…Chegou a hora: o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. 42Levantai-vos. Vamos. Já se aproxima aquele que Me vai entregar».

N   43Ainda Jesus estava a falar, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes, pelos escribas e os anciãos. 44O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O e levai-O bem seguro». 45Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e beijou-O, dizendo:

R   «Mestre».

N   46Então deitaram-Lhe as mãos e prenderam-n’O. 47Um dos presentes puxou da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 48Jesus tomou a palavra e disse-lhes:

J    «Vós saístes com espadas e varapaus para Me prender, como se fosse um salteador. 49Todos os dias Eu estava no meio de vós, a ensinar no templo, e não Me prendestes! Mas é para se cumprirem as Escrituras».

N   50Então os discípulos deixaram-n’O e fugiram todos. 51Seguiu-O um jovem, envolto apenas num lençol. Agarraram-no, 52mas ele, largando o lençol, fugiu nu.

N   53Levaram então Jesus à presença do sumo sacerdote, onde se reuniram todos os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas. 54Pedro, que O seguira de longe, até ao interior do palácio do sumo sacerdote, estava sentado com os guardas, a aquecer-se ao lume. 55Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus para Lhe dar a morte, mas não o encontravam. 56Muitos testemunhavam falsamente contra Ele, mas os seus depoimentos não eram concordes.57Levantaram-se então alguns, para proferir contra Ele este falso testemunho:

R   58«Ouvimo-l’O dizer: ‘Destruirei este templo feito pelos homens e em três dias construirei outro que não será feito pelos homens’».

N   59Mas nem assim o depoimento deles era concorde. 60Então o sumo sacerdote levantou-se no meio de todos e perguntou a Jesus:

R   «Não respondes nada ao que eles depõem contra Ti?»

N   61Mas Jesus continuava calado e nada respondeu. O sumo sacerdote voltou a interrogá-l’O:

R   «És Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?»

N   62Jesus respondeu:

J    «Eu Sou. E vós vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso vir sobre as nuvens do céu».

N   63O sumo sacerdote rasgou as vestes e disse:

R   «Que necessidade temos ainda de testemunhas? 64Ouvistes a blasfémia. Que vos parece?»

N   Todos sentenciaram que Jesus era réu de morte. 65Depois, alguns começaram a cuspir-Lhe, a tapar-Lhe o rosto com um véu e a dar-Lhe punhadas, dizendo:

R   «Adivinha».

N   E os guardas davam-Lhe bofetadas. 66Pedro estava em baixo, no pátio, quando chegou uma das criadas do sumo sacerdote. 67Ao vê-lo a aquecer-se, olhou-o de frente e disse-lhe:

R   «Tu também estavas com Jesus, o Nazareno».

N   68Mas ele negou:

R   «Não sei nem entendo o que dizes».

N   Depois saiu para o vestíbulo e o galo cantou. 69A criada, vendo-o de novo, começou a dizer aos presentes:

R   «Este é um deles».

N   70Mas ele negou segunda vez. Pouco depois, os presentes diziam também a Pedro:

R   «Na verdade, tu és deles, pois também és galileu».

N   71Mas ele começou a dizer imprecações e a jurar:

R   «Não conheço esse homem de quem falais».

N   72E logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro lembrou-se do que Jesus lhe tinha dito: «Antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás». E desatou a chorar.]

N   15, 1Logo de manhã, os príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os escribas e todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-l’O a Pilatos. 2Pilatos perguntou-Lhe:

R   «Tu és o Rei dos judeus?»

N   Jesus respondeu:

J    «É como dizes».

N   3E os príncipes dos sacerdotes faziam muitas acusações contra Ele. 4Pilatos interrogou-O de novo:

R   «Não respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».

N   5Mas Jesus nada respondeu, de modo que Pilatos estava admirado. 6Pela festa da Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. 7Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurrectos que numa revolta tinham cometido um assassínio. 8A multidão, subindo, começou a pedir o que era costume conceder-lhes. 9Pilatos respondeu:

R   «Quereis que vos solte o Rei dos judeus?»

N   10Ele sabia que os príncipes dos sacerdotes O tinham entregado por inveja. 11Entretanto, os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse antes Barrabás. 12Pilatos, tomando de novo a palavra, perguntou-lhes:

R   «Então que hei-de fazer d’Aquele que chamais o Rei dos judeus?»

N   13Eles gritaram de novo:

R   «Crucifica-O! 13»

N   14Pilatos insistiu:

R   «Que mal fez Ele?»

N   Mas eles gritaram ainda mais:

R   «Crucifica-O!»

N   15Então Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado. 16Os soldados levaram-n’O para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a corte. 17Revestiram-n’O com um manto de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que haviam tecido. 18Depois começaram a saudá-l’O:

R   «Salve, Rei dos judeus!»

N   19Batiam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. 20Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em seguida levaram-n’O dali para O crucificarem.

N   21Requisitaram, para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene, pai de Alexandre e Rufo. 22E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do Calvário. 23Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o quis beber. 24Depois crucificaram-n’O. E repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um. 25Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. 26O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus». Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. (27) 28Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:

R   «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, 30salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz».

N   31Os príncipes dos sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo:

R   «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! 32Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos».

N   Até os que estavam crucificados com Ele O injuriavam. 33Quando chegou o meio-dia, as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. 34E às três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:

J    «Eloí, Eloí, lamá sabachtháni?»

N   que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 35Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R   «Está a chamar por Elias».

N   36Alguém correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse:

R   «Deixa ver se Elias vem tirá-l’O dali».

N   37Então Jesus, soltando um grande brado, expirou. 38O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. 39O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou:

R   «Na verdade, este homem era Filho de Deus».

N   [40Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, 41que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém. 42Ao cair da tarde – visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado – 43José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi corajosamente à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. 44Pilatos ficou admirado de Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido. 45Informado pelo centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José. 46José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; depois depositou-O num sepulcro escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro.47Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado.]

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e a obra redentora de Cristo. Houve até quem chegou ao extremo de afirmar que os Evangelhos são «um relato da Paixão, com uma introdução desenvolvida» (M. Kähler). No entanto, os dados registados são muitíssimo parcos e concisos, pois o primeiro objectivo destas quatro narrações não era dar uma informação completa de tudo o que aconteceu; se fosse assim, seria imperdoável que não se diga nada dos sentimentos dos intervenientes na acção. Jesus também não é apresentado como um herói que sofre dores morais e físicas absolutamente indizíveis – a crucifixão era esse crudelissimum teterrimumque supplicium (Cícero) – com uma serenidade majestática. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gal 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Não obstante, não se nota que esteja subjacente aos relatos qualquer intenção de mover o leitor à piedade, descrevendo a tragédia de uma forma comovedora. O que preside à intenção dos relatos é mostrar o sentido da Paixão do Senhor, o modo como, através de todos estes passos, se realiza e torna visível a nossa salvação, no pleno cumprimento das Escrituras, facilitando ao leitor entender o porquê de que tudo isto – tão assombrosamente paradoxal e escandaloso – tenha realmente acontecido. E é assim que todos os relatos da Paixão estão ligados aos da glória da Ressurreição, que acaba por oferecer a saída para tão misterioso enigma (J. M. Casciaro).

Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo. As quatro narrativas da Paixão não se contradizem, mas completam-se e deixam ver a focagem teológica própria de cada evangelista. Marcos é o que se apresenta como mais espontâneo e o que melhor apresenta, na sua crueza realista, o horror do sofrimento de Jesus. Na agonia do Getxemaní, só ele diz que Jesus «sentiu pavor» (Mc 14, 33), e não apenas angústia, e também o pedido de que se afaste o cálice de amargura aparece como mais urgente: «Abbá,… tudo te é possível. Afasta de mim este cálice» (v. 36). Por outro lado, só ele diz, na censura aos discípulos adormecidos, que eles «não sabiam o que Lhe haviam de responder» (Mc 14, 40) e já antes a censura aparecia mais directamente dirigida a Pedro: «não foste capaz…» (v. 37). Também é de notar o pormenor exclusivo do segundo canto do galo nas negações de Pedro (Mc 14, 72). Só Marcos diz que Simão Cireneu era «pai de Alexandre e Rufo» (pensa-se que este pormenor se deve a que estes vieram a ser cristãos bem conhecidos: cf. Rom 16, 13).

N.B. – Para não nos alongarmos mais em comentários, podem ver-se as notas sobre a Paixão do Senhor, infra, em Sexta-feira Santa, assim como as do ano passado, ao Evangelho de S. Mateus (Celebração Litúrgica, Ano A, 2004/2005, pp. 363-367).

 

Sugestões para a homilia

Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o Rei dos Judeus

Os quatro Evangelistas dão grande importância ao relato da Paixão. A segunda parte do Evangelho de S. Marcos está toda orientada para a morte de Jesus. S. Marcos quer-nos fazer compreender as razões pelas quais o relato da Paixão ocupa a quinta parte do seu Evangelho. Porquê tanta importância? Isto surpreende porque o Evangelho foi escrito depois da Ressurreição, para pessoas que viviam iluminadas pelo acontecimento triunfal da Páscoa. No texto grego a Paixão tem 160 linhas enquanto a Ressurreição apenas 46. A morte de Jesus tem muita importância, tem um segredo que S. Marcos nos quer revelar.

O começo da Paixão relata a conspiração contra Jesus, a unção em Betânia, a traição de Judas, os preparativos para a Páscoa, a instituição da Eucaristia. Antes, por três vezes Jesus tinha anunciado o mistério da sua morte. Tudo isto para nos dizer que Jesus viveu primeiramente a Sua Paixão no Seu Coração, antes de a sofrer no seu corpo. Sigamos Jesus, escutemos Jesus. Ele anuncia que todos O vão abandonar (Marc 14, 27), que Pedro O vai renegar (Marc 14, 30). Jesus morrerá sozinho. Na cruz experimentará o abandono do próprio Deus (Marc 15, 34).

No Getsemani e no Gólgota Jesus reza continuamente na Sua língua materna, o aramaico. «Eloí» significa «meu Deus». São palavras do salmo 22 que Jesus rezou na cruz. Começa com uma súplica aflitiva (Marc 15, 34): «Eloí, Eloí, lema sabctani?» (Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?), mas que terminará numa exultação de alegria inexplicável: «Louvai o Senhor, glorificai-O, reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel. Uma nova descendência há-de nascer para servir o Senhor e anunciar a Sua salvação: tal é a Sua obra!» (Salmo 22, 2.24.31-32).

S. Marcos narra dois processos contra Jesus, um religioso, outro político, para dizer a todo o mundo o segredo da identificação deste condenado. Para dizer às autoridades religiosas que Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Messias, o filho do Homem, o Filho de Deus (Marc 14,61-62); para dizer às autoridades romanas que Jesus é o Rei dos Judeus (Marc 15,2).

S. Marcos, no início do Evangelho, põe na boca dos apóstolos esta pergunta: «quem é este Homem a Quem o vento e o mar obedecem?» (Marc 4,41) No final do Evangelho, o centurião vendo a maneira como Jesus morreu fez um acto de fé exclamando: «verdadeiramente este Homem era o Filho de Deus» (Marc 15, 39). Está dada a resposta! Ficámos a saber quem é Jesus.

Irmãos, aproveitemos a Semana Santa para meditarmos na morte de Jesus. Esta morte fala-nos. Esta morte tem um segredo. Esta morte deve provocar em nós um acto de fé semelhante ao do Centurião romano: Verdadeiramente Jesus é o Filho de Deus. Subamos ao Calvário, fixemos o nosso olhar em Jesus o autor e consumador da nossa fé. Não tenhamos medo da escuridão que envolve toda a terra, porque em breve despontará a luz da Páscoa gloriosa.

 

Fala o Santo Padre

«Com o brado do ‘Hosana!’ saudamos Aquele que, em carne e sangue, trouxe a glória de Deus à terra.»

(…) Para compreender aquilo que aconteceu no Domingo de Ramos e descobrir o que isto significou não só naquela época, mas também o que significa para todos os tempos, revela-se importante um pormenor, que se tornou inclusive para os seus discípulos a chave para a compreensão deste acontecimento quando, após a Páscoa, eles voltaram a percorrer com um novo olhar aqueles dias tumultuosos. Jesus entra na Cidade Santa montado num jumento, ou seja, o animal das pessoas simples do campo, e além disso num jumento que não lhe pertence, mas que Ele, para essa ocasião, pede emprestado. (…) João narra-nos que, num primeiro momento, os discípulos não O compreenderam. Somente depois da Páscoa entenderam que Jesus, agindo deste modo, estava a cumprir os anúncios dos profetas, compreenderam que o seu agir derivava da Palavra de Deus e que a levava ao seu cumprimento.

Recordaram, diz João, que no profeta Zacarias se lê: «Não temas, Filha de Sião, olha o teu Rei que chega sentado na cria de uma jumenta» (Jo 12, 15; cf. Zc 9, 9). Para compreender o significado da profecia e, deste modo, do próprio agir de Jesus, devemos ouvir todo o texto de Zacarias, que continua assim: «Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; o arco de guerra será quebrado. Proclamará a paz para as nações. O seu império irá de um mar ao outro, e do rio às extremidades da terra» (9, 10). Com isto, o profeta afirma três coisas sobre o rei que há-de vir.

Em primeiro lugar, diz que ele será um rei dos pobres, um pobre entre os pobres e para os pobres (…). A pobreza, no sentido de Jesus, no sentido dos profetas, pressupõe sobretudo a liberdade interior do desejo da posse e da avidez do poder. (…) Trata-se, em primeiro lugar, da purificação do coração, graças à qual se reconhece a posse como responsabilidade, como dever em relação aos outros, colocando-se sob o olhar de Deus e deixando-se orientar por Cristo que, sendo rico, se fez pobre por nós (cf. 2 Cor 8, 9). A liberdade interior é o pressuposto para a superação da corrupção e da avidez, que já devastam o mundo; esta liberdade só pode ser encontrada se Deus se tornar a nossa riqueza; só pode ser encontrada na paciência das renúncias quotidianas, nas quais ela se desenvolve como autêntica liberdade. É o rei, que nos indica o caminho rumo a esta meta, Jesus é Ele que aclamamos no Domingo de Ramos; é a Ele que pedimos para que nos acompanhe ao longo deste seu caminho.

Em segundo lugar, o profeta mostra-nos que este rei será um rei de paz: Ele exterminará os carros de guerra da terra e os cavalos de batalha, quebrará os arcos de guerra e proclamará a paz. Na figura de Cristo isto concretiza-se mediante o sinal da Cruz. Ela é o arco quebrado, de certa maneira o novo e autêntico arco-íris de Deus, que une o céu e a terra e lança uma ponte sobre os abismos e entre os continentes. A nova arma, que Jesus coloca nas nossas mãos, é a Cruz sinal de reconciliação e de perdão, sinal do amor que é mais forte do que a morte. (…)

A terceira afirmação do profeta é o prenúncio da universalidade. Zacarias diz que o reino do rei da paz se difunde «de um mar ao outro… até às extremidades da terra». Aqui, a antiga promessa da Terra, feita a Abraão e aos Padres, é substituída por uma nova visão: o espaço do rei messiânico já não é um determinado país que em seguida se separaria necessariamente dos outros e portanto, de modo inevitável, tomaria uma posição também contra os demais países. O seu país é a terra, o mundo inteiro. Ultrapassando toda a delimitação, na multiplicidade das culturas, Ele cria a unidade. (…) Ele vem a todas as culturas e a todas as regiões do mundo, a toda a parte nas cabanas mais miseráveis e nos campos mais pobres, assim como no esplendor das catedrais. Em todos os lugares Ele é o mesmo, o Único, e assim todos os orantes congregados, na oração com Ele, encontram-se também unidos entre si num único corpo. Cristo domina, tornando-se Ele mesmo o nosso pão e entregando-se a nós. É desta maneira que Ele edifica o seu Reino.

Esta união torna-se totalmente clara na outra palavra veterotestamentária, que caracteriza e explica a liturgia do Domingo de Ramos e o seu clima especial. A multidão aclama Jesus: «Hosana! Bendito seja o que vem em nome do Senhor» (Mc 11, 9; Sl 118 [117], 25 s.). (…) Em Jesus reconhecem Aquele que verdadeiramente vem em nome do Senhor e traz a presença de Deus ao meio de nós. Este brado de esperança de Israel, esta aclamação a Jesus durante o seu ingresso em Jerusalém, na Igreja tornou-se justamente a aclamação Àquele que, na Eucaristia, vem ao nosso encontro de um modo novo.

Com o brado do «Hosana!» saudamos Aquele que, em carne e sangue, trouxe a glória de Deus à terra. (…) Saudamos Aquele que, na Eucaristia, vem sempre de novo a nós em nome do Senhor, unindo deste modo na paz as extremidades da terra. (…)

Papa Bento XVI, Vaticano, 9 de Abril de 2006

 

LITURGIA EUCARÍSTICA

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS: Pela paixão do vosso Filho Unigénito, apressai, Senhor, a hora da nossa reconciliação: concedei-nos, por este único e admirável sacrifício, a misericórdia que nossos pecados não merecem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. E nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Sendo inocente, entregou-Se à morte pelos pecadores; não tendo culpas, deixou-Se condenar pelos culpados. A sua morte redimiu os nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

SANTO

Monição da Comunhão

Agradeçamos: por nosso amor, Jesus obedeceu até à morte e morte de Cruz. Mas Deus exaltou-O. Ao nome de Jesus todos se ajoelhem no Céu e na terra!

Mt 26, 42

ANTÍFONA DA COMUNHÃO: Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a tua vontade.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: Saciados com estes dons sagrados, nós Vos pedimos, Senhor: assim como, pela morte do vosso Filho, nos fizestes esperar o que a nossa fé nos promete, fazei-nos também chegar, pela sua ressurreição, às alegrias do reino que esperamos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

RITOS FINAIS

Monição final

Pelo mistério pascal Cristo reconciliou-nos com Deus Pai. A morte é um aspecto do mistério total da Páscoa. Não é um termo mas uma passagem. O caminho percorrido por Jesus pelas ruas de Jerusalém é uma «via sacra» com muito sofrimento, mas iluminada pela promessa da ressurreição: «Subimos a Jerusalém e o Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes; eles vão condená-lo à morte, mas depois de três dias ressuscitará» (Mc 10, 33-34).

Estamos a caminhar com S. Paulo. Como aos cristãos de Roma também hoje ele nos ensina: «Irmãos! Se morrermos com Cristo também com Ele viveremos!» (Rom6, 8)

 

HOMILIAS FERIAIS

2ª Feira, 2-IV: O acompanhamento de Cristo na Paixão.

Is 42, 1-7 / Jo 12, 1-11

Eis o meu servo, a quem protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma, para que leve a justiça às nações.

A Semana Santa recorda-nos a profecia do servo sofredor: «Ele mostra também que, para ‘entrar na glória’, tem de passar pela Cruz em Jerusalém. A paixão de Jesus é da vontade do Pai. O Filho age como servo de Deus (cf Leit)» (CIC, 555).

Vamos encontrar também aqueles que estiveram mais ligados à paixão de Cristo. Um deles é Judas, que protesta contra os pormenores de carinho para com o Senhor. Outra é Maria de Betânia, que derramou sobre Ele uma libra de perfume caro (cf Ev). Sejamos igualmente generosos no acompanhamento do Senhor durante estes dias.

 

3ª Feira,3-IV: Acompanhamento de Cristo na Paixão.

Is 49, 1-6 / Jo 13, 21-33. 36-38

Não basta que sejas meu servo… Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra.

Os cânticos do servo anunciam o sentido da paixão de Jesus: luz para as nações e salvação para todos os povos (cf Leit).

Hoje encontramos mais dois intervenientes da Paixão (cf Ev). Judas abandona apressadamente a sala onde estava o Senhor com os seus discípulos para combinar o modo de o entregar aos seus inimigos. E Pedro manifesta total disposição de entregar a sua vida pelo Senhor. Lembremo-nos das vezes que abandonámos o Senhor e manifestemos-lhe o nosso desejo de o acompanhar sempre, mesmo que seja difícil.

 

4ª Feira,4-IV: Acompanhamento de Cristo na Paixão.

Is 50, 4-9 / Mt 26, 14-25

Onde queres que façamos os preparativos para comermos a Páscoa?

«Na véspera da sua paixão, quando ainda era livre, Jesus fez desta última Ceia com os Apóstolos (cf Ev) o memorial da sua oblação voluntária ao Pai para salvação das almas» (CIC 610).

Façamos igualmente os nossos preparativos para esta Páscoa, desejando reunir-nos com Jesus e os discípulos, para a instituição da Eucaristia. Jesus deseja a nossa companhia; mas procuremos evitar as infidelidades, como a de Judas (cf Ev). Melhoremos as nossas disposições para entrarmos em comunhão com Ele.

 

 

Celebração e Homilia:          JOSÉ ROQUE

Nota Exegética:                     GERALDO MORUJÃO

Homilias Feriais:                   NUNO ROMÃO

Sugestão Musical:                 DUARTE NUNO ROCHA