RITOS INICIAIS

 

Pedro 2, 2

ANTÍFONA DE ENTRADA: Como crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual, que vos fará crescer e progredir no caminho da salvação. Aleluia.

 

Ou

Esd 2, 36-37

Exultai de alegria, cantai hinos de glória. Dai graças a Deus, que vos chamou ao reino eterno. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Irmãos e irmãs, sejam todos bem-vindos! Que a paz de Cristo esteja connosco neste domingo em que celebramos a Misericórdia Divina.

A liturgia deste segundo domingo da Páscoa leva-nos a reflectir sobre a perseverança da nossa fé nessa misericórdia.

O Senhor continua a manifestar-se ressuscitado no nosso meio, através da assembleia comunitária. É a nossa vida em comunidade que o pode testemunhar. Ele vence os nossos medos, dá-nos a sua paz, envia sobre nós o seu Espírito que é fonte de divina misericórdia.

Examinemo-nos, em silêncio, e interroguemo-nos se realmente colocamos o Senhor ressuscitado no centro das nossas vidas…

E, porque os nossos gestos não correspondem muitas vezes ao que a Palavra escutada nos sugere, peçamos para todos nós a misericórdia do Senhor.

 

ORAÇÃO COLECTA: Deus de eterna misericórdia, que reanimais a fé do vosso povo na celebração anual das festas pascais, aumentai em nós os dons da vossa graça, para compreendermos melhor as riquezas inesgotáveis do Baptismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

LITURGIA DA PALAVRA

 

Primeira Leitura

 

Monição: A primitiva comunidade cristã era constituída por pessoas que viviam unidas pelos mesmos sentimentos, eram estimadas, muito admiradas e, por isso, exerciam forte atracção nos que com eles contactavam. Isto originava que muitas outras pessoas se tornassem discípulas de Cristo.

 

Actos dos Apóstolos 5, 12-16

12Pelas mãos dos Apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo. Unidos pelos mesmos sentimentos, reuniam-se todos no Pórtico de Salomão; 13nenhum dos outros se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo enaltecia-os. 14Cada vez mais gente aderia ao Senhor pela fé, uma multidão de homens e mulheres, 15de tal maneira que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e em catres, para que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. 16Das cidades vizinhas de Jerusalém, a multidão também acorria, trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros e todos eram curados.

 

Como em todos os anos, vamos ter como 1ª leitura de todos os Domingos Pascais trechos dos Actos dos Apóstolos. A leitura de hoje é um dos chamados «relatos sumários» de Actos. No ano A, leu-se o de Act 2, 42-47 e no ano B o de Act 4, 23-35. Estes são breves resumos daquilo que caracterizava a vida da primitiva Igreja de Jerusalém. Numa espécie de visão idílica, focam o que sobressaía de positivo na novidade da fé cristã nascente, a desenvolver-se pela acção do Espírito Santo: a sua vida religiosa, a união fraterna, o cuidado dos pobres, bem como os milagres realizados pelos Apóstolos. S. Lucas não deixa de sublinhar, o prestígio de que gozavam os primeiros cristãos: «o povo enaltecia-os» (v. 13; cf. Act 2, 43; 4, 33).

12 «No pórtico de Salomão», no adro do Templo, o chamado átrio dos gentios, tinha a limitá-lo externamente não uma simples muralha de suporte e protecção, que ainda hoje em parte se conserva, mas esplêndidos pórticos, ao Sul, o pórtico real, com três fiadas de colunas, e o pórtico de Salomão a Nascente, com duas fiadas de colunas.

13 «Nenhum se atrevia a juntar-se a eles», provavelmente dominados pelo temor dos chefes do povo, que tinham condenado Jesus à morte.

14 «Cada vez mais gente aderia…» S. Lucas tem como um constante leitmotiv, ou ideia mestra da sua composição, o crescimento progressivo da Igreja, como quem quer documentar com a vida dos primeiros cristãos as parábolas do grão de mostarda e do fermento, de acordo com as palavras programáticas de Jesus, antes da Ascensão: «sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da Terra» (Act 1, 8).

 

Salmo Responsorial

Sl 117 (118), 2-4.22-24.25-27a (R. 1)

 

Monição: O cântico de meditação é tirado do salmo 117. Nele declaramos que o Senhor é bom e a referência à pedra rejeitada, que se tornou pedra angular, faz-nos recordar a Paixão e Ressurreição de Jesus, fundamento da nossa fé na misericórdia divina.

 

Refrão:        DAI GRAÇAS AO SENHOR, PORQUE ELE É BOM,

PORQUE É ETERNA A SUA MISERICÓRDIA.

 

Ou:               ACLAMAI O SENHOR, PORQUE ELE É BOM:

O SEU AMOR É PARA SEMPRE.

 

Ou:               ALELUIA.

 

Diga a casa de Israel:

é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Aarão:

é eterna a sua misericórdia.

 

Digam os que temem o Senhor:

é eterna a sua misericórdia.

A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular.

 

Tudo isto veio do Senhor:

é admirável aos nossos olhos.

Este é o dia que o Senhor fez:

exultemos e cantemos de alegria.

 

Senhor, salvai os vossos servos, Senhor, dai-nos a vitória.

Bendito o que vem em nome do Senhor,

da casa do Senhor nós vos bendizemos.

O Senhor é Deus e fez brilhar sobre nós a sua luz.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Para compreendermos esta leitura estejamos atentos ao seguinte: o filho do homem é o Senhor ressuscitado, fonte de misericórdia; a veste comprida de sacerdote indica que Jesus é agora o único sacerdote; a faixa dourada à cintura é o símbolo da sua realeza; os sete castiçais indicam a totalidade das comunidades cristãs.

 

Apocalipse 1, 9-11a.12-13.17-19

9Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na perseverança em Jesus, estava na ilha de Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. 10No dia do Senhor fui movido pelo Espírito e ouvi atrás de mim uma voz forte, semelhante à da trombeta, que dizia: 11b«Escreve num livro o que vês e envia-o às sete Igrejas». 12Voltei-me para ver de quem era a voz que me falava; ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro 13e, no meio dos candelabros, alguém semelhante a um filho do homem, vestido com uma longa túnica e cingido no peito com um cinto de ouro. 17Quando o vi, caí a seus pés como morto. Mas ele poisou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, 18o que vive. Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos. 19Escreve, pois, as coisas que viste, tanto as presentes como as que hão-de acontecer depois destas».

 

Vamos ter, como 2ª leitura, em todos os Domingos Pascais do ciclo C, um trecho do Apocalipse, uma obra repleta de ressonâncias litúrgicas, onde a assembleia dos fiéis na terra se faz eco das aclamações da Jerusalém celeste tributadas ao Cordeiro imolado e vencedor da morte, Cristo ressuscitado (no ano A, a 2ª leitura foi da 1ª Carta de S. Pedro; no ano B, da 1ª Carta de S. João).

9 «Eu, João». De acordo com a tradição geral, seria o «discípulo amado», que esteve exilado, na perseguição do imperador Domiciano, na ilha de Patmos, hoje Patino, no arquipélago das Espórades, no Mar Egeu oriental. Esta ilha, de uns 15 km de comprimento (40km2), rochosa e árida, era uma espécie de Tarrafal da época, lugar de desterro para crimes políticos e religiosos. A pouca correcção gramatical do grego do Apocalipse (de longe o mais fraco de todo o N. T.) até se coaduna melhor com a personalidade do pescador da Galileia do que a relativa perfeição do IV Evangelho e das epístolas joaninas, mas as diferenças podem explicar-se pela diversidade dos colaboradores do Apóstolo. Se no Evangelho nunca se revela o seu nome, é porque pretende, na sua humildade, adoptar a discrição dos restantes evangelistas, a fim de ressaltar que o importante é que o leitor se fixe na pessoa de Jesus e na importância da sua mensagem. O facto de aparecer aqui quatro vezes o nome de João corresponde ao género profético desta obra; os profetas começavam por indicar o seu nome; João, porém, não apela para a sua qualidade de Apóstolo, preferindo modestamente referir a sua condição de «irmão e companheiro». De qualquer modo, a questão do autor da obra é uma questão aberta, havendo exegetas católicos que preferem pensar noutro João, como o problemático «João, o presbítero» de que fala Papias.

10 «No dia do Senhor». Como facilmente se depreende, temos aqui documentado o uso cristão, que remonta à época apostólica, de celebrar o primeiro dia da semana dominicum (diem), em atenção a ser o dia da Ressurreição do Senhor (cf. Mt 28, 18), dia este em que já os primeiros cristãos se reuniam (cf. 1 Cor 16, 2) e celebravam a Eucaristia, «a Fracção do Pão», como então se chamava (cf. Act 20, 7; 2, 42).

11-13 «Sete igrejas, sete candelabros; longa túnica, cinto de ouro». A visão é relatada com um notável colorido litúrgico, tão característico do Apocalipse, pondo em evidência como a liturgia terrestre (a celebração do Dia do Senhor) está em consonância com a liturgia celeste; os sete (número de plenitude) candelabros são o símbolo de toda a Igreja em oração, numa alusão ao candelabro de sete braços, a menoráh do Templo; o sacerdócio e a realeza de Cristo são simbolizados pela longa túnica e pelo cinto de ouro. Eis o comentário espiritual de Santo Agostinho: «As sete Igrejas, às quais S. João escreve, são a Igreja Católica e Una. O número sete relaciona-se com a graça septiforme. (…) Representam também a Igreja os sete candelabros. O (indivíduo) «semelhante a um filho de homem», no meio dos candelabros, é Cristo no centro da Igreja. O cinto, que envolve os seios, são os dois Testamentos; eles recebem do peito de Cristo o leite espiritual, alimento do povo de Deus para a vida eterna».

17 «Eu sou o Primeiro e o Último»: é uma expressão isaiana (cf. Is 44, 2.6; 48, 12) para designar Yahwéh, como Senhor do Universo, no seu ser eterno, que existe antes de todas as coisas e subsiste após o fim das criaturas. Esta expressão, aqui aplicada a Jesus, deixa ver a sua divindade.

 

Aclamação ao Evangelho       

 Jo 20, 29

 

Monição: A evidência possui a prova irrefutável dum facto. A felicidade e alegria daqueles que acreditam sem terem visto é a fé realmente pura.

 

ALELUIA

 

Disse o Senhor a Tomé: «Porque Me viste, acreditaste;  felizes os que acreditam sem terem visto.

 

 

Evangelho

 

São João 20, 19-31

19Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». 24Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus.25Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». 26Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». 28Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». 30Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

 

Neste breve relato pode ver-se como Jesus cumpriu a suas promessas que constam dos discursos de despedida: voltarei a vós (14, 18) – pôs-se no meio deles (v. 19); um pouco mais e ver-Me-eis (16, 16) – encheram-se de alegria por verem o Senhor (v. 20); Eu vos enviarei o Paráclito (16, 7) – recebei o Espírito Santo (v. 22); ver também Jo 14, 12 e 20, 17.

19 «A paz esteja convosco!» Não se trata duma mera saudação, a mais corrente entre os judeus, mesmo ainda hoje. Esta insistência joanina na sudação do Senhor ressuscitado (vv. 19.21.26) é muito expressiva; com efeito nunca os Evangelhos registam tal saudação, mas só agora, quando Jesus, com a sua Morte e Ressurreição, acabava de nos garantir a paz, a paz com Deus, origem e alicerce de toda a verdadeira paz (cf. Jo 14, 27; Rom 5, 1; Ef2, 14; Col 1, 20).

20 O mostrar das mãos e do peito acentua a continuidade entre o Jesus crucificado e o Senhor glorioso (cf. Hebr 2, 18); a sua presença, que transcende a dimensão espácio-temporal (cf. vv. 19.26), é uma realidade que os enche de paz (vv. 19.21.26; cf. Jo 14, 27; 16, 33; Rom 5, 1; Col 1, 20) e de alegria (v. 20; cf. Jo 15, 11; 16, 20-24; 17, 13), conforme Jesus prometera. «Ficaram cheios de alegria» é uma observação que confere ao relato uma grande credibilidade; com efeito, naqueles discípulos espavoridos (v. 19), desiludidos e estonteados, surge uma vivíssima reacção de alegria, ao verem o Senhor. Ao contrário do que era de esperar, não se verifica aqui o esquema habitual das visões divinas, as teofanias do A. T., em que sempre há uma reacção de temor e de perturbação. A grande alegria dos Apóstolos procede da certeza da vitória de Jesus sobre a morte e também de verem como Jesus reatava com eles a intimidade anterior, sem recriminar a fraqueza da sua fé e a vergonha da sua deslealdade.

22 «Soprou sobre eles… Recebei o Espírito Santo». Este soprar de Jesus não é ainda «o vento impetuoso» do dia de Pentecostes; é um sinal visível do dom invisível do Espírito (em grego é a mesma palavra que também significa «sopro»). Aqui, tem por efeito conferir-lhes o poder de perdoar os pecados, poder dado só aos Apóstolos (e seus sucessores no sacerdócio da Nova Aliança), ao passo que no dia do Pentecostes é dado o Espírito Santo também a outros discípulos reunidos com Maria no Cenáculo (cf. Act 1, 14; 2, 1), iluminando-os e fortalecendo-os com carismas extraordinários em ordem ao cumprimento da missão de que estavam incumbidos.

23 «A quem perdoardes…» A Igreja viu nestas palavras a instituição do Sacramento da Reconciliação, que é fonte de paz e alegria, e definiu mesmo o seu sentido literal; de facto Jesus diz: «a quem perdoardes os pecados»,e não: «a quem pregardes o perdão dos pecados» (segundo entendeu a reforma protestante). A expressão é muito forte, pois deve-se ter em conta o uso judaico da voz passiva para evitar pronunciar o nome inefável de Deus(passivum divinum); sendo assim, dizer ficarão perdoados corresponde a «Deus perdoará» e «ficarão retidos» equivale a «Deus reterá», isto é, não perdoará (cf. Mt 16, 19; 18, 18; 2 Cor 5, 18-19). Aqui se funda o ensino do Concílio de Trento ao falar da necessidade de confessar todos os pecados graves cometidos depois do Baptismo, uma doutrina que, já depois do Vaticano II, o magistério de Paulo VI reafirma: «a doutrina do Concílio de Trento deve ser firmemente mantida e aplicada fielmente na prática»; por isso, os fiéis que, em perigo de morte ou em caso de grave necessidade, tenham recebido legitimamente a absolvição comunitária ou colectiva de pecados graves ficam com a grave obrigação de os confessar dentro de um ano (Normas Pastorais da Congregação para a Doutrina da Fé, 16-VI-1972); também o Catecismo da Igreja Católica, nº 1497, afirma: «a confissão individual e integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua a ser o único meio ordinário para a reconciliação com Deus e com a Igreja»; cf. tb. o Motu proprio de João Paulo II, Misericordia Dei (7.4.2002) e Código de Direito Canónico (nº 960.).

24 «Tomé», nome aramaico Tomá significa «gémeo»; em grego, dídymos.

28 «Meu Senhor e meu Deus!» É da boca do discípulo incrédulo que sai a mais elevada profissão de fé explícita na divindade de Cristo, a qual engloba todo o Evangelho numa unidade coerente.

29 «Felizes os que acreditam sem terem visto». Para a generalidade dos fiéis, a fé (dom de Deus) não tem mais apoio humano verificável do que o testemunho grandemente crível da pregação apostólica e da Igreja através dos séculos (cf. Jo 17, 20). Para crer não precisamos de milagres, basta a graça, que Deus nunca nega a quem busca a verdade com humildade e sinceridade de coração. O facto de as coisas da fé não serem evidentes, nem uma mera descoberta da razão, só confere mérito à atitude do crente, que crê confiando em Deus, que na sua Revelação não se engana nem pode enganar-nos. Por isso, Jesus proclama-nos «felizes», ao submetermos o nosso pensamento e a nossa vontade a Deus na entrega que o acto de fé implica. Como Tomé, também nós temos garantias de credibilidade suficientes para aceitar a Boa Nova de Jesus: as nossas escusas para não crer são escusas culpáveis, escusas de mau pagador. Também as estrelas não deixam de existir pelo facto de os cegos não as verem ou de o céu estar nublado.

30-31 Temos aqui a primeira conclusão do Evangelho de S. João, que nos deixa ver o objectivo que o Evangelista se propôs: fazer progredir na fé e na vida cristã os fiéis, sem que se possa excluir também uma intenção de trazer à fé os não crentes. Este Evangelho foi escrito para crermos que «Jesus é o Messias, o Filho de Deus». Note-se que a fé não é uma mera disposição interior de busca, aposta, ou caminhada, sem uma base doutrinal; a fé implica um conteúdo de ensino (cf. Rom 6, 17), pois exige que se aceitem «verdades» como esta, a saber, que Jesus é o Filho de Deus, e Filho, não num sentido genérico, humano ou messiânico, pois é o «Filho Unigénito que está no seio do Pai» (Jo 1, 18), verdadeiro Deus, segundo a confissão de S. Tomé: «Meu Senhor e meu Deus» (v. 28; cf. Jo 1, 1; Rom 9, 5). Note-se que há quem veja o Evangelho segundo S. João contido dentro de uma grande inclusão, que põe em evidência a divindade de Cristo: Jo 1, 1 (O Verbo era Deus) e Jo 20, 28 (meu Senhor e meu Deus), tendo como centro e clímax a afirmação de Jesus: Eu e o Pai somos Um (10, 30).

 

Sugestões para a homilia

 

  • A assembleia dominical é sinal de Cristo ressuscitado
  • Através de gestos concretos de misericórdia
  • Colocando Cristo no centro da vida

A assembleia dominical é sinal de Cristo ressuscitado

O evangelista João escreve este texto especialmente para as comunidades cristãs que já não tinham conhecido nenhum dos doze apóstolos. Sentiam dificuldade em acreditar na ressurreição de Jesus. Desejavam, como muitos de nós ainda hoje, divisar, tocar, averiguar se realmente o Senhor ressuscitara. Interrogavam-se se haveria provas de que Ele estava efectivamente vivo e, se assim era, por que razão não tornara a aparecer.

João quis dizer aos cristãos da sua comunidade (e a nós) que todos os apóstolos tiveram os seus momentos de dúvida, e não só Tomé. O seu caminho da fé foi moroso e complicado, embora Jesus lhes tivesse dado tantos sinais para demonstrar que estava vivo e que era o sinal da misericórdia divina para com a Humanidade. Tomé é o símbolo destas dificuldades vividas por todos eles e também por nós.

Não se pode ter fé naquilo que se vê. Não se podem ter provas científicas da ressurreição. Se alguém quer ver, tocar, reconhecer, deve renunciar à fé. Quem possui a garantia da certeza, tem a prova indiscutível dum facto, mas não a fé. Nós pensamos: «eles foram felizes porque viram». Mas Jesus diz que felizes são os que não viram, pois a sua fé é mais genuína, mais efectiva, ou melhor, é a única fé pura.

Ambas as aparições de Jesus, relatadas no Evangelho de hoje, são feitas aos mesmos, num espaço de oito dias quando eles se encontravam reunidos em casa, ao «domingo». É nessa ocasião que Ele mostra os sinais da sua Paixão e se apresenta com as palavras: «A Paz esteja convosco», como sinal evidente de que viera derramar «a vaga benéfica da Misericórdia Divina», como afirmou João Paulo II.

O encontro a que João alude é a comunidade que se reúne ao domingo, no «dia do Senhor», para celebrar a Eucaristia. Quando nós, os crentes, estamos reunidos é possível repetir a experiência que os apóstolos tiveram no dia de Páscoa. Cristo, pela boca do celebrante, também nos saúda: «A Paz esteja convosco!». E, se Tomé conseguiu pronunciar a sua profissão de fé «depois de ter ouvido» a voz do Ressuscitado, juntamente com os irmãos da comunidade, essa possibilidade também nos é concedida a todos nós a cada «oito dias»… Esta profissão de fé deve ser repetida amiudadamente por nós através de gestos concretos.

Através de gestos concretos de misericórdia

Os cristãos das primitivas comunidades dão-nos o exemplo, como nos relata a primeira leitura: «Estavam unidos pelos mesmos sentimentos». Não se pode viver a fé cristã em solidão, no isolamento completo dos outros. Os cristãos constituíam uma família, eram solidários uns com os outros e sentiam-se responsáveis por tudo o que acontecia aos seus irmãos, conscientes da misericórdia divina. Por isso eram pessoas estimadas e pelo seu comportamento «cada vez mais gente aderia ao Senhor».

Hoje também somos convidados a apresentar ao mundo as mesmas obras: usando para o bem as enormes aptidões que Deus concedeu a cada um, correspondendo com a nossa vida ao que comunitariamente celebramos, ajudando-nos e sentindo os problemas dos outros, repartindo os bens com os mais necessitados, alegrando-nos com os que estão alegres e entristecendo-nos com quem sofre, enfim, colocando a Cristo Misericórdia no centro da nossa vida.

Colocando Cristo no centro da vida

A isso nos convida a segunda leitura de hoje quando nos apresenta a Cristo como o centro da adoração de todas as comunidades cristãs. É Ele o rei que as guia e governa com a sua palavra; é Ele o sacerdote misericordioso que, doando a sua própria vida, oferece o único sacrifício agradável a Deus.

Por isso, aqui ficam algumas interrogações: é Cristo que está no centro da nossa comunidade cristã, quando ela se reúne no dia do Senhor? Não serão outras opiniões e outras pessoas ouvidas em vez da Palavra do Ressuscitado? A quem prestamos culto: a Cristo, Senhor de Misericórdia, ou aos poderosos e mentirosos deste mundo?

 

Fala o Santo Padre

 

«Infundindo a vida no corpo sepultado de Jesus de Nazaré,

o Espírito Criador completou a obra da criação.»

 

Estimados irmãos e irmãs

A todos vós renovo os bons votos de feliz Páscoa, no Domingo que encerra a Oitava e é tradicionalmente chamado Domingo «in Albis». Por desejo do meu venerado Predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, o presente Domingo é dedicado também à Divina Misericórdia. […]

Este Domingo como eu dizia conclui a semana ou, mais propriamente, a «Oitava» de Páscoa, que a liturgia considera como um único dia: «O dia que fez o Senhor» (Sl 117, 24). Não é um tempo cronológico, mas espiritual, que Deus inaugurou no tecido dos dias, quando ressuscitou Cristo de entre os mortos. Infundindo a vida nova e eterna no corpo sepultado de Jesus de Nazaré, o Espírito Criador completou a obra da criação, dando origem às «primícias»: primícias de uma renovada humanidade que, ao mesmo tempo, é primícias de um novo mundo e de uma nova época.

Esta renovação do mundo pode resumir-se com uma palavra: a mesma que Jesus ressuscitado pronunciou como saudação, e sobretudo como anúncio da sua vitória aos discípulos: «A paz esteja convosco!» (Lc 24, 36; Jo 20, 19.21.26). A Paz é o dom que Cristo deixou aos seus amigos (cf. Jo 14, 27), como bênção destinada a todos os homens e a todos os povos. Não a paz segundo a mentalidade do «mundo», como equilíbrio de forças, mas uma nova realidade, fruto do Amor de Deus, da sua Misericórdia. É a paz que Jesus Cristo adquiriu com o preço do seu Sangue e que comunica a quantos nele confiam. «Jesus, em Vós confio!»: nestas palavras resume-se a fé do cristão, que é fé na omnipotência do Amor misericordioso de Deus. […]

 

Bento XVI, Vaticano, 15 de Abril de 2007

 

LITURGIA EUCARÍSTICA

 

Monição do ofertório

 

Os dons da terra que vamos consagrar sobre o altar, sejam penhor de que neles oferecemos, juntamente com Cristo ressuscitado, toda a nossa vida, a fim de que consigamos criar uma comunidade inspirada pela lei do amor, da generosidade, da união fraterna e do perdão.

 

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS: Aceitai benignamente, Senhor, as ofertas do vosso povo [e dos vossos novos filhos], de modo que, renovados pela profissão da fé e pelo Baptismo, mereçamos alcançar a bem-aventurança eterna. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia]: p. 469 [602-714]

 

No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios. Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.

 

SANTO

 

Abraço da paz

 

Monição: Alertados pela notícia da fé em Cristo Ressuscitado, manifestação perfeita da Misericórdia Divina, consciencializemo-nos de que há muitos serviços a fazer e muitas tarefas a desempenhar na nossa comunidade. Tenhamos, pois, a coragem de seguir os passos das primitivas comunidades cristãs, para auxiliarmos mais e melhor todos os nossos irmãos, a fim de termos paz interior e a podermos comunicar a todos os homens.

 

Monição da Comunhão

 

Através da comunhão com Cristo ressuscitado, ajudai-nos, Senhor, a aumentarmos a coragem de concretizar o serviço recíproco e a partilha dos bens, a fim de que a nossa fé na ressurreição faça destruir todas as divisões e credibilize a nossa acção no meio deste mundo, em que domina a competição e o desejo de domínio sobre os outros.

 

cf. Jo 20, 27

ANTÍFONA DA COMUNHÃO: Disse Jesus a Tomé: Com a tua mão reconhece o lugar dos cravos. Não sejas incrédulo, mas fiel. Aleluia.

 

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: Concedei, Deus todo-poderoso, que a força do sacramento pascal que recebemos permaneça sempre em nossas almas. Por Nosso Senhor.

 

 

RITOS FINAIS

 

Monição final

 

Servir, amar, ensinar, preferir, visitar, acariciar, comungar, escolher, defender, advertir, partilhar ter um só coração e uma só alma e saber conviver com os outros, hão-de ser as manifestações concretas de que conseguimos testemunhar a nossa fé em Cristo ressuscitado e em Deus Pai, Senhor de Divina Misericórdia.

 

 

 

Celebração e Homilia:         ANTÓNIO E. PORTELA

Nota Exegética:                    GERALDO MORUJÃO

Homilias Feriais:                  NUNO ROMÃO

Sugestão Musical:                DUARTE NUNO ROCHA