RITOS INICIAIS

Salmo 2, 7

Antífona de entrada: O Senhor disse-me: Tu és meu filho, Eu hoje te gerei.

Ou

Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador. Hoje desceu do Céu sobre nós a verdadeira paz.

Diz-se o Glória.

Introdução ao espírito da Celebração

A Igreja celebra mais um aniversário do Nascimento do Deus Menino. Com os textos da Missa da Vigília recorda-nos que Jesus vem inserir-se na História da família humana. A missa da meia-noite celebra o cumprimento das profecias: Um Menino nasceu para nós! É o Messias, o Salvador tão desejado. A Liturgia da Palavra da Missa da Aurora descreve-nos a resposta dos Pastores. Face ao anúncio do Anjo, eles vão a toda a pressa a Belém. Viram, prestaram homenagem e tornaram-se arautos do Menino recém-nascido. Exultemos de alegria! Cantemos a nossa gratidão, porque Deus manifesta a sua bondade!

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que fizestes resplandecer esta santíssima noite com o nascimento de Cristo, verdadeira luz do mundo, concedei-nos que, tendo conhecido na terra o mistério desta luz, possamos gozar no Céu o esplendor da sua glória. Por Nosso Senhor…

Liturgia da Palavra

Primeira Leitura

Monição: Cerca de setecentos anos antes do nascimento de Jesus, o profeta Isaías descreve a esperança de todo o Israel no Messias libertador. Ele é o Príncipe da Paz! Ele é o desejado das nações! É Filho de Deus, mas é também descendente de David.

Isaías 9, 1-6

2«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. 3Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. 4Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. 5Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. 6Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». 7O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.

Este belíssimo texto é um trecho do chamado livro do Emanuel (Is 7 – 12), onde, em face da iminência de várias guerras, se abrem horizontes de esperança que se projectam em tempos vindouros, muito para além das soluções empíricas e imediatas: é a utopia messiânica de pazalegria que veio a ter o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. Enquadra-se às mil maravilhas na noite de Natal, em que «uma luz começou a brilhar». Esta luz é o «Menino» (v. 5) que nasce para nós nesta noite, «luz do mundo» (Jo 8, 12; 1, 5.9).

4 «Como no dia de Madiã». Referência à grande vitória de Gedeão sobre os madianitas (Jz 7).

7 O «poder» e a «paz sem fim» serão garantidos para o trono de David pelo Menino de predicados divinos verdadeiramente surpreendentes (v. 5) que, embora expressos em termos semelhantes aos dos soberanos egípcios e assírios, suplantam os predicados de qualquer rei empírico e correspondem ao mistério de Jesus, Deus feito homem.

Salmo Responsorial Salmo 95 (96), 1-2a.2b-3.11-12.13 (R. Lc 2, 11)

Monição: O salmo 95 convida-nos a cantar com alegria o nascimento do Deus Menino. Deixemo-nos inundar pela felicidade que nos vem deste Menino, reclinado na manjedoura! Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo Senhor!

Refrão: Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor.

Cantai ao Senhor um cântico novo,

cantai ao Senhor, terra inteira,

cantai ao Senhor, bendizei o seu nome.

Anunciai dia a dia a sua salvação,

publicai entre as nações a sua glória,

em todos os povos as suas maravilhas.

Alegrem-se os céus, exulte a terra,

ressoe o mar e tudo o que ele contém,

exultem os campos e quanto neles existe,

alegrem-se as árvores das florestas.

Diante do Senhor que vem,

que vem para julgar a terra:

julgará o mundo com justiça

e os povos com fidelidade.

Segunda Leitura

Monição: S. Paulo convida-nos a vivermos uma vida nova. O nascimento de Jesus «ensina-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos!» Acolhamos Jesus que vem trazer a salvação para toda a humanidade.

Tito 2, 11-14

Caríssimo: 11Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens, 12ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade, 13aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, 14Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras.

Este breve texto é tirado da 2ª parte da breve carta a Tito. Depois de lhe ter dado orientações pastorais para a organização da Igreja em Creta (cap. 1), passa a desenvolver o tema das exigências da vida cristã (cap. 2 e 3). Na leitura queremos fazer ressaltar o v. 13, que foi adoptado pela liturgia da Missa (final do embolismo) e o v. 14 que é uma síntese da soteriologia paulina.

11 A graça do Baptismo mete-nos no caminho da «renúncia» (recordem-se as renúncias do ritual do Baptismo), pois sem renúncia não se pode seguir a Cristo (cf. Lc9, 23).

13 «Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo». É uma das mais categóricas afirmações da divindade de Jesus Cristo em todo o N. T. Com efeito, como no original grego há um só artigo para «Deus e Salvador», estas duas designações, Deus e Salvador, referem-se à mesma pessoa, Jesus Cristo.

14 «Um povo especialmente seu», isto é, a Igreja, povo que Jesus Cristo conquista, não pelo poder das armas, mas pelo resgate do seu sangue redentor. A Igreja é o novo povo de Deus.

Aclamação ao Evangelho

Lc 2, 10-11

Monição: Deus é o condutor da História. Serve-se das pessoas e dos acontecimentos para realizar o cumprimento dos seus desígnios divinos em favor do seu povo! Obedecendo ao decreto do imperador César Augusto, José e Maria vieram de Nazaré a Belém, onde deveria nascer o nosso Salvador! Deus cumpriu a sua promessa: Jesus é o Deus connosco, o Emanuel, que os Profetas anunciaram!

Aleluia

Anuncio-vos uma grande alegria:  Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor.

Evangelho

São Lucas 2, 1-14

1Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. 2Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria.3Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. 4José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. 6Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz 7e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 8Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo:14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

A narrativa do nascimento do Filho eterno de Deus – nunca houve nem haverá Menino como este! – é deveras encantadora na sua simplicidade. O teólogo Lucas, dotado de génio de historiador nada precisa de inventar, para a sua peculiar teologia. Dispondo provavelmente de não muitos dados, como bom historiador, começa por situar o acontecimento no tempo e no lugar.

Ainda ninguém apresentou nenhuma razão convincente para pôr em dúvida o lugar do nascimento de «Jesus de Nazaré» em Belém (a pari, todo o mundo fala de Santo António de Pádua e a verdade é que nasceu em Lisboa!). Por outro lado, as referências do nosso historiador ao tempo não são contaminadas pela sua preocupação teológica de apresentar o nascimento do Salvador, em contraste com o César romano, Augusto, que se ufanava do título de salvador da humanidade. Embora o recenseamento geral na época de Quirino como governador da Síria – que está bem documentado – seja bastante posterior (no ano 6 da era cristã), a verdade é que houve muitos outros censos; Lucas poderia não dispor de dados muito precisos, mas o historiador teólogo não precisava de mais pormenor para que o nascimento de Jesus ficasse enquadrado na História geral. De qualquer modo, a história profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu; papiros descobertos no Egipto falam de censos ali feitos, em que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos (para se garantir a verdade das declarações), e a apresentarem-se ante o recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incómoda (cerca de 150 Km). Da escassa documentação romana depreende-se que com Quirino se poderia mesmo ter iniciado um recenseamento durante a sua primeira missão (militar, não como governador) na Síria, entre os anos 10 a 6 a. C.. Dado que o nascimento de Jesus se deu uns seis ou sete anos a. C., em virtude do erro cometido por Dionísio, o Exíguo, quando no séc. VI fez as contas para a adopção da era cristã, a época referida por Lucas concorda substancialmente com os dados da história profana.

«César Augusto», o imperador Octávio, que reinou dos anos 27 a. C. a 14 d. C.

«Belém», em hebraico bet-léhem, significa casa do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns 8 Km a sul de Jerusalém. Deduz-se que S. José ali teria a sua origem próxima, ou alguma propriedade ou condomínio. Pensa-se mesmo que ele se teria deslocado da sua Belém natal para Nazaré, participando na campanha de expansão religiosa do judaísmo na Galileia dos Gentios, que já se vinha promovendo desde o século II a. C.; não abundando o trabalho neste pequeno lugar, daqui poderia muito bem ir trabalhar nas obras da importante cidade de Séforis, apenas a 5 Km a Noroeste de Nazaré.

6 «Enquanto ali se encontravam». O texto deixa ver, como é compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino nascer. De facto é inverosímil a aventura de empreenderem uma viagem de cerca de 150 Km nas vésperas do parto.

7 «Filho primogénito». Ao chamar-se Jesus «primogénito» não se faz referência a outros filhos que depois a Santíssima Virgem de facto não veio a ter, mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Também parece que «primogénito» era uma designação corrente para o primeiro filho independentemente de que fosse o único, segundo se depreende de uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh, onde se diz que uma tal Arsinoe morreu com as dores do parto do seu filho primogénito.

«Manjedoira». A palavra grega, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma tradição que vem do séc. II (S. Justino, palestino nascido em Nablus), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém. Ali Santa Helena, mãe de Constantino, nos princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos.

«Hospedaria». A palavra grega, katályma, oferece alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar «hospedaria» (o kan que existia em muitas povoações), como «sala de cima» (cf. Lc 22, 11; Mc 14, 14), o aposento superior ao rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar digno para o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que para o «Senhor» de toda a Criação não havia na terra um sítio digno!

8 «Pastores». É significativo que os primeiros a quem o Messias se manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras prescrições legais. O facto de guardarem o gado de noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem sequer o mês em que Jesus nasceu, o que se compreende, pois então só se celebrava o aniversário natalício dos filhos dos reis e pouco mais. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV a 25 de Dezembro). Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno.

14 Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado – «glória a Deus» – e advém para os homens a síntese de todos os bens – «a paz». O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais rica: «homens de boa vontade» (que possuem boa vontade, segundo a interpretação tradicional), ou «os homens que são objecto de boa vontade» (ou da benevolência divina)». Os textos litúrgicos preferiram a segunda, mais de acordo com a visão universalista de Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos uma frase com três membros: «glória a Deus…, paz na terra, benevolência divina entre os homens».

Sugestões para a homilia

Vamos a Belém!

«Naquele tempo os pastores diziam entre si: vamos a Belém.»

Irmãos, viajemos no tempo e no espaço. Vamos também nós a Belém. Vinde comigo à cidade de David. Imaginemos estar na presença Maria e José, que fizeram uma caminhada de cerca de cento e cinquenta quilómetros, distância que separa Nazaré da Galileia de Belém de Judá; distância muito difícil de percorrer, especialmente porque Maria estava prestes a ser mãe. Estive em Belém há pouco tempo. Com as explicações do guia que nos acompanhava vamos meditar no nascimento de Jesus.

Ao chegar a Belém impressiona tristemente o grande muro de arame farpado, os soldados, o posto de controlo. Pensamos que também José e Maria sentiram o peso do decreto imperial de César Augusto. Ontem como hoje, nada fácil a vida em Belém. Apesar de tudo, exultemos de alegria! Estava escrito no Profeta Miqueias: «De ti Belém-Efratá, terra de Judá, a mais pequena das cidades, de ti é que há-de nascer Aquele que reinará sobre Israel». Como bons israelitas, Maria e José certamente conheciam os livros Sagrados, pois eram lidos na Sinagoga. Além disso, a Bíblia apresenta S. José como um homem justo, portanto obediente; sendo justo, seria um homem prudente e um pai providente. Como era da linhagem de David, a fim de se recensear, veio com Maria, sua esposa, à sua cidade, onde teria a casa da sua família. As casas da Palestina ainda hoje aproveitam as grutas naturais, como um compartimento cómodo e muito útil. Cómodo porque um pouco climatizado. Protege do muito calor no Verão e do frio por vezes rigoroso do Inverno. Útil porque sendo uma divisão separada do resto da casa, permitia à mãe um certo isolamento para cumprir a Lei de Moisés, após o parto. A mulher era considerada impura devido à perda de sangue, até à cerimónia da purificação no Templo (quarenta dias para o caso dos bebés masculinos). Portanto não estranhemos: era comum o nascimento das crianças nas grutas anexas às casas, que habitualmente não tinham quartos. (Ver nota da bíblia de Jerusalém.)

Descemos à gruta preparada pela natureza para o Criador do Céu e da terra e tocámos o lugar onde está escrito: Aqui nasceu Jesus! Alegremo-nos, pensando na alegria dos pastores entrando na gruta e vendo o sinal dado pelo Anjo: «encontrareis Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» Alegremo-nos ao ver cumpridas as promessas!

Este nascimento revela uma pobreza comum a mais ou menos todas as famílias do povo bíblico. Jesus, sendo rico fez-se pobre para nos enriquecer com sua pobreza! Fez-se semelhante aos homens, nasce como as crianças pobres do seu tempo e do seu país. Ensinará mais tarde às multidões o caminho da Bem-aventurança eterna para os pobres de espírito, dizendo que é deles o Reino dos Céus!

Um Menino nasceu para nós!

Natal é festa de grande alegria. Natal é festa de muita luz. Natal é festa da família! Isto tem uma justificação bíblica. O Anjo disse aos pastores: «Anuncio-vos uma grande alegria!» Este anúncio jubiloso continua a ressoar ao longo dos séculos, fazendo «brilhar nas trevas da noite uma grande luz» – dizia o Profeta Isaías. No mesmo texto podemos ler: «Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado». Frágil como todas as crianças, mas «tem o poder sobre os seus ombros. Ele é o Conselheiro Admirável, o Deus forte! Pai para sempre! O Príncipe da Paz!» Estas palavras tocam o nosso coração e reavivam a nossa fé. Deus promete e cumpre! Na plenitude dos tempos, Deus manifesta claramente o seu amor para connosco. Por isso S. Paulo, meditando no mistério do Natal, podia exclamar: «Caríssimos! Manifestou-se a bondade e a graça de Deus que traz a salvação para todos os homens!» Deixemos entrar no nosso coração a Palavra de Deus! Deixemo-nos iluminar pela luz do Deus Menino!

Irmãos, esta é a noite santa de Natal. Nós não podemos calar o que vimos e ouvimos! Imitemos os pastores! Imitemos S. Paulo! Anunciemos como os Anjos e os pastores esta alegre notícia: hoje nasceu o nosso Salvador. Em todo o mundo gostaríamos que a luz e a paz do Deus Menino transformasse em «noite Feliz, em noite de paz» o viver de todos, com costumamos cantar! Tenhamos confiança! Sejamos testemunhas da Bondade de Deus. Aproveitemos este tempo da solenidade do Natal para difundir a mensagem angélica: Glória a Deus no Céu, paz na terra aos homens!

Fala o Santo Padre

«Deus fez-se pequeno a fim de que pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo.»

Amados irmãos e irmãs!

Acabamos de ouvir no Evangelho a palavra que os Anjos, na Noite santa, disseram aos pastores e que agora a Igreja grita para nós: «Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2,11ss). Nada de maravilhoso, nada de extraordinário, nada de magnífico é dado como sinal aos pastores. Verão só um menino envolto em panos que, como todos os meninos, precisa dos cuidados maternos; um menino que nasceu num estábulo e, por isso, não está deitado num berço, mas numa manjedoura. O sinal de Deus é o menino carente de ajuda e pobre. Os pastores, somente com o coração, poderão ver que neste menino tornou-se realidade a promessa do profeta Isaías, que escutamos na primeira leitura: «Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros» (Is 9,5). A nós também não nos é dado um sinal distinto. O anjo de Deus, mediante a mensagem do Evangelho, nos convida também a encaminhar-nos com o coração para ver o menino que jaz na manjedoura.

O sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é o menino. O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo de reinar. Ele não vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino – inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força. Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino. Nada mais quer de nós senão o nosso amor, mediante o qual aprendemos espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade – aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da renúncia que faz parte da essência do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que nós pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo.

Os Padres da Igreja, na sua tradução grega do Antigo Testamento, encontravam uma palavra do profeta Isaías que Paulo também cita para mostrar como os novos caminhos de Deus já tinham sido anunciados no Antigo Testamento. Assim se lia: «Deus tornou breve a sua Palavra, Ele abreviou-a» (Is 10,23; Rom 9,28). Os Padres interpretavam num duplo sentido. O mesmo Filho é a Palavra, o Logos; a Palavra eterna fez-se pequena – tão pequena a ponto de caber numa manjedoura. Fez-se menino, para que a Palavra possa ser compreendida por nós. Assim, Deus nos ensina a amar os pequeninos. Assim nos ensina a amar os frágeis. Deste modo, nos ensina a respeitar as crianças. O menino de Belém dirige o nosso olhar a todas as crianças que sofrem e são abusadas no mundo, os nascidos como não nascidos. Dirige-o a crianças que, como soldados, são introduzidas num mundo de violência; a crianças que são obrigadas a mendigar; a crianças que sofrem a miséria e a fome; a crianças que não experimentam sequer amor. Nelas todas é o menino de Belém que nos interpela; interpela-nos o Deus que se fez pequeno. Rezemos nesta noite, para que o esplendor do amor de Deus acaricie todos estas crianças, e peçamos-lhe que nos ajude a fazer o que podemos para que seja respeitada a dignidade das crianças; para que desponte a luz do amor da qual mais precisa o homem, e não das coisas materiais necessárias para viver.

Com isto chegamos ao segundo significado que os Padres encontraram na frase: «Ele abreviou-a». A Palavra que Deus nos comunica nos livros da Sagrada Escritura, ao longo dos tempos, tornou-se extensa. Extensa e complicada não só para as pessoas simples e analfabetas, mas inclusive muito mais para os entendidos de Sagrada Escritura. […] Jesus «abreviou» a Palavra – fez-nos rever a sua mais profunda simplicidade e unidade. Tudo aquilo que nos ensina a Lei e os profetas está resumido na palavra: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente […] Amarás a teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,37-40). Está tudo aí – toda a fé se resolve neste único ato de amor que abraça Deus e os homens.

Logo a seguir, porém, surgem as perguntas: como podemos amar Deus com toda a nossa mente, se nos custa encontrá-lo com a nossa capacidade metal? Como amá-Lo com todo o nosso coração e a nossa alma, se este coração consegue entrevê-Lo só de longe e contempla tantas coisas contraditórias no mundo que velam o seu rosto diante de nós? Neste ponto se encontram os dois modos com os quais Deus «abreviou» a sua Palavra. Ele não está mais longe. Não é mais desconhecido. Não é inalcançável para o nosso coração. Fez-se menino por nós e, com isto, dissolveu toda ambigüidade. Fez-se o nosso próximo, restabelecendo também deste modo a imagem do homem que, com freqüência, se nos revela tão pouco amável. Deus, por nós, fez-se dom. Doou-se a si próprio. Perde tempo conosco. Ele, o Eterno que supera o tempo, assumiu o tempo, atraiu a si próprio para o alto o nosso tempo. O Natal veio a ser a festa dos dons para imitar Deus que por nós doou-se a si próprio. Deixemos que o nosso coração, a nossa alma e a nossa mente fiquem tocados por este fato! Entre os inúmeros dons que compramos e recebemos não esqueçamos o verdadeiro dom: de doarmos-nos mutuamente algo de nós próprios! De doarmos-nos mutuamente o nosso tempo. De abrir o nosso tempo para Deus. Assim desvanece-se a agitação. Deste modo brota a alegria, assim se cria a festa. E lembremos nos banquetes festivos destes dias a palavra do Senhor: «Quando deres um banquete, não convides os que, por sua vez, vão retribuir-te, mas convida os que não são convidados por ninguém e não poderão convidar-te» (cf. Lc 14,12-14). Isto também significa precisamente: Quando deres um presente de Natal não o faças só aos que, por sua vez, te fazem presentes, mas fá-lo aos que não o recebem de ninguém e que nada podem retribuir-te. Assim mesmo fez o Senhor: Ele nos convida ao seu banquete de bodas que não podemos retribuir, que só podemos receber com alegria. Imitemos-lo! Amemos a Deus e, por Ele, também ao homem, para depois redescobrir a Deus, a partir dos homens, de um novo modo! […]

Bento XVI, Basílica Vaticana, 24 de Dezembro de 2006

Liturgia Eucarística

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, a nossa oblação nesta Santa noite de Natal e fazei que, pela admirável permuta destes dons, participemos na divindade do vosso Filho que a Vós uniu a nossa natureza humana, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Prefácio do Natal: p. 457 [590-702] ou 458-459

No Cânone Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Também nas Orações Eucarísticas II e III se faz a comemoração própria.

Santo: Santo III, H. Faria, NRMS 103-104

Monição da Comunhão: «O Verbo fez-Se carne de habitou entre nós»! À luz da fé Jesus vem todos os dias habitar no coração de quem acredita, O ama e O recebe! «Se alguém me ama, guardará a minha palavra. Meu Pai o amará e nós viremos a ele, para fazer a nossa morada!»

Com S. José e a Virgem Mãe, os Anjos e os Pastores adoremos, louvemos e recebamos Jesus nosso Salvador.

Jo 1, 14

Antífona da comunhão: O Verbo fez-Se carne e nós vimos a sua glória.

Cântico de acção de graças: Meia-noite dada, M. Simões, NRMS 15

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, que nos dais a alegria de celebrar o nascimento do nosso Redentor, dai-nos também a graça de viver uma vida santa, a fim de podermos um dia participar da sua glória. Por Nosso Senhor…

Ritos Finais

Monição final

Com Nossa Senhora, com S. José, com os Pastores, com todos os homens de boa vontade, rezemos e trabalhemos para que toda a humanidade se encontre com Jesus que nos repete: «Eu sou a luz do mundo. Quem me seguir não andará nas trevas, mas terá a luz da vida»! Para todos, para os vossos familiares e amigos, FELIZ NATAL!

Celebração e Homilia: José Roque

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha

Fonte: Celebração  Litúrgica