(esquema sintético de palestra para seminaristas)

I. Sacerdotes santos

1. Vou tomar como linha condutora alguns itens de uma palestra de D. Álvaro del Portillo no encerramento de um Simpósio Internacional de Teologia, Pamplona, 20.04.1990. E vou começar dando umas pinceladas rápidas sobre alguns pontos essenciais.

2. Não é preciso falar da urgência da “nova evangelização” de que tanto fala o Santo Padre João Paulo II, e é programática para o Novo Milênio (Duc in altum!). Em 28.06.2003, na Missa de S. Josemaría na Catedral de São Paulo, o Cardeal Hummes falou da necessidade de ir para águas mais profundas: à entranha da sociedade, aos centros decisórios, etc.: isto é função específica dos leigos. Depois, pessoas com muita experiência no apostolado comentavam: -“Certo, mas sem bons padres, tudo ficará precário… Um só sacerdote bom, piedoso – santo! – pode fazer um bem imenso, uma transformação fantástica do ambiente”.

Isso pode parecer sonho? Utopia? O exemplo S. Josemaría Escrivá: convencido de que o “segredo” está aí: “Estas crises mundiais são crises de santos” (Caminho, n. 301).

è Na Novo millennio ineunte, o Papa diz: “Em 1º lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade (…), a santidade permanece, da forma mais evidente, uma urgência pastoral” (n. 30. E recorda o chamado universal à santidade (nn. 30-31)

a) São Josemaria, numa carta de 24.03.1930, dizia: “Viemos dizer, com a humildade de quem se sabe pecador e pouca coisa – homo peccator sum (Luc 5,8) -, mas com a fé de quem se deixa guiar pela mão de Deus, que a santidade não é coisa para privilegiados: que a todos chama o Senhor, que de todos espera Amor: de todos, estejam onde estiverem, seja qual for o seu estado, a sua profissão, o seu ofício…”;

b) E ele próprio, em agosto de 1958, estando na City de Londres, e vendo a potência daqueles bancos e empresas internacionais e a grandeza do “Império britânico”, sentiu-se por momentos incapaz: “Não posso”. Deus inspirou-lhe por dentro esta resposta: “Tu não podes, mas eu, sim…”

O que para nós não é possível, é possível para Cristo,… e por isso mesmo para nós, na medida em que formos alter Christus, ipse Christus (como dizia Santo Agostinho). O sacerdote é ipse Christus, configurado com Cristo sacerdote, Cristo-Cabeça, “imediatamente, de forma sacramental”. Mas deve identificar-se cada vez mais com Ele pela sua vida santa.

De que tipo de sacerdote precisa hoje a Igreja e o mundo? Precisa-se, acima de tudo e insubstituivelmente, de sacerdotes santos. è No “falso pós-Concílio” isso parecia um chavão antiquado (essa afirmação constante do Magistério). Havia muitos “sábios”, muitos descobridores da “pedra filosofal”, muitos adoradores das ciências humanas” (a que davam um valor soteriológico), muitos “adolescentes desvairados”, que queriam construir a nova Igreja com o “não” e com a “morte” (a morte da fé, da moral, da imitação de Cristo è que era deformado como se fosse um político de acordo com a ideologia dominante….)

A verdade é esta: è “O sacerdote tíbio: esse é o grande inimigo das almas. Daí a necessidade absoluta de que os sacerdotes sejamos santos” (autógrafo de S. Josemaría Escrivá).

II. Santidade, e vida de oração e de penitência

a) S.Pio X: Entre a santidade e a oração existe necessariamente uma tal relação, que não é possível uma sem a outra (Exaortação Apostólica Haerent animo). E João Paulo II, na Carta Apostólica Novo millennio ineunte: “Para essa pedagogia da santidade, há a necessidade de um cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração” (n. 32).

Uma anotação de São Josemaria, de 1931: “Ontem à tarde, às três horas, fui ao presbitério da Igreja do Patronato para fazer um pouco de oração diante do Smo. Sacramento. Não tinha vontade. Mas lá fiquei, feito um fantoche. Às vezes, entrando em mim, pensava: Tu já vês, Jesus, que se estou aqui é para te dar gosto. Nada. A minha imaginação andava à solta, longe do corpo e da vontade, (eu via-me) como o cachorro fiel, deitado aos pés do dono, (que) cochila sonhando com corridas, caçadas e amigões (cachorros como ele) e se agita e late baixinho… mas sem se afastar do dono. Assim estive eu…”. E Deus premiou essa fidelidade à oração com graças extraordinárias;

b) Junto da oração, a Cruz de cada dia, a voluntária participação no mistério da Cruz redentora. Vultum tuum, Domine, requiram! … Em Cristo padecente e morto na Cruz – comenta o Papa na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, n. 22 -, está “o ápice da revelação do amor e a fonte da nossa salvação (…) “revela-se não somente o amor de Deus, mas o mesmo sentido do homem (…que) deve saber reconhecer o seu sentido e a sua raiz e o seu cumprimento em Cristo”.

São Josemaría não só aceitou com alegria a Cruz, na doença, na perseguição, em todo gênero de dificuldades externas, mas, além disso, a procurou voluntariamente, convencido de que encontrar a Cruz é encontrar Cristo. “Tu fizeste, Senhor, que eu entendesse que ter a Cruz é encontrar a felicidade, a alegria. E a razão – vejo isto com mais clareza que nunca – é esta: ter a Cruz é identificar-se com Cristo, é ser Cristo, e, por isso, ser filho de Deus” (1963).

Em 1933, escrevia ao confessor: “O Senhor me pede indubitavelmente, Padre, que enrijeça a minha penitência. Quando sou fiel neste ponto, parece que a Obra ganha novos impulsos”.

III. Santidade sacerdotal e caridade pastoral

a) Caridade. É o motor da atividade pastoral do sacerdote e a seiva: “testemunhas do amor, espiritualidade de comunhão”(cf. Tertio millennio ineunte, parte IV).

Para o sacerdote, não é só o cumprimento generoso de uns determinados deveres pastorais, mas uma entrega total ao ministério. Amor e serviço heróico de São Josemaría. Dedicação estafante aos doentes pobres do Patronato dos Enferomos de Madrid, à fundação e consolidação do Opus Dei, a inúmeros retiros para o clero, em época de saúde afetada e frágil (p.e., o que deu aos agostinianos no Mosteiro do Escorial, com 39 graus de febre).

b) E tudo centrado na Eucaristia, fons caritatis, centro e raiz da vida interior, da vida do cristão (cf. Encíclica Ecclesia de Eucharistia). D. Álvaro del Portillo, respondendo à pergunta de um padre jovem, que lhe pedia o segredo para obter mais frutos apostólicos, dizia-lhe: “Celebrar melhor a Santa Missa”, fazer da Missa, “Opus Dei”, “trabalho” de Deus.

c) E o amor a Maria: Palavras de São Josemaria: “Nunca pensei que levar a Obra para a frente traria consigo tanta pena, tanta dor física e moral: sobretudo moral (…) Iter para tutum! Minha Mãe! Mãe! Só te tinha a ti, Mãe, obrigado! (…) Mãe, Coração dulcíssimo de Maria, quanto tenho recorrido a Ti!” . “E outras vezes, falando e pregando, dando-me conta de que não valia nada, de que não era nada, mas tendo uma certeza (absoluta), dizia: Mãe! Minha Mãe! Não me abandones! Mãe! Minha Mãe!”

Resumo: “Na vida espiritual não há nada que inventar – comentava ainda São Josemaria -,, só é preciso lutar por identificar-se com Cristo, ser outros Cristos – ipse Christus -, enamorar-se e viver de Cristo, que é o mesmo ontem que hoje e será o mesmo sempre (Heb 13,8)”.

Não esqueçamos nunca que, na vida sacerdotal, haverá sempre duas balizas seguríssimas, as únicas absolutamente seguras e orientadoras: o exemplo dos santos, e o Magistério autêntico da Igreja.

IV. Mais duas linhas de aprofundamento, hoje imprescindíveis

A) Virtudes humanas: Neste campo há, hoje, um déficit brutal. As pessoas têm muita falta de autodomínio, estão acostumadas à moleza nas coisas pessoais, a mil caprichos consumistas, a uma grande “liberdade” (mesmo no caso de pessoas que não são de maus costumes), porque pais e educadores eram – ou são – daqueles que não têm tempo, ou temem estar fora de época, ou “criar traumas”; é freqüente que achem que, se não deixam os filhos fazer o que os colegas deles fazem, os filhos vão ser rejeitados, não terão amigos, etc. Há um fracasso nas “experimentações educativas de adultos adolescentes”. Falta de disciplina. Grossura. Falta das virtudes humanas, que, sobrenaturalizadas, deveriam ser ferro da estrutura, as colunas do edifício da personalidade.

Se isso não se cuida muito na formação do seminário (ordem, constância, mortificação, sobriedade, pobreza cristã, fortaleza, generosidade, espírito de sacrifício alegre, etc.), pode acontecer que haja pessoas (a começar pelos próprios seminaristas e sacerdotes) que dêem os primeiros passos cheias de entusiasmo e, depois, comecem a bambear: achem que a vocação sacerdotal (a vocação real, concreta, de entrega) é muito dura, exigente demais, e sobretudo -porque lhes faltam virtudes- vejam a entrega e a santidade como uma restrição da “liberdade”, da afetividade, etc. Como é lógico, isso é uma deturpação da idéia da vocação sacerdotal, e indica que a pessoa não criou a base imprescindível para que arraigassem solidamente, sobre o alicerce das virtudes humanas, as virtudes sobrenaturais;

B) Piedade doutrinal: A piedade sem doutrina sólida e bem assimilada só se pode apoiar no sentimento, ou no gosto (ter vontade). É uma coluna de areia ou de gelatina … Na hora da crise, a piedade sentimental -ou a piedade “kantiana”, de cumprir uns deveres espirituais só por “dever” e força de vontade – não agüentam. A pessoa continua talvez fazendo as coisas durante um tempo por dever de consciência, talvez por escrúpulo, mas o pilar, que deveria sustentar o edifício, se quebra, e a vocação cambaleia e pode desmoronar. O Cardeal Ratzinger, falando sobre catequese, lamentava que, depois do Concílio, a catequese tenha sido um fracasso: “Hoje, os jovens não sabem nada”.

Por isso, é importantíssimo procurar adquirir uma piedade doutrinal, fundamentada na riqueza das verdades da fé, na segurança da fé bem entendida, bem assimilada, cheia de conteúdo. É preciso que captemos, entendamos com a inteligência, vibremos “intelectualmente” pelas grandes “descobertas” que devemos fazer por meio das leituras, do estudo pessoal, de conversas que “iluminam”, de meditações bem feitas. Deve haver constantemente essas “descobertas” sobre Deus, a Trindade, Jesus Cristo, a graça, a filiação divina, a ciência da Cruz, o significado da Maternidade de Maria, o que é a oração e o trato com Deus, os ensinamentos do Magistério da Igreja, etc.

Neste ponto, não confiar em que basta ler algo ou ouvir coisas nos meios habituais de formação espiritual. É fácil ficar no verniz superficial. Uma lembrança pessoal foi, para mim, enormemente esclarecedora: quando o único livro de Mons. Escrivá que existia era Caminho, muitos aprofundavam de verdade, e assimilavam noções espirituais bem mais a fundo do que aqueles que leram, bicando, multidão de livros ou livrinhos. Tudo coisas boas, necessárias ou úteis para a formação…, mas sem perder de vista que vale mais aprofundar numa obra (este é um objetivo importante da formação), sem pressa, a deslizar superficialmente por cima de cinco ou seis obras.