Considerações sobre a terceira exortação apostólica do Papa Francisco Gaudete et Exsultate

Muitas vezes as grandes obras literárias relatam viagens e, como a vida é uma grande viagem, podemos interpreta-las como modos de ver a vida. Basta olhar para as obras de Homero, a Ilíada e a Odisseia, para os Lusíadas de Camões ou, mais recentemente, para o Senhor dos Anéis de Tolkien. Em cada itinerário, a pé, de barco ou com outros meios, há lugares aprazíveis, desafios, tentações, ciladas, um objectivo a atingir e um ponto de partida. Desfilam diante de nós diversas situações e atitudes que nos ajudam a entender a vida, às vezes personificadas nalgum protagonista, servindo-nos para aprender melhor como somos e como reagimos.

Ao acabar de ler a terceira exortação do Papa Francisco, Gaudete et Exsultate, fiquei com a sensação de ter lido um texto que me conta a grande viagem da vida cristã, com as suas lutas, as suas provas, os seus momentos fáceis e difíceis. É como se um pai, numa conversa de fim de refeição, ou num momento de intimidade familiar junto à lareira, nos estivesse a contar o sentido da vida. Um momento de transmissão daquela sabedoria que vem de Deus e que se vai difundindo pouco a pouco, de geração em geração. Nalguns momentos faz lembrar especialmente os exercícios de Santo Inácio de Loyola, com a sua consideração do plano de Deus para cada um, de como o podemos conhecer, dos obstáculos que podem aparecer no caminho ou na percepção do projecto divino.

A exortação, que tem cinco capítulos, é um texto para reflectir, para ajudar a examinar a vida à luz de Deus, querendo deixar algumas consequências em quem o leu. Neste sentido, está na linha da tradição sobre dos exercícios espirituais ou retiros, e o facto de dirigir-se ao leitor com o “tu” ajuda a criar esse clima de intimidade e de conversa sobre a vida de Deus entre os homens e a vida dos homens em Deus. Por tanto, aproveita-se melhor se é lido no contexto duma conversa familiar em que se aprende a arte de amar e de viver para a qual fomos criados.

“Ao acabar de ler a terceira exortação do Papa Francisco, Gaudete et Exsultate, fiquei com a sensação de ter lido um texto que me conta a grande viagem da vida cristã, com as suas lutas, as suas provas, os seus momentos fáceis e difíceis. É como se um pai, numa conversa de fim de refeição, ou num momento de intimidade familiar junto à lareira, nos estivesse a contar o sentido da vida.”

– P. Miguel de Salis

1. Chamados a ser santos: a surpresa de ser amados e poder amar

O Papa Francisco começa directamente com uma solicitação que interpela o leitor. Deus «quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: “anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17,1)»[1]. Estas palavras mostram-nos que a santidade não é uma opção à qual chegamos depois de avaliar custos e benefícios, não parte de nós, é um convite de Deus que irrompe na nossa vida, nos une com Deus e nos estimula a ser como Deus[2]. Por outro lado, a santidade é “andar na presença de outro”, é uma relação, é uma vida com Deus, um con-viver, uma amizade.

Ao longo da nossa vida a santidade já está presente, desde o Batismo, e também vai-se fazendo; não exclusivamente com fórmulas, não só com ideias e esquemas, mas com uma familiaridade e intimidade com Deus que nos abre aos outros. Nessa viagem da nossa vida, há oportunidades, há obstáculos, há momentos tristes e alegres, e em todos se vai forjando a amizade com Deus. Por isso é uma obra de artesanato paciente: a arte de aprender a amar e de aprender a ser amado por Deus.

 

2. Sonho e realidade: a santidade descobre-se na vida presente tal como ela é

O Papa Francisco é consciente de que quem procura viver santamente vai contracorrente e é julgado pelo mundo como pessoa incómoda, mas «para viver o Evangelho, não podemos esperar que tudo à nossa volta seja favorável, porque muitas vezes as ambições de poder e os interesses mundanos jogam contra nós»[3]. Quem quer ser santo não pode esperar por uma tranquilidade que lhe permita amar a Deus e aos outros. É nas circunstâncias em que já vive que vai encontrar-se com Deus e o próximo. A santidade não é o produto duma reação química que se realiza numas determinadas condições de pressão e temperatura. É mais parecida a uma descoberta de Deus que se faz no meio da nossa vida normal e no rosto dos outros, um dia e outro, do que a uma acção genial que fica na história e calha só a uns poucos. Por isso não é preciso pôr-se numa situação especial nem é necessário evitar algumas profissões.

«Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra»[4]. Talvez por costume ou tradição, pensamos na santidade como algo extraordinário ou mais além do humano, e esquecemos que Deus vem ao nosso encontro na nossa fragilidade e na nossa limitação. É possível ser santo com um carácter difícil, depois de ter atravessado uma experiência fracturante na nossa vida familiar, depois de ter sofrido várias feridas da vida… ou de as ter provocado em outros. A doença, também a psicológica, a falta de trabalho, ou uma época excessivamente intensa e cheia de ocupações também não são um obstáculo para poder amar e ser amado por Deus: para ser santo. O único obstáculo será a nossa falta de esperança[5].

O Papa usa duas expressões: “os santos ao pé da porta” e a “classe média da santidade”, que podem parecer sociológicas, mas que significam essa surpreendente surpresa de Deus que nos quer acompanhar no caminho da vida e que nos quer ter com Ele para sempre, porque nos ama. Habitualmente não nos pede grandes façanhas, não quer que Lhe falemos dum modo complicado, que mudemos o penteado ou a roupa para Lhe chamar a atenção, só quer que O amemos vivendo a nossa vida com Ele, na simplicidade da vida normal. Deseja que O descubramos em tudo o que fazemos, como as pessoas que se amam estão presentes uma à outra (as mães com os seus filhos), embora não estejam sempre visualmente próximos. A caridade dá à vida uma perspectiva diferente e dá-nos a força para ir mais além do nosso horizonte habitual quando é preciso[6].

 

3. Alguns conselhos para a viagem da vida com Deus

A intenção do Papa é oferecer algumas reflexões que nos possam ajudar a realizar essa história, única, pessoal e comunitária, de amizade com Deus. Nesse sentido, o segundo capítulo mostra dois perigos que podemos encontrar na viagem. O primeiro é o gnosticismo, que imagina que a santidade consiste no conhecimento e não tem repercussão na vida pessoal e na dos outros, uma espiritualidade separada da vida missionária. Por isso é de agradecer que o Papa dedique o capítulo 3 a uma leitura das bem-aventuranças à luz do juízo final (em que Jesus premeia os que viveram as obras de misericórdia com o próximo necessitado), com o fim de explicar algumas manifestações da santidade na vida concreta. O segundo perigo é o pelagianismo, que pensa possuir a salvação ou santidade através da acção (ou de algumas acções) e esquece que Deus nos amou primeiro[7]. Este segundo perigo é especialmente insidioso no mundo ocidental.

O quarto capítulo explica cinco características da santidade que o Papa considera especialmente importantes no nosso tempo: a fortaleza humilde, a alegria, a magnanimidade, a relação com os outros e a oração. E o quinto, enfim, está dedicado à luta pela santidade, porque a vida cristã na terra é luta permanente contra as tentações do demónio e para anunciar o Evangelho, uma luta em que cada cristão luta com Cristo, e é Ele quem vence na nossa vida (n. 158). Nesta quinta parte há uma série de números dedicados ao discernimento, parecendo-me que esta é a primeira vez que ele é tratado com tanta riqueza de pormenores.

O Papa não tem a pretensão de ter dito tudo sobre o chamamento universal à santidade. Só quer despertar o desejo de Deus, de amizade com Alguém que nos ama e quer conviver connosco sempre e sem outras intenções. Para isso nos estimula e nos convida a examinar o nosso coração, avisando também dos eventuais perigos desta grande aventura que é a nossa vida.


 

[1]    Francisco, Ex. Ap. Gaudete et exsultate, n. 1.
[2]    Cf. Mt 5,48.
[3]    Francisco, Ex. Ap. Gaudete et exsultate, n. 91.
[4]    Francisco, Ex. Ap. Gaudete et exsultate, n. 14.
[5]    «Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: “Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor”.» Francisco, Ex. Ap. Gaudete et exsultate, n. 15.
[6]    O chamamento universal à santidade foi proclamado expressamente pelo Concílio Vaticano II na Constituição dogmática Lumen gentium. Não era uma ideia nova, pois já estava no Evangelho e nas cartas de São Paulo, e alguns aspectos dela foram difundidos por São Francisco de Sales (a vida devota é para todos), outros foram difundidos pelo Pe. Juan González Arintero (todos podem chegar à oração contemplativa), outros por São Josemaría Escrivá (é possível ser santo e evangelizador em e através das ocupações habituais), por Joseph Malègue (o escritor, citado pelo Papa Francisco nesta exortação, que defendia que a classe média, apesar da sua existência sem grandes pretensões, está chamada a imitar nalgum momento da sua vida os santos), mas o Concílio recolheu e deu uma maior autoridade a esta realidade.
[7]    Cfr. 1 Jo 4,19.

 

Texto retirado de: https://pontosj.pt/especial/uma-conversa-confidencial-sobre-o-desejo-de-ser-santos/