EPÍSTOLA (Rm 8, 8-11)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

OS APETITES CARNAIS: Pois os que estão na carne não podem agradar a Deus (8). Qui autem in carne sunt Deo placere non possunt. NA CARNE [en sarki <4561>=in carne], A palavra SARX tem o significado de carne, a parte branda que cobre os ossos e é comestível. Também significa o corpo humano natural, que podemos dizer de animal natural, especialmente em Paulo, inclinado pelos apetites ao mal nos descendentes de Adão, e em Cristo como sujeito de sofrimento. Como homens, filhos do Pai comum em Adão, a carne é a raiz do pecado e seguir os instintos da mesma é o mesmo que ir contra a vontade de Deus, segundo o que afirma o próprio Paulo: Porque eu sei que na minha carne não habita bem algum…porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço (Rm 7, 18-19). Sendo Deus o único BOM (Lc 18, 19) nada de mal há nele e vemos como, pelo contrário, a carne leva Paulo a realizar o mal, como princípio ativo que submete a vontade, esta inclinada ao bem. AGRADAR [aresai<700>=placere] é o infinitivo de aoristo do verbo areskö com o significado de agradar, trabalhar para agradar, acomodar as opiniões próprias aos desejos e interesses de outros, ou seja, se submeter. O sentido da frase é que a carne [o homem que se deixa levar pelos apetites do corpo] está em contradição com os planos divinos.

O ESPÍRITO PELO CONTRÁRIO: Vós, porém, não estais em carne, mas em Espírito, se, na verdade, o Espírito de Deus habita em vós. Pois se alguém não tem o Espírto de Jesus, esse tal não é dEle (9). Vos autem in carne non estis sed in Spiritu si tamen Spiritus Dei habitat in vobis si quis autem Spiritum Christi non habet hic non est eius. Agora Paulo se dirige aos cristãos aos quais por meio da graça de Deus já não devem viver se arrastando pelos desejos carnais, mas dirigidos pelo ESPÍRITO [pneumati <4151>=spirito]. Para Paulo, existem no homem três partes bem diferenciadas: espírito [pneuma], alma [psychë] e corpo [söma]. As duas últimas dirigem o homem natural que Paulo chama [psykikos] (1Cor 2, 14), que não aceita as coisas do Espírito [pneuma] de Deus porque lhe são loucura e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente (idem). Sabendo isto, podemos afirmar que, ao ser o Espírito oposto ao homem carnal [que está ou vive na carne], o espírito deste versículo é o Espírito Santo que habita e dirige o homem espiritual [pneumatikos], de modo que julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois quem conheceu a mente do Senhor que o possa instruir ? Nós, porém, temos a mente de Cristo (1Cor 2, 16). Podemos ver nesta citação de 1 Coríntios a explicação do atual versículo: Se realmente temos o Espírito de Cristo, podemos julgar com verdade todos os acontecimentos e não poderemos ser condenados, pois a mente do Senhor [Jesus] é verdadeira como Mestre. Seguindo seus ensinamentos e sua conduta, jamais estaremos fora dos planos divinos. Disto deduzimos que ao ensinar e ao dirigir as pessoas a nossa resposta deve estar conforme ao que o Senhor ensina no evangelho. Uma citação do mesmo basta para dirimir uma dúvida e ordenar uma conduta. Porém Paulo introduz uma sutil suspeita: será que todos os cristãos têm o Espírito de Jesus? Se sua conduta contradiz a lei do amor [esta é a lei e os profetas (Mt 7, 12)] de modo especial, podemos afirmar que não. Porém, pelos seus frutos conheceremos os falsos profetas (Mt 7, 16). Por isso, a norma de vida não é outra que a determinada pelo Pai: Este é o meu Filho, o amado [agapetos] a ele ouvi (Lc 9, 35).

LABOR DO ESPÍRITO: Se, portanto Cristo (está) em vós, o corpo portanto (está) morto pelo pecado; mas o Espírito (é) vida pela justiça (10). Si autem Christus in vobis est corpus quidem mortuum est propter peccatum spiritus vero vita propter iustificationem. Consequências da habitação do Espírito de Cristo [que hoje chamamos de Espírito Santo] em nós cristãos, é a morte do corpo [soma], no sentido de que este não tem o domínio do bem; pois o pecado o matou para todo bem. Mas é o Espírito quem dá a vida porque por meio dele foi recebida a justificação. Como interpretar estas duas afirmações? 1) o corpo está destinado à morte por causa do pecado, este sendo o original especificamente: Se comeres da árvore morrerás (Gn 2, 17). 2) O Espírito da nova criatura, esse que nos foi dado no batismo, e no qual estamos como imersos [baptithentoi], porque fomos reformados pela justificação nele recebida, esse Espírito é o mesmo de Cristo, pelo qual somos também filhos e herdeiros como diz Paulo em Rm 8, 17. E é nisto que consiste precisamente a justificação. Lançados do paraíso para não sermos como deuses e não podermos viver eternamente (Gn 3,22), agora somos admitidos nele, como filhos de Deus para viver sua eterna vida. É o novo paraíso que Jesus promete ao bom malfeitor (Lc 23, 24).

O ESPÍRITO, CAUSA DA RESSURREIÇÃO: Se pois o Espírito de quem ergueu Jesus dentre os mortos habita em vós, quem ergueu o Cristo dentre os mortos reviverá também vossos corpos mortais por meio do Espírito habitante em vós (11). Quod si Spiritus eius qui suscitavit Iesum a mortuis habitat in vobis qui suscitavit Iesum Christum a mortuis vivificabit et mortalia corpora vestra propter inhabitantem Spiritum eius in vobis. Vemos neste versículo que esse Espírito não é um impulso ou faculdade humana, mesmo que superior, mas um ser com poder sobre a morte e, portanto, divino, que foi definido como a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Ou seja, o próprio Deus (At 2, 24)  e de quem Paulo também diz: Deus ressuscitou o Senhor [Jesus] e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder (1Cor 6, 14). Não há dúvida, pois, de que o Espírito do qual fala Paulo é o poder do próprio Deus, pois a isso chamamos Espírito. É o Espírito Santo que foi prometido por Jesus como advogado consolador (Jo 15, 26), Espírito da Verdade que procede do Pai (Jo 15, 26) e que por isso nos torna filhos com o direito de o chamar de Abbá (Rm 8,15) que é o mesmo Espírito do seu Filho Jesus (Gl 4, 6). Esse Espírito que ressuscitou Jesus se habita em nós também será causa de nossa ressurreição. Podemos assim falar, como os antigos padres da Igreja, da divinização dos batizados que em Paulo se traduz por justificação. A vida de Deus que agora vivemos pela fé, será nossa vida como eterna [vida própria da divindade] sem espelhos nem enigmas (1Cor 13, 12).

EVANGELHO (Jo 11,1,45)

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO

(Pe. Ignacio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Hoje temos a leitura de um milagre que é sinal: a ressurreição de Lázaro é um sinal da vida que o Espírito, por intermédio de Jesus, realiza no momento da morte.  O batismo é antecipação e garantia dessa ressurreição, significando ao mesmo tempo a morte ao pecado, que introduziu a morte biológica no mundo, segundo S. Paulo. Jesus faz jus a sua proclamação de ser a Ressurreição e a Vida; e, portanto, reclama para si a divindade, mas, ao mesmo tempo, descobre a sua humanidade pela comoção perante a morte de um amigo. O choro pela morte está temperado pela esperança de que ela não será a solução definitiva. Crês nisso? Pergunta Jesus a todo aquele que a ele se aproxima pedindo a vida. O evangelho apresenta a figura de Jesus como sendo a causa da ressurreição e da vida. Seguindo seu método de narrar a vida de Jesus através dos sinais [semeia], o quarto evangelista toma ocasião de um fato extraordinário, como é uma ressurreição, para indicar um atributo, também extra-humano, em Jesus. Ele não só ressuscita os mortos, mas é a ressurreição dos mortos, dos definitivamente mortos como são os que já ultrapassaram o quarto dia de seu falecimento (vers 39). Neste evangelho seremos testemunhas do porquê Jesus toma para si o título de Ressurreição e Vida (vers 25).

A FAMÍLIA DE LÁZARO: Havia, pois, um certo enfermo, Lázaro, de Betânia, da vila de Maria e Marta suas irmãs (1). Erat autem quidam languens Lazarus a Bethania de castello Mariae et Marthae sororis eius. Era, assim, Maria a que tinha ungido o Senhor com unguento e enxugado os pés dEle com os seus cabelos, cujo irmão estava doente (2). Maria autem erat quae unxit Dominum unguento et extersit pedes eius capillis suis cuius frater Lazarus infirmabatur. LÁZARO é a forma grega de Eleazar que significa Deus ajudou. Como não aparece mulher alguma, ou era jovem [menor de 14 anos até os 18 em que um judeu contraia matrimônio], ou solteiro. A primeira hipótese é a mais provável, porque as irmãs tinham o controle da casa. Nisso coincidiria com os outros dois mortos ressuscitados por Jesus: o filho da viúva de Naim (Lc 7, 12) e a filha de Jairo (Lc 8, 41). No jantar, em casa de Simão, o leproso (Mt 26, 6), ou de Marta (Lc 10, 38), oferecido após a ressurreição, Lázaro era um convidado (Jo 12, 2). Podemos deduzir daí que Marta era a esposa de Simão, e que Lázaro ainda era um adolescente? É provável. AS DUAS BETÂNIAS: O nosso evangelista é um mestre da metáfora e por isso é bom sabermos o significado dos nomes implicados na perícope de hoje. Vemos como Lázaro significa Deus ajudou. Betânia significa casa das tâmaras, ou dateis, frutos da tamareira, palmeira de origem africana. Também derivam o significado como casa da dor ou do rogo. Maria é senhora e Marta senhora da casa. Pelo que respeita a Betânia é interessante recordar que, na ocasião, Jesus estava retirado na Betânia do Jordão, pois existiam duas aldeias com o nome de Betânia: Uma, na margem oriental do rio Jordão onde batizava João, que Orígenes deu o nome de Betabara; mas parece que o nome de Betânia era o verdadeiro. Segundo as últimas investigações estava perto de Escitópolis e dentro do território da Decápolis (ver mapa em presbíteros.com.br exegese 230). Foi nessa Betânia/Betabara onde estava Jesus fugindo dos judeus ou talvez estava mais perto, junto a Jericó porém do outro lado do Jordão?(Jo 10, 40). Pouco antes os judeus tinham a intenção de matar Jesus como blasfemo (Jo 10, 31 e 33). A razão, pois, de ir para outro lado do Jordão [talvez Betânia, ou Betabara], era porque estava numa região fora do domínio do Governador da Judeia. Era como se fugisse para uma outra nação. Caso existisse uma Betânia perto de Jericó, ela estaria sob o domínio de Antipas, na região da Pereia e também fora do âmbito do governador da Judeia. A segunda Betânia está situada na ladeira sudeste do monte das Oliveiras a 2,8 Km de Jerusalém. É aqui onde estava situada a casa de Simão, o leproso (Jo 12, 1-10). Nela estava a residência dos três irmãos, Lázaro, Marta e Maria e foi onde aconteceu a ressurreição que relata o evangelho de hoje. Foi desta Betânia que Jesus enviou os dois discípulos para preparar sua entrada num jumento em Jerusalém (Mc 11 , 1-0) e perto dela, teve lugar a ascensão do Senhor (Lc 24, 50). Lucas dirá de Betânia que era uma aldeia onde Marta  recebeu Jesus na sua casa (10, 38-39). É em Betânia também onde, seis dias antes da última Páscoa, lhe ofereceram um banquete onde Maria, a irmã de Lázaro, ungiu os pés de Jesus com nardo, enxugando-os com seus cabelos (Jo 12, 3) e que foi em Betânia, perto de Jerusalém, onde ressuscitou Lázaro. Era uma clara opção para demonstrar aos judeus sua missão. O ESQUEMA: Podemos distinguir um pequeno esquema dentro do relato de hoje, dividido em quatro partes: Jesus recebe a notícia da doença de Lázaro. Jesus volta a Betânia de Jerusalém. Conversa com as duas irmãs e a ressurreição de Lázaro. Vejamos a primeira parte.

PRIMEIRA PARTE: JESUS RECEBE A NOTÍCIA

A PETIÇÃO: Enviaram, portanto as irmãs a Ele dizendo: Senhor, olha, aquele que amas está doente (3). Miserunt ergo sorores ad eum dicentes Domine ecce quem amas infirmatur. É uma bela SÚPLICA. Como razão do interesse pela correspondência, elas colocam o amor particular de Jesus por Lázaro. Não se diz que seja o discípulo amado, ou melhor, o discípulo a quem Jesus amava [mathetés on agapa] como nas quatro ocasiões do evangelho: Jo 13, 23; 19, 26; 21, 7 e 21, 20. Aqui João usa o verbo fileo que significa um laço de união entre amigos. Vamos, pois, distingui-lo do agapao que significa preferência, seleção. Agapao é o verbo que usa o evangelista para o amor de Deus ao homem e o amor do homem para com seus inimigos. Unicamente no final do evangelho de João, parece que na última das perguntas de Jesus, este emprega fileo no lugar de agapao. Porém, as respostas de Pedro são todas com o verbo fileo, amar como amigo.  Agapao é acolher com amor, sem ódio, mas como um ser querido e amado de modo especial. A notícia chega a Jesus por intermédio de alguma pessoa: Lázaro, teu amigo, está gravemente doente (3). O pedido era urgente. Devia visitá-lo antes de deixá-lo morrer. O evangelista explica a predileção de Jesus por Marta, sua irmã e Lázaro no versículo 5. Era a casa de Simão o leproso, segundo Mt 26, 6 e Mc 14, 3 que João disse que Marta o servia e que Lázaro estava à mesa com Jesus (Jo 12,1-2). Significa isto que Marta era esposa de Simão e que talvez este foi um dos curados por Jesus? Cremos que há razões suficientes para afirmar como fato o que temos reproduzido como dúvida. O interesse de tudo isto é que podemos deduzir que Maria não era a Madalena e nem a mais amada, como para ser a discípula preferida dos evangelhos apócrifos de Tomé e Filipe e que, segundo uma tradição muito posterior, foi com seu irmão Lázaro a Marselha inaugurando com seu filho [e de Jesus] a dinastia dos Merovíngios. Do relato de hoje, Marta tem maior protagonismo do que sua irmã Maria.

A RESPOSTA: Porém, tendo ouvido, Jesus disse: esta doença não é para morte, mas para glória de (o) Deus, para que seja glorificado o Filho de(o) Deus por causa dela (4). Já que amava Jesus a Marta e a sua irmã Maria e a Lázaro (5). Audiens autem Iesus dixit eis infirmitas haec non est ad mortem sed pro gloria Dei ut glorificetur Filius Dei per eam. Diligebat autem Iesus Martham et sororem eius Mariam et Lazarum. Jesus parece não se inquietar porque para ele a doença não era para a morte [pros grego com genitivo] ou que terminasse tendo como fim principal a morte. Também no caso da filha de Jairo, Jesus parece não se incomodar com a morte a qual chama de sono: A criança não morreu; está dormindo (Mc 5, 39). Pelo contrário, Jesus vê na doença de Lázaro um outro fim: pela conveniência da glória do Deus (de Israel) a fim de que seja glorificado o filho do Deus (verdadeiro) por causa dela [da doença] (4). Esta parece ser a melhor tradução do versículo e favorece a interpretação posterior de Jesus quando declara que Lázaro estava morto (14). E o evangelista explica num parêntese a razão do porquê Jesus amava Lázaro. Era porque estava unido com laços de amizade com Marta e consequentemente com Maria e Lázaro, os irmãos dela. Era um amor devido ao agradecimento, pois em casa de Marta se hospedava nas idas a Jerusalém. A frase indica que era Marta a predileta de Jesus, pois era na sua casa onde se hospedava (Lc 10, 38).

O ATRASO: Como,  pois, escutou que está doente, então certamente permaneceu no lugar onde estava dois dias (6). Então, após isto, diz aos discípulos: Vamos de novo para a Judeia (7). Ut ergo audivit quia infirmabatur tunc quidem mansit in eodem loco duobus diebus. Deinde post haec dicit discipulis suis eamus in Iudaeam iterum. Com a declaração anterior de que era só uma doença sem perigo de morte, Jesus prolongou sua estadia por mais de dois dias à beira do Jordão. Após esses dois dias, Jesus propõe a seus discípulos a subida a Jerusalém. Certamente o evangelista falava como uma testemunha do tempo e dos fatos: da ribeira do Jordão era uma subida de mais de 600 m até a montanha da Judeia onde estava a cidade santa.

A OBJEÇÃO: Dizem-lhe os discípulos: Rabi, nesta hora te buscavam para apedrejar os judeus e outra vez vais lá? (8). Dicunt ei discipuli rabbi nunc quaerebant te Iudaei lapidare et iterum vadis illuc. A resposta dos discípulos declara o porquê de sua retirada à margem esquerda do rio. De fato, era por causa de uma discussão com os de Jerusalém [os judeus] na festa da Dedicação, quanto à pergunta de se ele era o Cristo [o Messias]. Ouvindo a resposta eu e o Pai somos um (10, 30), os judeus apanharam de novo pedras para o apedrejar (Jo 10, 31). Porque anteriormente, ao ouvir que antes que Abraão existisse, EU SOU (Jo 8, 58) também apanharam pedras para atirar nele (Jo 8, 59). Tudo isto demonstra a razão pela qual os discípulos aconselham Jesus a não voltar. Como nota particular, parece que podemos afirmar que todo o relato está unido aos anteriores e não é uma redação de umas tradições que deveriam ser ligadas por um Kai ou outra conjunção, mas pela memória de uma testemunha original em que os tempos e as circunstâncias geográficas permanecem ainda nitidamente recordados. Segundo os discípulos, era uma contradição sair de Jerusalém por temor de uma morte duas vezes intentada e voltar de novo lá. Que poderia Jesus encontrar fora de um novo atentado contra sua vida?

UMA COMPARAÇÃO: Respondeu Jesus: Não são doze horas do dia? Se alguém anda de dia não tropeça, porque a luz deste mundo vê (9). Mas se alguém andar na noite, tropeça, já que a luz não está nele (10). Respondit Iesus nonne duodecim horae sunt diei si quis ambulaverit in die non offendit quia lucem huius mundi videt. Si autem ambulaverit nocte offendit quia lux non est in eo. Não é também o primeiro provérbio que Jesus traz à tona sobre o tempo e as horas propícias para o trabalho, pois em Jo 9, 4-5 temos uma correspondência próxima. As horas do dia [distinguindo-o da noite] eram horas de trabalho e horas em que se podia andar sem dar um tombo, já que [a gente] vê a luz deste mundo. Mas se alguém anda na noite, tropeça porque a luz não existe nele (10). É uma alegoria para dizer que ainda não tinha vindo a hora da noite em que ele seria entregue ao poder das trevas (Lc 22, 53), de modo a demonstrar sua fraqueza humana e não a fortaleza de sua divindade. Mas ele determina e conhece perfeitamente o tempo de sua prisão e morte. Ainda não chegou.

LÁZARO DORME: Estas coisas disse e depois disso diz-lhes: Lázaro, o nosso amigo, há caído no sono; porém vou para despertá-lo (11). Disseram-lhe os seus discípulos: Senhor, se está dormindo, se salvará (12). He said these things. And after this, He said to them, Our friend Lazarus has fallen asleep, but I am going that I may awaken him. Dixerunt ergo discipuli eius Domine si dormit salvus erit. Assim ele afirma  que Lázaro, o nosso querido, está dormindo; mas vou para despertá-lo (11). Havia entre os judeus a crença de que toda doença se curava com o sono reparador como era para a atividade e o trabalho. Talvez Jesus, como no caso da filha do Jairo, chame de sono a uma morte que não seria definitiva, porque o morto viveria de novo após breve tempo como dormido. No AT temos as palavras de Isaías 26, 19: Despertai e cantai, vos que habitais o pó, falando da morte como de um sono. Não entenderam os discípulos e por isso responderam: Senhor se está dormido, salvar-se-á (12). Evidentemente Jesus falava da morte e os discípulos entenderam do sono.

A DECISÃO: Porém, Jesus tinha falado da morte dele [Lázaro]; mas eles pensaram que [Jesus] fala (sic) do descanso do sono (13). Então, finalmente, lhes disse Jesus abertamente: Lázaro faleceu (14). E me regozijo por vós, para que creiais, porque não estávamos lá. Mas vamos junto dele (15). Disse, então, Tomé o apelidado Dídimo, aos seus condiscípulos: Vamos também nós, para que morramos com ele (16). Dixerat autem Iesus de morte eius illi autem putaverunt quia de dormitione somni diceret. Tunc ergo dixit eis Iesus manifeste Lazarus mortuus est. Et gaudeo propter vos ut credatis quoniam non eram ibi sed eamus ad eum. Dixit ergo Thomas qui dicitur Didymus ad condiscipulos eamus et nos ut moriamur cum eo. Então Jesus disse abertamente: Lázaro morreu (14). E é por vocês que me alegro para que creiais porque não estávamos lá. Mas vamos a ele (15). A maioria das traduções usa o singular [não estava] e inclusive a vulgata [non eram]. Porém o grego usa o plural não estávamos. Uma cura, das muitas atribuídas a Jesus, não teria o efeito de uma ressurreição após 4 dias morto, ou seja definitivamente morto, porque a crença comum era que, após o terceiro dia, não havia possibilidade de reviver. Daí que a ressurreição seria um ato como o de Javé de soprar o alento sobre Adão para torná-lo espírito vivo (Gn 2, 7). E isso só podia ser aceito com um ato de fé em Jesus como sendo este o senhor da vida, ou seja, como Ele diria ser o dono da vida e da ressurreição. O convite de Jesus constituía um desafio para entrar na boca do lobo. Foi então que Tomé, cuja tradução grega é Dídimo, ou seja, gêmeo disse: Vamos também nós para morrermos com ele! Esta última consideração do evangelista indica uma testemunha ocular, pois além do testemunho declara quem foi o autor do mesmo.

SEGUNDA PARTE: JUNTO À TUMBA DE LÁZARO

ENCONTRO COM MARTA: Tendo chegado, portanto, Jesus o encontrou quatro dias já que estava na tumba (17). Pois estava Betânia cerca de Jerusalém, como quase quinze estádios (18). Venit itaque Iesus et invenit eum quattuor dies iam in monumento habentem. Erat autem Bethania iuxta Hierosolyma quasi stadiis quindecim. Quando chegaram a Betânia encontraram Lázaro que estava sepultado fazia 4 dias. Os judeus sepultavam seus mortos no mesmo dia. Fazia, pois, quatro dias que ele estava morto. Se quando Jesus falou da  dormição de Lázaro, era o momento da morte do mesmo, os quatro dias podem ser um o da notícia de Jesus da morte do amigo e nos outros três dias os necessários, desde o dia da morte até se apresentar em Betânia de Jerusalém, caso fosse Betabara [a Betânia do outro lado do Jordão] o lugar em que Jesus estava retirado.  Betânia estava a 15 estádios de Jerusalém. O estádio era uma medida grega, que correspondia à distância original do espaço atlético de Olímpia, onde se celebravam os jogos da Hélide [Grécia] e que tinha 600 pés gregos de comprimento, entre 180 e 185 m, estando, pois, Betânia a 1700 ou 1800 m de distância de Jerusalém.

A CENA: E muitos dentre os judeus tinham comparecido para cerca de Marta e Maria para consolá-las a respeito de seu irmão (19). Marta, pois, como ouviu que Jesus está chegando, saiu ao encontro dele; todavia Maria estava sentada em casa (20). Multi autem ex Iudaeis venerant ad Martham et Mariam ut consolarentur eas de fratre suo. Martha ergo ut audivit quia Iesus venit occurrit illi Maria autem domi sedebat. Muitos dentre os judeus tinham vindo perto de Marta e Maria para consolá-las por causa de seu irmão. (19). A frase indica que elas pertenciam a uma família bem acomodada. O fato mesmo de Maria quebrar um frasco de nardo no valor de 300 denários confirma a posição, mais que remediada, da família. Tenhamos em conta que 150 denários [trinta moedas de prata, ou seja, 30 siclos, preço fixado por lei para a vida de um escravo em Êx 21,32] foi o que Judas recebeu pela sua traição. Por outra parte, tanto as bodas como os funerais duravam uma semana. O costume era esperar o enterro e, após o mesmo, perto da tumba, os parentes formavam fileiras por onde passavam os conhecidos para os pêsames. A crença afirmava que os mortos não abandonavam a casa na primeira semana e era então que os parentes eram visitados em casa, pois segundo o Talmud, na primeira semana a pessoa em luto não podia sair da porta de sua casa; na segunda sai, mas não pode sentar-se; na terceira não pode falar e na quarta pode se comportar como qualquer um. E era no terceiro dia em que as visitas eram as mais numerosas. Maimônides [Moshé bem Maimom] (1135-1204) cordovês, que teve que sair da Espanha pela perseguição da dinastia dos Almóades,  grande comentador da Mishná, médico do sultão Saladino e filósofo, declara como confortar uma pessoa enlutada:  Os familiares do morto recebem no lugar do túmulo as pessoas amigas e os seus pêsames que consistiam nestas palavras: ¨Que o céu te conforte¨. Após isso, os familiares permaneciam dentro da casa por sete dias, e os amigos vinham para consolá-los, visitando-os. A pessoa de luto sentava-se num lugar preferente dentro da casa e os amigos sentavam-se no chão ao seu redor, em silêncio (Jó 2, 13). O silêncio era absoluto até que o afetado se manifestasse (Jó 3, 1). E quando o enlutado assentava com a cabeça, os amigos partiam deixando-o a sós. Marta, pois, quando ouviu que Jesus vem (sic) foi procurá-lo. Maria, porém, estava sentada na casa (20). Talvez isso indicasse que Marta fosse a mais velha das irmãs, responsável pela recepção de hóspedes, e tira toda dúvida de que Maria fosse a Madalena casada com Jesus em Caná como afirma o romance de Dan Brown.

TERCEIRA PARTE: DIÁLOGOS

O DIÁLOGO COM MARTA: Disse então Marta a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido (21). Porém, também agora, sei que quantas coisas pedirdes a(o) Deus te dará (o) Deus (22). Diz-lhe Jesus: Ressurgirá teu irmão (23). Diz-lhe Marta: sei que ressurgirá na ressurreição,  no último dia (24). Disse-lhe Jesus: Eu sou a Ressurreição e a Vida.  Quem crê em mim, mesmo se morrer, viverá (25). E todo o que vive e crê em mim, de modo algum morrerá para sempre. Crês isso? (26). Diz-lhe: Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de(o) Deus que vem ao cosmos(27). E tendo dito estas coisas, foi embora e chamou Maria sua irmã, em particular, dizendo: O mestre está aqui e te chama (28). Dixit ergo Martha ad Iesum Domine si fuisses hic frater meus non fuisset mortuus sed et nunc scio quia quaecumque poposceris a Deo dabit tibi Deus. Dicit illi Iesus resurget frater tuus. Dicit ei Martha scio quia resurget in resurrectione in novissima die.  Dixit ei Iesus ego sum resurrectio et vita qui credit in me et si mortuus fuerit vivet  et omnis qui vivit et credit in me non morietur in aeternum credis hoc . Ait illi utique Domine ego credidi quia tu es Christus Filius Dei qui in mundum venisti.  et cum haec dixisset abiit et vocavit Mariam sororem suam silentio dicens magister adest et vocat te. A petição de Marta é uma oração de fé no poder de Jesus. MARTA: Senhor, se tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido (21). Mas também agora sei que tudo quanto pedirdes a Deus, Deus to concederá (22) Além de uma recriminação, Marta reconhece o poder de Jesus sem limites. JESUS: Teu irmão ressuscitará (23). MARTA: tenho acreditado [de sempre] que ele ressuscitará na ressurreição no último dia. Temos traduzido o eu sei [presente] por tenho acreditado [oida] em perfeito como está no grego original. Em parêntesis agrego o desde sempre para facilitar a compreensão do texto. Com isso ela expressa sua fé,  apropriando-se da crença dos fariseus, contrária a dos saduceus, que não acreditavam na ressurreição dos mortos. Seria no último dia, ou seja, no fim do mundo. O verbo usado está na voz média que pode ser traduzida pelo reflexivo ou simplesmente pela voz ativa usual. Existia entre os judeus uma frase na qual eles resumiam o ambiente da ressurreição: era o dia da consolação. Por isso a versão Síria traduz: ¨na consolação do último dia¨. JESUS: Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que morra viverá (25) e todo o vivente e crente em mim, que não morra para sempre. Crês isto? (26). A palavra empregada para Ressurreição é anástasis que em grego clássico significa elevação, derivada de ana [=acima] e stasis [=estar de pé]. O verbo derivado anistemi significa fazer levantar, despertar e consequentemente ressuscitar. De Jesus usarão os evangelistas o verbo egeiro [= despertar, levantar, levantar-se]. A palavra anástasis é usada para o termo bíblico de ressurreição como vemos em Mt 22, 23 em que os saduceus não acreditam na ressurreição [anastasis]. A crença na ressurreição está claramente definida em Atos 24, 15: tendo esperança [dirá Paulo diante do governador romano] em Deus como estes também a têm de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos. E o próprio Jesus em João 5, 28: vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz [de Jesus] e sairão. A ressurreição geral aparece tardiamente no AT, desde a visão de Ezequiel dos ossos que se revestem de carne (37, 1-14) e Isaías 26, 19, onde se afirma que destruirá a morte para sempre. Finalmente em Daniel 12, 2, texto citado por Paulo em que então muitos ressuscitarão do sono da morte; uns para a vida eterna e outros para a eterna ignomínia. No segundo livro dos Macabeus aparece a ressurreição arraigada nas crenças populares. A mãe dos sete mártires exorta os filhos a sofrerem o martírio dizendo: O Criador que deu origem a todas as coisas vos retribuirá, na sua misericórdia, o espírito e a vida (2 Mc 7,23). A resposta de Jesus é do ponto de vista Teológico de um conteúdo extraordinário: Eu sou a Ressurreição (e a vida acrescentam outros manuscritos entre eles a Vulgata com a frase et vita) para explicar, imediatamente depois, essa afirmação tão contundente: Porque quem crê em mim, mesmo se estiver morto viverá (25) e todo [aquele que for] vivo que crê em mim, que jamais morra nunca mais. Crês isto? (26). Com estas palavras, Jesus declara seu poder absoluto sobre a morte, de modo que na fé, ou dito de outra maneira, na entrega a ele confiante estará o futuro da humanidade. A afirmação é total de modo a não admitir substituto nesse ministério de ser a vida dos seus seguidores. No caso, Jesus está pedindo uma fé inquebrantável para poder realizar a ressurreição de Lázaro. Ele pode ser o dador da vida porque o Pai lhe deu o poder de ter a vida em si mesmo (Jo 5, 26). Como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá a vida, assim também o Filho aos que quer dá a vida (Jo 5, 21). MARTA: Ela afirma que desde faz muito tempo, desde que conheceu Jesus, sempre tinha acreditado que ele, Jesus, era o Cristo, o Filho do Deus [verdadeiro] que deveria vir ao mundo. Marta sabia da ressurreição da filha de Jairo e do filho da viúva da Naim e por isso, perante a pergunta de Jesus, sua resposta é natural e absoluta. Ela está convencida de que Jesus pode ressuscitar os mortos e de que é o representante do Deus de Israel, como ungido, que todos esperavam, porque os judeus atribuíam a Deus o poder de dar a vida e ressuscitar. No AT Elias tinha ressuscitado o filho da viúva de Sarepta (1Rs 17, 21) e Eliseu o filho da Sunamita (2 Rs 4, 14) e foi no toque de seus ossos que um morto ressuscitou (2 Rs 13, 21). Esperava Marta uma ressurreição semelhante, ou acreditava ela que Jesus era definitivamente a causa da ressurreição de todos os homens? O título de Filho de Deus, unido ao simples título de Messias como uma aposição, era, neste caso particular, o título que os cristãos dariam a Jesus após sua ressurreição. Não existe inconveniente em pensar que o evangelista, neste último inciso, queira tomar as palavras de Marta em sentido pós-pascal.

DIÁLOGO COM MARIA: Ela (Maria) como ouviu, se levanta imediatamente e vem junto dEle (29). Ainda, pois, não tinha entrado Jesus na vila, mas estava no lugar onde o encontrou Marta (30). Porém, os judeus que estavam com ela na casa e a consolavam, vendo a Maria que rapidamente se levantou e saiu a seguiram dizendo que vai à tumba para chorar ali (31). Illa ut audivit surgit cito et venit ad eum. Nondum enim venerat Iesus in castellum sed erat adhuc in illo loco ubi occurrerat ei Martha.  Iudaei igitur qui erant cum ea in domo et consolabantur eam cum vidissent Mariam quia cito surrexit et exiit secuti sunt eam dicentes quia vadit ad monumentum ut ploret ibi. Terminada essa conversa com Jesus, Marta chama Maria em segredo dizendo que o Mestre está aqui e te chama (28). Não sabemos se Jesus realmente pediu a presença de Maria. Na conversa anterior esta última está totalmente ausente. Mas nem todos os detalhes são referidos em forma taquigráfica. Imediatamente, Maria se levantou [já temos explicado como era o costume de ficar sentados no luto] e veio a Jesus. O evangelista diz que Jesus ainda não entrara na aldeia, mas estava fora, onde, por lei, estavam os sepulcros. Os judeus [de Jerusalém], vendo a pressa de  Maria, a acompanharam, pensando que ia ao sepulcro para manifestar sua dor por meio das lágrimas. Era ainda o tempo da consolação, como temos descrito nas tradições judaicas e como é refletido no evangelho de hoje.

JUNTO AO SEPULCRO: Assim, Maria, quando chegou onde estava Jesus, tendo-o visto, caiu aos pés dEle dizendo-lhe: Senhor, se tivesses estado aqui, não teria morrido meu irmão (32). Jesus, então, como a viu chorando e os judeus que vieram com ela plangentes, abalou-se na alma e turbou-se interiormente (33). E disse: Onde o puseste? Dizem-lhe: Senhor, vem e vê (34). Jesus chorou em prantos (35). Maria ergo cum venisset ubi erat Iesus videns eum cecidit ad pedes eius et dixit ei Domine si fuisses hic non esset mortuus frater meus  Iesus ergo ut vidit eam plorantem et Iudaeos qui venerant cum ea plorantes fremuit spiritu et turbavit se ipsum  et dixit ubi posuistis eum dicunt ei Domine veni et vide et lacrimatus est Iesus. Ao encontrar Jesus, Maria se prostrou aos seus pés,  reclamando sua ausência, exatamente como Marta tinha dito. As curas de Jesus eram tão frequentes, que Maria e Marta tinham a ideia de que bastava sua presença para que qualquer doença fosse curada. Jesus vendo-a chorar e vendo a dor de seus acompanhantes, gemeu e se comoveu profundamente [infremens do latim]. Perguntado onde estava enterrado, ao lhe dizerem vem e vê, chorou. Embora a vulgata traduza por lacrimatus est, derramar lágrimas aparentemente em silêncio, o grego usa nesse caso o verbo alalazö; porém o usado agora é dakruö, que significa chorar em voz alta, como se fazia no Oriente, ou seja,  acompanhado de gemidos, como um plangente a mais.

COMENTÁRIOS: Disseram então os judeus: vede como o amava (36). Porém, alguns dentre eles, disseram: Não podia este que abriu os olhos do cego, ter atuado para que também este não fenecesse? (37). Dixerunt ergo Iudaei ecce quomodo amabat eum. Quidam autem dixerunt ex ipsis non poterat hic qui aperuit oculos caeci facere ut et hic non moreretur. Então os judeus exclamaram: Vede quanto o amava! Um comentarista afirma: As lágrimas de Cristo santificam todas as lágrimas que nascem do amor e da dor. Elas são precisamente as que se derramam por causa da morte de um ser querido. Porém, no evangelho, outros comentários eram mais críticos; Por que não impediu a morte? Pois ninguém pensava na ocasião que o tremendo milagre de reviver um morto de quatro dias podia ser feito. Tanto nos casos dos profetas do AT como nos casos das ressurreições de Jesus, a morte era recente e até os três dias os judeus acreditavam que o espírito não se separava das vizinhanças do corpo. O evangelista, ou relata os fatos como sucederam [isto implica sua presença real nos mesmos e que ele é um mero relator do sucedido],  ou é um tremendo artista inventando detalhes que eram difíceis de supor após um fato imaginário e midráshico como alguns supõem. Logicamente a primeira das suposições é a única verdadeiramente fundamentada.

A TUMBA: Jesus, então, de novo, estremecido em seu interior, chega ao monumento, pois era uma cova e uma pedra estava depositada sobre ela (38). Iesus ergo rursum fremens in semet ipso venit ad monumentum erat autem spelunca et lapis superpositus erat ei. Jesus ainda estava gemendo e turbado; e se aproximou assim do túmulo [monumento diz o evangelista] que, neste caso, era uma cova ou gruta fechada por uma pedra acima da mesma. A Vulgata, como acostuma fazer, traduz literalmente por pedra superposta.  Entre as formas de sepulcros, uma delas era um buraco na terra vertical de modo que o morto ficava como num poço de pé. Seria esta a sepultura de Lázaro, ou como imaginamos geralmente uma réplica da sepultura caríssima que José tinha escavado para si e que durante um tempo foi a tumba do Senhor? Outros admitem que era escavada no chão e até o fundo descia-se por uma escada desde a abertura feita no chão e fechada por uma pedra. O buraco verticalmente cavado no chão como um poço, é o que melhor se adapta ao grego com a pedra superposta.

A ORDEM: Diz Jesus: Levantai a pedra. Diz-lhe a irmã do morto, Marta: Senhor, já fede, pois é de quatro dias (39). Diz-lhe Jesus: não te disse que se acreditasses verás a glória de (o) Deus?(40). Ait Iesus tollite lapidem dicit ei Martha soror eius qui mortuus fuerat Domine iam fetet quadriduanus enim est. Dicit ei Iesus nonne dixi tibi quoniam si credideris videbis gloriam Dei. Jesus dá uma ordem inaudita: Levantai a pedra. O verbo airö <240> na realidade tem o significado de levantar, erguer especialmente uma pedra do chão, que o latim com tollere respeita e traduz de forma absolutamente correta. Não assim as bíblias vernáculas com retirar (BJ) ou tirar(RA). As inglesas lift (Literal) ou take away (JK). Temos que ficar com levantai, uma vez que sabemos como grande parte dos sepulcros eram poços cavados no chão. Como um pequeno comentário sobre o latim da Vulgata: Como pode afirmar Lorenzo Vala (+1457) que a Vulgata de Jerônimo (?) não era completamente fiel ao texto grego dos evangelhos? Em primeiro lugar, Jerônimo (+410) não é o autor do latim dos evangelhos. Ele retocou só alguns trechos dos evangelhos da Vetus Latina onde o texto latino alterava o sentido do texto grego, sem que revistasse o texto latino dos demais livros do N T que em definitivo se atribui a Cassiodoro (450). Não confundir este Flávio Magno Aurélio Cassiodoro com Casiodoro de Reina, de 1569, tradutor da Bíblia ao espanhol, chamada do Oso e que foi adotada pelos protestantes após as correções de Valera, como Bíblia de Casiodoro-Valera. Dizem ser a primeira tradução, mas já antes, durante o reinado de Afonso X o Sábio (1252-1284), a Bíblia podia ser lida em romance, ou seja, em castelhano (era a Prealfonsina, completa e traduzida do latim). Para se ter uma ideia, na Espanha se proibiu a Bíblia em romance em 1492, uma tradução do texto hebraico do AT canônico, feita por judeus espanhois, que afetava aos judeus de modo especial. Também existe a famosa Bíblia da Casa de Alba anterior a 1433. E em segundo lugar, em várias ocasiões, como a de agora, temos visto que o texto latino é mais correto e conforme com o original grego que os textos modernos das versões vernáculas. Mas prossigamos. E então Marta recomenda: Deve cheirar mal porque já está morto há quatro dias. Por este inciso, sabemos que também Marta voltou para o lado de Jesus. E pelo seu papel principal como intermediária, que ela era a irmã maior da família. Quatro dias [o quatriduanus latino] era o tempo no qual a corrupção tinha feito seu labor e o odor era inevitável. Era também o tempo do espírito se ausentar definitivamente do corpo. Os judeus tinham a ideia de que o espírito voltava ao corpo após a morte; mas quando via seu rosto desfigurado [após quatro dias] não o reconhecia e fugia dele para sempre, como diz Jó 14, 22 : e sua alma sobre ele [o corpo] sentirá pena. Jesus lhe recrimina dizendo: Não te disse que se creres verás a glória de Deus? Na realidade a frase foi dirigida aos discípulos em Jo 11, 4. A Marta, Jesus só disse  que seu irmão ressuscitaria em Jo 11. 23. Sem dúvida,  o evangelista une esta última afirmação, claramente dirigida a Marta, com o seu pensamento [ele era um dos discípulos que tinha ouvido Jesus expor o fato como glória de Deus], que, em essência, refletia a valia do milagre extraordinário, acontecido em Betânia.

QUARTA PARTE: A RESSURREIÇÃO

ORAÇÃO: Levantaram, pois, a lousa onde estava o morto depositado. Jesus então elevou os olhos ao alto e disse: Pai, te dou graças que me escutas (41). Pois eu sempre soube que me escutas; porém pela multidão que está ao redor disse, para que creiam que tu me enviaste (42). Tulerunt ergo lapidem Iesus autem elevatis sursum oculis dixit Pater gratias ago tibi quoniam audisti me. ego autem sciebam quia semper me audis sed propter populum qui circumstat dixi ut credant quia tu me misisti. Somente, no Pai Nosso, Jesus se dirige a Deus como Pai publicamente. Na oração do horto será o Abbá (Mc 14, 36) o objeto de sua súplica, mas é esta uma oração particular que revela como era a mesma, na boca de Jesus. Aqui, como seu Pai e não nosso Pai (Jo 20, 17). A oração de Jesus nesta circunstância foi um ato de apologia de seu ministério para que o milagre não tivesse uma outra conotação diferente da que pretendia. Elias, para demonstrar que Javé era o único Deus de Israel, orou dizendo: Escuta-me, Senhor para que este povo saiba que tu és o Deus verdadeiro (1 Rs 18, 37). Aqui é para demonstrar que Jesus era verdadeiramente o Filho único de Deus. O milagre não era total e principalmente um ato de amizade para com Lázaro e suas irmãs, mas uma demonstração de quem Ele era, como Filho e como único, de um Pai que todos consideravam seu Deus. Os olhos ao céu, indicavam a quem ele se dirigia e a invocação de ação-de-graças era uma cópia das orações de ação-de-graças dos judeus, que sempre as iniciavam com essa frase para captar a benevolência do Ser Supremo. Não havia, pois, dúvida de que Deus e não outro poder sobrenatural atuava por meio dele e de que ele era o enviado, caso a ressurreição se efetuasse. Jesus o dirá claramente: para que saibam que tu me escutas  e que tu me enviaste. Além disso, os judeus só acreditavam que o único poder de ressuscitar um morto era o poder divino. Nenhum demônio, nenhum deus poderia ressuscitar um morto de 4 dias, pois unicamente Javé era quem podia dar o alento de vida que já tinha escapado de um corpo que estava no primeiro dia de sua corrupção.

O MILAGRE: E tendo dito estas coisas, com grande voz, gritou: Lázaro, aqui, fora! (43). E saiu o falecido, atados os pés e as mãos com faixas e o seu rosto com um sudário atado ao redor. Diz-lhes Jesus: Desatai-o e deixai marchar (44). Haec cum dixisset voce magna clamavit Lazare veni foras. et statim prodiit qui fuerat mortuus ligatus pedes et manus institis et facies illius sudario erat ligata dicit Iesus eis solvite eum et sinite abire. E assim com voz de mando, como quem é dono da situação e sabe será obedecido pela morte sujeita a seus pés, lançou o desafio: Lázaro, aqui, para fora! É a tradução direta do grego, embora o latim use o verbo veni no lugar do advérbio grego deuro que significa aqui.  E saiu aquele que esteve morto, tendo os pés e mãos ligados com ataduras e o rosto envolto num sudário. Comparando as vendas de Lázaro com as de Jesus no túmulo vemos como a descrição do mesmo evangelista das duas mortalhas tem alguma diferença não essencial. Em 20,6-7 João fala de dois tipos de vendas: othonia [<3680>=panos de linho] e soudarion [<4676>=lenço]. Os outros evangelhos só falam do lençol sindön[4616>=lençol]. O sudário  está em ambos os casos. Pelo que respeita ao lençol, João fala unicamente de panos de linho, como se fossem vendas nas quais fora envolto o corpo de Jesus. Além do milagre do retorno à vida, está o milagre de poder sair do sepulcro, máxime se ele era um poço vertical  como temos descrito.  Disse-lhes Jesus: Desatai-o e deixai que ele vá (44). Para Lázaro mover-se tal e como estava atado, exigia uma força sobrenatural; consequentemente o milagre era duplo: retornar à vida e poder-se movimentar tão amarrado e sujeito como estava. Agora que estava fora do sepulcro, era questão dele se movimentar livremente.

CONCLUSÃO: Portanto, muitos dos judeus [jerosolimitanos] que tinham vindo detrás de Maria e visto as coisas que Jesus fez, creram nEle (45). Multi ergo ex Iudaeis qui venerant ad Mariam et viderant quae fecit crediderunt in eum. Os judeus que acompanharam Maria quando esta foi ter com Jesus após ser avisada por Marta, foram testemunhas do fato da ressurreição e consequentemente creram nele. Logicamente a crença é a fé verdadeira: Jesus era o enviado de Javé, o Messias, Filho do Deus verdadeiro e Senhor da vida. Só faltava a ressurreição de Jesus para acreditar na sua divindade. Poucos dias mais tarde teria lugar o banquete em casa de Simão, o leproso (ver Lc 10, 38 comparado com Mc 14, 3), com o qual Marta estava provavelmente casada, pois servia à mesa no mesmo (Jo 12, 2).

PISTAS: 1) A tardança de Jesus em estar presente durante a doença de Lázaro parecia uma falta de amor, porém no fim, Jesus cumpriu perfeitamente: salvou a vida de Lázaro e ao mesmo tempo fez uma ação que resultou em glória de Deus. Nós queremos muitas vezes dirigir nossas vidas e até a história humana a nosso modo de ver. Deus, o Pai, pelo contrário faz sair o sol para bons e maus.

2)Jesus sabia muito bem o que devia fazer. Por isso dirigiu a conversa com Marta de modo a mostrar a relação do milagre com a sua pessoa e sua missão. Foi uma lição magistral para que as conclusões fossem tiradas de modo correto: realmente ele era Filho de Deus, e como tal, Senhor da vida e da morte.

3) A humanidade de Jesus: Se no evangelho aparece em primeiro plano a divindade pela grandeza do milagre, também podemos ver sua humanidade. As lágrimas, a dor profunda com a qual se soma ao sentimento de perda dos seus amigos mostram um Jesus profundamente humano, que não nega amizades nem sentimentos legítimos, como são lágrimas pela morte de um ser querido. Compreendemos que Deus é amor e quem não entende o amor e a compaixão não pode ter um conhecimento verdadeiro de Deus. O evangelho de hoje é um compêndio de Teologia: Ecce Deus, por seu poder sobre vida e morte. Ecce homo, por sua compaixão que é também a compaixão de um Deus que quer ser Pai.

3) Crer em Jesus é o início da vida da qual só uma atitude de rebeldia ou pecado pode nos separar. Não é preciso esperar outra condição se a fé é verdadeira e a entrega é total. Ele salvará todos os que o Pai lhe entregou de modo que seu pastoreio será o de guardar aqueles que o Pai lhe confiou.

4) O evangelho sugere uma forma de petição muito recomendável: aquele que amas está doente. Serve para todo momento e circunstância. Quem não se encontra doente e débil diante de um mundo hostil e pelas forças enfraquecidas pela tentação? Que fórmula magnífica encontramos nesta simples oração que é um gemido de ajuda! Muito especialmente deve ser a oração dos anciãos e dos pobres e necessitados.

5) Há muitos doentes que estão praticamente sós. A visita aos mesmos deveria ser uma das pastorais mais urgentes dos párocos e das atuações dos leigos em nossas paróquias. Só com entrega e sacrifício daremos o carinho necessário para que se encontrem amados do Pai e servidos pelos irmãos.